30.12.05

Para que serve o último dia do ano

A última folha do calendário, prestes a ser rasgada. Deitada ao lixo, despede-se mais um ano que passou. Para dar lugar ao ano novo que se acerca. Passagem de testemunho que franqueia a introspecção. Procuram-se balanços. Esboçam-se promessas. Diagnósticos das características vãs que teimam em conviver com o eu que habita em mim. Quando há coragem, passa-se em revista o que menos satisfez na exegese do eu. E se há vontade para varrer do mapa pontos negros, a dobragem do ano é ocasião perfeita para agendar a mudança.

E, contudo, nada mais do que uma ilusão. Somente uma contagem do tempo, tão igual à que se sucede todos os dias, dia após dia. O que muda é ofício da artificialidade do calendário. É ver que o dia 31 de Dezembro é o último dia do ano, uma fasquia imaginária. Nada se passa como se o dia seguinte, o dia que acolhe um ano novo, fosse um dia de uma vida nova. A vida permanece a mesma, imune aos truques do calendário que anuncia um ano novo.

Os fatalistas olham para o ano neófito como se o horizonte se toldasse de sombrias nuvens. Mais um ano que passa, mais um adicionado à idade. Com o avançar da idade, cavam-se as imagens fantasmagóricas que o ano novo anuncia. A inevitável interrogação: “será o último?” Para os que olham para o tempo que se avizinha com os olhos de um optimista, a passagem do ano clareia o horizonte. Como se o ano acabasse com o céu tingido de nuvens negras, no cansaço do ano velho que se despede; e o novo ano soprasse uma aragem límpida, revigorante, um anticiclone que afasta as carregadas nuvens para paragens distantes. O ano novo varre o cansaço do ano que se vai embora. Por magia, tudo muda ao dobrar a folha do calendário, ao arrumar no lixo a agenda do ano que acaba, ao abrir a primeira página da agenda do ano que se inicia.

O dia que culmina o percurso de um ano serve para olhar para trás, ver o caminho percorrido. Ver o que teria sido diferente, voltasse o tempo atrás. Reiterar as coisas boas que o ano trouxe, as conquistas, os feitos, os actos enobrecidos, os contentamentos pessoais. E gizar planos. Os votos de feliz ano novo, para o interior de cada um e para os demais. Com a subjectividade da expressão. O desejo de bom ano novo é um cardápio aberto, deixado à consideração de quem se destinam os votos. Quando desejo feliz ano novo estou a dar a chave da liberdade de interpretação. Como quem diz: desejo-te bom ano novo, faz dele o que entenderes para que tenhas um ano pleno.

Ao dobrar o ano, sempre, planear um ano que nunca seja pior que o último. Na condescendência pessoal de pretender que a vida que dobra os anos é a escalada de uma montanha. Um acumular de feitos, na contabilização das virtudes individuais, o deve e haver dos momentos de felicidade que contrastam com momentos de tristeza. O esboço de um ano feliz, um ano melhor, deixa no ar a ideia de que ano após ano o balanço que se faz quando finda um ano há-de ser melhor. Daí a ideia de escalada. Com a passagem dos réveillons, sempre a convicção de que há mais para celebrar nos passos dados na edificação da felicidade pessoal.

Por vezes os planos saem furados. E o balanço de final de ano revela decepções dos trezentos e sessenta e cinco dias passados, saldo negativo no deve e haver de coisas boas e coisas más. Momento para evitar a fustigação do espírito, ou o derrotismo em que se mergulha, nutriente da desesperança, contagia os evitáveis momentos maus.

É no balanço de anos mais desafortunados que se redobra a busca de forças no mais recôndito do ser. Fazer das forças mais ténues musculadas energias para inscrever o ano novo na rota das sensações reconfortantes. Não pela convicção de que pior ano será tarefa impossível. Apenas pela vontade de saborear as coisas belas que a vida agracia. Para, trezentos e sessenta e cinco dias depois, ter na boca o doce sabor de um ano vivido com toda a força, sem lugar às frustrações tantas vezes aprimoradas sem razão aparente, que não seja o estúpido cansaço da felicidade que bafeja os dias solarengos que desfilam ao longo de um ano.

29.12.05

25% - a coutada da música portuguesa nas estações de rádio

A teimosia dos planificadores sociais, que continuam a acreditar que os problemas (muitas vezes por eles inventados) se resolvem à força de quotas impostas por decreto. Desta vez, os eméritos socialistas no poder lembraram-se de obrigar as estações de rádio a passar um mínimo de 25% de “música portuguesa”.

A expressão aparece grafada de propósito. Por um lado, ao ouvir e ler músicos de todo o mundo a reivindicar o espírito universal da linguagem musical, parece contraditório falar em “música portuguesa”. (Claro que alguns espécimes da indústria musical não se cansam de reclamar um estatuto privilegiado para a chamada “música portuguesa”, ou não fossem eles os principais favorecidos desse proteccionismo saloio. Vicissitudes do mercado que se lhes escapa entre os dedos: ou a ocasião para estender a mão a clamar protecção das autoridades.) Por outro lado, perante os irremissíveis os ventos da globalização é uma tontice reservar por lei uma coutada à dita “música portuguesa”.

Quando vejo o rótulo de “música portuguesa” usado com esta leviandade, as perplexidades saltam em catadupa. O que é a “música portuguesa”? Resume-se ao acto criativo de quem musica uma composição e escreve a respectiva letra? E, nessa hipótese, como qualificamos a nacionalidade de uma música se, no acto criativo, estiveram presentes artistas portugueses e de outros países? Qual o limiar de intervenção criativa para se considerar que a música é “portuguesa”?

Podemos ir mais longe nas dúvidas de qualificação. Se aceitarmos que a música não se resume à intervenção intelectual dos seus criadores, valendo também os contributos de técnicos de som, produtores, etc., a complexidade acentua-se. São inúmeros os exemplos de músicos nacionais que criam em Portugal e gravam em estúdios localizados no estrangeiro, com o auxílio de uma equipa de técnicos de outras nacionalidades. Também se pode falar de “música portuguesa”, passando por cima das contribuições importantes de todos os técnicos e do facto da gravação ter sido feita em estúdios estrangeiros?

A ditirâmbica medida dos planeadores socialistas esbarra no problema das quotas: como se justificam? Porquê 25%, e não apenas 20%, ou uma fasquia mais ambiciosa de 40%, decerto ao gosto do alegre candidato presidencial que mais fala em patriotismo? A explicação é linear: discricionariedade dos dirigentes. Não há critérios objectivos quando se definem quotas – seja nos mínimos da “música portuguesa” que as rádios devem passar, seja nas quotas que tentam forjar a igualdade de sexos. É uma questão de humores do momento. Alguém no governo terá sido sensível às pressões do lobby da “música portuguesa”. Cedeu à pretensão de fixar um mínimo para a “música portuguesa” que ressoa no éter. No dia em que o engenheiro social de serviço tomou a decisão, teve que escolher um número. Vinte e cinco por cento. Como podia ter sido outro número qualquer, que a subjectividade da escolha sempre seria o diapasão.

Fiquei sem perceber a intenção da quota: apenas um bacoco proteccionismo à indústria discográfica lusitana? Ou vai mais longe, procurando educar o rebanho que escuta as ondas radiofónicas, levando-o a comprar mais “música portuguesa”? Se este é o propósito, duvido que seja atingido. Por mais que os socialistas que conduzem a nau esbracejem com medidas inusitadas do tipo, por mais que tentem remar contra os ventos da globalização (musical), a aspiração está votada ao fracasso.

Estes planificadores sociais, sempre de régua e esquadro na mão, moldando os detalhes do que sabem ser a sociedade perfeita, não se cansam de trabalhar em prol do colectivo. São uns filantropos, eles que podiam usar as suas capacidades intelectuais acima da média noutros domínios. Como é tão meritória a sua entrega à causa pública, deixo aqui uma sugestão para que a eficácia da medida em discussão seja maior. Faça-se um controlo apertado das compras de música dos cidadãos nacionais. Imponha-se a mesma bitola: que os portugueses sejam obrigados a comprar pelo menos 25% de “música portuguesa”, ou os seus impostos serão agravados no final do ano. Um rebanho tem que ser conduzido pelo caminho certo. Que, há que o relembrar, é sempre vigiado pelos cães de guarda, perdão, pelos incansáveis dirigentes que planeiam as coordenadas de uma sociedade perfeita.

Só há uma coisa que me causa espécie: se o ser humano é tão imperfeito, como pode a sociedade humana aspirar à perfeição?

28.12.05

O preconceito das fortunas

Ruben de Carvalho, religiosamente militante comunista, escreveu o seguinte na habitual crónica de domingo no Diário de Notícias:

Mas a verdade é que se alguém que amealhou o que oitocentistamente chamaríamos "vastos cabedais" resolve comprar quadros e esculturas, desenhos e gravuras, mobiliário de estilo e cerâmicas em vez de Ferraris e Lamborghinis, acho que a diferença lhe é francamente favorável. Se depois, em vez de alugar o autódromo do Estoril para ir com meia dúzia de enricados experimentar as "máquinas", entende expor as suas compras, abrir um museu, ou dois ou três – melhor ainda.

O cronista opinava sobre a polémica da colecção Berardo, que esteve quase a abandonar o rectângulo pátrio devido à incompetência dos burocratas do ministério da cultura – tão zelosos na guarida da cultura nacional e, no entanto, tão empenhados em exercitar egos pessoais que estão acima do património cultural. Ruben de Carvalho elogiava Joe Berardo, que enriqueceu e não desatou a comparar “Ferraris e Lamborghinis”, dedicando-se à nobre actividade de amealhar um invejável pecúlio de arte.

As frases de Ruben de Carvalho suscitam-me dois comentários. Primeiro, a congénita repulsa perante as manifestações de riqueza alheia. O cronista pressupõe que a fortuna, quando ultrapassa um certo limiar (que, para informação dos ingénuos, bom seria que fosse quantificado), é perversa. Por isso é que informei, a abrir o texto, que Ruben de Carvalho é um devoto militante comunista. Daqueles que parou no tempo e continua a acreditar na cartilha marxista-leninista divulgada nos anos 60, 70 e 80. Ignora que o comunismo em que acredita foi banido, restando uns “oásis” que vegetam como curiosidades antropológicas. Ruben de Carvalho, e os empedernidos comunistas, têm direito à sua fé ideológica. Apenas se dispensavam os arrotos que permanecem agrilhoados a quadros mentais que se vão perdendo com o fio da memória.

Estes comunistas continuam a acreditar que a riqueza é um malefício que deve ser combatido. Ainda e sempre fiéis às máximas marxistas: o conflito de classes, o materialismo histórico, a opressão de um numeroso exército de pobres por uma elite de muito ricos. Os desvios do passado não lhes causam repulsa: a confiscação de riqueza, versão moderna do Robin dos Bosques em pré-graffitis espalhados pelas paredes nos tempos pós-revolucionários: “os ricos que paguem a crise”. Pergunto: e quando a crise não existe, os ricos pagam o quê?

