31.8.04

“Women on waves”: da arte de perder uma causa

Agosto, mês de férias, abre as portas à “silly season”. O país está a banhos e, à falta de notícias, faz-se a elegia do disparate. Este ano a “silly season” estava estranhamente adormecida. Talvez em virtude do calendário político, que colocou as férias dos políticos em banho-maria, não caímos na letargia habitual que desemboca no chorrilho de disparates que inundam a imprensa.

Mas Agosto não é Agosto sem a sua “silly season”. Ainda que tardia, a de 2004 lá chegou vinda por mar, desde a Holanda. Uma embarcação fez-se às águas do Atlântico e traçou a rota com destino ao Portugal conservador que não contemporiza com as práticas abortivas. Este sucedâneo do famoso barco da Greenpeace quis vir até águas nacionais para disseminar a boa nova do aborto, dando razão àquelas que gritam a pulmões abertos que nas suas barrigas só elas mandam.

E não é que estejam erradas – na mensagem, não no espavento com que a difundem. Já em textos anteriores defendi a total liberalização do aborto, por se tratar de uma questão íntima que apenas à mulher cabe decidir. Sem qualquer interferência da sociedade, até para afugentar hipocrisias diletantes dos que oferecem o peito na causa anti-aborto, mas que depois levam as filhas adolescentes a uma luxuosa clínica estrangeira para remediar as consequências de um acidente não programado.

Defendendo a liberalização do aborto, não consigo concordar com a iniciativa de certos grupelhos nacionais que organizaram a excursão do barco das “Women on waves” até a um porto nacional. Há meios que fazem perder a razão que sustenta uma determinada causa. Vindo de quem vem – basta ver a filiação dos grupelhos que patrocinaram o evento mediático – não é de estranhar. São aqueles que fazem espalhafato acreditando que essa é a melhor forma de agitar as consciências. Crendo que é o melhor método de levar água ao seu moinho, sem se darem conta que exacerbam os antagonismos. São como elefantes em loja de porcelanas. A falta de tacto é a nota dominante, sem perceberem que em vez de congregarem apoios à sua causa apenas têm o condão de dividir e até afastar pessoas que à partida estariam mais perto das causas que defendem.

É o folclore do costume. Só falta cativar dezenas de barcos, embarcar neles os indefectíveis da praxe, e fazer um círculo de solidariedade com o barco do aborto, impedido de entrar em águas nacionais. Fazia-se a festa, era oportunidade de agarrar pela enésima vez no estafado chavão da “decisão anti-democrática” (como se eles fossem um fiel da democracia…), tocavam-se músicas de Joan Baez e de outros arautos perdidos na poeira do Woodstock e do Maio de 68. Quando voltassem a terra firme, depois dos enjoos das ondas impiedosas do Atlântico, a consciência tranquila de um contributo inestimável para um mundo mais justo.

Não são apenas eles que apostam em dar tiros no pé. A reacção do governo, protagonizada pelo ministro que tutela o mar, não ficou atrás. Parece um concurso em que os intervenientes apostam para ver quem consegue ir mais longe no radicalismo. Não contesto a decisão de proibir a entrada do barquito em águas portuguesas. É um direito que assiste ao governo, considerando (como considera) que o expediente da “Women on waves” e de quem as convidou foi uma manobra típica de chico-esperto para contornar a proibição legal de praticar o aborto em território nacional. Por mais que isso tenha motivado a repulsa das organizadoras do evento, quem manda no país é o governo, não elas.

Excessiva foi a decisão de enviar fragatas para patrulhar o barquito à distância . Excessiva e ridícula, expondo o país à chacota internacional. No entanto, fico aquietado na minha consciência: depois de não perceber porque gastamos rios de dinheiro na marinha, sei agora que a marinha tem a utilidade que está a ser exibida. Se o secretário de Estado dos assuntos do mar assegurou que esta patrulha vigilante punha cobro a uma ameaça à soberania nacional, então fiquemos sossegados: a marinha afinal serve para alguma coisa…

Sinais dos tempos. Agora a soberania nacional não é ameaçada por manobras militares ou intimações bélicas. Basta um barquito cujas únicas armas são uma marquesa, bisturis e desinfectantes. Eis o epílogo de uma curta, mas excitante, “silly season” que já tardava. Uns acenderam a fogueira do disparate (“Women on waves” e grupelhos nacionais que patrocinaram a coisa). Outros atiraram mais achas para a fogueira em vez de apagarem discretamente o fogo (o governo).

30.8.04

“À grama”

É o nome de um restaurante em Lisboa. Mas esta não é uma crónica gastronómica, tanto que não visitei este restaurante. Não poderei dissertar sobre as especialidades ali cozinhadas, sobre a qualidade do repasto, especular acerca da medida dos condimentos utilizados nos pratos degustados, avaliar a eficácia e a simpatia do atendimento, ou o bom gosto da decoração do local.

A motivação deste texto é o nome do restaurante. “À grama” parece um nome como tantos outros, quando é necessário puxar da imaginação e encontrar algo que seja original para ficar na retina dos comensais. O nome do restaurante deixa entender (se não me falha o significado da expressão) uma referência à unidade de peso que usamos no sistema continental. Ao que soube, este restaurante concorre com restaurantes instalados em grandes superfícies comerciais onde os clientes se auto-abastecem e pagam ao peso. Um desses restaurantes, talvez o mais conhecido, é o “Comida a peso”. O “à grama” usou uma denominação que apela à mesma ideia.

O que está errado é o género da partícula utilizada antes da palavra grama. Numa deturpação que vai ao encontro da utilização popular dada à palavra, a percepção é de que grama seja feminino. Basta ir ao dicionário para verificar que “grama” aparece com a designação “s.m.”, uma palavra singular e masculina. Portanto, grama é masculino. Diz-se “o grama” e não “a grama”, como está vulgarizado. Aliás, bastaria reflectir um pouco na utilização de um derivado desta palavra para confirmar que algo está errado: não é verdade que nos referimos ao quilograma, não à quilograma? Se o quilograma é mil vezes um grama, e dando por adquirido que quilograma é masculino, algo estaria errado à partida: ou “o quilograma” ou “a grama”.

O dicionário é o fiel da balança. Mas a verdade é que a utilização da palavra grama no feminino é reiterada. Vamos ao supermercado e os vegetais, a fruta e o peixe medem-se em gramas como se elas fossem uma palavra feminina. Até os médicos, pessoas supostamente acima da média em termos de cultura geral, se não cansam de repetir a utilização de grama no feminino. Acaba por ser intrigante como a vulgarização de uma palavra se afasta do rigor linguístico, preenchendo uma distorção da língua que, à custa de perdurar no tempo, quase remete a sua versão correcta para um mero anacronismo. À custa de tanto insistir que grama é feminino, lá chegará o dia em que se perde na memória dos dicionários bafientos que a palavra tem um género diferente. O mesmo sucede, por exemplo, com hélice. Tirando as pessoas ligadas ao meio náutico, poucos serão os que sabem que hélice é uma palavra masculina – o hélice, não “a hélice”, como é vulgarmente dito.

Será importante fazer estas correcções, assinalar os erros quando as palavras são usadas de forma incorrecta, ou aparecem com o género trocado? Tudo depende da perspectiva. Aceitando as teorias pedagógicas que relativizam o rigor do ensinamento (teorias generosas com a propensão para o erro), tanto fará dizer “o grama” ou “a grama”, “o hélice” ou “a hélice”. O que interessa é a mensagem transmitida, não tanto simples questões formais relacionadas com o género da palavra.

Por este caminho, qualquer dia deixa de haver regras gramaticais. A língua tende a abastardar-se, a ser maltratada, como já sucede na actualidade com pessoas que têm especiais responsabilidades por terem na palavra o seu instrumento de trabalho e por serem indirectamente educadores do público que servem. Estou-me a lembrar de outro erro que assentou arraiais entre os mais jovens profissionais da comunicação social: os sucessivos erros de concordância verbal. São tantas as vezes em que ouvimos ou lemos coisas deste género: “um grupo de camionistas fizeram-se à estrada…”, como se a forma verbal tenha que estar no plural por a palavra que aparece antes do verbo (camionistas) ser plural, quando o que interessa para a utilização do verbo é a palavra que está na origem da frase (grupo, no singular, exigindo que o verbo também surja no singular).

Apesar de estar em voga o maneirismo da facilitação linguística, sendo até glorificada por correntes literárias que distorcem a língua como manobra de vanguarda estilística, custa-me ver tantos pontapés na gramática que a vão deturpando. O diagnóstico está ainda por fazer: falta de cuidado? Mau ensino de português que vem do passado? Ou simples ignorância que cresce a galope?

27.8.04


Sintra, Agosto pela tarde

Sintra

Uma das localidades que mais gosto de revisitar. A Sintra refrescante, onde se é embriagado pelo verde que trepa pela montanha abrupta que toma conta da vila.

A aproximação a Sintra anuncia a frondosa serra como ponto de mira, um enorme promontório que se debate no horizonte. Uma serra com densa vegetação que separa a Sintra oitocentista do mar agreste batido pelo marítimo vento fresco. Também é possível chegar a Sintra vindo das entranhas da serra, seja pela Malveira da Serra ou por Cascais, virando para a Lagoa Azul a seguir ao autódromo. Qualquer dos caminhos obriga o viajante a entrar na serra compacta, por trilhos estreitos com asfalto mal cuidado – caminhos que trazem à memória gloriosas recordações do rali de Portugal apinhado de gente que preenchia louca e religiosamente as bermas ansiando pelas perícias dos ases do volante.

Andar pelas estradas da serra exige a tranquilidade de um domingueiro para tragar cada segundo da paisagem que passa à frente dos olhos. O arvoredo é uma mancha densa, chegando (sobretudo depois do cruzamento onde se vira para a Peninha) a fazer um túnel que se debruça sobre o recorte do asfalto, ensombrado pelo arvoredo que tomba sobre a estrada. Aqui sente-se a frescura do verde que acompanha o viajante na subida da serra. Num dos pontos mais altos, antes de engatar na estrada que vem do Convento dos Capuchos para o Palácio da Pena, um recorte da estrada desnuda uma clareira que espreita entre o arvoredo. Ao longe, toda a baía de Cascais na sua curvatura côncava, o mar tinido, cor de prata, batido pelo sol de Verão. Paragem obrigatória para respirar a grandeza da serra que desliza em direcção ao mar, a serra que se desfralda até dobrar a costa na esquina que é o ponto mais ocidental da Europa – o Cabo da Roca.

A caminho de Sintra, a vegetação continua teimosamente a impedir que o sol espreite por entre a ramagem que se solta com abundância. O caminho faz-se sombrio, cativando a frescura tão providencial em dias de canícula. As árvores continuam a dominar o meio, árvores de grande porte que coabitam com outras mais pequenas, árvores que vão crescendo com a singular vitalidade da natureza. A espaços os sinais do seu crescimento imparável fazem-se notar nas raízes que começam a tomar conta das bermas, causando ondulações que trazem desconforto à estrada. Porém, perante uma fonte que irradia tanta verdura, os excessos da natureza perdoam-se.

Ao chegar ao Palácio da Pena a estrada empina na descida final até Sintra. Uma sucessão de cotovelos abranda o trajecto. A sinuosidade é o preço da íngreme encosta que se vê quando, já em Sintra, o olhar empurra o pescoço na direcção das alturas para alcançar a grandiosidade do monte que se debruça sobre a vila. Aqui chegado, sinto sempre um revigoramento especial. Tudo se passa como se, estranhamente, fosse a primeira vez que venho a Sintra. Sempre extasiado pela beleza arquitectónica, pelo delicado equilíbrio dos edifícios que surgem alcantilados, por entre as estreitas vielas que irrompem pelas ladeiras e trazem ao passeante uma salutar canseira.

Sintra parece ter parado no tempo algures no século XVIII. As casas rosadas, umas senhoriais outras com singeleza, sucedem-se. Mantidas com zelo, é raro deparar com casas em ruínas ou ao abandono. Nota-se que os sintrenses mostram orgulho na pérola que sabem conservar, exibindo-a com um garbo incomparável. Calcorrear as calçadas íngremes é um exercício de retrocesso no tempo. Sentir o pulsar da vila na sua antiguidade latente é perceber os atributos que fizeram da Sintra romântica poiso para poetas e escritores de todas as paragens. Lord Byron teve a sagacidade de se aqui se instalar em busca da inspiração para os seus escritos. E como é fácil encontrar na verdejante Sintra, naquele aglomerado de casas que teve a ousadia de desafiar as impiedosas montanhas, a musa inspiradora!

