É sempre reconfortante a digressão diária pelos cronistas que têm colunas em jornais de circulação nacional. Em alguns casos, a leitura é um tónico que enche o copo da boa disposição. Com sorte, damos de caras com uns pândegos que têm uma representação muito idiossincrática do mundo – como quem diz, sé eles conseguem ver o mundo como o retratam, percebendo-se que há muito mais de desejo (“é assim que eu gostaria que o mundo fosse”) do que realidade (que propositadamente aparece escamoteada aos seus olhos).
Ontem, a responsável por sonoras gargalhadas foi Joaninha Amaral Dias, figura grada da esquerda radical tão em moda. Num artigo publicado no Diário de Notícias, a jovem discípula de Anacleto Louçã, investida da sabedoria inquestionável que é apanágio daquelas bandas, sentenciou que “os militantes da esquerda são os mais felizes com a sua sexualidade, batendo aos pontos os da direita”. Há que o referir, a cronista escudou-se no Correio da Manhã (insuspeito órgão que veicula opiniões de direita) para corroborar esta “verdade absoluta”. Pena que não tenha ido mais fundo no exercício de rigor científico, nada dizendo acerca da credibilidade (do estudo? da opinião de um mero jornalista-estagiário?) do que foi publicado naquele jornal.
Esta esquerda que anda por aí carregadinha de verdades incontestáveis é uma paródia sem fim. A diatribe da Joaninha Amaral Dias devia merecer um sorriso de desdém e pouco mais. Mas apetece-me cair na esparrela, levar a coisa pelos caminhos do humor. Primeiro, a habitual manipulação da esquerda radical, sem surpresa se forem recordados os métodos heterodoxos de que ela é tributária. O Correio da Manhã é olhado de soslaio porque representa os interesses da “impensável” direita; mas para o caso foi conveniente citar o Correio da Manhã. É destas manhas, desta esperteza saloia, que a esquerda radical é feita. No rescaldo, pergunta-se onde está a coerência e a verticalidade que, na sua postura (é essa a retórica), os diferencia dos demais?
Agora a substância. A acreditar na opinião da brilhante e promissora política de extrema-esquerda, que ninguém duvide que há um dualismo esquerda-direita quando é chegado o momento de medir o pulso ao desempenho sexual. Mais do mesmo: para esta esquerda, o mundo é uma coisa hermética, é a divisão entre “eles” e os outros, categorias estanques que catalogam as pessoas com uma certeza firme. A partir de ontem tomei conhecimento que o sexo com as meninas e senhoras de esquerda é que é bom. Evitemos as fêmeas de direita, essas frígidas sem remissão. Afinando a agulha para o sexo masculino, o diagnóstico não difere: os machos da esquerda têm o exclusivo do desempenho exemplar, os da direita são uns abjectos marialvas que não hesitam em fazer das mulheres meros objectos sexuais para seu exclusivo prazer.
Do alto da sapiência que não se deve questionar, temos mais um domínio em que as certezas inabaláveis foram plantadas no imaginário obrigatório da sociedade. Apenas os homens de esquerda merecem sair vitoriosos nas conquistas femininas; os homens da direita são sexualmente incompetentes. As evidências podem desmentir o diagnóstico. Lembro-me de uma campanha eleitoral, ainda Jorge Ferreira andava pelo CDS-PP, e da forma entusiasmada com que o então deputado olhava de cima a baixo para umas bailarinas semi-nuas que abrilhantavam um comício algures na província. Como diz o povo, Ferreira “comia-as com os olhos”! Típico de quem se deixa levar por um comportamento selvático (no bom sentido da palavra) quando é chegada a “hora da verdade”. Eis como o mundo visto pelos olhos de Joaninha Amaral Dias não é assim tão redutor.
Depois desta pérola do pensamento bloquista, só resta um conselho aos meus amigos: amigas, fujam a sete pés dos homens de direita. Eles são incapazes de vos preencher sexualmente. Amigos: se querem uma vida sexual excitante, apostem em mulheres de esquerda. Fujam das fêmeas de direita como o diabo se escapule da cruz, que elas são um deserto de ideias neste assunto que foi hoje aqui tratado.
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