Que moralidade têm estas personagens para julgarem a forma como os outros usam o seu abundante dinheiro? Que superioridade intelectual para censurarem os rios de dinheiro que os abastados gastam em coisas comezinhas – sejam “Ferraris e Lamborghinis”, iates, festas de ostentação, exibicionismos pueris, sexo barato com mulheres caras, o-que-quer-que-seja? Podemos convergir (eu e Ruben de Carvalho) na identificação do que é ostentação; podemos ambos concordar que na posse de tanto dinheiro não nos prestávamos às figuras ridículas que tantas vezes os “enricados” se prestam. Onde divergimos, eu e Ruben de Carvalho, é na aceitação do livre arbítrio de cada um, que está acima de qualquer pretensa “responsabilidade colectiva”: Ruben de Carvalho enfatiza a responsabilidade colectiva e asfixia o livre arbítrio de cada pessoa. Com as consequências torcionárias tão conhecidas.

Segundo comentário, acerca de mais uma alegada ilustrarão da superioridade das esquerdas: a pretensa imunidade ao preconceito. Que, afinal, é uma falácia num só acto. As afirmações de Ruben de Carvalho demonstram como um dos sacerdotes da ortodoxia comunista perfuma o seu raciocínio com a aleivosia do preconceito. Como quem diz: “eu acho que as fortunas dos multi-milionários são de desconfiar”, uma desconfiança metódica. Mas se os multi-milionários desatam a comprar arte em vez de ostentarem bólides, beneficiam de alguma complacência. E eis como, desembrulhado o papel de celofane que corporiza a imagem de pessoas descomprometidas com o preconceito, os comunistas que ainda vivem no passado não conseguem escapar ao preconceito.

Aliás, ninguém consegue fugir ao seu pecadilho preconceituoso. Uns admitem-no, outros vangloriam-se de serem os campeões do não-preconceito, sem darem conta de como se embrulham na maior das contradições.

27.12.05

Um país sisudo

Era uma vez um país. Jovem democracia, outra vez entretida numa campanha eleitoral, agora para escolher um presidente da república. Um país latino, sangue quente na guelra, emoções à flor da pele. E, no entanto, um país apático. Um povo carrancudo, pouco sensível ao humor (quantas vezes não ouvimos vituperar as tentativas de humor – por piores que sejam – apenas porque “com esse tema não se brinca”). Um povo latino com viver gélido.

A colheita de candidatos presidenciais teria que emular os eleitores: tristonhos, enfadonhos, sem sentido de humor, incapacitados para brincar com as suas próprias figuras. Levam-se muito a sério. Alguns fazem-no porque os colocaram num patamar acima do cidadão comum. Um, o salvador, a versão moderna do sebastianismo perene, o fio condutor da portugalidade perdida. O outro, emproado na condição de dono da república, sacudindo a poeira de uma reforma dourada, para nos salvar do salvador. Os demais, candidatos satélites que gravitam em torno das figuras tutelares. Um ponto comum a todos eles: sensaborões, apoplécticos perante a surpresa, como a iniciativa de uma casa de apostas austríaca que é o principal patrocinador do campeonato de futebol: organizar uma bolsa de apostas sobre as eleições presidenciais.

Os candidatos não demoraram a protestar a sua pudibunda condição. Ofendidos, com maior ou menor esbracejamento verbal, em uníssono contra os seus nomes nas apostas. Todos, sem excepção, mostraram como estão mergulhados na menoridade cívica. Para além de uma confrangedora falta de humor, suas excelências reagiram como se a figura do candidato presidencial estivesse numa campânula que a coloca a cobro de intenções maléficas. Como maléfica parece ser a intenção desta bolsa de apostas…

Fôssemos uma democracia já na maioridade, tivéssemos uma cidadania plena, com direitos e também assunção de deveres, e as melindradas figuras que se candidatam à sinecura não teriam reagido como se virgens pudicas fossem, formiguinhas belicosas em defesa da honra beliscada. Houve quem tentasse demonstrar que bolsas de apostas sobre eleições existem em tantos países, quase todos eles mais “civilizados” e “avançados” do que nós. Perda de tempo. Do alto da nossa idiossincrasia, o que interessa é não ofender o bom-nome dos candidatos presidenciais, isso sim mais importante do que rivalizarmos com outros países que se dizem mais “civilizados” e “avançados”. No rescaldo, a certeza de que ficamos a perder neste campeonato.

Um candidato – o patriarca da república, quem mais poderia ser, já habituados às suas tiradas patéticas que passam incólumes – anda tão desorientado, que se saiu com uma afirmação desbragada: sentenciou que as apostas se fazem com corridas de cães e de cavalos, não com pessoas. Tantos equívocos: esquece-se que o totobola existe e que consiste em tentar adivinhar o resultado de jogos de futebol, um desporto que não envolve, de todo, cães ou cavalos…Se sua excelência não ficasse ofendida acaso lesse estas palavras, diria que a comparação que fez só desabona os cães e os cavalos!

Sem perda de tempo, a comissão nacional de eleições verteu douta ciência: que estas apostas eram ilegais, escudando-se em inúmeros pareceres de um escol de eminentes juristas – esses especialistas da hermenêutica, mestres na arte de dar pareceres que conseguem interpretar em sentido antagónico a mesma palavra. A Betandwin acabou por desistir da bolsa de apostas, não fosse ferir mais susceptibilidades. Para azar dos candidatos e dos defensores do seu bom-nome, ontem vi uma reportagem televisiva que deu notícia de outros locais na Internet que organizam o mesmo tipo de bolsa de apostas.

As autoridades começam a perceber que nada podem contra a multiplicação de bolsas de apostas onde os candidatos presidenciais se expõem aos devaneios de apostadores que não se importam de torrar dinheiro nas probabilidades dos candidatos. As autoridades, e os candidatos a darem o exemplo, deviam ter percebido que a reacção despropositada só aguçou o apetite pelo fruto que eles fizeram proibido. Cavaram a sua própria sepultura, no ridículo de quem dá importância ao que menos importa numa campanha eleitoral desinteressante para uma eleição sem importância.

Pena não termos humoristas do calibre dos que fizeram os Monty Python. Este episódio dava pano para mangas para um delicioso sketch a parodiar a disparatada reacção dos excelsos candidatos presidenciais à iniciativa da Betandwin. Isso, ou o grande Manuel João Vieira figurar no lote de candidatos presidenciais, para dar um toque de humor à coisa.

26.12.05

Um conto de natal (uma imagem ingénua, que se desfaz)

Um natal branco. Por um momento, enganar as leis da física e abrir uma porta ao ar polar que trouxesse um manto branco a estas paragens. Verias como as árvores se vestiam de branco, carregadas pela neve caída durante a noite. Sentirias a alvura dos flocos aspergidos suavemente, pousando no teu nariz enregelado. E brincavas, moldavas bonecos na neve deitada no chão, atiravas bolas de neve que se esborrachavam na minha cara, para teu deleite.

Resguardada no calor da lareira, recuperavas do torpor gélido que se tinha apoderado. Na televisão, os habituais filmes da quadra. As evocações da lenda natalícia, os artistas de variedades que cantam em espectáculos de voluntariado natalício, o pai natal das notícias que já vinha a caminho, montando na parelha de renas. As renas. Sabes da existência das renas pela referência natalícia, pois nunca viste nenhuma em carne e osso. Começas a questionar porque só vês o pai natal, essa barriguda figura com umas barbas farfalhudas que deposita os presentes e não se demora. Ficas intrigada porque nunca te é dado ver as renas, algures estacionadas enquanto o pai natal, carteiro muito sazonal, entra pela chaminé. Ainda por cima para se entaramelar na fuligem, o que te deixa ainda mais perplexa: o pai natal, sempre limpo, como não se suja na fuligem acumulada na chaminé?

Aprendes que o natal é uma época de concórdia. Ouves alguém dizer que se celebra o nascimento de Jesus. Outros dizem que é a festa da família. Há-de levar tempo até encontrares o discernimento para a tua escolha, do significado do natal. Na inocência da tua tenra idade, o natal é apenas uma ilusão semeada no beiral da árvore enfeitada. Enquanto vais demorando o tempo na descoberta dos brinquedos que te calharam em sorte, vês os maiores num constante vaivém entre o sofá e a mesa, perdendo-se nas doçarias da época.

Quando fores crescendo, irás perceber que o natal é diferente. Sentido que varia com a passagem do tempo que preenche a tua vida. Irás perceber que, no natal, as pessoas esquecem desavenças por dois dias. Vivem inebriadas com o espírito da quadra e reconciliam-se com elas mesmas. Esses dois dias são a amostra do que não é o resto do ano. Ainda possuída pela ingenuidade dos verdes anos, interrogas-te porque não podem as pessoas ser assim no resto do ano. Ficas sem perceber que estúpida maneira de viver é esta, o mergulho no abismo que traz as consumições e semeia a infelicidade. Se, afinal, bastava prolongar o espírito do natal pelos outros dias que faltam para chegar ao próximo natal.

Hás-de crescer, e perder a ingenuidade que te protege do mundo como ele é. Concha protectora, que só existe com a inocência da tenra idade, desmorona-se à medida que fores abrindo os olhos para o que te rodeia. Verás então que o natal é uma fantasia. Chegará o momento em que me darás netos, os teus filhos. Ensejo para reiterares os usos, a falácia do pai natal, as fantasias que preenchem o imaginário das crianças para quem a aproximação do natal é o apogeu de um ano inteiro. Resignada a remares para o lado da maré, ou a custosa factura do desalinhamento que povoa os dissabores que, com o cansaço, queres evitar.

Recuemos no tempo, até hoje. É o melhor natal que podes viver: na ininteligibilidade da quadra, apenas com a ternura dos que te são queridos. Sem amarras, nem dogmas, ou sequer ânsias materiais. Apenas os sorrisos embevecidos dos que te vêm crescer, essa, a melhor prenda que podes trocar com as pessoas que te rodeiam. Um natal de laços que mil palavras tornam inconsequente descrição. Laços que se sentem sem se descreverem, saciando a fome de um natal imemorial.

23.12.05

O natal contado às criancinhas (versão surrealista)

- Asking for permission to take off, diz a voz cavernosa do pai natal.

- OK. Details on your flight conditions?, é retorquido da torre de controlo.

- Animals’ wings checked. All things right, informa o pai natal, olhando para o relógio com o receio de se atrasar.

- Clear to take off. Have a nice journey! Hope children get happy with gifts delivered!, deseja o controlador aéreo.

As renas fazem-se à pista, tomando lanço para uma descolagem de sucesso. O lastro é muito, tantas as prendas arrumadas no porão do trenó. O capitão, vestido de pai natal, verifica as condições atmosféricas. À sua frente uma nuvem plúmbea faz desconfiar de tormenta a evitar. Confirma os dados no radar: ventos fortes e gelo no interior da nuvem aconselham a contorná-la. Não vá dar-se o caso das crianças alvejadas por este trenó ficarem desconsoladas se ele não fosse aspergindo a felicidade nas casas que o roteiro prevê visitar.

Pelo caminho, as renas cruzam-se com cegonhas que trazem no bico nascituros quase a ser depositados no berço, junto aos seus progenitores. Dupla prenda natalícia. O espaço aéreo está sobrelotado: dá-se a coincidência desta noite ter um inusitado tráfego de cegonhas, com destino marcado para África e Ásia, pouco para a Europa tão carenciada de bebés.