(Montijo)

26.8.04

No dorso da solidão

Vagueava em busca de um zénite que sabia não poder encontrar. Palmilhava as ruas da cidade sem destino, apenas para ensombrar a solidão que o mortificava. Abandonado à sua sorte, depois de todos os caminhos transviados que o tinham afastado do mundo, perdida a pista das amizades. Sentia-se desdenhado, sem norte. Por vezes acordava angustiado, ainda a madrugada não anunciava a luz da alvorada, como se lhe estivessem a cravar um punhal no peito. Afogueado, despertava como se emergisse de um pesadelo. Uns segundos bastavam para descer à terra e sentir a terrível sensação de não falar com ninguém há longo tempo. Recostado na almofada, ficava entorpecido, a vista perdida no horizonte a fitar as paredes nuas do quarto. Assim ficava, inerte, pensamentos vogando no nada, o tempo a consumir-se para forçar a vinda do sono que ainda faltava dormir – e que tantas vezes não voltaria e chegar.

Sentia-se um autómato, possuído pela rotina instalada. Sempre as mesmas coisas feitas às mesmas horas, mais as nuvens cinzentas a pesarem na atmosfera. Escassas as palavras trocadas com pessoas: no café, pela manhã, o jornal comprado ao velho da tabacaria, as senhoras do atendimento impessoal ao almoço, as empregadas da caixa registadora no supermercado. Palavras minimais, o bom dia que a educação exige, o muito obrigado quando a neura não pesa sobre a cabeça. Não eram palavras que ecoavam no bem-estar. Eram palavras que se soltavam repetidas, todos os dias, às mesmas horas. Quase sempre com as mesmas pessoas que, apesar dos actos rotineiros do quotidiano, continuavam a fazer de conta que ele era mais um anónimo cliente.

Invadido por um frémito do vazio, nada lhe percorria o interior. Ele próprio via-se um corpo sem nada por dentro, a não ser uma imensa tristeza por estar só. Começara a descuidar a saúde, pois já nada importava na descida ao abismo que se aprofundava a cada dia que passava. Sabia que tinha andado por caminhos demenciais, um passado inquinado por erros sucessivos. Como se recordava da propensão para o abismo, quando colocado perante decisões que lhe trariam efeitos funestos. Lembra-se como uma força incontrolável o empurrava quando chegava às encruzilhadas que o destino lhe preparou. Tomara sempre o caminho errado. Mesmo sabendo que esse era o caminho não aconselhável, o seu instinto levava-o pela vereda íngreme que o haveria de atirar numa queda estrondosa para o deserto onde estava agora exilado.

Era fatal que os descaminhos trouxessem uma pesada factura. E, no entanto, não se arrependia dos trilhos rumados nos tempos idos. Só lamentava como isso foi tumultuoso para si, pelo desdém, pela censura, pelo afastamento de quem tanto queria. Não apontava o dedo à incompreensão alheia. No seu íntimo, sabia que reagiria também assim se outros lhe aparecessem agrilhoados ao mesmo destino. Sabia que pagava pelos actos tresloucados que o tinham colocado para além do precipício.

Não se revoltava contra o desígnio que ele próprio esboçou. Assumia-o com a consciência de que apenas a sua vontade concorreu para tudo o que fez. Lamentava que o destino que escolheu tivesse custos tão pesados, a ponto de o divorciar do mundo que lhe trazia sedimentos de felicidade. De resto, perguntava-se se o exílio forçado, longe de perder a vista, não era a oportunidade para reconstruir a vida, lançar âncoras noutros sentimentos. Reprimido pelo remorso, mas ao mesmo tempo incapaz de aceitar que faria tudo diferente se voltasse atrás, preferia resignar-se ao voto monástico que o ocupava com tanta obsessão. Preferia vegetar numa vida sem sabor, martirizado pela dor incontida que o consumia dia após dia.

Um vulto esguio aparecia reflectido na parede gasta, uma imagem retratada pela luz do lampião. Um vulto decrépito, reflexo de uma energia sem vontade de regeneração. Era ele, sem força nem coragem para se olhar ao espelho, apanhado de surpresa pela luz translúcida que o retratava na parede. Então deu-se conta de como o tempo passa, voraz, e desgasta as veias e os tecidos num envelhecimento atroz. Não podia fazer nada, a não ser deixar o tempo esvair-se em direcção à foz, perder-se na imensidão das águas do mar onde toda a dor se dilui num instante.

(Montijo)

25.8.04

O populismo de esquerda é que é bom!

Vejo Chavez, o protótipo de ditador que governa a Venezuela, numa prédica televisiva. Vejo-o embrulhado numa teatralidade patética, efusivamente celebrando a sua vitória no referendo que interrogou os venezuelanos se estavam de acordo com a sua permanência na presidência. Vejo como uma multidão, que assistia ao monólogo do projecto de ditador, exulta com alegria ao escutar as declarações populistas que borbulhavam a cada palavra regurgitada. Vejo Chavez sentenciar, do alto do seu poder absoluto, que deixa de reconhecer a oposição como parceiro político.

Assisto a tudo isto e pergunto porque certas esquerdas nacionais manifestaram contentamento com a vitória de Chavez e depois crucificam “a direita” que por cá vai governando por ser populista. Interrogo-me, sobretudo, se há diferenças entre o populismo “chavista” e o populismo de Santana Lopes e Paulo Portas. Existem diferenças de estilo, de discurso, antagonismos quanto aos modelos e aos objectivos da governação. Mas numa coisa estão irmanados – no populismo. É ininteligível como a extrema-esquerda doméstica (PCP e Bloco de Esquerda) se deixa armadilhar pela incoerência, eles que tanto se afadigam em veicular uma imagem isenta de incongruências: como acusar as figuras que nos governam de populismo, o pior dos pecados políticos à face da Terra, e depois deixar passar em branco o grosseiro populismo de um dos seus heróis contemporâneos, o presidente da Venezuela? A isto se chama dois pesos, duas medidas – e encerra uma incoerência que revela, com clareza, o oportunismo político destas facções.

Qualquer populismo é detestável. A política que se alicerça no populismo enfatiza a mensagem, privilegia a imagem, sem cuidar dos efeitos duradouros. O populismo é adversário da consistência, fica preso a políticas que deixam uma marca negativa quando os efeitos se repercutem no longo prazo. É a arte de fazer política enganando os incautos, que aplaudem com entusiasmo as decisões que aparentemente os beneficiam hoje, sem se preocuparem em saber se mais tarde elas não vão produzir efeitos negativos. No fundo, o populismo é a arte do ilusionismo político, uma arte em que os medíocres se salientam pela qualidade de levarem as massas no engodo da mensagem.

O retrato aplica-se a todos os populistas que enxameiam o mundo. Desde Chavez a Portas e Santana, passando por Berlusconi, Chirac, Blair ou Lula da Silva. Todos tentam passar para o exterior o seu “charme político”, divulgando iniciativas e medidas que vão ao encontro das preferências imediatas do eleitorado. Ainda que não sejam baseadas em estudos preparatórios credíveis, sem que repousem numa avaliação dos efeitos mediatos e imediatos. É política ao sabor do tempo, uma arte de navegar por estima.

Todos os exemplos citados encaixam-se nestas características, sem excepção. Por isso é para mim incompreensível como a extrema-esquerda nacional exultou de contentamento com a vitória de Chavez no referendo. Ter-se-ão esquecido que Chavez é, nos dias que correm, um expoente máximo de populismo? Basta ouvi-lo falar. Aqueles que, com razão, acusam a pose artificial de Santana e de Portas, deviam reconhecer que Chavez lhes leva, de longe, a palma. No final, não há surpresa: a extrema-esquerda gosta sempre dos ícones que encaixam na extrema-esquerda, independentemente de serem ou não populistas. Porque lhes convém.

Os simpatizantes da causa virão, pressurosos, sublinhar que Chavez tem governado para os mais pobres. O que Chavez tem feito é aproveitar-se da alta do preço do petróleo para financiar políticas generosas que são do agrado da imensa massa de pobres que existe na Venezuela. Só que o petróleo não pode ficar indefinidamente caro. Quando voltar ao seu preço normal, esgota-se a fonte de Chavez. Aí será difícil sustentar as políticas sociais activas. Cairá a máscara, e os pobres terão terreno para se revoltarem contra o “chavismo” inconsequente.

Chavez ganhou o referendo, só restando aceitar os resultados. Acho patético (como o fez a oposição venezuelana em desespero e certos sectores da direita nacional) questionar a legitimidade dos resultados do referendo. A menos que os próprios observadores internacionais estejam envoltos em suspeita – mas aí entramos num cenário em que cada um desconfia da sua própria sombra.
Não faltarão oportunidades para desmascarar os maus instintos democráticos do ditadorzeco. Quando afirmou, na sua homilia às massas, que deixava de reconhecer o estatuto de parceiro político à oposição, está a arrepiar caminho ao que ele quer – ficar sozinho, sem ninguém que o incomode, representando a “democracia” que esta gente (Chavez e a extrema-esquerda que por aqui anda) tanto gosta.

24.8.04

Ainda sobre os jogos olímpicos: o poder da bandeira

Na prova dos 400 metros, os três primeiros classificados foram atletas dos Estados Unidos. Na cerimónia de entrega das medalhas, só seria hasteada a bandeira dos Estados Unidos. Imagino o orgulho dos norte-americanos a assistirem, embevecidos, à cerimónia. Olharem para os três mastros onde as bandeiras ondeavam ao sabor do vento ateniense, e ver apenas a bandeira pátria. Imagino-os num fervor nacionalista, lágrima furtiva a escapar-se do canto do olho, emocionados com a própria emoção dos atletas laureados, também eles incapazes de esconder a emoção que falava mais alto.

As bandeiras têm muita força nestes eventos. No final da prova dos 400 metros os três atletas dos Estados Unidos abraçaram-se em uníssono a uma bandeira do seu país, percorrendo lentamente a pista de tartan num festejo da façanha. Embrulhados na bandeira norte-americana, em busca de concidadãos presentes no estádio olímpico de Atenas que empunhassem bandeiras do respectivo país, numa comunhão da felicidade que irmanava um povo em torno da proeza desportiva.

De quatro em quatro anos este é um espectáculo que se repete. O esforço físico de um atleta é recompensado pelos louros da vitória. De seguida, o atleta corre pelo estádio em busca de uma bandeira do país para a transportar com a valentia de quem saldou a prova com uma vitória. Assim acontece com todos os países: ontem com os Estados Unidos, a super potência mundial; hoje e amanhã com outros países, sejam eles desenvolvidos ou do terceiro mundo. Os atletas têm que satisfazer o ritual da comemoração da vitória, ao qual está obrigatoriamente associada a bandeira nacional.

Vitoria-se todo um país. O feito de um atleta é reproduzido no sentir colectivo que se revê na proeza desportiva de quem empenhou o seu esforço físico. Como se toda a nação mentalmente concorresse para esse esforço físico, para depois partilhar com o atleta a glória de ter arrecadado a medalha de ouro. A minha intuição é de que os atletas são instruídos para o ritual da bandeira. Presta-se tributo a todo um país que contribuiu financeiramente para que o atleta pudesse estar presente nos jogos olímpicos. Será o corolário de anos e anos de subsídios estatais para que o atleta se concentrasse no treino, para potenciar as suas aptidões e maximizar as possibilidades de sucesso. Tudo isto custa dinheiro. Esses recursos vêm do erário público, são um sacrifício pedido aos contribuintes pelos impostos que pagam. Eis como se justifica o reconhecimento do atleta vitorioso ao empunhar a bandeira do país nos festejos que se seguem à vitória.

