17.3.05

A feira das vaidades

Das várias vezes que viajei de avião, só numa ocasião fiz ligação em Lisboa como etapa final da viagem até ao Porto. O voo era ao fim da tarde. Um laboratório por excelência para medir a intensidade ensimesmada dos executivos e “pais da nação” que têm o luxo de fazer a viagem entre as duas cidades a bordo de um avião.

Em tempos, uns amigos já me tinham avisado: aquilo é uma feira de vaidades. Pude confirma-lo. Fui dos primeiros a chegar à porta de embarque. E como se deu o caso do avião estar atrasado quase uma hora, a espera prolongada vitaminou as vaidades que, lustrosas, circulavam naquele estreito corredor. Das eminências pardas que desfilavam do alto do seu nariz empinado apenas conhecia uma pessoa – na altura bastonário dos advogados. Por sinal, dos passageiros que aguardavam o voo ele era dos mais discretos.

Os restantes figurões passeavam-se de um lado para o outro, em constantes chamadas telefónicas onde a privacidade era escancarada a quem por ali estivesse. Como se todos tivéssemos interesse em partilhar a conversa, quanto mais não fosse só para confirmar que o fulaninho era uma pessoa importante – muito embora ainda não tenha direito ao estrelato nacional, que se alcança quando a fotografia vem no caderno de negócios do Expresso, ou quando consegue sair da terceira, quarta ou quinta linha dos cargos dentro da estrutura do Estado.

A fauna era dominada por gestores de empresas que foram a Lisboa a uma reunião de negócios e por pessoal que ocupa cargos políticos, talvez deputados. Quanto à última categoria, é uma adivinhação que exercito: porque as caras que se pavoneavam eram desconhecidas, mas valha a verdade que entre os 230 deputados mais de dois terços se encaixa nesse perfil. Em conversa uns com os outros enfatizavam o “sor doutor isto, sor doutor aquilo”. O “sor doutor” soltava-se a toda a hora, o passaporte para receberem do outro lado o mesmo tratamento nobilitante. Um dos mais frenéticos em ostentar a condição de “pessoa importante” – não obstante ser tão anónimo como o indivíduo que minutos antes me vendera um jornal – teve a sua coroa de glória quando a funcionária da TAP que ia fazer o controlo de entrada o reconheceu, tratando-o com deferências sem fim, sempre com o sublinhado no “sor doutor”. Depois foi vê-lo a olhar para a restante plateia, com um ar triunfante, como se aquele fosse o dia mais importante da sua vida.

Esta gente sente uma necessidade fulminante de se socializar no meio reservado a que pertencem. Foi o atraso de quase uma hora que alimentou contactos entre as pessoas “muito importantes” que ali iam desaguando. No fundo, dava para perceber que eles se conheciam destas lides. Já tinham voado juntos em diversas ocasiões. São a marca de água da importância de quem tem acesso ao luxo de não se deslocar por terra entre Lisboa e Porto. Acantonam-se no seu suposto protagonismo (porque, na maior parte das vezes, esse protagonismo não se consegue libertar dos seus quadros mentais, das suas aspirações a algo mais que não chegam a passar de sonhos por realizar).

Reparei que se formam dois grupos: gestores e quadros executivos de empresas, de um lado, pequenos políticos, do outro. Os primeiros são mais jovens e desconfiam dos segundos. Também são mais discretos, ainda que exibam um insuportável ar de superioridade que deve ter origem na abastança dos seus ordenados. Os segundos são mais folclóricos, com idade mais avançada, bazófia a rodos. Sente-se neles a necessidade de exibir o garbo das funções que ocupam. Alguns conseguiram libertar-se da concelhia partidária que frequentaram anos a fio, mergulhando no tirocínio parlamentar. É o apogeu de uma carreira de serviços partidários, o culminar de um caminho palmilhado que os levou a pouco mais do que o anonimato geral. O ar que respiram em Lisboa empertiga-os, como se fosse a caução para libertar os tiques parolos que lhes são inatos.

Um voo atrasado é sempre um azar. Nestas circunstâncias, azar redobrado. Um postal provinciano, retrato dos estigmas do país profundo que se quer domesticar com a inspiração dos ares marítimos que vagueiam no litoral. Saloiice suprema, a necessidade de exibir troféus de caça, mostrando a superioridade aos demais, mostrando que outrora já foram inferiores, como os demais que ali estavam, mas agora foram elevados a uma dimensão suprema.

Um bálsamo para o ego de pessoas pequeninas.

1 comentário:

Porquê? disse...

Why did you call to your own blog «o felino»?