O franchising do pai natal pôs este ano no ar quase 230.000 trenós. Foi difícil arranjar tanto pai natal disposto a prescindir do conforto da ceia natalícia para espalhar a felicidade pelos lares que esperam, com ânsia, as prendas prometidas. As condições de trabalho vão piorando: a empresa que ganhou o concurso público para o franchising está em contenção de custos. Já não há actualização de honorários há três anos. O sindicato dos pais natal ameaçou fazer greve, mas à última da hora imperou o bom senso. O sindicato anuiu que não podia sacrificar as crianças, inocentes apanhados no meio do vendaval entre a empresa e os timoneiros dos trenós carregados de embrulhos.

As renas deste ano são de uma excelente colheita. Os treinos deixaram a promessa de uma tarefa esmerada, diligente, rápida e eficiente. Foram alimentadas com os melhores nutrientes, aconchegadas em estábulos de primeira qualidade, tiveram tratamento requintado. Mal sabem que na voragem natalícia de todos os anos, estreiam-se e logo a seguir são encaminhadas para a viagem final, destino matadouro. Estão prometidas para os restaurantes e lares nórdicos, em estufados servidos com molho de frutos silvestres e creme de natas azedas. A colheita das renas que puxaram trenós é sempre a mais desejada. A viagem pelos ares gélidos amacia a carne.

(Para que tudo corra bem no idílico cenário de natal, espera-se que uma criancinha precoce não levante interrogação pertinente: “papá, como é que as renas voam se não têm asas?!”)

Descobriu-se que o pai natal é a encarnação de Karl Marx, uma conspícua lucubração para minar o capitalismo por dentro. Ou será Marx um agente infiltrado para convencer os detractores do capitalismo da alternativa por ele idealizada, quando, afinal, sendo a personificação do pai natal, se vem a concluir que Marx era um expoente do malfadado capitalismo? Na dúvida, a barbuda figura não é aconselhável a quem tanto desconfia de Marx como ícone de uma ideologia abortada – uma ideologia que, na cabeça do líder do CDS-PP, é a fonte do terrorismo que nos inquieta (como se mais inquietantes não fossem as teorias absurdas do apatetado líder político).

Este ano espera-se que as renas não encontrem detritos no espaço aéreo. No ano passado o lixo aéreo teve uma intensidade anormal, coincidindo com a noite de 24 de Dezembro. Muitas renas tropeçaram nos resíduos que enxameavam os corredores aéreos, com muitas unhas encravadas que obrigaram a escalas técnicas inesperadas em aeroportos intermédios. Espera-se que o ar esteja mais límpido, para as demoras do ano passado, que tantas angústias semearam entre os irrequietos petizes, não se repitam.

O franchising de natal cuida de todos os pormenores para que a tarefa seja bem sucedida. As renas foram instruídas para não se assustarem com o cenário dantesco e contra-natura que pode, com grande probabilidade, preencher as ruas de uma grande cidade do norte de Portugal. Os pais natal dos indefectíveis adeptos do clube mais representativo da região trajam de azul. O vermelho é cor diabólica, vestida pelos arqui-rivais que os fervorosos adeptos azuis e brancos querem ver “a arder”. Nem o pai natal escapa à cegueira. Por aquelas terras traveste-se de azul e branco.

Ora isto que causa engulhos a Karl Marx, que afinal ainda não morreu, como se comprova pela reincarnação na pagã figura natalícia. Marx, vermelho, comunismo, pai natal vestido de vermelho. Suspeito que esta história do pai natal, até pela carga pagã que subverte o significado religioso da quadra, é uma conspiração comunista para nos convencer, desde a tenra idade, que Marx tinha razão no seu retrato do mundo. Cuidado com o natal!

22.12.05

Natal mercantilista

Estranha coligação: católicos e profundamente ateus, em uníssono, na denúncia do adulterado espírito do natal. Sublevam-se contra a transformação do espírito natalício num acto de consumismo desregrado. Os interesses que os motivam diferem, contudo.

Os católicos, embrenhados no significado do natal, movem-se contra a metamorfose da quadra, transformada num acto contínuo de dar e receber, perdido o rasto às origens religiosas. Estão contra a paganização do natal. Os profundamente ateus protestam contra a mercantilização da quadra, dirigem o olhar noutra direcção. Concentram-se no infernal consumismo, expoente do contagiante capitalismo que nos cerca por todos os lados. Apontam o dedo à materialização das relações humanas, com sinais mais evidentes em épocas onde se fixou a obrigação de trocar presentes. E culpam o capitalismo, as empresas que produzem coisas quantas vezes supérfluas, na busca incessante do lucro. Esse capitalismo nefando, que coloniza as mentes que se abraçam à tentação do consumismo fátuo.

Andam de braço dado, católicos e arautos da alternativa que se desconhece à combatida globalização. E, contudo, a mercantilização do natal é de enaltecer. Enveredar por um caminho que aparenta alguma insensibilidade pelos valores desmaterializados pode parecer um salto em frente num precipício gigantesco – mais uma vez, o precipício do discurso do politicamente correcto. Arrisque-se a homérica tarefa.

Arreigou-se um uso social: natal exige troca de prendas, desde as mais nutridas que delapidam a carteira, às mais simbólicas. Uma lista infindável, um desafio à imaginação, convocada a desfiar as possibilidades que se encaixam no perfil das pessoas presenteadas. Que se chegue à frente a primeira pessoa que não ficaria ofendida acaso estivesse à margem do comércio de prendas natalícias. Esta troca de prendas é uma troca de afectos. Materializados os afectos, decerto, mas a expressão de um sentimento por quem recebe os presentes. O lugar-comum ensina que é a intenção que conta, não o valor, nem a utilidade, do que se oferece. Há muito subjectivismo neste lugar-comum: parece um escudo que defende quem oferece, desvalorizando a reacção de quem recebe.

Para os líricos que sublinham a pureza dos sentimentos, o natal seria feito de actos mais singelos: um afago, uma palavra de ocasião, gestos que enobrecem a pureza das relações humanas. Uma forma de desmaterializar o natal, de diluir a faceta mercantilista que o domina. Suspeito que são minúsculas vírgulas num livro de largas centenas de páginas. Vãos remos contra uma poderosa maré. Motivados por preconceitos ideológicos, vendo no dinheiro a fonte de todos os males, denunciando a corrupção de nós mesmos quando nos deitamos na cama do consumismo. Os costumes mudam com o tempo. O natal de hoje é diferente do natal de antanho.Ver na mercantilização do natal um sintoma da doença geral do mundo contemporâneo é uma visão estreita e interessada. Comandada pelos preconceitos de ideias que promovem a grande teoria da conspiração, como se as empresas que querem vender sempre e mais fossem as forças vivas que empurram os cordeiros consumidores para a negação das pessoas que são.

Ver no consumismo um sinal de destruição das pessoas, pela materialização que delas se apodera, é descrer no livre arbítrio de cada um. Tudo se passa como se as empresas, com a enxurrada de bens de consumo, reduzissem o livre arbítrio a nada. Acreditar nisto é a expressão máxima da mesquinhez. É elevar ao alto a ignorância que vêm à superfície quando a cegueira dos preconceitos não deixa ver nada mais. É ignorar que as empresas que colocam no mercado os malditos bens de consumo não são entidades desfiguradas, são, elas também, compostas por pessoas.

A mercantilização do natal não é coisa de desmerecer. O natal é feito para as pessoas, pelas pessoas. E se acaso estamos possuídos por estes usos sociais, que se saiba que eles foram moldados por pessoas que, ao longo do tempo, afinaram a bússola dos costumes no sentido que agora se conhece. Podem alguns não gostar – ora por homenagem aos dogmas da religião em que crêem, ora dominados pelos preconceitos das ideias que os cegam. Saibam respeitar a autonomia do indivíduo, e decerto compreendem que o natal seja o reinado do consumismo. O segundo acto da paganização natalícia, apenas.

21.12.05

Revistas cor-de-rosa: voyeurismo ao contrário

Ao caminhar na rua, o olhar desvia-se para o escaparate de um quiosque. Uma pulsão suicida levou o olhar a cruzar-se com a capa de uma famosa revista cor-de-rosa espanhola. A manchete principal retrata um casal que, suponho, esteja na berra da movida social. Retratam-nos no rescaldo de um romântico passeio a cavalo. Lá está o casal, olhar romântico entrecortado com uma azinheira em pano de fundo, as rédeas dos equídeos ainda na mão, um pôr-do-sol comme il faut.

Tanto se fala da privacidade da vida pessoal, e as revistas cor-de-rosa esmeram-se por destruir o mito pela raiz. São vidas desnudadas, expostas à curiosidade de um público voyeur que desfolha páginas com avidez, em busca do último gossip, para ver as fotografias que imortalizam um acontecimento que tem de tão importante como de fútil. A antropologia das revistas cor-de-rosa daria pano para mangas. Para aquilatar o perfil médio do consumidor do produto, um misto de fábrica de ilusões e de curiosidade em esventrar a vida alheia. Não é de hoje, a vocação coscuvilheira de um povo no feminino.

Para além da necrófaga tentação de vasculhar a vida alheia, intriga-me mais a apetência das personagens do pretenso jet-set para se exporem aos olhos de devassidão dos habitués destas revistas. Gostam de partilhar com o povo as fotografias dos seus casamentos, das suas idílicas luas-de-mel, dos passeios românticos, do nascimento da prole, da festança farta por ocasião das bodas de prata. São momentos que pertencem ao património pessoal, que por norma é partilhado com as pessoas mais chegadas. Para as personagens do pretenso jet-set, esses momentos perdem a sacralidade do pessoal e vêm para a praça pública, a troco de uns cobres que compram a publicitação do que deixou de ser íntimo, ou só por deixarem o umbral do anonimato.

Causa-me espécie como se expõem à mercantilização de momentos marcantes no percurso da vida de cada um. Podem argumentar que são figuras públicas, que o público exige a exposição da sua vida pessoal, nos aspectos mais comezinhos que deviam ficar resguardados na intimidade. Podem dizer que, sendo públicas figuras, carregam às costas a cruz da acrescida responsabilidade perante o público que os venera. Daí ser exigível a partilha das suas vidas, mesmo de alguns aspectos íntimos, com o público sedento de imaginar que através das páginas das revistas cor-de-rosa entra nas vidas destes figurões.

São pretextos para a narcísica tendência de enxamearem o espaço público com retratos seus. Desculpas para embolsarem maquias fabulosas com exclusivos de momentos únicos nas suas vidas. Para mim, apenas uma estranha forma de voyeurismo. Não do voyeurismo banal, que leva pessoas alcoviteiras a fazerem de conta que não têm vida própria, tantas são as energias consumidas na ilusão de que têm uma vida parecida com a vida de conto de fadas destas figuras públicas. As revistas cor-de-rosa são um antro de voyeurismo: dos milhares que as consomem em busca de mais pormenores da vida pública das públicas figuras que preenchem a ilusão do jet-set; mas também voyeurismo de quem expõe a vida pessoal aos olhos de um bando de abutres que se sacia com as histórias das vidas dos outros.