O país, por sua vez, sente que o seu dinheiro foi bem empregue. A vitória faz bem ao ego nacional. Por um lado, há uma vertente interna: reforçar os laços de identificação colectiva. A nacionalidade pode ser um conceito pouco mais do que vago, mas é nestas alturas que emerge uma identificação do colectivo que se vê representado naquele herói que traz o sucesso para casa. O herói é “um dos nossos”, daí o direito à glória que personifica o orgulho de toda uma nação. Mas há também uma dimensão externa: porque a vitória “do nosso” representa uma afirmação de superioridade em relação aos adversários dos outros países. Manifestações como os jogos olímpicos servem para alimentar uma rivalidade inter-nacional que vai deixando de fazer sentido nos tempos que correm.

Ainda ontem defendi que começa a deixar de fazer sentido a glorificação nacional que está impregnada nas vitórias olímpicas. Faria algum sentido no tempo da guerra-fria, em que a rivalidade era espremida ao máximo como espelho da superioridade de um bloco em relação ao seu rival. Ultrapassadas as agruras da guerra-fria, os desafios são diferentes. Agora, o “inimigo” (que sempre tem que existir) encontra personificação nos terroristas árabes sem rosto, que espalham o terror indiscriminadamente e sem aviso. Que se saiba, esse antagonismo não foi emulado na competição olímpica.

Há quem se agarre à tradição olímpica para justificar a competição nos moldes em que ela se desenrola. Esse é um falso argumento. Tradição por tradição, é mais interessante recuar no tempo, aos primórdios dos jogos olímpicos na era da civilização grega, e atestar que os participantes não surgiam em representação de países, apenas em nome individual.

A história não deixa mentir: os conflitos que têm mergulhado a humanidade no obscurantismo radicam na divisão dos homens, separados que estão por espartilhos – sejam fronteiras, etnias, religiões, ideologias. Não consigo compreender como se evoca o “espírito olímpico” se ele está tão ligado à divisão do mundo em países, com a carga negativa que transporta por ser uma competição onde os atletas se antagonizam em representação de diferentes nacionalidades.

23.8.04

Cidadania pós-nacional e jogos olímpicos: um paradoxo?

É curioso o tratamento noticioso dado à medalha de prata de Francis Obikwelu na prova dos 100 metros dos jogos olímpicos. Insistentemente a imprensa apresenta-o como o “atleta de origem nigeriana”. Talvez se justifique este comportamento por em Portugal ainda se estarem a dar os primeiros passos na concessão de nacionalidade a atletas nascidos noutros países. É intrigante, por um lado, porque noutros países onde o hábito está consolidado a comunicação social não faz distinção entre os “nacionais de gema” e aqueles que só recentemente adquiriram a nacionalidade. Ainda esta semana um tal Almeida marcou um golo pela selecção de futebol de Albânia. A menos que seja um qualquer familiar do Dr. Louçã que ficou perdido no paraíso que era a Albânia isolacionista, último bastião do trotskismo, decerto que este Almeida não terá nascido na Albânia. Não me acredito que na imprensa local se refira ao Almeida como “atleta de origem brasileira”…

Por outro lado, aqui em Portugal sente-se a necessidade de vincar a condição de nacionalidade adquirida, como se o nome Obikwelu fosse tão comum como Silva ou Santos – um nome tipicamente português, como a sonoridade não deixa enganar. Não bastaria pronunciar o nome para se saber que Obikwelu não nasceu em Portugal? Desta atitude ressoa algo que vai contra a cidadania inclusiva cada vez mais presente no mundo contemporâneo: ao fazer a distinção, enviam-se sinais de um tratamento diferenciado entre os “portugueses genuínos” e os “portugueses de nacionalidade adquirida”. Como se houvesse lugar a esta diferença de tratamento. Como se isso fosse compatível com a herança de tolerância associada ao português enquanto caminhante do mundo, descobridor de novas terras e da sua apetência para uma convivência pacífica com esses povos (é, pelo menos, o que nos ensina a historiografia oficial…).

Para além do mais, a cobertura noticiosa que não se cansa de vincar as origens nigerianas de Obikwelu encerra uma tremenda covardia. Porque Obikwelu é glorificado por trazer uma medalha para Portugal, logo enobrecendo o orgulho de quem sente com fervor o espírito nacional. Mas logo de seguida injectam-nos a mensagem subliminar: atenção, ele não nasceu em Portugal! Será que isso desvaloriza o feito do atleta? Será razão para considerarmos essa medalha uma medalha de segunda importância, já que Obikwelu não é um “português de gema”?

Com o historial de tolerância e coexistência com outros povos que arrastamos atrás de nós, é lamentável esta tendência para a boçalidade ao fazer-se a distinção entre portugueses de primeira e portugueses de segunda. Desfaz-se a máscara de tolerância e de inclusão do outro, cai a aspiração de uma cidadania inclusiva que garante os mesmos direitos ao estrangeiro que vem para cá trabalhar e contribui para a riqueza do país. No fundo, uma xenofobia encapotada, ainda mais deplorável por estar ligada ao oportunismo de glorificar um feito para o país de que é protagonista um português que (ao que parece) não é bem igual aos “portugueses de gema”.

Tudo isto nem sequer deveria ter a importância que se lhe atribui. Jogos olímpicos e campeonatos onde se confrontam equipas nacionais fazem cada vez menos sentido num tempo em que vem vingando a cidadania pós-nacional. Se é verdade que a osmose transnacional é nota dominante, como as sociedades são ricamente heterogéneas e multiculturais, fará sentido permanecer agarrado à tradição da glorificação nacional destas competições desportivas? Sinal de um tempo que é anacrónico. Um tempo em que ainda se procura mostrar que os países são o alicerce da identificação colectiva dos povos, quando tais laços identitários se deslocam para outras realidades que ultrapassam o Estado-nação.

O fenómeno da transnacionalidade que envolve as comitivas de atletas nestas competições é a prova disto mesmo. Quantos destes atletas aceitam ser inseridos em comitivas de outros países por não terem oportunidades no país de origem (por excesso de concorrência), podendo vingar se se inscreverem como nacionais de outros países? Não há oportunismo dos países de acolhimento, que abrem os braços a estes atletas na esperança de conquistar mais êxitos desportivos? Da parte dos atletas que abdicam da nacionalidade de origem não haverá oportunismo. Apenas a consagração do esforço individual (mesmo numa formação colectiva, ainda assim esforço individual) que deveria fazer destes eventos desportivos manifestações em que os atletas concorriam em nome individual, sem serem porta-estandartes de uma qualquer bandeira nacional.

20.8.04

Mezinhas e santos milagreiros

Precisando vacinação contra o tétano, desloquei-me a um centro de saúde. Não me recordo da última vez que fui a um local do género (o que desmascara o atraso de quatro anos com que o reforço da vacina anti-tetânica aparecia no boletim…). Ao entrar no edifício, gente e mais gente, acotovelando-se nas três filas ordenadas para diferentes finalidades. Velhos e crianças destacavam-se entre a clientela.

Enquanto aguardava pela minha vez, uma senhora que estava no banco ao lado entrou em conversa com uma enfermeira e outra cliente acabada de chegar. A senhora ao meu lado não tardou a revelar, alto e bom som para quem a quisesse ouvir, que padecia de uma enfermidade que tinha obrigado a tratamentos de radioterapia e quimioterapia. Ao jeito das alcoviteiras que se especializam em dar à língua, as duas afivelaram um diálogo que girou em redor da doença da primeira. A jovem enfermeira, contrariada mas estóica na necessidade de fazer o frete em acompanhar o diálogo, assistia sem soltar uma palavra. Ao fim de poucos minutos, as duas senhoras já mantinham um diálogo como se conhecessem há longos anos.

Também não demorou muito tempo até que a senhora saudável começasse a desfiar conselhos não médicos para curar a maleita. Sugeria que a doente se deslocasse à Santa Rita (“Santa Ritinha”, tal foi a forma como carinhosa se referiu, de forma repetida, à santa). Porque esta era a santa “das causas difíceis”. A senhora que tinha sido acometida pela doença retorquia com outro santo dotado de propriedades medicinais idênticas: o “S. Bentinho” (ipsis verbis) da Porta Aberta, no Gerês. Pelo caminho, a doente lamentava-se que já por três vezes esteve para ir a Fátima, mas diversos imponderáveis tinham abortado a deslocação, para sua insatisfação.

Não vou, porque não posso, pôr em causa a fé das pessoas embrenhadas numa religiosidade intensa. Mas intriga-me o comportamento habitual das pessoas que cultivam a sua religião, que se servem dos médicos sempre que são acometidas de doenças, e que olham para as mezinhas e para os santos milagreiros como a tábua de salvação quando as nuvens sombrias começam a pesar sobre as suas cabeças com o peso do chumbo .

Parece uma atitude de descrença na ciência, nos tratamentos proporcionados pelos médicos. Ainda que frequentem com assiduidade hospitais, centros de saúde e consultórios médicos, porque a necessidade de atenuar o sofrimento os leva a tais locais, sentem que isso não basta. Depositam a sua confiança nas propriedades milagrosas de um qualquer santo, que entretanto foi cultivado pelo povo como possuindo tais qualidades. É um efeito bola de neve: começou algures, em tempos que se perdem na memória, o movimento foi crescendo e implantou-se com tal força que não se questionam os efeitos milagrosos. Ainda que sejam repetidos os casos em que o santo não pode socorrer a pessoa minada pela doença, porque a ciência não faz milagres e os santos não conseguem ultrapassar os imponderáveis do metabolismo.

Os casos em que os pedidos de milagre não são atendidos são arrumados na prateleira do esquecimento popular. Porque há que manter a fé nos santos milagreiros, como o cimento necessário de uma fé popular que se desvia dos dogmas em que a sua religião se filia. Quantas vezes é a medicina que sara os pacientes e o povo atribui a cura ao milagre encomendado ao santo? A crendice popular tem algo de contraditório com os dogmas da igreja. Mistura-se fé com superstição, uma mistura explosiva ignorada pelos sacerdotes a quem interessa, acima de tudo, manter um rebanho fiel e dependente. Mesmo que esse rebanho resvale para as costumeiras mezinhas que são a negação das ideias professadas pela Igreja.

Esta eterna dependência popular representa a falta de fé nas próprias pessoas. O povo descrê de si mesmo, acha que a solução para os seus males o transcende, se encontra algures no exterior de si mesmo. É a imagem reiterada da alienação popular que exprime a negação da individualidade de cada ser humano. E a falta de coragem para assumir essa individualidade de corpo inteiro, auto-negando a possibilidade das soluções partirem de dentro de cada um de nós em vez de serem encontradas no exterior – seja na fé, na crendice personificada nos santos, numa constelação de práticas supersticiosas, ou nos outros como panaceia para os males próprios.

19.8.04

Regionalismos (o parolo e o saloio) e o BE (Burguesia de Esquerda)

Folgo em saber que o Carter me tem como uma pessoa bem formada. O convite para assistir a um jogo de futebol no Estádio Alvalade XXI cai que nem uma luva, já que partilhamos a mesma preferência clubista. Quem sabe, na primeira jornada, sábado a oito?

Já não posso concordar com o regionalismo primário exibido. Se há algo que me mete impressão aqui no norte é a sanha persecutória contra “os mouros”. Trata-se de um regionalismo parolo. Não é nestes “nortistas” que me revejo (Pinto da Costa, o talibã do FCP, conhecido como Miguel Sousa Tavares, etc.). Prefiro ver-me como nortenho, por ter nascido no Porto, por me identificar com o sentir que pulsa na cidade, não tanto nas pessoas que a habitam. Isso não me impede de gostar de Lisboa e dos lisboetas – e de ter o Sporting como clube da minha preferência.

Para um regionalismo parolo a norte existe um regionalismo saloio ao sul. Não que seja coisa grave. Por todo o mundo há rivalidades regionais. Mais importante é ter o discernimento e a inteligência para não sermos invadidos por estes comportamentos primários. Como diz bem o Ponte Vasco da Gama, na sua reacção ao teu comentário, os grunhos que frequentam Continentes, Carrefours e quejandos é o mesmo de norte a sul, com as necessárias diferenças de sotaque. (Já agora, consulta o resto das reacções ao teu comentário; provocaste cá uma onda de choque!)

