Não é o Nuno Melo artista de variedades, vocalista de um grupo qualquer de música popular portuguesa entretanto desaparecido. O entertainer é de outro jaez. É o jovem (sabe bem esta expressão – como se vai perceber em breve) do CDS-PP, parlamentar já consagrado pela tarimba que leva nos Passos Perdidos, e que se coloca na grelha de partida para suceder a Paulo Portas na liderança do partido.
Conheço o Nuno Melo de outras andanças. É caso dizer, conheço-o de ginjeira. Dos bancos da universidade, onde o conheci. Logo aí foi grande a popularidade que granjeou. Mais velho três ou quatro anos, era a voz da experiência para os que travavam conhecimento com as disciplinas que surgiam pela primeira vez no cardápio dos estudos. Como ele gostava tanto das matérias, não havia disciplina que dispensasse fazer pelo menos dois exames para ter aproveitamento. Era uma referência, capaz de nos indicar as manias dos professores, as matérias mais importantes, o que era perguntado com mais frequência nos exames orais. De uma dedicação extremada, pelos serviços prestados aos neófitos que abordavam o desconhecido com temor. Logo aí se gizou uma vocação de “serviço público”. Condensada na carreira política que palmilhava, a custo, na estrutura juvenil do CDS (então ainda não PP) de Famalicão.
Era um pândego. Um dos entertainers de serviço quando havia jantares que reuniam a multidão que éramos por aqueles anos lectivos. Amigo das sensações etílicas (o que não é crime), desbragava as emoções quando o álcool tomava conta do espírito. Tinha reputação invejável entre o sexo feminino. Dizia-se que era mais da lábia do que pelas qualidades físicas e intelectuais. Como as mulheres de então iam no engodo com uma ingenuidade desarmante, coleccionava troféus de caça como quem abate obstáculos numa lista de tarefas a cumprir. Era um bon vivant. Daí que nos primeiros da universidade tenham sido mais as reprovações do que os sucessos.
Antes de vir para o reduto da popularidade política, o último contacto que tive com o Nuno Melo data do último ano da universidade. Ficou afamado pelo seu contributo para a imaginativa peça teatral que a nossa turma fez na imposição de insígnias, durante a queima das fitas. O chamado “serrote”, quando os estudantes se vingam dos longos anos de padecimento às mãos de desapiedados professores, num ensaio de peça teatral que escarnece dos professores com uma elevada dose de humor. Foi então dito, pelos habitués do ritual, que a peça que encenámos foi das mais imaginativas que alguma vez a universidade viu. Nuno Melo foi um dos mentores.
Só voltei a ter notícias do Nuno Melo quando saltou para as luzes da ribalta política, ao ser eleito deputado pelo CDS-PP. Entrou, se não estou errado, na terceira legislatura seguida. Já é um veterano das lides parlamentares, apesar de ainda ser jovem (novo ênfase na condição etária, para apaziguamento pessoal…). Subiu a pulso, distinguindo-se pelo desassombro das intervenções, sem nunca perder o timbre caceteiro que andava de braço dado com a sua figura nos tempos da universidade. Fez mossa nas esquerdas, levando-as à exasperação quando ia ao baú das recordações e ressuscitava os fantasmas que as atormentam. Lembro-me de um debate em que se virou para Anacleto Louçã e, de dedo em riste, o advertiu que Portugal não era a Albânia “dos bons velhos tempos”, a Albânia de Enver Hoxha e da ortodoxia trotskista. Foi nesta arte de retórica vazia que Nuno Melo se afirmou no firmamento parlamentar. Muito show off, pouca substância.
Agora que Portas deixou o CDS-PP e a direita tradicionalista entregues nos braços da orfandade, discute-se o depois de amanhã. A refundação desta direita. Para os que ainda acreditam que a intervenção política passa pela chancela dos partidos, isso equivale a reconhecer que o futuro do CDS-PP é crucial. Há dias Nuno Melo surgiu em conferência de imprensa a tranquilizar as hostes. Ia a congresso com uma moção e garantiu que a liderança não estará deserta, afiançando que uma pessoa de inquestionável valor vai dar a cara. Sem mais, sem avançar nomes, apenas o perfil – uma pessoa de valor. Passou pouco tempo para se descobrir a chave para a charada. Nuno Melo, himself, é o auto-proposto salvador da direita tradicionalista.
Temo que os apaniguados desta direita que não aprende com os sucessivos erros venham a sofrer mais uma desilusão. Que Nuno Melo se credite com o papel de refundador da direita desorientada, é um problema que só o seu egozinho e a ingenuidade dos seguidores podem explicar. Para os que se filiam nestes quadrantes, suspeito que Nuno Melo seja a antítese das propriedades terapêuticas de que se julga credor. E que em vez de uma direita refundada tenham uma direita fod**a.
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