Há um bando de aspirantes ao reconhecimento social (no contexto do pretenso jet-set fétido): têm o momento de glória quando aparecem numa fotografia, nem que seja numa qualquer festa das muitas onde se pavoneiam adulteradas vaidades pessoais e futilidades sem fim. Outros, já alcantilados ao papel de protagonistas do tal jet-set, alimentam as revistas cor-de-rosa e alimentam-se com a sua persistente aparição nas revistas. Não percebem como são os maiores voyeurs da praça, ao oferecem em bandeja as suas vidas desinteressantes à turba que vai, aos magotes, em busca da última história desinteressante. Todos alinham a bitola bem por baixo.

A fobia da exposição pública dos protagonistas, perenes ou ocasionais, do congeminado jet-set tem o seu quê de pornográfico. A indústria está montada para formatar o “pensamento” das massas que consomem as revistas cor-de-rosa com voracidade. Os próceres do jet-set, com a vida devassada com o seu consentimento, são como actores de filmes pornográficos que tudo mostram na sua arte. É um perverso voyeurismo, que vem de dentro para fora, contrariando o que é normal (o voyeur espia a vida alheia). Prefiro a genuinidade da pornografia.

20.12.05

Desconcertação social

Todos os anos, quando o velho ano definha e se apresta a dar lugar ao novo ano, o folclore das negociações de concertação social. Governo e sindicatos da administração pública, frente a frente, num round condenado ao insucesso. E, todavia, o folclore repete-se. As partes negoceiam aumentos salariais para o ano vindouro. Tão distantes nos pontos de vista, à partida como à chegada.

Todos os anos, a concertação social salda-se pelo desentendimento. Resta o folclore: o governo, independentemente da cor política, na imagem de magnanimidade; os sindicatos de goela aberta, sempre com a certeza de que têm direito a reivindicar aumentos salariais além do razoável, e sempre com a percepção de que tais reivindicações não serão atendidas, arrepiando caminho ao que eles mais gostam de exercitar – os conflitos sociais alimentados pelas greves. Concertação social: um instrumento espúrio, uma fogueira de vaidades onde os protagonistas esfregam o ego de quem aparece perante as câmaras da televisão a fazer de conta, apesar de saberem que as negociações estão votadas ao fracasso logo à partida.

Discutem os parceiros sobre regalias de privilegiados. De uma casta que tem vantagens acima da média, ainda por cima sem se fazerem merecedores de tais privilégios. Quem quer um prémio sabe que tem de batalhar por ele, quantas vezes arduamente. Os funcionários públicos são uma casta à parte. Garantem-se-lhes todas as regalias pensáveis e impensáveis, porque só existem direitos e raramente deveres. Um caminho que só se faz andando para a frente, já que nisto dos direitos adquiridos convencionou-se que o caminho não tem retrocesso. Com o resultado que se conhece: a função pública não pede meças à produtividade; e campeia a mediocridade, com prejuízo para os utentes.

É nestas alturas que a azia investe, furiosa, no meu estômago. Quando vejo sindicalistas que dão pelo nome de Trindade ou Picanço esgadanharem teorias sinuosas que pretendem mostrar o indemonstrável, com a sagacidade de quem vende banha da cobra a um bando de acéfalos – todos nós. Questione-se outro direito adquirido: a dispensa de serviço dos senhores e senhoras sindicalistas, pois sendo (supostamente) representantes dos trabalhadores dedicam-se a cem por cento a essa tarefa. Não exercem outra função senão sindicalizar. Têm garantido o seu posto de trabalho, acaso algum dia regressem à odiosa lufa-lufa diária dos seus representados (coisa improvável, a constatar pela reiteração das caras que aparecem, ano após ano, como porta-vozes sindicais). São pagos para terem uma vida regalada. Por nós, oprimidos contribuintes.

Quando os ouço a falar com a persuasão de quem tem certezas inquebrantáveis, e quando me recordo de episódios vividos em serviços públicos, a primeira coisa que me ocorre é fazer uma colecta para pagar a reforma dourada, bem longe daqui, a estes lídimos representantes do parasitismo. Haverá ainda tempo para mudar mentalidades, para convencer descrentes que é o mérito que deve ser premiado – e não as virtudes estáticas das “conquistas de Abril”, dos direitos adquiridos que não podem ser beliscados mesmo que haja razões para isso?

Dou um exemplo de como os funcionários públicos não merecem ser compensados pela bitola que o governo alinhava (quanto mais pela delirante bitola dos sindicatos). Da última vez que tive o incómodo de me deslocar a uma repartição de finanças – bendita Internet que nos poupa milhentas idas às finanças! – assisti à habitual indiferença de quem se acha convencido que está ali para ser servido pelos utentes, não o contrário. Fui às finanças com um objectivo cristalino e nada burocrático: pedir uma declaração para entregar na segurança social, que por sua vez iria emitir uma declaração para depois entregar nas finanças…

Tirei a senha. Estavam sete pessoas à minha frente. No balcão do IRS, duas funcionárias iam atendendo, com um indisfarçável esgar de sacrifício, os contribuintes que apareciam pela frente. Terá chegado a hora da interrupção matinal. Uma das funcionárias virou costas e alou para o café. Pouco importava que estivessem quase dez pessoas em espera. Elas que esperassem: a pausa matinal era prioritária. Só regressou ao trabalho meia hora mais tarde.

Que ninguém ouse questionar o inalienável direito da funcionária pública à pausa a meio da manhã, pois trata-se de um direito adquirido. Que tem mais força que a qualidade do serviço que se espera que aquela senhora, e os seus colegas, prestem a contribuintes confrontados com a inevitabilidade da deslocação às finanças. A isto chama-se negação da produtividade, incúria, desrespeito pelo utente. Casos destes merecem aumentos salariais zero, na melhor das hipóteses. E mostram como a teimosia na concertação social é desconcertante.

19.12.05

Flatulência e as absurdas convenções sociais

Entretida com um brinquedo, a minha filha solta uns sonoros gases. Esboça um sorriso de satisfação. Não porque as pessoas que a rodeavam se riram pela melodia engatilhada da flatulência. Ria-se de satisfação: aqueles gases eram sobras inúteis que o organismo guardava. O ar de prazer testemunhava a necessidade em libertar a flatulência. Afinal um desperdício, acaso seja obrigado a permanecer comprimido nas entranhas.

Revejo o episódio: as pessoas olharam para a minha filha e acharam graça à façanha sonora. Ponho-me a pensar se eu tivesse sido o artista da flatulência. Adivinho os olhares da censura social a caírem sobre mim, pela ousadia misturada com falta de educação. Convenções sociais exigem comportamentos formatados. Algures no passado, convencionou-se que os gases intestinais não podiam ser libertados em público. Pelo ruído que envergonha, mais pelo odor pestilento que certa flatulência empresta à atmosfera.

Faça-se uma comparação com o tabaco – e estou à vontade por me causar espécie a perseguição feita aos tabagistas: as mesmas convenções sociais que erguem o dedo aos gases que escapam dos intestinos, porque o ar empestado obriga a suster a respiração às vítimas, nada dizem quando um fumador solta golfadas carregadas de fétida nicotina. Os fumos que se desprendem das cinzas do tabaco rivalizam em pestilência com a variabilidade de aromas flatulentos. Têm o beneplácito dos usos sociais, dada a má convivência dos usos com a matéria escatológica.

Entre muitas razões, convenções sociais inoportunas e incoerentes fazem de mim a antítese de um conservador. Não percebo porque as pessoas se embevecem com a flatulência dos petizes e fazem um esgar de reprovação se acaso um impertinente adulto é apanhado no alçapão de sonoro gás vindo das entranhas. Dir-me-ão que um bebé não sabe o que faz, que ainda está nas trevas da racionalidade, tudo se lhe perdoa enquanto não passou pelo crivo da educação formatada. É um argumento incompreensível. As crianças de tenra idade estão longe da domesticação educacional; é isso que permite compreender o que é genuíno num ser humano longe do espartilho da socialização. Os bebés soltam os gases intestinais, metem o dedo no nariz, fazem ruídos com a boca que fossem feitos por um adulto o colocavam no limiar do internamento num hospício. São genuínos, não autómatos que seguem a marcha ordenada sem poderem passar o risco do tolerável pelo comportamento em sociedade.

A flatulência é vedada em público. Remetida para a intimidade do ser. Só aí nos é dada a liberdade de esvaziarmos as ventosidades que vagueiam, desnecessárias, pelas entranhas. O que nos é permitido fazer no refúgio de nós, sem ninguém à volta para denunciar a selvática demissão dos usos sociais, é um bálsamo para o reduto da nossa individualidade, uma fuga da socialização forçada a que somos remetidos. Na cela individual onde só cabe o nosso eu vivem os trogloditas maneios denunciados por zelosos fiscais dos costumes sociais. Quando somos respeitáveis seres sociais, prestando tributo às convenções, somos indivíduos espartilhados, lutando contra as forças indomáveis que vagueiam dentro de nós.

Os costumes sociais são voláteis no tempo. Coisas que nos são vedadas eram vulgares outrora. Ficamos mal no retrato se queremos urinar na rua, ou escarrar no chão (excepção aberta aos futebolistas), ou comer de boca aberta, ou poisar os cotovelos em cima da mesa à refeição, ou palitar os dentes depois de um lauto jantar. Algumas destas coisas eram corriqueiras no passado. Agora deixaram de o ser. Outras que eram intoleráveis são agora usuais. São modismos, tropismos que vão e vêm com as folhas do calendário que se desprendem.

Outras convenções sociais variam no espaço. Por cá, os arrotos são imagem de deseducação, uma espécie de flatulência que em vez de sair por baixo se solta por cima – mas também ela ventosidade que povoa inutilmente o organismo, à espera de ser expelida para o exterior num intenso alívio. Os árabes – ora vistos como civilização mais avançada, ora como ilustração das trevas civilizacionais – eructam no fim de uma refeição como sinal de aprovação pelo manjar oferecido pelos anfitriões. Ao mesmo tempo, sinal de agradecimento pelo convite para amesendar em casa alheia. Não soltar um sonoro arroto é um acto de má educação e sinaliza a má qualidade da refeição posta na mesa. Por cá, a eructação é um não uso social.

Lá como cá, apenas uma convenção, uma imposição incindível vinda do passado sedimentado, que ordeiramente acatamos para não sermos votados ao ostracismo social. Sinal da ditadura social que aniquila a essência de cada indivíduo.

16.12.05

Lutador

Repousas, com a serenidade que te é permitida no sossego do ventilador. Enquanto o teu corpo luta para vencer mais uma armadilha da doença, a tecnologia dá-te o descanso da respiração assistida. Um descanso merecido, para um guerreiro que tem dobrado batalhas ínvias, numa permanente dialéctica entre a vida e a morte.

Nem sei quantas vezes o ritual passou diante dos teus olhos. Análises ao sangue, exames sem conta, médicos que te olham apenas mais um paciente entre milhares que lhes passam pelas mãos, a agulha espetada na veia que traz o soporífero que te anestesia para mais outra cirurgia. E tu resistes. Continuas a olhar de frente a adversidade que não te tira a placidez. Lutas contra a dor, com a coragem de quem quer sofrer sozinho o sofrimento que te consome.

