25.11.04

“O professor de epidemiologia”

Não sou daqueles que apelidam as gerações mais jovens como geração rasca. O epíteto fica bem a quem o inventou, decerto o produto de gerações que congeminaram as dificuldades por que são obrigados a passar os alunos desde tenra idade, desde que vão para os bancos da escola e são as cobaias vivas de sucessivas reformas curriculares. Estas gerações têm sido os nutrientes convenientes de devaneios pedagógicos que colocaram o sistema educativo à deriva. Não são a geração rasca, definitivamente. São a geração à rasca. As responsabilidades repousam nas consciências das luminárias que os puseram nesta delicada situação. Estas mentes iluminadas, que se acham um passo à frente dos demais, são os únicos rascas.

Como digo, tento escapar ao confronto de gerações que alimenta páginas de romances. Mas não consigo evitar a perplexidade que me é trazida pelo contacto diário com alunos. Males da profissão! O derradeiro episódio ilustra a ansiedade que se apodera quando certas criaturas que vegetam pelos bancos da universidade mostram um alheamento total do ambiente que os rodeia. Há dias ocupei uma sala de aula que não me estava atribuída. Os alunos que se dirigiam àquela sala davam de caras com um professor que não é o seu. Mostravam estranheza e, pasmados pela surpresa, ficavam inertes diante do vidro que faz das salas de aula aquários com vista para o exterior.

Verificando a atrapalhação daquela gente, abri a porta e perguntei qual era o professor que procuravam. A resposta foi: “é o professor de epidemiologia”. Insisti, pedindo o nome do professor, pois a resposta que me tinham dado não me ajudava na tentativa de os ajudar. Do outro lado não vieram novidades: “é o professor de epidemiologia”, repetiram com desdém ante a insistência. Para não perder a calma, convidei-os a irem a qualquer local para se informarem do nome do professor que já há mais de dois meses lhes dá as aulas de epidemiologia.

Para muitos alunos somos (professores deles) uma massa anónima, sem direito a nome. Como se fossemos meros números, neste caso, simples caras associadas a uma disciplina que os martiriza ao longo de um semestre. Não temos nome, dando razão aos que acham que vivemos numa sociedade cada vez mais despersonalizada.

Foi então que veio à memória caso semelhante passado há uns meses na sala dos professores. Duas alunas perguntaram se não tinha visto o professor de bioestatísica. Não podem adivinhar que estas disciplinas são, para mim, uma chinesice. Também nessa ocasião quis que me satisfizessem a curiosidade: gostava de saber o nome do dito professor. O nome, não a disciplina em que lhes dava aulas. Também então não souberam saciar a minha curiosidade. Também então foram recambiadas para lugar onde lhes pudessem abonar essa informação.

Não é a primeira vez que protesto indignação contra a tendência de despersonalizar as relações humanas. O que me causa espécie é a mania de olhar para as pessoas pelo que elas exteriorizam, pela sua capacidade profissional, pelo cargo que ocupam – tudo antes do nome que carregam desde a nascença. A estranheza é maior por reparar que a tendência está mais arreigada nas gerações mais novas.

Lembro-me, quando era estudante, que era importante saber o nome dos professores. Não para os tratar pelo nome, que naquela altura o distanciamento que se erguia entre aluno e professor era abismal. O tratamento era reverencial, exigindo genuflexões quando nos dirigíamos às eminências pardas. Sabíamos o nome dos professores porque era necessário para obter informações – sobre aulas a que iam faltar, sobre notas de exames, sobre horários de atendimento, etc. Esse temor reverencial não faz parte da conduta entre professores e alunos na universidade onde trabalho. Tentamos descer à terra (e, por vezes, há os que descambam para a excessiva familiaridade no relacionamento…). Talvez por isso eles desligaram-se da necessidade de saber os nossos nomes. Ou isso ou um mal congénito, o destas gerações mais novas que desprezam os nomes e afundam as pessoas num obscuro anonimato.

Somos umas peças incógnitas que decoram os cadernos dos alunos, aquelas criaturas exóticas que falam de umas coisas desinteressantes e que lhes trazem o supremo aborrecimento da avaliação para a qual têm que queimar inutilmente as pestanas. Seremos, pois, professores maquinais, desapossados do direito ao nome. Sinto nisto o alcance da vingança dos alunos pelo desassossego que lhes causamos?

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