20.4.05

Temos governo?

É inevitável o paralelismo com a retórica eclesiástica. Mas em vez do famoso “habemus papum” que levou ao delírio os crentes seguidistas, decepcionou os crentes progressistas e arrebatou a censura da esquerda bem pensante, o que me interessa é transformar a afirmação numa interrogação, substituindo o “papum” por governo. E perguntar: temos governo, afinal?

(Um desvio do tema. Como ateu, é-me indiferente que Ratzinger tenha sido entronizado papa. Que ele seja conservador, “a direita mais à direita” – como escutei um advogado da razão a afirmar, como se ser “da direita mais à direita” seja punível com cadeia – ou um papa progressista, tanto me dá. É um domínio que versa sobre uma casa de onde me tresmalhei vai para vinte anos. Por isso não entendo como estrelas consagradas do firmamento agnóstico – com, adivinhem quem, Mário Soares à cabeça – botam discurso, destilando superior conhecimento, censurando a escolha dos cardeais. Se são ateus e/ou agnósticos, que lhes interessa a escolha do papa? Quando os partidos do arco constitucional se entretêm na escolha de líder, é coisa que me passa ao lado, por descrença nas virtudes dessas associações políticas. Mais ainda quando está em liça a escolha de líderes dos partidos mais à esquerda. Quero lá saber que o líder do Bloco de Esquerda seja Anacleto Louçã, o grande historiador Rosas, o educador do proletariado Fazenda, a endiabrada Alda de Castro, ou o enfadonho emplastro dragonizado que polui as imagens televisivas à entrada do estádio do dragão. Cada vez menos percebo estas esquerdas: se os assuntos eclesiásticos lhes passam ao lado, porque sentem a necessidade de opinar acerca da escolha papal? E, bem vistas as coisas, a escolha de um papa “ultra-conservador”, ou lá o que ele é, não será a melhor notícia para estas esquerdas? Pois assim mantêm todo o ódio à igreja que sustenta muito do seu comportamento e alimenta muita da sua “doutrina”).

Por contraste com a diarreia comunicacional a que Santana Lopes nos habituou, este governo entrou de mansinho. Entradas de cordeiro, em pezinhos de lã. Muito se falou do estado de graça que deve ser creditado ao novo governo. O tempo tem que correr, até para que os ministros e a sua equipa se inteirem dos dolorosos dossiers da governação.

Já lá vai mais de um mês desde a tomada de posse. Tempo corrido, nota-se uma preocupação de abrilhantar a performance do executivo com silêncios sabiamente geridos. A ordem será para os ministros manterem os protagonismos em cativeiro. As vaidades pessoais estão em banho-maria. Um mês passado e há ainda muitos ministros a quem não se conhece a cara. Só na semana passada, por exemplo, se soube quem é a senhora que está à frente do ministério da cultura (e pelos piores motivos: em vez de assumir pose de Estado, comprou uma guerra que mistura ódios locais e rivalidades partidárias com o presidente da câmara do Porto; e depois apareceu, com jactância, a sentenciar que Burmester tem que regressar à Casa da Música). E tivemos um regresso ao passado guterrista, com essas personagens impensáveis que são o par de Costas (António, o super-ministro da administração interna, e Alberto, com o pelouro da justiça). Na boa tradição do aparelho partidário, o par de Costas está atarefado em trazer os seus boys para serviços sob a sua tutela (serviços secretos, serviço de estrangeiros e fronteiras, por exemplo).

O primeiro-ministro tem gerido silêncios. Quando abre a boca é para dizer as banalidades que o distinguem. Não tendo visto a entrevista que deu na semana passada à RTP, li várias análises que sintetizam o desempenho com uma interrogação: mas será que o Eng. Sócrates pensa que ainda está em campanha eleitoral? Sintomático…Assim temos um governo que se quer ausentar, pelo menos do terreno mediático. Como estávamos habituados a prática antagónica, estranha-se a mudança de comportamento. Afinal é uma boa notícia: poucas aparições, ordem para manter ministros em cativeiro de gabinete, fugindo a sete pés das luzes das câmaras de televisão e das conferências de imprensa. Tudo isto é valioso nutriente para a sanidade mental dos cidadãos.

Há males que vêm por bem. Entenda-se: não subscrevo que a estadia de Santana Lopes em S. Bento foi o mal necessário para a redenção do país, na pessoa de Sócrates e sus muchachos. Mantenho a dúvida metódica sobre tudo o que transpire a socialismo. Quando se diz que há males que vêm por bem, o contexto: agradecer a Santana Lopes pela incontinência verbal, pela febre de governar nos órgãos de comunicação social. Foi a vacina necessária para os sucessores serem forçados a proceder ao contrário, para conseguirem ser creditados com alguma reputação. Obrigado Santana Lopes, que nos legaste um governo ausente e silencioso!

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