Uma lição de vida. O paradigma de como a vida tem que ser vivida em todo o seu esplendor, por todos os instantes que são dádivas para quem continua a poder respirar. Será um lugar comum: bem verdade que aprendemos a dar valor às coisas quando elas ameaçam escapar-se por entre os dedos, como vento fugidio que queremos, mas já não podemos, agarrar. É aí, quando uma página se dobra sem poder voltar atrás, que vemos no exemplo dos outros o roteiro que devemos calcorrear nos dias que hão-de vir. De nada vale olhar para o tempo que passou, contar as maleitas que te trouxeram o sofrimento, e aos que te são queridos o desconforto e angústia de te sabermos sofredor. O que interessa é saber que chegaste aqui. Apesar de tudo. És a imagem viva de quem não se deixou derrotar pelas ratoeiras semeadas no caminho.

Às vezes, em momentos de desânimo, penso no que já passaste e pergunto-me se vale a pena tanta desdita, tanta rotina de hospitais, médicos, diagnósticos, esperança que trazemos debaixo da língua como aqueles comprimidos milagrosos que cerceiam a dor lancinante que vem sem se saber de onde. As interrogações dançam de um lado para o outro, com a velocidade vertiginosa de quem quer viver a vida a toda a velocidade, na estúpida maneira de viver de que assim vive, sabendo que por mais depressa viver encurta a hora de deixar a companhia dos vivos. Interrogo-me se compensa tanto lutar contra as contrariedades que a doença espalha. Pelo sofrimento de quem luta, quantas vezes numa luta desigual com destino traçado.

Dúvidas que estalam na boca, amargas, quando o desânimo espreita. Mal contadas resignações de um agnóstico, para quem o único conforto é saber que uma vida prolongada adia as angústias finais que não atingem os que se apoiam na metafísica de uma religião que promete a vida eterna. Um paradoxo. Esses momentos de desconfortável receio são a antítese da homenagem que tu mereces, pela coragem que transmites às pessoas que te são queridas. E se, por vezes, questiono o merecimento da luta que prossegues, pelo sofrimento que tens carregado, é desagravo da lição que nos dás, patriarca lição de vida de quem tanto da vida me ensinou. E continua a ensinar.

Sei que não hás-de levar a mal as minhas incertezas. Não tens culpa de eu ser desalinhado do teu credo. Credo que te alimenta a força, força que faz de ti um resoluto lutador em homenagem suprema ao que de mais belo a condição humana tem – a vida, tão singela, tão complexa, bem incomparável na sua essência suprema. Eu, o único culpado do cepticismo que me dobra, do ateísmo que me mergulha na maior das contradições: recusar uma vida de sofrimento em nome do valor maior, da vida que é o bem mais belo de todos, que devia ser colocado no altar mais elevado por quem é ateu. Ao saber, por ateu ser, que ao encerrar os olhos pela última vez vem a escuridão perene.

Possa-me valer da grande lição que dás, e serei merecedor da vida que me foi agraciada. Não há encómios que cheguem. Em ti vejo o que sei que não conseguiria ser. Nas fraquezas me exauro, na esperança que com a força de vida que contagias algum dia consiga ser massa diferente, e mudar. Para que então as teorias que percorrem o pensamento, e a vida que quero prolongar ao êxtase, possam ser matéria viva da minha existência. Em ti busco essa inspiração, para ser merecedor da bênção que me foi destinada.

15.12.05

À paulada: a terapêutica anti-stress!


Cheguei ao site da empresa “A vida é bela” depois de ouvir um anúncio na rádio. Prometem a extravagância da nossa vida, ou apenas momentos seleccionados que fogem da vida corriqueira. O cliente pode tentar-se por um voo de helicóptero, ou pela calmaria de um momento zen, pela adrenalina de tomar os comandos de um bólide de competição, ou oferecer à pessoa amada um fim-de-semana romântico e repousante (um “relax break” ou um “top break” – vale a pena navegar pelo site e ficar com muita água na boca…).

O expoente máximo é o “anti-stress break”, como documenta a sugestiva imagem. Em vez de descarregar as frustrações sedimentadas na pessoa querida, ou em discussões estéreis com um analfabeto que não se sabe comportar no trânsito da cidade, ou arrojar uma lata de cerveja contra a televisão quando o clube do coração perde estupidamente com a equipa mais fraca do campeonato; em vez de acordar com um nuvem de chumbo a pesar sobre a cabeça, ou em vez de desferir impropérios ao ministro de qualquer-coisa que aparece na televisão com a vaidade vã de quem é tão incompetente; em vez destas perturbações do espírito, de que o corpo pagará factura, antes descarregar a ira num automóvel que se põe a jeito.

Quem consultar o produto e ficar tentado a alinhar na aventura, há uma decepção guardada para o final: o preço a pagar pelo stress que fica, latejante, a macerar o cabo do martelo. Quase 1500 euros é demais para quem anda às voltas com o stress acumulado. Se os convivas da martelada desfizerem o carro num amontoado de chapa destinado a uma siderurgia e se regressarem a casa aliviados do peso do stress, o esforço (financeiro) terá compensado. Decerto é menos caro que a factura do psiquiatra que vai engordando com as sucessivas sessões de terapia que, quantas vezes, só servem para piorar a maleita.

Se o stress encontra antídoto na violência inócua, está encontrada a explicação para a violência institucionalizada. Da violência dos excluídos, empurrados para a marginalidade, à violência organizada de gangs que se servem de armas para finalmente chegarem à afluência material que a vida comezinha não permitia, à violência dos energúmenos das claques de futebol. Sem perder de vista a violência do Estado ladrão, que inventa impostos e tributos da mais variada espécie para esbulhar os proventos de quem é honesto.

Tenho que fazer amigos entre donos de sucatas. Porque não posso dar ao luxo de gastar quase 1500 euros para me livrar das más energias que cimentam o stress que, dizem os experts, habita em mim. Como habita em qualquer pessoa que viva no bulício das grandes urbes, mergulhada num universo profissional onde só vale a competitividade, onde todos querem trepar às costas do próximo para singrarem nos holofotes da fama.

Se espatifar carros sem utilidade é a receita milagrosa para trazer de volta a boa disposição quando são sombrias as nuvens que pesam, plúmbeas, sobre o céu que nos acode, fica aqui a proposta: nacionalizar as sucatas, para o zeloso Estado as colocar ao serviço dos pacientes afogueados pela doença do stress. Incluir a profilaxia no serviço nacional de saúde. E se me dizem que o serviço nacional de saúde está em tempo de vacas magras, que não há folga para gastos supérfluos com pesudo-maleitas que são apenas um produto da modernidade insensível que tomou conta de nós, lavro daqui a minha contra-proposta: utilizar as receitas da caça à multa ao automobilista.

Se é verdade que reduzir a uma amálgama indiferenciada de lata carros que vegetam em sucatas é o milagre para recuperar o bem-estar, e se o Estado existe, entre outras coisas de duvidoso gosto, para amparar o bem-estar da sociedade que nele se acolhe, faz todo o sentido que esta função seja depositada nos braços do serviço nacional de saúde. Se ela fosse terapêutica como se anuncia; se me garantisse a poupança de irritações estéreis com os automobilistas que se esquecem do pisca-pisca para mudanças de direcção; ou assegurasse que escuto a ladainha musical dos artistas pimba da nossa praça sem sentir a erupção alérgica auditiva que depressa polui os neurónios sãos – era capaz de propor a condecoração de quem inventou o exercício medicinal.

Não podendo dar corpo a esta fantasia, contentava-me com a comercialização de bonecos do execrável “Crazy Frog” que me desconcentra nas idas no ginásio. A música pestilenta e o animal, em trajes de desenho animado com ar demencial, tiram-me do sério. Estivessem estes bonecos à venda, por preço módico, levava para casa uma remessa. Para os estilhaçar com prazer sempre que as nuvens soturnas teimassem em esconder o céu resplandecente.

14.12.05

Brincar com coisas sérias: uma comédia sobre a “tentativa de agressão” ao patriarca da república

Grandes parangonas: um indigno cidadão da gesta de democratas lusitanos ousou ameaçar o grande patriarca da república. A faena começou com impropérios captados pelas câmaras de televisão e microfones, como se sabe ávidos de notícias ensanguentadas pela polémica. O “atrasado mental” (foi com esta candura que o patriarca o alcunhou) protestava contra a descolonização. Apontava o dedo à figura que quer exercer o terceiro mandato presidencial. Ignorou, porque a “demência” lhe terá roubado discernimento, que a descolonização foi exemplar. Está assinado por decreto, que elevou esta asserção à qualidade de verdade inquestionável.

O patriarca não está habituado a ser contrariado em público. Não aceita que adversários políticos o façam, menos ainda a arraia-miúda que destas coisas de política deve ser chamada a depositar o seu voto – de preferência no clã protegido pelo patriarca – e regressar aos casulos para ser magnificamente governada. Como está desabituado da confrontação, quis ripostar. O “atrasado mental” ia-se deitando às guarnecidas bochechas do patriarca da república. Estalou um escândalo nacional. Se todas as agressões são condenáveis, mais o são as tentativas de agressão a excelsos membros da casta política. Acaso a agressão tentada tivesse como destinatário a geriátrica figura que quer acampar em Belém, pouco faltaria para decretar o estado de sítio e o luto nacional por antecipação.

Alguém reparou na largueza da segurança pessoal do “pai da democracia”? Estranho sintoma: quando um indisfarçável cordão de segurança rodeia as figuras gradas a quem o país tanto deve (versão oficial) em ajuntamentos populares, o patriarca deambulava pelas ruas barcelenses sem gorilas por perto. Aqui vai um contributo para a teoria da conspiração: não estaria montada a encenação? Não circulava pela cidade a informação de que um antigo combatente, sofrendo de stress pós-traumático (chagas abertas da já longínqua guerra colonial), jurara infernizar a visita do suserano pela terra minhota? Os maquilhadores de imagem do candidato terão percebido a jazida diante dos seus olhos: a lembrança de como o guru capitalizou politicamente os efeitos de uma agressão na Marinha Grande, andava então a desgovernar Portugal como primeiro-ministro.

Com políticos, estou sempre de pé atrás. Serei desconfiado por sistema, mas prefiro este rótulo a encarnar nos eternos ingénuos que acreditam na bondade e na espontaneidade dos políticos – sobretudo em campanha eleitoral, onde nada, mesmo nada, é orquestrado ao mais ínfimo milímetro, como se sabe.

Porventura o rei da república gosta de sentir o calor de umas traulitadas populares. Para enriquecer o seu avantajado curriculum cénico. Afinal, que outro político se pode gabar de ter sentido a quentura das mãos do povo? Nenhum dos outros candidatos tem tamanho estofo curricular. Ora, isto prova como o candidato oficial do partido do governo é o que merece o voto de todos os eleitores. Ele, mais do que qualquer outro, sabe o que é a convivência com o povo, diria, uma intimidade cheia de adrenalina. Numa democracia a sério, era motivo suficiente para excluir os demais candidatos, se ficasse sumariamente provado que eles não tinham jamais passado pelo crivo da bastonada, do pontapé, do soco, da estalada, ou dos ovos podres arrojados por eméritos representantes do povo mais rasteiro.

