Não sei se é espírito de contradição, ou a reincidente comiseração por quem é vergastado impiedosamente pela adversidade. Estou para saber qual o diagnóstico, mas estou possuído por um estranho sintoma: tenho andado com pena de Santana Lopes. Talvez por ser um saco de porrada em que toda a gente bate até à exaustão. Talvez pela pose sofrida com que apareceu no dia em que o presidente da república lhe decidiu tirar o tapete. Talvez pelo assédio infindável dos jornalistas, que insistem nas perguntas que levam o estóico primeiro-ministro a responder sempre com um sorriso nos lábios num esgar de paciência chinesa.
Não sei se este assomo de comiseração pela figura do ainda primeiro-ministro não revela aquela queda que temos para verter lágrimas de pena pelos coitados deste mundo. Se é isto que me traz a compaixão pela figura, é motivo de preocupação: o facto dos portugueses serem um povo piedoso para com a desgraça alheia é coisa atroz. Enquanto uma pessoa está bem da vida, passa ao lado das atenções – ou, quando muito, por estar bem e espicaçar a inveja alheia é alvo da chacota, da perseguição crítica dos que gostariam de trocar de posição. Ao cair na desgraça, a mesma pessoa passa a ser contemplada com a pena colectiva. Alguns chamarão a isto solidariedade. Desconfio que se trata de uma tendência doentia para exibir a compaixão como acto que espessa a dor do inditoso.
A indignação em relação a este sentimento colectivo traz-me preocupado com as vertigens que me assaltam, com a pena com que olho para Santana. Mas chego à conclusão (ou é a conclusão a que quero chegar…) que o que me motiva não será bem esse sentimento. Será um espírito de contradição fervilhante, a necessidade de ir contra a corrente, de desalinhar do pensamento estabelecido, de fugir aos imperativos categóricos dos que estão convencidos que corporizam o sentir geral – como se houvesse um sentir geral, como se fosse fácil arregimentar o unanimismo em torno de questões que fracturam a sociedade. É por um estímulo de contradição contra este mundanismo que me movo. E que, no caso em apreço, dou comigo a cultivar um estranho sentimento de solidariedade em relação a uma personalidade que não me motiva a mínima simpatia.
Quando ouço um dos cultores da verdade oficial (o inefável Louçã) a pronunciar-se como porta-voz “dos portugueses”, solta-se uma gargalhada sonora. Quando escuto as suas palavras, sempre carregadas de raiva, a sentenciar que “só Santana Lopes não percebe porque foi demitido, porque todos os portugueses já o perceberam”, um estímulo percorre-me pelo interior, pede-me para afirmar a minha solidariedade com o primeiro-ministro (como dizer?) demissionário.
Mas volto a repetir o que já disse em textos passados. Santana Lopes é uma excrescência do panorama político nacional, um produto da sociedade medíocre que somos. Representa o que de mais deplorável a política oferece. A sua passagem pelo governo é um equívoco sem fim, tantas as armadilhas que o governo colocou a si mesmo. Ainda assim não consigo deixar de fazer cara de António José Seguro (aquele que parece que está sempre a chorar, qual carpideira profissional pronta a verter as abundantes lágrimas no velório de um desconhecido) quando vejo o que se está a passar. Santana Lopes desempenha o papel do saco de boxe que todos, com um prazer inaudito, esmurram sem parar. Esbofetear Santana Lopes passou a ser desporto nacional, quase um imperativo para os bem-pensantes.
Porque gosto de desalinhar de consensos espúrios, porque gosto de fugir por caminhos alternativos que me coloquem nos antípodas dos guardiães da verdade absoluta – eis as razões que semearam a comiseração por Santana Lopes. Que não pode ser confundida com apoio à personagem. Longe disso. Por mais voltas que dê, por mais que se tente transformar para cativar a atenção do eleitorado, por mais tenebrosa que seja a campanha das esquerdas, não há-de captar o meu voto. Alguém dizia, há dias, que a credibilidade é como a virgindade: uma vez perdida nunca mais se recupera. Este é o estigma de Santana Lopes, coitado, o alvo da perseguição nacional.
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