Lamento não pertencer aos “seres bem pensantes” da Burguesia de Esquerda, perdão, do Bloco de Esquerda. São uns pândegos, os Louças, Rosas, Portas e companhia. Às vezes, nos momentos livres, ponho-me a pensar o que seria do país se a agremiação trotskista alguma vez chegasse ao poder. De uma coisa tenho certeza: seria o meu passaporte para o estrangeiro!

Só mais uma coisa: não podes julgar o comportamento dos outros pelo teu próprio. É que, sabes, conheço algumas pessoas da Burguesia de Esquerda que frequentam Continentes e coisas parecidas, que se deixam inquinar pelos tenebrosos vícios do consumismo capitalista. Mas já estamos habituados – todos, sem excepção – ao lema dominante: olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço…

Retrato sociológico de uma visita a um hipermercado em hora de ponta

Domingo de manhã, soava o alarme na dispensa: a vistoria revelou a necessidade de me abastecer de mantimentos. Pernas ao caminho, em direcção ao Continente de Matosinhos. O pesadelo. Eram apenas dez da manhã de um domingo de Agosto. Julgava que fosse uma boa hora para entrar tranquilamente no hipermercado, sem os atropelos de um povo ávido em meter para o carrinho de compras mil e uma coisas de duvidosa necessidade. Enganei-me. Era hora de ponta!

Os minutos ali passados, que tiveram que ser encurtados ao máximo, foram um sacrifício inenarrável. O povo tinha desaguado naquele hipermercado. Famílias inteiras: o pai ostentando uma orgulhosa pança sintomática de muitas litradas de cerveja, xanatos mostrando os dedos dos pés, coisa já de si medonha, para mais agravada pelo negrume que por ali habitava; a mãe, vestes aligeiradas como imperava dado o calor estival, com as gorduras expostas, num estranho ritual de comprimir as gorduras como se estivesse a cantar um hino à estética; os filhos, prestes a entrar na adolescência, guiavam o cortejo por entre as prateleiras com as iguarias da sua preferência. Passeavam-se aos magotes, lânguidos e pachorrentos, fazendo horas para o piquenique dominical.

Os vozeirões dos pais de família davam a ordem de comando às tropas. Nada melhor do que locais públicos para fazer alarde da superioridade masculina, do cabeça de casal que manda em toda a família com mão de ferro. De vez em quando, um grito soava ao longe, escutando-se uma reprimenda ao petiz que queria à força atirar para dentro do carrinho de compras uma qualquer doçaria recentemente lançada que, logo ali, conquistou as suas preferências pela vistosa embalagem. Do outro lado, as palavras agrestes de outro casal já nos seus quarenta: ele trajando uma impecável camisola sem mangas que deixava à vista uma briosa tatuagem, reminiscência dos tempos idos da tropa (“porque o homem só se faz homem quando vai à tropa” – estou a vê-lo, altivo, a sentenciar). Ela, como não podia deixar de ser, envergava o imprescindível vestido de Verão que aligeirava o calor das carnes engorduradas que ali se tinham depositado. Numa crueza impressionante, o diálogo curto e agreste entre ambos revelava a harmonia familiar que deve ter assentado arraiais naquela casa.

Desviei-me para um corredor onde pensava encontrar um certo alimento. Parecia uma rua de Lisboa, com o estacionamento caótico em segunda e terceira fila prejudicando a passagem aos peões. Com a diferença que os automóveis eram substituídos pelos carrinhos de compras atafulhados até ao topo, encostados negligentemente em qualquer lado, sem os donos por perto. Para avançar no corredor era necessário fazer uma gincana entre os carros descuidadamente parqueados enquanto os donos se deslocavam a outro corredor em busca de algo. Era vê-los a chegar, com mais mantimentos carregados pelos braços, para serem despejados nos carrinhos onde já não sobrava muito espaço.

Depois de vencida esta adversidade, dirigia-me ao fim do corredor já sem o obstáculo dos carrinhos de compras mal estacionados. Mas logo outra contrariedade bateu à porta. Ia, com lentidão, em busca do que me faltava para encerrar a odisseia. Uma velha anafada e gorda, óculos muito graduados, atropelou-me. O pedido de desculpa ficou esquecido na arrogância com que me dirigiu o olhar. Por momentos julguei que fosse invisível, tal a forma expedita como a velha levou tudo à sua frente. Se ali estivesse alguém ou alguma coisa, que se desviassem do furacão apressado.

Era chegado o momento de colocar um ponto final no sacrifício. Finalmente, a caixa para depositar as compras e fazer o pagamento. Não sem que antes uma última aventura me fosse proporcionada. À minha frente outro agregado familiar tinha despejado as toneladas de compras no tapete rolante. O pai de família disparatava a torto e a direito contra várias coisas. Ao início não me apercebi do que estava a ser praguejado. A certa altura decidiu teorizar sobre o momento político: que a crise nunca mais ia embora, que a vida está difícil, que isto de sustentar uma família de quatro é tarefa vultuosa; que a culpa é do governo, que cada vez estamos mais parecidos com o fascismo.

Para minha sorte, as carradas de mantimentos da família Antunes (nome imaginário) estavam quase no fim da contabilidade. Não tive que suportar por muito tempo os dislates vindos da ignorância estacionada à minha frente.

Saí do local dando mais uma espreitadela aos espécimes parados nas imensas caixas registadoras do hipermercado. No final da aventura percebi como o PS consegue, de tempos a tempos, chegar ao governo…


18.8.04

Correio em dia (III)


1. O Carter comentou o meu texto sobre os cortejos sexuais dos homossexuais em Fátima. Devo dizer, a abrir, duas coisas importantes: sou ateu, profundamente ateu; e já mostrei em escritos anteriores como defendo os mesmos direitos para os homossexuais e para os heterossexuais.

Dito isto, estranho que o Carter, enquanto leitor assíduo dos meus textos (o que me deixa envaidecido) não se tenha lembrado destes dois aspectos importantes antes de ter escrito o seu comentário. O que me interessa realçar é a necessidade de respeito recíproco. Quem não se dá ao respeito não pode esperar respeito por parte dos outros. Nem sequer ser reconhecido como um entre iguais, quando a provocação é aviltante para um esteio da sociedade portuguesa (ainda que, em termos pessoais, não esteja de acordo que esse seja um esteio). Relembro, sou inteiramente ateu, o que não me impede de respeitar as convicções de quem professa qualquer fé, seja ela qual for, sem discriminações. É isso que me leva à crítica do roteiro sexual por locais que são sagrados para quem acredita no catolicismo. Acredito que o Carter não aceitaria que alguém (homo, hetero ou bissexual, não interessa) “desse uma queca” em sua casa, sem o seu consentimento e conhecimento. Não teria um certo trago a “profanação pessoal”, este cenário hipotético?

2. O Ponte Vasco da Gama fez comentários em relação aos textos sobre a estupidificação humana e o império da imagem entre os políticos. Gostei do que li. Convergimos numa repulsa em relação à classe política (talvez a diferença seja o meu radicalismo: não vejo onde estão as tais “honrosas excepções”). No fundo, estás de acordo comigo ao destruir a aura negativa que paira sobre os programas de e para palermóides (a que se convencionou chamar “telelixo”). São genuínos, diferentes do que se passa no ar pestilento que se solta dos locais frequentados pela classe política, tão ávida em transmitir uma imagem de credibilidade, mas que tão depressa resvala para uma palhaçada que não tem rival – nem sequer pela pretensa estupidificação humana dos tais programas em que reinam as figuras tristes dos participantes.

Sim, a mediocridade exulta entre a classe política. Parece um ninho onde apenas têm lugar os menos preparados, os que nada mais sabem fazer do que se acolher nas asas protectores da partidarite cega. É o nivelamento por baixo, o sintoma da crise que infecta o regime. Por um dia, Ponte Vasco da Gama, terias que partilhar o meu cepticismo militante!

Estupidificação humana (ou de como há quem se exponha a figuras ridículas e goste)?

Desde que a televisão entrou na fase de “democratização popular”, tudo é possível. Os programas mais bizarros misturam-se com os talk shows para entreter velhinhas, as telenovelas deixaram de ser um exclusivo brasileiro com a entrada da produção nacional nesse segmento. Entre a bizarria que vai ao encontro dos gostos da maioria dos telespectadores, por cá e no estrangeiro há a tendência para a difusão de programas em que os concorrentes se prestam a figuras tristes. Aliás, é a predisposição para essas tristes figuras que lhes traz a prometida compensação monetária.

Sendo pouco assíduo da televisão, apenas posso testemunhar o que a espaços vou vendo quando estou distraído à frente do ecrã. Uma dia destes estava a pedalar no ginásio e, na televisão à minha frente, passava um programa (creio que na MTV) que se desenrolava nas ruas de cidades dos Estados Unidos. Aos olhos de uma multidão frenética, alguns corajosos enfrentavam desafios que se confundiam com sacrifícios, a julgar pela hesitação antes de meterem ombros ao desafio. Ou por beberem líquidos intragáveis, ou porque tinham que se esfregar num chão untado de uma mistela gordurosa e repulsiva, notava-se que as tarefas não estavam ao alcance do comum dos mortais. A troco de um punhado de dólares, para as delícias de um público excitado.

As pessoas que compunham a assistência exultavam de contentamento de cada vez que um tanso avançava para o plateau e se expunha ao ridículo. A coragem tinha a contrapartida do ridículo que advinha do gozo proporcionado aos assistentes na rua – e, adivinha-se, aos fiéis seguidores do programa em casa. No momento em que a bizarria tinha o seu epílogo, dos assistentes vinham reacções que misturavam a exultação com a repulsa. Uma mistura de sentimentos: a manifestação de que eram incapazes de se prestar ao momento arrepiante vivido pelo corajoso de serviço, mas o comprazimento pessoal porque alguém estava disposto a dar espectáculo para a audiência prestando-se à figura ridícula.

Já antes tinha visto, de relance (num intervalo de um filme, com as cenas que se iam ver quando o programa anunciado fosse para a antena), como também por cá aderimos à moda. Num dos canais privados há um programa em que os concorrentes são desafiados a enfrentar as suas fobias, ganhando dinheiro com isso. Vi resumos em que as pessoas se expunham a ingerir batido de miolo de vaca, a comer percevejos de mais variada ordem, a meterem-se dentro de uma banheira infestada de cobras. A diferença estava na ausência de uma plateia a rejubilar em directo com as façanhas que têm tanto de coragem como de humilhação.

Um descaminho dos tempos modernos? Talvez seja tentador arrumar estes programas na prateleira do telelixo que anda tão vulgarizado. Desconfio desta qualificação por um motivo convincente. Há quem se exponha àquilo que as outras pessoas vêm como um acto de loucura, a queda para a figura triste. Quem o faz está no gozo das suas faculdades, exerce a liberdade individual que lhe é inata. Se o faz por dinheiro ou por mero altruísmo (por gostar de divertir uma audiência), é indiferente. Mas não consta que as pessoas que servem de cobaias sejam forçadas à figura triste, como se estivessem de pistola apontada à cabeça num exercício que constrange a sua liberdade individual.

Que seja mais preocupante haver um estrato de pessoas que se diverte com este tipo de programas é um outro problema. Sobretudo por se notar a tendência de sermos educados, via televisão, a encontrar tipos diferentes de entretenimento que passam cada vez mais pela humilhação do próximo. O que poderá ser motivo de inquietação é a tendência contemporânea de nos divertirmos com o mal dos outros, com a exposição das suas debilidades, com a predisposição para fazerem coisas que nós seríamos incapazes de fazer.

Quanto ao resto, desde tempos distantes há relatos dos bobos da corte que divertiam quem a frequentava. Recuando mais no tempo, a história do teatro está ligada à necessidade da população ser entretida nos tempos livres, um tónico para desanuviar a alma depois das horas e dias passados em árdua labuta. O princípio vem de trás, de tempos remotos. O que difere agora é a modalidade de entretenimento que prende a atenção das pessoas. Ainda que seja possível colocar o rótulo de telelixo neste tipo de programas, ainda que seja possível discutir que mecanismos doentios levam o cidadão comum a divertir-se com as palhaçadas humilhantes de outrem, na verdade este é um mercado como qualquer outro. Depende da interacção de vontades livres: seja dos que se expõem às bizarrias, seja dos que exultam de felicidade por verem as figuras tristes de quem se presta a surgir nesses programas. Sempre houve palhaços; temos agora uma categoria moderna de palhaços.