A imprensa, sedenta de escândalos fáceis, disparou: o patriarca tinha sido “insultado”, tinha havido “tentativa de agressão”. Eu, deliciado com as imagens que fizeram manchete, não testemunhei isso. O rei da república ouviu das boas, com o desagradável ferrete da voz alterada do “atrasado mental”. Num país onde há liberdade de expressão, não pode um eleitor confrontar as sumidades que se candidatam com umas desconfortáveis interpelações? Também não percebi onde estava a tentativa de agressão: o patriarca andou sempre à distância que o punha a coberto das mãos nervosas do “atrasado mental”. É verdade que esboçou um tabefe na geriátrica figura, mas nem sequer a mão teve tempo para baixar, tal a rapidez da reacção dos gorilas aí já presentes (a coisa tinha aquecido, entretanto) e a retirada estratégica e acelerada do campeão da tolerância nacional.

Pude então ouvir indignados apoiantes do candidato a soltarem o inevitável “fascista” para o homem que tinha estragado o banho popular nas ruas de Barcelos. Ora aqui a perplexidade sobe de tom: afinal, quem insultou quem?

13.12.05

Os bravos do pelotão e violência em cápsulas

(Onde se mistura verborreia belicista dos exércitos, desenhos animados que espalham a violência pelas gerações mais novas, censuras paternais à violência semeada na televisão para crianças consumidoras, Barbies e Louçã)

Há semanas, um militar português perdeu a vida no Afeganistão. A pátria cobriu-se de dor. Os governantes cor-de-rosa, com “elevado sentido institucional”, falaram na honra que é morrer pela pátria. Como se fazia quando, há quarenta anos, as vidas de jovens militares se esfumavam em terras africanas, no interesse de um guerra estúpida, como são todas as guerras. Para espicaçar o sentimento patriótico da turba, espécie de tributo póstumo ao militar decesso em terras tão longínquas, a RTP acompanhou as tropas destacadas no Afeganistão. Oportunidade para ver as operações de patrulha dos bravos do pelotão dos tempos modernos. À falta de guerras a sério, saciam a falta de oportunidade para disparar as vetustas G3 com operações de patrulhamento que afiançam a segurança de pessoas e bens.

Para um pacifista genuíno, que apouca todas as guerras por ver nelas o enfeudamento do indivíduo a causas impostas por um abstracto colectivo, os exércitos são construções abomináveis. Porém, fico encantado com a lógica militar, com a linguagem marcial, com a disciplina que se impõe aos peões de exércitos comandados por iluminadas mentes que sabem tudo da poda da estratégia militar. E quando digo encantado, tenho a imparcialidade de quem não lamenta uma efémera passagem de um dia inteiro pelo exército – o estupidificante dia em que fiz a inspecção militar, porque tive a sorte de ser remetido à reserva militar.

O encantamento é um sentimento de ingenuidade que se apodera de mim ao perceber a lógica castrense. Um mundo à parte, um microcosmo onde alguns dos direitos básicos da pessoa são postos em suspenso em homenagem à obediência hierárquica que nunca se questiona. Deixo-me enredar pela mesma ingenuidade dos que pensam que os exércitos têm o condão de solucionar todos os males do mundo. Quando se esquecem que a história da humanidade está manchada pela sombra do pecado de todas as guerras, quando os exércitos foram ingénuos instrumentos nas mãos de quem decidia.

Os tempos mudaram. Com a nova mundivência, tempo de ajustar as funções da tropa. Um pouco por todo o lado – à excepção dos países que se arrogam ao direito de patrulhar o mundo, com os resultados conhecidos… – os exércitos são meios de garantir a paz, em vez de forças que espalham a violência. Estranho esta metamorfose, quando me é dado a observar a linguagem bélica que os militares continuam a usar. Parece não ter havido mudança de mentalidades com a sucessão de gerações. Militares mais novos e de meia-idade persistem na linguagem castrense, congeminam cenários obtusos que tentam antecipar as movimentações do “inimigo”, usam armas e nelas depositam a sua autoridade.

Olhando às gerações mais novas de tropas, não há surpresa que sucessivas levas de protótipos de Rambos continuem a dar à costa nos exércitos. Há dias conversava com uma colega de trabalho, mãe de uma criança de tenra idade que já entrou na fase da fobia consumista de desenhos animados. Perante o meu desconhecimento, dizia que os desenhos animados são motores de violência, não sendo de estranhar que as crianças germinem a violência que mais tarde espalham por onde passam. Desenhos animados com heróis que derrotam vilões, usando violência desmesurada, personagens de banda desenhada que resolvem as coisas más com a força das armas. E reflicto: deve imperar a censura paternal, vedar o acesso a programas deste jaez?

Hei-de ser confrontado com o dilema em breve, quando a minha filha começar a prestar atenção a desenhos animados. Como do que mais me orgulho da educação que recebi dos meus pais é nunca ter tido armas em brinquedo, vou legar à minha filha a mesma filosofia. Não é crível que me venha a pedir Action Man e quejandos, ou samurais trajando espadas que decepam inimigos figadais, nem sequer sucedâneos de revólveres que simulam disparar em direcção de imaginados inimigos. A sua feminina condição levá-la-á a preferir Barbies. Pela indigestão que as Barbies provocam no pai (as bonecas, e as de carne e osso que se aperaltam como tal), é uma violência mental que lhe deve ser poupada. As Barbies não entram cá em casa, para poupar o progenitor ao enxame de bonecas irritantes, e para impedir que a filha algum dia ambicione ser sucedâneo da boneca da moda: para a poupar a essa violência existencial.

Podem os pais, como educadores, condicionar o futuro dos filhos? Mandam os cânones do individualismo libertário que não se coarcte a liberdade individual. Abre-se uma excepção para a educação dos filhos, que surgem verdes perante as sinuosas curvas da vida, e esperam orientação de quem lhes ensina o que é a vida. Por isso ontem mudei furiosamente de canal quando dei com a minha filha a rir-se à gargalhada ao ver o Anacleto Louçã a disparar verdades evangélicas num debate com o candidato poeta. Mas depois pensei: porventura ela já percebeu que o tele-evangelista mais famoso do país é um palhaço, ou não se chamasse Anacleto!

12.12.05

Comércio livre ou comércio justo?

Começa em Hong-Kong mais uma ronda negocial da Organização Mundial do Comércio. A enésima ocasião para pavonear vaidades nacionais, para as delegações dos países mais poderosos olearem as máquinas de cosmética, as que operam milagres na imagem externa que querem difundir para a opinião pública mundial. Como sempre, uma batalha para ver quem fala mais alto como promotor da liberalização do comércio internacional. Entre as quatro paredes das negociações, o contraste: estender ao limite uma liberalização favorável aos interesses do país, erguendo barreiras onde o livre comércio lesa os interesses de certas indústrias nacionais.

Vinga a ideia de que vivemos em clima de liberalização do comércio internacional. Como em tudo na vida, é uma questão de relativizar afirmações. Há mais comércio livre hoje do que há trinta anos, é indesmentível. O que não significa que os tempos que vivemos sejam de franca liberalização do comércio internacional. Os governos de todos os países – com os mais poderosos à cabeça – não hesitam em obstruir o livre comércio sempre que ele causa danos aos interesses nacionais. Aqui vale um princípio muito em voga: “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”.

Têm surgido representantes da “esquerda esclarecida”, com a agulha da bússola sempre afinada para o supremo valor da “justiça social”, que condenam com veemência este padrão distorcido de livre comércio. Argumentam, com razão, que os países pobres são os sacrificados no jogo de interesses em que os mais ricos jogam o seu peso negocial. Denunciam as duas faces que mascaram a falta de decoro dos negociadores dos países mais poderosos, insensíveis à abertura comercial favorável os países mais pobres. Insurgem-se contra o comércio livre que é o paradigma do mainstream político.

Esboçam uma alternativa: o comércio justo. Teorizam em favor dos interesses dos países subdesenvolvidos, dizendo que o comércio livre que nos rege é uma falácia, um caminho de um sentido predestinado a favorecer os países mais ricos. As regras internacionais sobre o comércio são vetustas, indignas por cimentarem um estatuto de desigualdade entre países ricos e países pobres. Acusam este hipócrita regime de livre comércio, por ser o perpetuador das desigualdades. Como o livre comércio amputa o desenvolvimento dos países mais carenciados, propõem a alternativa do comércio justo: os países ricos deviam diluir as barreiras que impõem às exportações dos países pobres, aceitando que estes protegessem os seus mercados contra a invasão de produtos vindos de países ricos. Através do comércio justo, as regras seriam moldadas para criar uma concha protectora em favor dos países mais pobres. Só assim eles podem captar no comércio internacional receitas que alimentam o seu processo de desenvolvimento.

Percebo a intenção da “esquerda esclarecida”. Uma intenção nobre, porque não interessa perpetuar o subdesenvolvimento, pela iniquidade, pela indignidade que supõe. Os governantes dos países mais ricos dão um espectáculo de hipocrisia quando aparecem em público proferindo declarações condoídas sobre a pobreza que vergasta uma parcela considerável do planeta. Como se eles não tivessem responsabilidades por esse estado de coisas.

É aberrante ver o presidente francês soltar palavras de compreensão com os países pobres, lançando um repto aos seus pares do G8 para que se empenhem mais no combate à pobreza mundial. É aberrante, porque a França é uma das maiores aberrações da civilização moderna – seja governada pela vetusta coligação de direitas republicanas que tresandam a bafio, seja governada pelos anacrónicos socialistas. A França é uma das principais culpadas pelo falacioso comércio livre que nos rege. Com o seu proteccionismo que anda de braço dado com um dos traços típicos da idiossincrasia francesa – um chauvinismo singular, imbatível – a França protege os seus agricultores e nega o acesso ao mercado europeu aos agricultores de países pobres, que são mais competitivos. Condenando estes países a vegetarem no sombrio subdesenvolvimento.

O dogma do comércio justo, como é defendido pela esquerda esclarecida, é um equívoco. Denuncia a iniquidade do comércio livre, porque supõe que só pode haver “comércio livre” dentro dos constrangimentos sedimentados pelos países poderosos. Desconhece que este não é um genuíno comércio livre. É um comércio enviesado, condicionado pelos interesses dos países mais ricos. O verdadeiro comércio livre é aquele que destrói todos os obstáculos às trocas comerciais entre os países. É o comércio que deixa falar mais alto a competitividade natural dos países, sem artefactos para perturbar essa competitividade. O comércio que distingue os melhores, não os que têm meios (negociais) para impor soluções artificiais. O comércio livre descomprometido, genuíno, é o verdadeiro comércio justo.

9.12.05

Assim se vê a grandeza do Benfica!

Que os jogadores de futebol não primam pela boa educação, é coisa que não constitui novidade. Amiúde soltam palavrões, insultam adversários, árbitros, o público e, quando calha, os companheiros de equipa. Basta sabermos exercitar a leitura dos lábios para se perceber a verborreia mal-educada de meninos e menos jovens que ganham rios de dinheiro e que, pela exposição mediática e pelo muito dinheiro que embolsam, deviam ter algum decoro. Quanto mais não seja, por serem exemplos idolatrados por crianças e adolescentes ainda em formação de personalidade.

