29.7.05

A escassez da água mergulhada em paradoxos

A factura de um Inverno atípico, na escassez de chuva. As terras ressequidas sorvem todas as gotículas de água, venham elas da episódica chuva ou da humidade que se forma no solo. A aridez tomou conta da paisagem, colorindo-a de tristeza. Os elementos não têm sido generosos – para a flora, para a agricultura, para os animais, para a economia, para o Homem.

À medida que a água das albufeiras vai descendo para níveis preocupantes, começam a surgir os alertas para a míngua de água. Fazem-se os discursos pedagógicos da poupança de água. Somos martelados com as campanhas que nos tratam como meninos em bancos de escola, ensinando o que devemos fazer e o que temos que evitar para poupar água. Quando a solução podia ser mais fácil, sem os laivos de paternalismo que os detentores da superioridade intelectual sempre gostam de exibir. Da solução falarei no final.

Estamos na antecâmara do alarmismo social. É verdade que a água é um bem escasso. E os cientistas advertem que a degradação do meio ambiente está trazer mais aridez para o planeta, com carência de água para o consumo humano e para a subsistência de actividades económicas. Entre nós, o educador-mor tem sido o presidente da câmara de Tavira, o inefável Macário Correia. Insiste que hoje temos que dar valor à água, para que amanhã ela não falte. Se não alterarmos os hábitos, poderão as autoridades impor a sua mão de ferro, cortando a torneira. Pelo caminho já anunciou que as piscinas – públicas, privadas e de habitações – deixam de receber água. Será um Verão tavirense com piscinas nuas. Os helicópteros que combatem incêndios perdem uma fonte de abastecimento…

Se a moda pega, e se outros diligentes autarcas se colocarem em bicos de pés como pedagogos da poupança da água, eis que surge o primeiro paradoxo. Então não é verdade que os municípios, de norte a sul, aderiram à moda das fontes que ornamentam as milhentas rotundas que empestam a geografia de cidades e vilas? Não são essas fontes sorvedouros de água? Contudo, não se vê que lhes tenham cortado a torneira, pois delas continua a jorrar água a rodos, na patética manifestação kitsch da grandeza da vila, quantas vezes numa competição absurda com o município vizinho – ao jeito “a minha fonte é mais grandiosa que a do vizinho”. Que legitimidade têm os autarcas para exigir aos munícipes novos hábitos de consumo de água, se eles se esqueceram de ordenar a secura das faraónicas fontes?

Segundo paradoxo: ambientalistas e alguns esquerdistas consumidos por preconceitos mil já vieram apontar o dedo aos campos de golfe que proliferam no Algarve. Estes campos exigem regas abundantes, crime ambiental em tempos de míngua de água. Se formos ingénuos ao ponto de nos alistarmos na retórica de verdes e seus aliados de ocasião, o aplauso solta-se, ligeiro, pela razão que lhes assiste. Deixemos cair a máscara da ingenuidade. Vamos mais longe nas motivações, tentemos encontrar o paradoxo que se esconde nesta exigência do corte de água aos campos de golfe.

Os preconceitos que dominam esta gente são visíveis à vista desarmada. Têm alergia a pessoas que exibem – para ou mal ou para o bem – abundantes sinais de riqueza. O golfe tem o estereótipo da fartança material, da ostentação social. Daqui confesso que o golfe não me atrai nem um pouco. Daí a encetar uma perseguição ao golfe, apenas porque está associado à abundância material de quem o pratica, é um lamentável preconceito que diz muito de quem o exibe. Sem esquecer o contra-senso em que os ambientalistas mergulham. Não devem os verdes defender os espaços verdes? Se advogam a paragem da rega dos campos de golfe, estão a condenar os vistosos tapetes de relva à secura que antecipa a sua morte. Nunca esperei ver defensores da causa ambientalista a defender soluções que levam à aridez!

Regresso à solução: não passa pela pedagogia paternalista que faz apelo à boa consciência do cidadão. Nestas coisas a consciência só existe quando o mal está feito e é irremediável. Em vez disso, a solução passa por aumentar bastante o preço da água. Se é um bem escasso, e se é transaccionável, em tempos de carência que fazem soar as campânulas do alarme, suba-se – e muito – o seu preço. Este é o caminho lógico para levar as pessoas a novos hábitos de consumo, a terem mais cuidado com a água que utilizam.

28.7.05

Ota, TGV? É que é já a seguir!

- Primeiro-ministro com nome de famoso filósofo grego, ainda a aquecer o lugar: “Ó senhor ministro das finanças, tive um sonho: daqui a quinze, vinte anos (para não dizer trinta ou quarenta e a quadruplicação dos custos previstos), Portugal será um país moderno, com um grande aeroporto na Ota e um TGV de fazer inveja aos comboios de alta velocidade que palmilham a Europa.