17.8.04

É o marketing político que comanda?

Há dias Ferro Rodrigues sentou-se numa mesa para ler uma comunicação, com ar circunspecto e indignado, depois de se ter sabido que o demissionário director da Polícia Judiciária tinha envolvido o seu nome no processo Casa Pia. Vou fugir do conteúdo e da estratégia escolhida pelo homem que abandonou o leme do PS (até porque, lá diz o povo, não é de bom tom “bater em mortos”).

Houve um pormenor que cativou a minha atenção: o aspecto impecável com que apareceu perante as câmaras de televisão, numa combinação de casaco-camisa-gravata que fez adivinhar o dedo de um consultor de imagem. Apesar de Ferro estar em férias; apesar da comunicação ter sido feita em Sintra, onde passava o seu período de descanso; apesar de Ferro ter anunciado apenas com um par de horas de antecedência que ia dirigir a palavra ao povo em defesa da sua honra beliscada pela imprevidência do anterior director da PJ.

Notou-se que havia dedo dos consultores de imagem, que em pouco tempo conseguiram arranjar a fatiota impecável para Ferro Rodrigues aparecer perante o público e não ver a sua imagem prejudicada – logo, para que a mensagem chegasse aos destinatários com credibilidade. Horas mais tarde, quando fugazmente dei de caras com a mesma notícia noutro canal de televisão, vi imagens que antes não tinham sido transmitidas. Vi Ferro a subir as escadas abraçado à sua mulher, um quadro compungido e, adivinho, também cirurgicamente preparado. Vi Ferro a usar umas calças beijes, denunciando uma falha que os consultores não souberam prevenir. As calças de veraneio não condiziam com o ar impecável que Ferro trajava da cintura para cima. A pressa foi inimiga do óptimo: não foi possível preparar com minúcia todos os pormenores, e o ex-líder do PS apareceu com uma imagem híbrida – da cintura para cima, o ar bem cuidado do político; da cintura para baixo, o homem que se encontrava de férias, a quem não foi possível encontrar em tempo útil umas calças que traduzissem uma ambiência mais solene, a condizer com o ar de estadista apunhalado pelas costas.

A importância dos consultores de imagem para a feitura de políticos é um dado adquirido. Tudo se passa como se fabricassem políticos numa proveta, dentro de um laboratório. Tal como abundam os peixes que vêm dos tanques de aquacultura, os políticos de hoje são um produto dos especialistas em marketing político. O engenheiro Guterres, com a sua pose artificial e minuciosamente estudada, era o produto de uma equipa de consultores brasileiros – que nestas coisas estão um passo à frente dos congéneres portugueses. Paulo Portas é um mestre na arte da postura, que descamba para excessos e tiques que têm um efeito contrário – levam-me a olhá-lo como um produto cheio de artificialidade.

Os políticos não são os homens, apenas a cara. Sofrem transformações cuidadosamente estudadas para se moldar uma imagem cativante para os eleitores. Chegando-se ao cúmulo de enganar a natureza (e, por arrastamento, os eleitores): na campanha eleitoral para as últimas eleições autárquicas, o candidato socialista à câmara do Porto aparecia com cabelos brancos na moleirinha, o local onde está implantada uma peruca (que se saiba, nas perucas não crescem cabelos de espécie alguma, nem eles esbranquiçam com a marcha do tempo…).

Cada vez mais é o exterior, o embrulho, que contam; o conteúdo, a substância, desvalorizados. O público é educado para privilegiar o exterior sem dar valor à mensagem veiculada. Que, na maior parte das vezes, é vazia, redundante, preenchida por lugares-comuns. Uma mensagem que se assemelha a uma laranja que, depois de espremida, verte umas míseras gotas de sumo.

Os homens que se entregam à ambição política são forçados a entregar o seu destino nas mãos dos consultores de imagem. São estes que detêm o monopólio da informação sobre as preferências dos eleitores. Como se fosse possível saber tudo e mais alguma coisa acerca das preferências de milhões de eleitores. Claro que é por amostra que funcionam, com os riscos inerentes à teoria das probabilidades. O que faz com que os consultores sejam empurrados para a dedução: quantas vezes aconselham uma gravata discreta em vez de outra com cores mais garridas, por considerarem que é nessa característica que se revê a maioria da população? Mas este exercício não será apenas um retrato das escolhas pessoais dos consultores de imagem, sem que seja o espelho fiel das genuínas preferências do eleitorado?

Os consultores de imagem dominam o fenómeno político. Eles têm os políticos na mão. São eles que acabam por deter o poder supremo, em mais uma entorse à representatividade que é o alicerce da democracia em que aprendemos a viver.

16.8.04

Como é fácil perder a razão: homossexuais e turismo sexual em Fátima

O mote é dado por esta notícia incluída na versão on-line do Expresso:

Gays indignam Fátima

A comunidade homossexual incluiu Fátima no roteiro de locais de encontro. No seu sítio na internet, a Opus Gay indica as casas-de-banho e os parques de estacionamento do santuário como lugares onde se verificam habitualmente práticas homossexuais. A PSP confirma esta informação, revelando que já registou ocorrências desse tipo nas casa-de-banho do santuário, sugerindo o seu encerramento nos dias de menor movimento. Comentando o facto, o vigário-geral da diocese de Leiria-Fátima, Jorge Guarda, afirma que «a Igreja está indignada» e propõe-se pôr termo à situação, mesmo que seja necessário seguir o conselho da PSP e tomar «medidas extremas», encerrando os espaços referenciados.


Não é a primeira vez que escrevo sobre este tema que ainda mexe com as consciências mais conservadoras. Já por mais do que uma vez defendi os direitos dos homossexuais em plena paridade com os heterossexuais. Contudo, é intolerável que a comunidade homossexual parta para a mais grosseira provocação, entregando-se a práticas sexuais em locais sagrados para os católicos. É a imagem da intolerância que reside em largos sectores da comunidade homossexual e que os leva a perder a razão com que se querem investir para reclamarem os direitos de que se dizem legítimos portadores.

Não é difícil que alguém tenha razão mas a perca pela forma como a tenta defender. Por exemplo, é o que sucede quando alguém reclama a razão para si – não sendo difícil de a reconhecer se estivermos dotados da necessária imparcialidade – mas razão é questionada devido os meios utilizados para alcançar os fins. Quando tais meios são desproporcionados, os traços da razão esfumam-se numa nebulosa dúvida que deixa transparecer uma perigosa intolerância.

Por curiosidade, consultei o site da Opus Gay, para atestar se era verdade que os parques de estacionamento e as casas de banho do santuário de Fátima são aconselhados como locais de prazer para a comunidade homossexual. Não gastei muito tempo a investigar a página, não tendo encontrado nenhum vestígio do que é noticiado pelo Expresso. Desconheço se, entretanto, a página foi mudada para retirar os indícios de veracidade da notícia. Logo, apenas posso reter as declarações do clérigo e a chancela da polícia, que já terá apanhado alguns homossexuais “com a boca na botija”. O que será suficiente para atestar a verosimilhança da notícia.

Este comportamento é inaceitável. Sê-lo-á se partir de homossexuais isolados; mais o será se houver o enquadramento institucional de uma organização responsável por defender os direitos dos homossexuais. Poderão alguns tentar atenuar este comportamento, alegando que sempre a hierarquia católica foi intransigente com os homossexuais. Que, como tal, estes se vingam na comunidade católica pela intransigência do passado que ainda se repercute no presente. Não aceito esta argumentação. Não tanto por ela encerrar uma provocação que ultrapassa os limites do aceitável (as provocações, contidas, são salutares). É insidioso pelo que representa de desrespeito por valores e locais que para os outros são sagrados. Será assim que a comunidade homossexual consegue ganhar respeitabilidade?

Esta atitude doentia é repugnante, exactamente pelo que ela contém de doentia. E por expor um traço característico da comunidade homossexual: sentindo-se discriminados ao longo dos tempos, e sentindo ainda hoje o peso dessa discriminação, acham que devem estar investidos de especiais direitos, acima dos direitos conferidos a quem não se revê nesta preferência sexual. Como se fosse uma forma de os compensar pelo tempo imemorial de discriminação, uma espécie de discriminação positiva que autoriza comportamentos que aos demais são vedados. Revela uma intolerância pelo outro, neste caso por aquele que mais tem manifestado a sua intransigência para com a opção homossexual (apetece perguntar: aceitariam eles que os católicos invadissem um dos seus locais de preferência com uma missa?). Não vou dizer que procedam como consta dos textos bíblicos (dar a outra face…), mas seria avisado não mandar mais achas para a fogueira, sabendo que isso não aproveita em nada a sua causa.

Eis como os homossexuais dão um tiro no pé e perdem toda a razão e respeito que tentam capitalizar através dos grupos de pressão que crescem de importância.

13.8.04

Emigrante, foste longe e regressaste!

É Agosto, é mês de férias, mês da invasão dos emigrantes que andam lá fora a dar o duro para construir uma vidinha mais confortável. É o tempo de regressarem à santa terrinha que deixaram para trás, anos idos, fugindo à miséria que então por aqui era jactante. Vêm matar saudades da pátria, num apego às raízes que deixaram sementes que não se renegam.

Há um par de dias, vi uma reportagem que dava conta de uma situação absurda vivida na repartição de finanças de Bragança. Em mês de férias, também os funcionários públicos que ali trabalham gozam o período de descanso, deixando a repartição com pouca mão-de-obra disponível. A enxurrada de emigrantes e uma lei que impõe novas obrigações relacionadas com o imposto municipal sobre imóveis concorreram para que os emigrantes aproveitassem a deslocação para cumprirem tais obrigações legais.

Sem surpresa, desaguou um mar de gente à porta da repartição de finanças. As pessoas queixam-se, como o microfone da repórter teve ocasião de captar para a posteridade. Queixam-se de que tinham passado o dia anterior metidas na fila e não tinham sido atendidas. Queixam-se que, para evitar mais um dia perdido, acamparam à porta da repartição às seis da manhã. Uma senhora mais empertigada diagnosticou o problema e sentenciou a solução: “é uma vergonha! Não há respeito nenhum pelos emigrantes. Estamos aqui de férias, em descanso, e obrigam-nos a perder todo este tempo. Devia haver um posto de atendimento só para emigrantes!

Outros contribuintes que esperavam concordaram com a emigrante que, sem papas na língua, ali esboçou a solução. Vale a pena repousar sobre a proposta, para assimilar as suas consequências. De acordo com esta senhora, como ela veio lá de longe para a terra mãe deviam ser-lhe reconhecidos privilégios no atendimento. Uma discriminação positiva que distinguisse os emigrantes em detrimento dos nativos. Estes teriam que ceder a vez sempre que surgisse uma pessoa emigrada numa repartição pública. Donde se infere que os emigrados que regressam temporariamente à terra são elevados à condição de cidadãos de primeira. Os que cá vivem são relegados para uma condição secundária, obrigados a estender a passadeira vermelha a suas excelências, os emigrantes.

Para quem está habituado à poluição visual, sonora e estética que invade Portugal quando os emigrantes desaguam vindos nas suas voitures espampanantes, este exemplo de miopia intelectual não surpreende. Caindo no risco de ser acusado de elitismo, a verdade é que da emigrante que traçou o diagnóstico e avalizou a sentença não se poderia esperar mais: deduz-se que a inteligência não abunda por aquelas paragens.