Que os dirigentes de clubes de futebol são o expoente máximo do que é ser cabotino, que desmerecem a mínima credibilidade por negociatas mal explicadas, pela conivência podre com o poder político, pelas suspeições de corrupção, pelos conluios com a arbitragem, pelas cumplicidades mal amanhadas com asquerosas figuras que dão pelo nome de empresários de jogadores – nada disto surpreende sequer o mais desatento. O panorama piora quando os dirigentes do Benfica soltam discurso, no apelo a uma coisa fictícia chamada “mística benfiquista”. Discursos que roçam o patético, entrecortados com biqueiradas na gramática. O que não se estranha, quando um (o presidente) não passou da quarta classe e o outro (o director-geral) é um duvidoso advogado que mete os pés pelas mãos no uso da gramática.

O “grandioso Benfica” não demorou a apresentar queixa contra Cristiano Ronaldo, mal acabou o jogo em que o “maior clube do mundo” derrotou o Manchester United. Ao ser substituído, Ronaldo escutou um coro de vaias. O corolário de vaias orquestradas sempre que tocou na bola. Quando saiu do relvado, farto dos impropérios, respondeu à altura: uma cuspidela disparada para a frente, na direcção do público que o insultava, e o dedo do meio erguido, indicando aquilo que se sabe. O “grandioso Benfica” sentiu-se ofendido. Puxou lustro à sua indignação e, em nome dos mais de quarenta mil adeptos chocados com a ofensa de Ronaldo, registou queixa contra o comportamento do craque mimado.

A grandeza vê-se tanto na hora da derrota como na hora da vitória. Costuma-se dizer que é muito difícil saber perder. Mais ainda quando as exigências competitivas aquecem por entre a rivalidade clubista, que cega os adeptos, roubando-lhes qualquer vestígio de racionalidade. Poucos se importam com a dignidade na hora da vitória. Considero que é tão importante saber ganhar como se saber comportar perante a derrota. Talvez ainda mais importante: evitar a arrogância trazida pela embriaguez da vitória é um acto digno, que personifica a grandeza de quem se sabe comportar no momento da vitória. Aqueles que não sabem perder e encontram mil e um pretextos para justificar a derrota rivalizam no equívoco com os que ganham e espezinham o adversário já vergado pelo peso da derrota. Não se cansam de exibir uma vaidade entediante. Falta-lhes em sentido de grandeza o que sobra em pesporrência.

(É pesporrência, em bruto, que emerge quando ouço os medíocres que comandam o Benfica a reagir no rescaldo de grandes vitórias. O inefável Vieira já sentenciou: doravante, qualquer adversário do Benfica está condenado a morrer (traduzindo a linguagem de primata: está condenado a perder, inevitavelmente a perder). Estas vitórias antecipadas entregam ceptros também eles antecipados?)

Quando os adeptos e dirigentes do Benfica reivindicaram da “nação do futebol” que estivesse em peso ao seu lado para que o clube pudesse continuar na liga dos campeões, logo a seguir prestaram-se ao ridículo papel de apresentar uma queixa contra um jogador português que alinhou pela equipa adversária e se cansou de ouvir vaias e insultos disparados pelos compatriotas que enchiam o estádio. É o que se chama nacionalismo de um sentido só – ou nacionalismo primário, para não dizer de primatas.

O gesto de Ronaldo não tem desculpa. Tanto que as regras prevêem sanções pesadas para o comportamento. Há que convir, contudo, que a paciência tem limites. A cegueira clubista tem mistérios insondáveis: muitos dos milhares daquela turba já aplaudiram freneticamente as proezas do mesmo Ronaldo quando, no mesmo estádio, vestia outra camisola “encarnada” – a da selecção portuguesa. No apogeu do ridículo, a demonstração da escassa inteligência de quem dirige “o maior clube do mundo”: a queixa contra Ronaldo. Terá ofendido a turba e, através dela, uma “instituição” intocável. Que interessa se antes, por mais de uma hora, a turba não se cansou de ofender Ronaldo?

8.12.05

A grande teoria da conspiração



Ou a teoria da grande conspiração, é indiferente. Fico embevecido com os seus teorizadores. Desconfiam do capitalismo, dos capitalistas – essas nefandas personagens que só se interessam com o lucro, invenção terrível, o macabro dinheiro culpado da materialização dos laços. Os detentores do capital só querem enriquecer ainda mais, nem que tenham que espezinhar os que para eles trabalham e os que consomem o que eles produzem. Desde pequeno habituei-me à iconografia dos maus e dos bons. Este mundo a preto e branco retrata os cultores da teoria da conspiração, para quem o mundo se divide entre os maus (um punhado cheio de poder e dinheiro – coisas que andam de braço dado) e os bons (a esmagadora maioria, os oprimidos).

Achamo-nos num mundo preenchido de injustiça. A culpa é do poder desmesurado do capital, das grandes empresas que conspiram a toda a hora. Querem manter os cordelinhos do mundo. Aspiram a erguer um muro intransponível, que as separa das pessoas vulgares que vivem a vidinha sem os prazeres mundanos que a riqueza farta compra. Os hediondos capitalistas reúnem-se em segredo, congeminam artes de oprimir mais ainda os oprimidos de sempre. Cultivam a exclusão, ao votarem à sobrevivência de mínimos milhões e milhões de pessoas espalhadas pelas quatro partidas do mundo.

Os perversos capitalistas são a imagem viva do egoísmo elevado à máxima potência. Só querem meter ao bolso lucros mais gordos, o que exige o sacrifício dos que sempre foram oprimidos. Há que cortar regalias, desde salários que não sobem a benefícios sociais tolhidos com o beneplácito de governos em conluio com os detentores do capital. Governos da tenebrosa direita – essa coisa que devia ser extinta, em nome da verdade e da justiça social –, mas também governos que alimentam uma retórica socialista e que se deixam comprar pelo odioso capital.

A teoria da conspiração tem ramificações deliciosas. Como se não bastasse a compartimentação estanque do mundo que os seus defensores oferecem – o porco capitalista a sugar o trabalhador até ao tutano – zurzem na doença do consumismo. De quem é a culpa? Inevitavelmente, dos capitalistas que espalham a sua rede de influências (as maléficas empresas multinacionais) e estendem padrões de consumo que se uniformizam por todo o lado. É altura de descer a chibata sobre a malfadada globalização, que semeia o pessimismo de oportunidades entre os que vivem à míngua de recursos, engordando a riqueza ostentadora dos abastados.

Os fautores da conspiração controlam as mentes da horda de consumidores. Deixam-se seduzir pelos atractivos bens de consumo que alimentam lucrativas actividades. O rebanho dos fanáticos do consumismo não tem livre arbítrio. As suas consciências são formatadas pela maquinação dos capitalistas, que se servem da publicidade para penetrar nas mentes dos que são dados aos excessos de consumismo. Corrompem-nos por dentro, aliciam-nos ao consumo sem cessar, uma febre consumista que é boa para os capitalistas que com ela enriquecem, má para os incautos consumidores que se endividam para além do razoável.

Quem ganha com o endividamento colectivo? Os bancos, esses agiotas da idade moderna que emprestam dinheiro aos viciados do consumismo. Como se não bastasse a doença do consumo em massa, quantas vezes desnecessário, os lucros dos capitalistas redobram em função dos créditos concedidos. Fica provado como o execrável capitalismo acentua as diferenças entre ricos e os que o não são, enclausura os oprimidos numa célula de onde lhes é impossível escapar. Pelo caminho, os poucos capitalistas pavoneiam a sua abastança, conquistada pela opressão de uma silenciosa maioria de trabalhadores com direitos restringidos e consumidores alienados que vão no engodo do consumo fácil e fútil.

O pior é que nada disto é democrático. A desproporção de poder é iníqua. Os poderosos são os que vivem na opulência, os que conseguem dominar os cordelinhos do poder político sem passarem pelo crivo do voto. Além deles, vegeta uma imensa maioria silenciosa, as massas a quem devia ser dada voz e poder, a quem devia ser oferecido o controlo das empresas onde trabalham. Isso sim, seria democrático. É tempo de denunciar vacas sagradas que cimentam injustiças inadmissíveis: destrua-se o mito do direito de propriedade, ele que é o esteio da distribuição injusta da riqueza, que sedimenta um mundo desigual de opressão aos mais fracos.

De tanta desconfiança exarada, pergunto-me se os arautos da teoria da conspiração não desconfiam deles mesmos. Se perdessem o rasto ao universo de preconceitos que domina a sua existência, talvez então compreendessem que o avanço que registamos tem o dedo do capitalismo. Como era divertido simular um oásis nas trevas do capitalismo, remetendo esta gente para o casulo, como experiência em condições reais. Eles, tão habituados aos confortos que o capitalismo proporciona – ainda que não consigam dar conta disso, ou se recusem a fazê-lo, embriagados pela casta de preconceitos que os habita – em breve tocavam à campainha para regressarem ao mundo real.

7.12.05

A caridade não existe

Saio do carro e vejo um velho a caminhar na minha direcção. Aborda-me, soltando uns vocábulos ao início ininteligíveis. Fiz um esgar de incompreensão. Ele percebeu que tinha que abrandar o ritmo das palavras. Percebi então, por entre um sotaque cerrado, que era madeirense. Vestia uns andrajos, calçado numas sapatilhas gastas que iam bem além do tamanho dos seus pés. Lamuriou-se: deixou a Madeira natal à procura do único familiar que lhe restava, uma filha que sabia viver no continente, não sabia ao certo onde. Lamentou as dificuldades que atravessava e pediu-me uma ajuda para “comer qualquer coisinha”. Da carteira tirei uma moeda de um euro. Caridade a que não estou habituado, devo confessar.

E pensei: teria sido caridade com o pobre homem ali parado à minha frente, ou caridade comigo mesmo? Caridade, ao escutar a história – sei lá se verdadeira – de um homem que mostrava uns olhos marejados, uma pele escurecida e enrugada, as rugas testemunho de uma vida quem sabe demais sofrida? Seria a comoção instantânea, um assomo de generosidade a que, confesso outra vez, não sou sensível? Ou apenas uma generosidade motivada, um impulso vindo de dentro de mim, clamando pela necessária caridade para afastar o fantasma dos remorsos que, sabia, iriam pairar nos momentos a seguir ao previsível “não”?

Continuei a reflexão: existe caridade? Digo, caridade genuína, espontânea, desinteressada? Alguns dirão que não interessa avaliar as intenções de quem se alista no exército que faz caridade. As intenções residem no íntimo de quem está disposto a fazer caridade. É aí que se esgotam. Mais importante é contabilizar os actos de caridade que fazem bem a quem deles está carente. O que conta é o resultado final – a caridade em si – e não o que a motiva.

Discordo do diagnóstico. Os meios percorridos são o mapa tacteado que diz muito da natureza da caridade. Existe a convicção que a caridade é, por natureza, boa. Costuma-se conotar a caridade com um acto desinteressado, uma ilustração do altruísmo. Se alguém é ajudado, se essa pessoa tem acesso a coisas que lhe diminuem a desprotecção da pobreza, o acto de caridade eleva o seu promotor à condição de filantropo, elogiável condição. Quem ajuda merece o aplauso: com o auxílio contribui para que as carências de desprotegidos sejam atenuadas. Uma ajuda a uma vida que se reencontra, ainda que tenuemente, com algum bem-estar.