- Ministro das finanças, atarantado com o desnorte do aparelho socialista, esboçando arrependimento por ter embarcado nesta desastrada aventura: “Com todo o respeito, senhor primeiro-ministro, mas não acha que é um despropósito anunciar esses investimentos públicos, logo agora que temos a obrigação de sanear as contas do Estado?

- Primeiro-ministro: “(pensando com os seus botões: olha-me este, mais papista que o papa. Razão tem o meu chefe, o Jorge Coelho, que não gosta nada de independentes) Senhor ministro, é tudo uma questão de retórica, de capacidade argumentativa. Não se esqueça que governamos para uma horda de papalvos. É fácil enganá-los com meia dúzia de patacoadas!

- Ministro das finanças, impaciente: “Mas, senhor primeiro-ministro, há sempre os comentadores, os economistas, outros que andam de olhos abertos. Estes não vão dar descanso, denunciando a incoerência dos investimentos que quer anunciar. E devo dizer que até percebo a sua indignação. Em tempos de vacas magras, como explicar que há dinheiro para gastar nesses projectos faraónicos?

- PM, já arrependido de ter escolhido esta personagem para o ministério das finanças: “Vamos ser francos. Deixemos de lado as falsas ingenuidades. Quando aceitou o cargo, devia saber que temos clientelas a satisfazer. Diz-me o meu chefe, lá no Largo do Rato, que temos que contentar amigos de amigos de militantes destacados. Eles estão à espera que tomemos decisões que são a galinha dos ovos de ouro para os seus negócios. Já bastou a travessia no deserto quando a direita governou e meteu ambos os projectos na gaveta.

- MF, já com saudades das aulas na universidade: “Não era isto que esperava quando vim para o seu governo. Chame-me ingénuo, se quiser. Mas custa-me aceitar uma prática política que é a negação do que ensinava na universidade. Como vender ao país a ideia de que há dois elefantes brancos que devem prosseguir só para satisfazer clientelas privilegiadas, sacrificando o resto do país? Democracia é governar para uma pequena minoria, espezinhando os interesses da larga maioria?”.

- PM, no desespero de ver os esgotados os argumentos: “Se quisesse manter-se fiel ao que ensina na universidade, mais valia não ter saído de lá. Eu explico-lhe: como em tudo na vida, é larga a distância entre a teoria e a prática. Não faz mal ensinarmos aos petizes uma determinada teoria, sabendo que na vida real vão ser confrontados como uma prática que a desmente. A política é a arte de iludir as pessoas sem elas darem conta que estão a ser iludidas.

- MF, mentalmente a fazer as malas de regresso à universidade: “Há princípios de que não abdico. Pedimos aos cidadãos para aceitarem a contenção orçamental. Aos mais incautos, até aos mais desatentos, será fácil perceber que esse discurso não é coerente com os projectos da Ota e do TGV. (E depois, pensando consigo mesmo: vais ver, no próximo domingo vou publicar um artigo de opinião no Público. Vou-me demarcar desta política irresponsável de ir em frente, sempre em frente, sem saber se adiante não se encontra o abismo. Para mim basta. Ota, TGV, ó primeiro-ministro, é que é já a seguir – mas não contes comigo!)

Já com novo protagonista, a teimosia mantém-se. O comunista reciclado que se abarbatou com o ministério das obras públicas têm a desfaçatez de dizer que não há estudos prévios que justifiquem o aeroporto da Ota. Na sua douta opinião, esses estudos são desnecessários. Como quem diz: começamos a obra, e depois logo se vê. É a cegueira mais empedernida que se pode imaginar. A irresponsabilidade no seu ponto de ebulição. O comunista reciclado encontrou num refugiado do capitalismo o seu acólito de eleição – o sorumbático ministro da economia. Desdobrando-se em desculpas que se assemelham à retórica de um reles vendedor de banha da cobra, insiste que o aeroporto da Ota e o TGV são investimentos virtuosos. Nas páginas do Diário de Notícias, o Luís Delgado do PS (António Perez Metello) puxa lustro à imaginação para educar os pacóvios que o lêem que estes investimentos não são um disparate.

Se é tanta a mania das grandezas, porque não ser mais ambicioso? Umas achegas: um plano de investimento na indústria aeroespacial, para termos as nossas próprias naves e cosmonautas em órbita; um plano de investimento em armamento nuclear, agora que a ameaça terrorista dos fundamentalistas islâmicos cresce de tom; a candidatura aos jogos olímpicos e ao campeonato do mundo de futebol, com mais estádios faustosos; um aeroporto internacional em cada capital de distrito; outro Alqueva, algures na geografia nacional (venceria aquele município que enchesse os bolsos – por baixo da mesa – do governante de serviço); etc.