Recordo-me de outro depoimento inflamado, em que outra emigrante puxou o lustro à peixeirada e, alto e bom som, verberou a diferença de tratamento dos funcionários públicos portugueses e franceses. Lá, na distante França, até a tratam por “madama”; ali, no recôndito nordeste lusitano, os funcionários públicos envergam má cara e fazem o frete no atendimento, disparando palavras secas e nada simpáticas. Primeiro, talvez seja falta de hábito, porque por aqui, na função pública, abunda a falta de educação. A atitude típica é a de que os funcionários estão a fazer um especial favor ao atenderem os utentes. Segundo, a avaliar pela postura da queixosa, não se pode dizer que ela era o paradigma da boa educação. Rispidez quanto baste brotava da senhora, que espumava a impaciência pelo tempo perdido na repartição de finanças. Só resta perguntar se é esta postura arrogante que ela transporta para as repartições públicas na França que a acolheu. Se a tratam por “madama”, adivinho que na França longínqua ela se comporta como uma cordeirinha afável…

Dizer que gostos não se discutem é um lugar-comum, típico de um relativismo em moda. Duvidar da estética dominante que os emigrantes trazem até nós é um direito que assiste a quem não se revê nessa estética. Da mesma forma que temos que respeitar os gostos que eles carregam consigo, também nos tem que ser admitido o direito de os execrar. Sem entrar mais a fundo nesta polémica subjectivista, há algo que me parece mais pacífico: o comportamento típico dos emigrantes quando põem os pés na santa terrinha que deixaram para trás. A arrogância é a nota distintiva, a postura de superioridade, como se o visível bem-estar material que exibem fosse a razão para se colocarem num pedestal acima dos seus concidadãos que não tiveram a arte e o engenho de se aventurarem no estrangeiro.

É nestes momentos que apetece glosar os versos desse ícone da cultura nacional, Manuel João Vieira (Enapá 2000):

Emigrante, emigrante
foste longe e regressaste;
emigrante, emigrante
não sei porque tu voltaste
”.

12.8.04

Carter, a malvada economia e o bendito individualismo

Extinta a saga paternalista, de volta à discussão de ideias. Agora, sim, há equilíbrio…

Do comentário resultam duas ideias – uma que vou contestar, a outra que vou subscrever. Por um lado, um ataque ao poder económico, como se fosse o grande Satã que traz todo o mal que por aí anda. Estou familiarizado com a retórica: são as empresas que usurpam o bem-estar das grandes massas de consumidores que, por paradoxal que pareça, não passam sem o consumo daquilo que as empresas oferecem no mercado. Sim, no mercado. Se o Carter tanto acredita nas pessoas como entes individuais, decerto não me vai convencer que as pessoas – cada pessoa como um átomo do universo que somos a humanidade – são enganadas pela maléfica publicidade e cai no engodo do poder económico.

Talvez fosse importante imaginar um “anti-mundo” feito sem o pernicioso capitalismo. Uma sociedade que condenasse o lucro, essa perfídia. E tentar cogitar as consequências: a falta de incentivos para a dinamização económica, menos empresas, menos produtos, menos necessidades de consumo satisfeitas, menos emprego, menos rendimento para distribuir. Mais miséria.

É por isso que, ao contrário do Carter, vejo a globalização que cai sobre nós como um fenómeno positivo. Quanto mais o poder económico se emancipar do poder político, quanto mais for o bem-estar proporcionado aos consumidores (descontando a possível alienação que isto pode trazer – mas, que raio, somos ou não responsáveis pelos nossos actos, pelas nossas opções?), maior é a liberdade individual de todos e cada um de nós. Para tal o mercado é entendido como um lugar de interacção voluntária, onde ninguém força ninguém a resultados indesejados. Outra é a música tocada pelo processo político, cheio de arbitrariedade e imposições que espezinham a liberdade individual.

No comentário do Carter há um segundo aspecto com o qual estou em total concordância. Tem a ver com a crença no indivíduo (cito, “(…) o quinto poder emergente - a individualidade”). A afirmação da essência individualista é um traço distintivo das correntes que afirmam um movimento libertário que contesta todos os colectivismos passados e presentes e que rejeita a existência do Estado como construção necessária para o bom funcionamento dessa abstracção chamada sociedade. É bom saber-te individualista, Carter, porque isso supõe a negação de muitos dos dogmas que tens apresentado no passado. Serve, ao mesmo tempo, para desnudar preconceitos (neste caso contra o diabólico “poder económico”).

Terei contribuído para o teu equilíbrio, ao ver-te defender por portas travessas o que antes rejeitavas? O pêndulo oscila de um lado para o outro, deixa as sementes de um equilíbrio prosaico que não nos deixa cair que nem tordos sem norte para encontrar.

À espera de mais trocas de ideias…

Os descaminhos da justiça, ou as razões para um cepticismo crescente

O episódio das conversas telefónicas do jornalista do Correio da Manhã com pessoas envolvidas no processo Casa Pia traz pormenores reveladores da crise em que a sociedade se encontra. Essas conversas telefónicas foram gravadas e condensadas em não-sei-quantos CDs, que entretanto desapareceram da gaveta do jornalista sem deixar rasto. Pelo meio, o director nacional da Polícia Judiciária foi apanhado no restolho, chamuscado por revelações que ultrapassam o decoro das funções que ocupava.

Nos últimos dias tem-se questionado se ainda faz sentido manter o segredo de justiça, se ele é desrespeitado de forma tão flagrante. Pergunta-se se o segredo de justiça apenas compromete os agentes directamente envolvidos no exercício da justiça, ou se também os jornalistas lhe devem respeito. De novo, a velha questão do ovo e da galinha: na corrupção (porque a violação do segredo de justiça é tangente à corrupção), quem tem mais culpas – quem corrompe ou quem é corrompido (ou se deixa corromper)?

São questões delicadas. Mas este episódio traz sequelas mais importantes. O terramoto vem de trás, de constantes episódios de mau funcionamento do sistema judicial, com inabilidades que fazem descrer numa correcta administração da justiça. Esta é a questão que interessa sublinhar, pelas suas consequências devastadoras.

É costume dizer-se que há três poderes, na lógica da divisão de poderes legada pela revolução francesa de 1789: o executivo, o legislativo e o judicial. Sendo poderes com fronteiras delimitadas, não podem interferir uns nos outros. Daqui resulta a total independência do poder judicial, com a autonomia dos juízes a elevá-los a funções de elevada importância. Sobre os juízes adeja uma aura de imparcialidade. Pelo menos é assim que as criancinhas são ensinadas desde os bancos da escola. Quando algumas delas crescem e vão parar aos bancos das faculdades de direito, também se lhes ensina que um atributo dos magistrados é a sua “irresponsabilidade”. É uma consequência natural da independência que lhes é conferida. Portanto, não se deve interpretar irresponsabilidade no sentido literal da palavra. Significa apenas que os juízes não são responsáveis perante o poder político, só respondem perante as estruturas da magistratura. É esta irresponsabilidade que lhes garante liberdade de autonomia para decidirem sem pressões.

Todavia, como em tanta coisa na vida, há um hiato entre teoria e prática. Quantas vezes somos assaltados por notícias que dão conta de sentenças duvidosas? Quantas vezes se levantam suspeitas da absoluta independência dos juízes, sobretudo quando figuras públicas sentam o rabo no banco dos réus? Assim se questionam os predicados de independência e de irresponsabilidade dos juízes. Pondo-se em causa a sua imparcialidade, afinal o garante de uma justiça credível que seja o contra-peso das arbitrariedades que enxameiam o processo político. E não nos podemos esquecer que os juízes, como homens e mulheres comuns, podem-se afastar da imparcialidade, motivados que são pela subjectividade. Não é difícil ver que a imparcialidade da justiça está a um pequeno passo da mistificação.

Para quem descrê do processo político e via na justiça o refúgio para equilibrar os desmandos da política, concluir que a justiça está mergulhada nesta crise de credibilidade não deixa razões para sorrir. Ver como o segredo de justiça é constantemente esquecido, dando origem a condições de desigualdade que prejudicam uma justiça imparcial, expõe a justiça a debilidades que não se compadecem com a esperança com que a justiça devia ser encarada. E o problema é que a violação do segredo de justiça vem de dentro do próprio sistema. Ou será que os jornalistas estão sempre à porta das secretarias judiciais a acenar com regalias diversas em troca de elementos resguardados pelo segredo de justiça? Não serão, também, os próprios funcionários que contactam os jornalistas e propõem a “negociata”? (Como terá Fátima Felgueiras sabido da decisão que a remetia para prisão preventiva antes que a decisão fosse dada a conhecer?)

O panorama é sombrio. Para quem olha em redor, não acredita no processo político e espera do terceiro pilar (a justiça) uma actuação imparcial que vá contra a arbitrariedade política, não há que esperar muito nos tempos que correm. O pior é que o “quarto poder” emergente (a comunicação social), também é o que é. Daí que o cepticismo não seja uma palavra vã saída da cartola por artes do mau humor. O cepticismo é o resultado da observação do contexto, uma conclusão linear que muito custa a ser extraída – mas que é inevitável face ao estado das coisas.

11.8.04

Leituras de férias: “Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido”

Acabo de ler o livro de Rui Mateus, “Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido” (Dom Quixote, 1996), em que o autor retrata a sua experiência dentro do PS, desde a sua fundação em 1973 até aos acontecimentos relacionados com a Emaudio e Macau. É um relato circunstanciado de certos factos que merecem uma reflexão cuidada, sobretudo quando o autor revela episódios que dão um outro colorido à “história oficial” do pós-25 de Abril de 1974.

Mateus vai à génese da criação do PS, numa reunião ocorrida algures na Alemanha, em que ele próprio esteve presente. Logo aí descreve o protagonismo que Mário Soares teve na fundação do PS. Tomamos conhecimento do rol de incoerências que caracterizam a figura: a sua filiação comunista na juventude, que o influenciou logo a seguir à revolução de Abril quando preconizou a necessidade do PCP para a consolidação da democracia; o recuo, quando os comunistas não tardaram em dar mostras dos seus verdadeiros propósitos (Cunhal terá dito que Portugal nunca seria uma democracia parlamentar), o que o levou, na iconografia oficial, a aparecer como o grande combatente contra as tendências totalitárias do PCP (quando, sob a pena de Mateus, quem terá orientado o PS nesse sentido foi Salgado Zenha); o episódio do governo minoritário do PS na sequência das primeiras eleições legislativas, quando tudo aconselhava a um pacto de regime com o então PPD (que, na opinião do autor, poderia ter levado a uma dissolução do PPD dentro do PS – o que também poderia ter motivado a mexicanização do regime político português, como ele anui); para logo de seguida ter dado o dito pelo não dito, no que diz respeito à política de alianças, para constituir uma coligação “contra-natura” com o CDS. Tudo, de acordo com o autor, em nome de uma feroz sede de poder e de protagonismo pessoal que cegava Soares.

O livro não é simpático para Soares. Desmistifica a aura de heroicidade que anda de braço dado com o ex-presidente da república. Mostra como Soares era um político hábil que se perdia em soluções irracionais, porque estava mais preocupado com o seu próprio devir político do que com os benefícios para o PS (já para não falar do bem-estar nacional). Mateus fala com conhecimento de causa: ao dedilhar as páginas do livro são sucessivos os relatos que testemunham a relação de proximidade e de confiança que durante muitos anos existiu entre o autor e Soares. Houve a preocupação de documentar com abundância as afirmações, apresentando uma extensa lista de documentos nos anexos. Nuns casos a “prova documental” é inequívoca. Noutros há alguma inexactidão nos documentos oferecidos. Noutras passagens do livro o autor resvala para a falta de rigor: assim sucede quando cita certos memorandos ou documentos sem fazer uma referência rigorosa à fonte.

No essencial ficamos com uma ideia clara do mundo cão que sempre foi a vida interna do PS. Quando agora se diz, a propósito da luta entre os três candidatos à liderança deste partido, que o PS se assemelha a um “saco de gatos”, trata-se de uma característica que vem do passado. Uma vida partidária feita de intriga, o domínio asfixiante que Soares sempre quis exercer (mesmo depois de ter sido eleito presidente da república, quando se supunha que estivesse desligado do PS), as artimanhas que o velho patriarca nunca hesitou em pôr em prática, o constante “dividir para reinar”. E pensar que este é considerado por muito boa gente como um partido essencial para a vida democrática do país, para a estabilidade do regime político. Pensar que é a gente deste calibre (que sempre pôs os interesses próprios à frente dos interesses do país) que o povo português muito deve pelo que somos agora. Pena que ninguém se interrogue do seguinte: o que poderíamos ser se não fosse a incompetência, a estreiteza de espírito desta gente?