Fazer bem ao próximo é um acto de altruísmo. Quem assim conclui está preso ao dogma do resultado, da caridade em si. O caminho percorrido até ao acto de caridade é desvalorizado. No mesmo saco são colocados os “genuínos altruístas”, aquelas pessoas de quem se diz estarem desinteressadamente ao serviço dos necessitados, e os outros, os que olham para a caridade como meio de apaziguar as suas próprias consciências. Por um momento, aceito a distinção. Ao olhar para o segundo grupo, questiono-me se há aí verdadeira caridade. Insisto que a caridade está impregnada de altruísmo; remete para uma ajuda desinteressada, para aliviar o sofrimento de quem não foi bafejado pelo merecimento de um destino sorridente.

Quem ajuda para se desfazer de dívidas com a consciência está longe da caridade genuína. Estes são os que ajudam o próximo sabendo que este imperativo é um dever para viverem em paz com a sua consciência. Outros fazem caridade acreditando que é a vereda obrigatória para o prometido descanso celestial que chega quando os olhos se cerram pela última vez. Duvido que haja caridade quando alguém ajuda o próximo como forma de se ajudar a si mesmo. A caridade esgota-se na esfera de quem pratica o acto caridoso. Uma piedade umbiguista – até porque somos educados no pressuposto de que a vida em sociedade exige a manifestação de actos de solidariedade dirigidos aos carenciados.

Também duvido dos que têm o perfil de genuínos altruístas, almas que nasceram para fazer caridade desinteressada. Desconto a possibilidade destas pessoas aquietarem consciências atribuladas pela imagem que transpiram para o exterior: os magnânimos filantropos, desinteressadamente ao serviço da ajuda aos necessitados. Uma espécie de sacerdócio que, em alguns casos, implica sacrifício pessoal (os missionários em África, as pessoas que põem em risco a sua saúde em cenários de vulnerável salubridade). Ainda que pareça cruel, há uma motivação, por esconsa que seja, que coloca estas pessoas na senda da ajuda não totalmente desinteressada.

Talvez esteja a complicar o que não merece complicação. Talvez esteja a dedicar mais atenção aos meios (o que motiva a caridade) em vez de olhar para o resultado (o bem que a caridade faz aos necessitados). Talvez seja. Contra mim falo: nunca consigo perceber onde está a genuína ajuda na caridade que faço. O que me perturba. O impulso para ajudar o próximo vem de dentro para fora, do apaziguamento da consciência individual. E não de fora para dentro, não uma caridade genuína pela convocação da ajuda, de uma generosidade sem interesse.

6.12.05

Os desapiedados do amor

Escritores carpem as mágoas do desamor. Tecem loas às suas musas que não passam do altar de platónicos amores. Lamuriam-se: do aspecto desagradável que afugenta potenciais admiradoras, de serem desinteressantes seres, sem conseguirem cativar os favores de damas por quem penam um coração despedaçado. Vingam-se na escrita, escorrendo da tinta da caneta a amargura dos amores incompreendidos. Das mais belas páginas de literatura nasceram com o estigma do desamor.

Alguns anseiam ser endeusados por um séquito de admiradoras. Imagino-os a tecerem sonhos em que são senhores de um harém bem nutrido. Sabem que os sonhos são isso apenas, sonhos inconsequentes. De resto, olham-se no espelho e descem à terra: não será pela fealdade com que nasceram que algum dia hão-de crivar o sucesso desejado. Na descida à terra, diminuem expectativas. Já não um fértil harém, apenas uma musa encantadora que perceba a sensibilidade de uma alma que se pena nos tortuosos descaminhos do amor (ou, diria, nos tortuosos caminhos do desamor).

De tanto porfiarem e tanto se frustrarem na solidão do sentimento, cultivam a misoginia. Um refúgio necessário, um ensimesmamento de último recurso. As mulheres que nunca amaram deixam de ser ideais utópicos sequer. Entram numa dimensão além do irrealizável, perdem a inteligibilidade dos sentidos. E não se percebe se a misoginia é confissão de desistência ou apenas expediente para afugentar frustradas tentativas que esbarraram em nãos repetidos de damas tentadas. Porventura a misógina condição é um sacerdócio forçado, por as investidas do amor sempre se encontrarem com demónios grãos de engrenagem que trouxeram o amargo sabor da vã glória. Como uma reclusão de frades em celas isoladas, uma reclusão dos experimentados do desamor nas muralhas da misoginia.

Quando não se encerram na misoginia, sinal que mantêm acesa uma luz no indecifrável horizonte. O desejo triunfa, fala mais alto que os sentimentos. Ou apenas uma estranha forma de ir saboreando sucessivas tentativas que embatem, com fragor, na incompreensão de mulheres sem piedade. Insistem, uma e outra vez, numa luta sem cessar que procura encontrar os trilhos do sentimento que arde com intensidade dentro deles, um sentimento vivido a uma só voz, sem encontrar quem saiba nutri-lo com a correspondência da alma. Não se cansam dos desvios do amor, nem que as feridas de investidas anteriores não estejam cicatrizadas. São os heróis do amor por amarguradas experiências de desamores que acabam vertidos em abundantes páginas escritas.

E há aqueles que se lamuriam, que jorram escrita que exibe anseios – de como gostariam de ser adónicas figuras, embelezadas por um qualquer deus que neles espalhasse, com dedos de magia, um perfume que atrai o sexo oposto. Sabem que o não são, mas vertem a pieguice deslavada nas páginas que escrevem, numa sábia estratégia para atrair almas piedosas prontas para o afago das criaturas tresmalhadas do amor. Multiplicam-se em lamentos: da figura que tresanda fealdade, numa queixa contra os desígnios divinos que trouxeram a antítese da beleza que deixa embeiçadas hordas de mulheres; de serem desinteressantes figuras, intelectos brilhantes, quantas vezes, sem capacidade para cativar a atenção de, quantas vezes, lúbricas mulheres apenas interessadas nos aspectos comezinhos da vida.

Em vão, de lamúria em lamúria, cientes da sua fealdade, mas de como conseguem atrair o sexo oposto com as ladainhas sem cessar. Quantas vezes são as ladainhas, as espadas que trespassaram um coração sedento de amor, o ar de cãozinho mal amanhado tão carente de um afago, que lhes leva o que tanto procuram. Na arte da encenação, vinga a auto-comiseração. Levam a palma, eles que tanto se queixam do desamor. Da ênfase do desamor vão titubeando esgares de tristeza, calcorreando os caminhos que lhes trazem ao seu regaço condoídas donzelas que afagam as desventuras que, afinal, são fictícias. Engendradas escolhas que levam a cair no alçapão as donzelas descuidadas que se perfilam como generosas almas predispostas a actos de caridade. Apenas uma enganosa caridade.

5.12.05

Se fumas não podes trabalhar na OMS

A Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiu dar o exemplo. Furtar-se ao adágio popular “em casa de ferreiro, espeto de pau”. Como uma das lutas da OMS é o combate ao tabagismo, a organização mudou as regras, ambientou-se ao fascismo higiénico de que, aliás, é uma das percursoras. Para não andar de mão dada com a incoerência, proibiu o recrutamento de trabalhadores que confessem o tenebroso vício do tabagismo.

Faltam outros pormenores deliciosos. Saber se os que já lá trabalham podem ser fumadores, apenas sendo vedado o relapso vício aos neófitos trabalhadores da OMS. Que já devia vigorar a proibição de fumar nas instalações da OMS não é novidade. Noutras organizações acontece o mesmo. Até as tenebrosas empresas multinacionais, esses antros que promovem a delapidação dos recursos ambientais, embarcaram na proibição do tabaco dentro das suas instalações. O que falta saber – outro pormenor delicioso não contado – é se os novos técnicos admitidos na OMS estão absolutamente proibidos de fumar, mesmo no recato dos seus lares.

A notícia foi dada de forma lapidar: quem se candidatar a um cargo da OMS sabe de antemão que não pode ser fumador. Adivinha-se, no preenchimento do formulário da candidatura, um quadro bem destacado onde se inquire o candidato: “é fumador”? Para que não restem dúvidas, na entrevista que pode franquear as portas de tão prestigiada organização internacional ao candidato, um júri (de possíveis fumadores) interroga-o sobre os hábitos de fumo. Quem for fumador e quiser homenagear a verdade, não pode apresentar candidatura. Essa pessoa perde o lugar para outro, porventura menos habilitado para o lugar, por ter o incorrigível vício do tabaco.

Pode até dar-se o caso desta iluminada medida ser um convite à generalização da mentira. Técnicos com perfil para ocupar cargos na OMS podem faltar à verdade, ocultando o seu tabagismo militante. Não se acredita que a OMS ponha detectives na senda dos novos trabalhadores, para tirar a limpo se há verdade ou mentira na resposta à crucial pergunta sobre hábitos tabagistas. Puxando o lustro à imaginação, quem sabe se esta medida não instala um clima de coacção psicológica, com os trabalhadores da OMS a vigiar-se reciprocamente, fora do trabalho, nas horas dedicadas ao lazer. Quem sabe se denúncias de compulsivos fumadores que esconderam o pecado levarão a demissões com justa causa, por se furtarem ao padrão comportamental exigível para exercer funções na OMS.

Vivemos num lugar estranho. Acentua-se a volatilidade da fronteira entre a vida pessoal – que se diz ser inexpugnável – e os critérios que admitem o despedimento de um trabalhador, por desrespeito de normas que impõem comportamentos. A medida inovadora da OMS é uma discriminação sem fundamento, intolerável. E quando são organizações internacionais, arvorando a si uma reputação acima de qualquer suspeita, a atalhar caminho para discriminações baseadas em comportamentos pessoais, que moralidade lhes resta quando aparecem como campeãs da não discriminação de certas minorias (religiosas, étnicas, raciais, homossexuais, etc.)?

Está aberto um precedente perigoso. Daqui para diante, organizações do género e empresas podem vasculhar os hábitos pessoais de quem empregam. A vida pessoal, que não entra nas instalações do local de trabalho, passa a ser escrutinada pelos empregadores. Qualquer dia, o interrogatório censório alarga-se a outros domínios. Outro tipo de perguntas que interferem na vida pessoal dos candidatos à própria OMS pode ser feito: frequenta bordeis? Se a resposta for sim, portas fechadas (a OMS também combate a sida); frequenta o McDonalds e outros esteios do fast food? Em caso de resposta afirmativa, portas fechadas (a OMS zela pelos bons hábitos alimentares, combatendo a propagação de colesterol).

Estamos cada vez mais no limiar da profecia de George Orwell, quando empregou no seu “1984” a figura do “Big Brother” (is watching you). Que seja uma organização internacional a arrepiar caminho não é surpreendente. É aí que se acoitam burocratas habituados a prestar serviço na administração pública dos respectivos países. São eles que se consideram o escol de engenheiros sociais especialmente habilitados a formatar a sociedade – como se ela fosse formatável de acordo com os seus dotes de prestidigitação. Preocupante será se, doravante, empresas copiarem o mau exemplo das organizações internacionais. Deixaremos de ter vida pessoal, na destruição da fronteira entre hábitos pessoais e comportamentos intoleráveis para exercer uma profissão?