Outros capítulos interessantes são os que exibem a cumplicidade entre as autoridades dos Estados Unidos e Mário Soares. Como este sempre foi o político preferido dos governos e lobbies norte-americanos, independentemente de serem os republicanos ou os democratas a deterem o poder. Nem sequer o PSD, talvez mais próximo dos Estados Unidos numa “escala ideológica”, foi alvo destas preferências. Pelo meio misturam-se negócios com política, um mundo escabroso de financiamentos para o PS que envolve a Internacional Socialista e empresários oportunistas (avisando Mateus que isto não é um exclusivo do PS, estendendo-se aos outros grandes partidos do arco democrático).

Esta cumplicidade teve o seu epílogo com o caso Emaudio, quando Soares – já então na presidência da república – inspirou a constituição de um império de comunicação social para alargar a esfera de influência socialista, como uma forma de perpetuar o PS nos corredores do poder. Os negócios pouco claros, misturados com alguma imprudência de Mateus e do governador de Macau, Carlos Melancia, acabaram por fazer ruir o projecto. No rescaldo apenas a arraia-miúda (que nem o era tanto assim…) acabou por ser condenada, deixando os tubarões sossegados no seu ninho.

Nota-se que o livro de Mateus é dominado pela mágoa, por ter sido abandonado à sua sorte num momento em que caiu em desgraça junto da família soarista. Como tal, poderá estar inquinado por falta de objectividade, podendo os seguidores de Soares e do PS profundo atacar o autor acusando-o de estar contristado pelo escândalo do famoso fax de Macau que o levou a uma condenação de quatro anos e meio de prisão. É possível que sim, notando-se que a amargura do autor possa toldar alguma objectividade. No entanto, passando por cima das considerações pessoais que por vezes resvalam para o exagero próprio de quem está ferido no seu orgulho, a conclusão é de que não existe fumo sem fogo. Mesmo sabendo que Soares e a “família soarista” não saíram beliscados deste livro e do caso Emaudio (os tentáculos são tão poderosos que em breve tudo caiu no esquecimento), fica um registo que não cai em saco roto.

De nada valerá, já se sabe, tal o poder e a incontestabilidade que Soares goza, qual figura impoluta e acima de qualquer suspeita. Da minha parte, que nunca nutri a mínima simpatia pela personagem, este livro trouxe momentos bem agradáveis e serviu para reforçar a imagem negativa que dele tenho.

10.8.04

Os insultos são mesmo insultuosos?

A linguagem muda com o tempo. Estamos habituados a que certas palavras, quando utilizadas num determinado contexto, percam o seu valor literal. Estas nuances semânticas surgem a preceito quando damos conta da generalização de palavrões na linguagem corrente, mesmo na recorrência do insulto fácil com que nos referimos a outros que nos pisam os calos. A pergunta que se impõe é esta: somos fiéis ao que dizemos quando resvalamos para a lógica do insulto, ou trata-se apenas de uma nova idiomática que não pretende ser insultuosa?

O espaço e as diferentes tradições semânticas jogam uma palavra importante. A queda para o palavrão é recorrente nos países que falam a língua inglesa. Ainda que esta tendência seja volátil – nos Estados Unidos ela é mais visível do que no Reino Unido – vê-se como a linguagem corrente aparece fartamente entremeada de calão e de palavrões. É curioso ver como em certos filmes as legendas se subtraem a uma tradução fidedigna desses palavrões. Sendo filmes que retratam a vida real, tentam reproduzir os diálogos entre pessoas comuns, para situações comuns – afinal, um espelho do dia a dia. Mas quando vemos o resultado ao ler as legendas, ressalta o pudor do tradutor, que se recusa a ir tão longe quanto a tradução literal de tais palavrões representa na língua portuguesa (com algumas excepções).

Este pudor não deixa de ser intrigante no caso português. Usamos e abusamos dos mesmos palavrões – e de outros que a língua inglesa não utiliza com tanta abundância – e mascaramos a realidade quando somos chamados à tradução para o português. Basta andar pela rua com os ouvidos bem atentos. Basta ir a locais públicos onde há ajuntamentos populares, escutar a animada conversa de uma roda de amigos. Ou assistir às discussões na via pública, quando há desacatos ou quando automobilistas se envolvem em altercações motivadas pelo trânsito ou por acidentes de viação. Nessas ocasiões o relambório de palavrões solta-se com uma facilidade inusitada. Sem olhar a idades e classes sociais, que nisto de soltar a língua para o palavrão a democratização é plena.

Ao descair para o insulto, é interessante averiguar se se trata de insulto ou se as palavras insultuosas encerram uma transformação semântica que altera o seu sentido literal. Por exemplo, quando alguém dispara para outrem, no meio de uma acalorada discussão, “vai-te f****”, há que extrair o sumo da expressão e analisá-la no contexto em que ela é proferida. Sobretudo quando se trata de um “insulto” entre homens, será que esta expressão é um insulto em sentido próprio? Partindo do pressuposto que o segundo verbo remete para o acto sexual, e admitindo que a pessoa a quem tal “insulto” é dirigido não é assexuada, não vejo como se pode interpretar aquela expressão como um legítimo insulto. Pelo contrário, é um convite para que o destinatário vá fazer algo que ele tanto gosta – presume-se que com uma pessoa diferente daquela que prefere a expressão…

Outro exemplo: quem já se deslocou a um estádio para assistir a um jogo de futebol sabe como os adeptos, inflamados pela clubite que os cega, disparam impropérios a torto e a direito. Os árbitros são um dos alvos preferidos, sempre olhados com suspeição, porque se desconfia que entram em campo preparados para prejudicar a equipa de que se é adepto. Ao primeiro deslize o árbitro é inundado com uma enxurrada de insultos, que normalmente vitimam a sua progenitora. Ao proferir estes insultos, os espectadores põem em causa a honorabilidade da mãe do árbitro. Sem sequer a conhecerem, não duvidam em acusar o árbitro de ser um “filho da p***”.

A serem levados à letra, estes insultos davam pano para mangas. E serviriam para inundar os tribunais com acções destinadas à reparação da dignidade dos ofendidos, levando a já desorganizada justiça ao caos. A verdade é que na maioria dos casos em que estes insultos são atirados para cima de alguém, a pessoa visada não reage. Será um sinal de que a linguagem corrente vem digerindo a nuance semântica que leva à reinterpretação destas expressões. Em vez de se olhar para estes impropérios como expressões de insultos que tentam denegrir a pessoa visada, cada vez mais são uma forma de apoucar sem insultar.

O interessante da questão é reconhecer como as palavras podem ser subvertidas pela emoção de quem as utiliza, ou apenas pela utilização recorrente que transforma o seu significado original. Presos aos brandos costumes de que somos fiéis depositários, raramente insultamos o outro mesmo quando nos deixamos envolver pela utilização de palavras que são literalmente insultuosas.

9.8.04

TAP, Cardoso e Cunha e a demagogia socialista

Num acesso de bom senso, o governo demitiu Cardoso e Cunha da presidência do Conselho de Administração da TAP. Há vários meses que Cardoso e Cunha e o administrador executivo, Fernando Pinto, estavam em rota de colisão. Era uma crise de ciúmes pelo protagonismo do gestor brasileiro. Pela primeira vez desde a revolução de Abril de 1974, a TAP apresentou lucros. Pela primeira vez, desde então, o contribuinte não foi chamado a colocar do seu bolso a verba necessária para colmatar os sucessivos buracos financeiros que a “companhia aérea de todos nós” apresentava.

Cardoso e Cunha é a antítese dos resultados que Fernando Pinto conseguiu alcançar ao leme da TAP. O seu passado enquanto gestor público fica associado à gestão ruinosa da Parque Expo, onde se consumiram inutilmente milhões e milhões de euros de recursos públicos. Como em tantas vezes acontece quando se fala da gestão de empresas públicas, a irresponsabilidade campeia. A planificação empresarial está ausente, talvez porque a “casta” de gestores públicos que gira em torno destas empresas está habituada a um contexto que se afasta das regras da economia de mercado.

Esta gente foi “educada” a gerir com o dinheiro dos outros – o dinheiro que os contribuintes são obrigados a entregar ao Estado através dos impostos que não podem deixar de pagar. Como estamos a falar de uma imensa massa anónima; como se trata de avultados recursos que não têm titularidade pessoal; estes gestores públicos sentem-se à vontade para se afastarem de critérios de racionalidade económico-financeira. Daí os buracos financeiros que andam de braço dado com eles. Porque nas empresas públicas é fácil fazer uma gestão irresponsável: se o cobertor não chega para cobrir os pés e a cabeça, o Estado entra com um suplemento que serve para tapar o buraco.

No rescaldo, estes afamados gestores passam ao lado das penalizações que, em casos idênticos, um gestor de uma empresa submetida às regras do mercado teria que suportar: a demissão, o afastamento (mais ou menos prolongado) dos círculos da gestão empresarial. Com as empresas tituladas pelo Estado nada disto sucede. Uma elite constituída pelo bloco central – os gestores conotados com o PSD e com o PS convivem numa estranha cumplicidade, que muito diz quanto aos “rabos-de-palha” do bloco central – vagueia pelas empresas públicas, saltitando de empresa em empresa, arrastando consigo um cadastro nada aconselhável quando os resultados das empresas que geriram são recordados. Depois de um buraco financeiro são premiados com a colocação noutra empresa pública, até que se anuncie mais outro buraco financeiro.

Cardoso e Cunha é o espelho desta elite privilegiada que se tem banqueteado à custa das empresas que o Estado teima em manter. Talvez porque não estivesse habituado a conviver com lucros nas empresas públicas por onde passou, apanhou uma grande indigestão quando o gestor brasileiro divulgou os resultados positivos da TAP. Ciumeira pura: de nunca ter alcançado semelhante feito, e de ter estado na TAP (o paradigma das empresas públicas com buracos financeiros sem fundo) no momento em que a empresa inverteu a tendência, sem que o seu nome esteja associado a essa nova tendência. Como não pôde chamar a si os louros, entregou-se ao boicote interno minando o terreno dos gestores brasileiros que, até agora, tão bons resultados têm apresentado. Espera-se, agora, que Cardoso e Cunha tenha o seu prémio – afinal, um prémio por nada ter feito. Espera-se que na nova colocação de gestores públicos lhe saia na rifa mais um cargo com regalias principescas.

Uma nota final para comentar a reacção do PS. Nada a dizer pelo facto deste partido se congratular com o afastamento de Cardoso e Cunha. O que me deixou boquiaberto foi a conclusão tirada pelo porta-voz do PS, um tal Junqueiro. A rematar a sua reacção, lembrou que este episódio era a prova de que a escolha de Fernando Pinto pelo último governo do PS tinha sido uma excelente escolha.

Ilação: se não fossem os socialistas e as suas escolhas, este país estava uma devastação total. É preciso não ter vergonha! Não ter noção dos limites e reagir de uma forma despudorada, num perfeito aproveitamento oportunista para tirar proveitos partidários da situação. Em vez de festejar um quadro menos sombrio para o futuro da TAP – logo, para o erário público – este senhor que veio falar em nome do PS estava mais preocupado em elogiar o partido a que pertence.

Assim vai a partidocracia que nos rege, mergulhada num mar de incompetência, timbrada pela mediocridade que nada à superfície.

6.8.04

O Homem e o sofrimento dos animais

Todos temos as nossas manias? Excêntricas ou suaves – alguém pode dizer que não tem o seu rol de manias, aquelas pequenas ou grandes coisas que fogem da bitola da “normalidade”? Há manias e manias. Umas doentias, outras que não fazem mal à sanidade mental. As manias de uns são excentricidades ou coisas incompreensíveis para os demais, quando as manias dos últimos podem ser bizarras para os primeiros. Nisto das manias, a melhor atitude é ser tolerante. Ou estamos a enveredar por um caminho perigoso, o de permitirmos que os outros zombem das nossas próprias manias, como se elas fossem mais tresloucadas do que as manias de quem nos ajuíza.

Uma das manias que tenho é a de ser incapaz de ver filmes em que os animais tenham um certo protagonismo que os faz ultrapassar a dimensão de meros figurantes, assumindo-se como actores de corpo próprio. Há sempre uma dimensão dramática que não consigo suportar. Invariavelmente, os filmes retratam a saga de um animal. A história começa bem, descamba para o dramatismo, com o animal a correr risco de vida, a padecer de sofrimento, a ser assaltado por uma onda de tristeza. Estes sentimentos negativos invadem-me de tal forma que não consigo conter uma lágrima furtiva.

Mas depois o filme acaba sempre bem. O animal deixa de sofrer e volta ao remanso do lar, para junto dos seus donos, reencontrando-se com a felicidade. O sofrimento infligido ao espectador é compensado pelo desfecho que acorrenta a bonança ao epílogo da história. As pessoas mais sensíveis, aquelas que não conseguem disfarçar a emoção nas cenas em que o animal estava a sofrer, ficam com a alma apaziguada ao saberem que tudo acabou em bem.

A minha mania consiste em não conseguir ver estes filmes. Aliás tenho que admitir que o estereótipo não me faz espectador assíduo do género cinematográfico, porque a qualidade não é o seu traço distintivo. Esta mania vem a propósito porque há dias passava na televisão um destes filmes e aqui em casa o canal continuava teimosamente sintonizado no filme. Foi aí que recordei como em pequeno me mortificava sempre que assistia a um filme deste género. Fugi do ecrã a sete pernas, refugiei-me num momento de leitura. Curiosamente, à medida que os olhos passavam pelas palavras, à medida que ia dedilhando as páginas, sentia que era uma leitura ausente. Era incapaz de recordar o que tinha acabado de ler há uns escassos momentos, porque a cabeça continuava ocupada pela mania que me faz fugir dos filmes onde os animais têm algum protagonismo.

Chegado a este ponto, uma revelação pouco simpática (sobretudo para os que têm um pendor mais humanista): sou capaz de ver filmes onde se simula o sofrimento humano, com as doses industriais de violência que retratam, afinal, o mundo violento em que vivemos. Sou insensível à ilustração do sofrimento humano e não consigo ter a mesma reacção quando as imagens retratam o sofrimento de animais (seja em filmes, em documentários sobre a vida animal, ou até em reportagens que noticiam maus tratos em animais).

Há uma explicação para este desequilíbrio? Só encontro uma: o ser humano é prisioneiro da sua pretensa superioridade enquanto espécie. De tanto o Homem puxar os galões como a única espécie animal dotada de racionalidade, tantas vezes ele tem resvalado para a violência que raia a ignomínia. É um lugar-comum dizer que o ser humano é a maior ameaça à espécie, com o historial interminável de guerras e de violência que o levam a sacrificar os seus pares. A racionalidade como fundamento da superioridade humana é a armadilha que leva o Homem para o descaminho da insensatez. Já os animais, destituídos dessa racionalidade, encontram-se mais expostos. São criaturas mais frágeis, indefesas, tantas vezes martirizadas pela estupidez humana. Que, não satisfeita pela orgia de violência e de sofrimento que insiste em praticar sobre si mesmo, a prolonga para criaturas mais fracas.

Estes filmes, todas as imagens que expõem a debilidade de animais, são a reincidência da insensibilidade humana. Espelham a essência do espírito animalesco que faz do Homem a celebração de uma espécie que se abastarda. Retratar o sofrimento de animais é o braço prolongado da essência humana de crucificação, da necessidade de encontrar o sofrimento para se exporem fraquezas e fortalezas que contrastam. Como se fosse necessário partir ao encontro do bem-estar através da redenção do sofrimento.

Réstias de uma religiosidade sempre latente no ser humano.

5.8.04

A exploração da desgraça alheia

Dois exemplos de como a comunicação social tem uma prática que se assemelha aos abutres que volteiam os cadáveres quentes, prontos a debicá-los até às entranhas. De como as televisões, sobretudo as televisões, abdicam do pudor em nome do espectáculo barato, requentando aquilo que os espectadores julgam ser a emoção. De como em episódios dramáticos, com perda de vidas ou de bens, existe uma obsessão por aproveitar as emoções jorradas pelas pessoas atingidas pelo infortúnio. A comunicação social deixa-se encantar pelo perfume pérfido da revelação das emoções alheias, como se fosse a “boa consciência” do povo, a centelha que desperta a compaixão pelo próximo. Uma terrível obscenidade, que passa por expor ao público a desgraça de quem está mergulhado na miséria, sem nada, sem o ente querido que deixou de habitar o mundo dos vivos.

Primeiro exemplo: anteontem ruiu mais um prédio na baixa lisboeta. Felizmente sem vítimas a lamentar. Na RTP a notícia foi explorada por um repórter, de seu nome Paulo Dentinho, que inaugurou um estilo diferente: cinematográfico, constantes deambulações do repórter pelo local da tragédia, ângulos bem estudados pelo homem da câmara, dramatismo latente nas palavras pausadas do jornalista. Parecia um repórter de guerra a calcorrear a devastação semeada por uma bomba. Deixava bem claro que os prédios em redor expõem o mesmo grau de degradação daquele que tinha acabado de ruir. O local tresandava a miséria.

As perguntas sacramentais a algumas das pessoas que ficaram desalojadas. Em directo o drama de quem ficou sem casa, as lágrimas vertidas, a voz embargada, um destino incerto. O repórter soube aproveitar sabiamente a desgraça destas pessoas que, num ápice, ficaram sem tecto. Como se não fosse suficiente o dramatismo evidente, o jornalista alimentava mais ainda o drama com a encenação que emprestava à reportagem. Mas não há bela sem senão. Dentinho foi apanhado na armadilha da sua própria ganância profissional. Tudo ruiu que nem um baralho de cartas quando, a meio da digressão pelo local, entrevistou uma senhora que se debruçava no beiral de um edifício vizinho. A velha estava ornamentada com quilos de ouro – ao pescoço, nas orelhas, nos dedos das mãos.

Ficam as interrogações: como pode alguém trazer tamanho carregamento de ouro e viver num local tão degradado? Como pode um repórter, que quer chamar a atenção para a pobreza que anda de mão dada com a degradação das condições de vida, deixar passar em branco tamanha manifestação de riqueza? Tal era a sede de mostrar a desgraça de quem por ali vive que acabou traído pela sua própria emotividade. Que assim o subtraiu da imparcialidade que deve ser apanágio de quem informa.

Segundo exemplo: no mesmo dia, no mesmo canal de televisão, uma reportagem sobre um homem que foi resgatado à força do meio de um violento incêndio que estava a dizimar os seus haveres. Vendo que ninguém avançava no combate às chamas, aventurou-se contra as chamas, pondo em risco a sua vida. As imagens que se seguem foram pungentes: o idoso a ser retirado à força por três bombeiros, vertendo toda a sua revolta por não o deixarem lutar sozinho contra as labaredas; as lágrimas de desespero de que assistia, com os próprios olhos, os seus bens a serem reduzidos a cinzas; a impotência transpirada em lágrimas de raiva.

Tudo foi filmado por uma câmara indiscreta, que não se coibiu de violar a intimidade daquele homem. Como se já não bastasse a desgraça, ainda era necessário expor a desdita aos olhos de um país sempre ávido de contemplar piedosamente a adversidade dos outros. É uma boa maneira de ampliar a devastação interior que estas pessoas sentem quando são atingidas por acontecimentos do género.

Andamos metidos no meio de uma labiríntica confusão. Acreditamos que a difusão da desgraça alheia é imperiosa para cativar a piedade nacional pelas vítimas. Quando, porém, a piedade não passa do interior de cada um de nós, estamos a falar de piedade? Mais me parece que se trata de um sentimento obsceno que desnuda as emoções de quem se vê afectado pela tragédia, para alimentar a comiseração interior que nos faz pensar que somos almas boas. Aquietam-se as consciências através da desgraça alheia de que somos testemunhas. Pobres almas que somos!

4.8.04

As certezas

Metem-me impressão as pessoas que só têm certezas”, afirmou um amigo, no meio de uma calorosa discussão, para contra-argumentar uma opinião contrária à sua. Muitas vezes esta é a tirada típica quando alguém embrenhado na discussão de ideias tenta desvalorizar os argumentos do oponente. Procura-se combater as ideias contrárias indo ao fundo das convicções de quem as defende. Questionando a validade das certezas, a intenção é atacar pela raiz os alicerces que suportam as ideias que se contestam. É um simples estratagema para desmontar a razão de quem se nos opõe. À falta de argumentos válidos que sejam um fiel da balança no antagonismo de ideias, usa-se o truque baixo de duvidar de quem se assenhoreia de certezas absolutas.

Lembro-me, já lá vão muitos anos, como um político carismático se aperaltava como senhor das certezas que o guiavam na acção política. Dizia este político que não tinha certezas absolutas, apenas certezas; e que sabia que essas certezas eram inquestionáveis. Quando andei às voltas com o mote preferido pelo meu amigo, lembrei-me do contraponto de que este político é o paradigma.

Primeiro, não percebo qual é a diferença de grau entre “certezas absolutas” e “certezas”. No afã de veicular uma mensagem poderosa – atributo que os políticos valorizam até à exaustão, nem que a mensagem esconda a vacuidade do conteúdo – resvala-se para o pleonasmo. É o que sucede com a distinção entre “certeza” e “certeza absoluta”. Não é verdade que uma certeza é algo de absoluto em si mesmo? Será que uma “certeza apenas” é menos forte do que uma “certeza absoluta”? Pensar que há uma diferença de grau entre os dois “tipos” de certeza é uma contradição. Uma certeza é um absoluto, porque uma ideia que se alicerça com fundamento e reprova o seu contrário encerra em si este absoluto. Por isso não é possível encontrar a diferença entre “certeza” e “certeza absoluta”. São um simples pleonasmo que resulta da retórica política.

Segundo, quantas vezes somos apoderados por uma armadilha que se solta das palavras que proferimos? Sem dar conta, ficamos prisioneiros das nossas contradições, ventiladas pelas palavras traiçoeiras que dizemos ou escrevemos. Quando o tal político afastava do seu espectro as “certezas absolutas” e olhava para as suas “meras certezas” como algo de inquestionável, não estaria ele a reconhecer que as suas certezas eram…absolutas?

Terceiro: de que vale estarmos possuídos de certezas? Decerto que a abertura de espírito é essencial para se olhar para o mundo com flexibilidade contemplativa. Admito que os imperativos categóricos não andam longe da metáfora do burro, que só olha para a frente porque as palas que transporta nos olhos o impedem de ver noutras direcções. Mas uma coisa é afinar pelo diapasão dos imperativos categóricos, das verdades irrefutáveis que permanecem imóveis com a passagem do tempo. Outra coisa é saber-se que a certeza não é intemporal, oscila ao sabor do tempo, é mutável.

Devemos estar munidos de certezas num determinado momento. Por uma questão de identificação, para que elas sirvam como uma bússola que deixa encontrar o norte. Porém as certezas devem ser permanentemente questionadas. É uma exigência intelectual que nos deve levar a ter sempre a porta aberta para interrogar a certeza que possuímos. Umas vezes, para reiterar a certeza – até à próxima vez que ela passe pelo teste da dúvida. Outras vezes, para deixar cair a certeza e encontrar uma outra que a substitui. Mas é sempre uma certeza. Ainda que diferente da certeza substituída, é uma certeza.

Não é fácil estarmos ausentes da certeza. Por mais que a rebeldia de espírito assome à superfície e queira apregoar um salutar espírito anárquico, as certezas são imanentes ao ser humano. Mesmo quando alguém diz que não possui certezas de espécie alguma, essa é uma certeza. E se há riqueza na certeza que nos invade, é sabermos que a nossa certeza deve ser contrastada com a certeza dos outros, quando antagónica à nossa. Para que haja a possibilidade de se moldar a nossa certeza às lições que vêm das certezas alheias, revelando o carácter fluído da “certeza”. Admitindo que os imperativos categóricos são espasmos de autismo de quem se recusa a admitir que o mundo pode ser diferente da forma como ele é olhado no momento em que nos situamos.

Voltando ao político carismático: talvez tenha sido induzido em erro ao distinguir “certeza” de “certeza absoluta”. O que ele teria querido representar pela categoria da certeza absoluta seriam os imperativos categóricos, os dogmas que nascem e morrem com a mesma pessoa, insensíveis ao tempo e à mudança. Não a certeza, que é absoluta num certo momento mas dotada da necessária flexibilidade para ir oscilando com a passagem do tempo.