No final da linha, um Portugal inviável, financeiramente despropositado. Ficaríamos nos anais como a geração que arruinou o futuro das gerações vindouras.

27.7.05

Ganância, ou apenas pobreza?


Estamos à frente dos nossos parceiros europeus em alguma coisa! Quando toca a gastar dinheiro no euromilhões, levamos a palma aos restantes países. (Falta saber se a notícia foi dada com rigor. Senão caímos na falácia do inefável ministro da economia, que ao querer justificar os mega-investimentos no aeroporto da Ota e no TGV lembrou que do outro lado da fronteira o investimento no comboio de alta velocidade é duas vezes superior ao previsto em Portugal. Ter-se-á o ministro esquecido de relativizar os números, pois em Espanha há para cima de quatro vezes mais população…).

Terá algum significado o lugar mais alto do pódio? Duas hipóteses. Primeira, empatamos mais dinheiro num jogo de fortuna porque somos os mais pobres da Europa (se descontarmos os países que entraram na União Europeia em 2004 – e, mesmo entre eles, Chipre, Malta, Eslovénia e República Checa já nos deixaram para trás). Os mais pobres, afligidos pela carência material, jugulados por um orçamento mensal que é sempre curto e que deixa algumas necessidades essenciais por satisfazer, em tantos casos, ou sonhos por realizar, em muitos mais.

Os que vivem à míngua são os que mais apostam quando os jackpots se sucedem? É pouco plausível. O dinheiro não estica e, a menos que estas pessoas se exponham mais ainda a carências diversas, faltam meios para gastar rios de dinheiro naquela que pode ser a sua carta de alforria. Ou podemos estar perante uma mobilização nacional. Até os que sofrem essas carências encontram uns tostões para apostar no euromilhões. Somados uns atrás dos outros, mais aqueles remediados que rapam o fundo do tacho das economias familiares julgando que é desta que a sorte lhes toca, eis o resultado final: o lugar cimeiro no dinheiro canalizado para a aposta na fortuna.

E se os mais pobres, a quem mais jeito daria sair a sorte grande, não forem os clientes de eleição do euromilhões generoso? É profunda a crise que atravessamos. É um lugar comum: o dinheiro escasseia e, em tempo de vacas magras, são os menos afortunados pela abundância material que penam para viver com a escassez que os aflige. Donde se presume que não são os mais pobres que contribuem para a volumosa soma apostada no euromilhões. Resta a segunda hipótese – a ganância. Serão os remediados, os que na classe média ainda conseguem passar ao lado da crise (ou fazer de conta que a crise não quer nada com eles), que mais apostam na fortuna eventual.

O diagnóstico é pouco simpático para o colectivo que somos. Um diagnóstico de ganância, de indolência. Ganância porque são rios de dinheiro que acompanham a nossa fé cega de que será desta vez que a ambicionada afluência material vai chegar. Saltando por cima do jogo das probabilidades matemáticas, as apostas levam muita gente a empatar somas astronómicas na crença que a sorte será comprada com essa generosidade agradecida pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Fazem-se planos, congeminam-se compras mil, na realização dos sonhos que nunca passaram do onírico. E quando os microfones desfilam à frente dos anónimos apostadores, à pergunta “o que faria se lhe saísse a sorte grande?” a resposta é invariável: “deixava de trabalhar”.

Daí a indolência, como extensão da ganância. Os que andam a semana inteira a prolongar os sonhos, imaginando o que fariam com a enxurrada de dinheiro caso acertassem em todos os números sorteados, partem do pressuposto que a sorte grande significa desnecessidade de trabalhar. Não ouvi nenhuma alma entrevistada a dizer que aproveitava a fortuna para investir no seu próprio negócio. Não, apenas o dolce fare niente, a modorra de ficar preso à languidez dos dias passados sem nada haver para fazer. A morte cerebral, trazida em bandeja de ouro pelo dinheiro abundante ali mesmo servido aos seus pés.

Não é surpresa. Quando toca a medir a produtividade, a comparação com os parceiros europeus é-nos desfavorável. Surgimos no último lugar, numa lamentável exibição do preguiçoso que habita em cada um de nós. O que reitera o diagnóstico. Só uma turba pouco dada ao trabalho se motiva para gastar tanto dinheiro naquilo que antecipa como a sua emancipação material, que coincide com a reforma muito antecipada.

Este pódio tem um sabor amargo. Coloca-nos ao sabor dos imponderáveis, do acaso da sorte. Não temos capacidade para trilhar o nosso caminho. Somos dependentes de factores aleatórios que podem trazer a afluência material. Não é o suor que recompensa, apenas a persistência em ir cavando aqui e ali até encontrar a mina de ouro. O pior vem quando ela nunca é encontrada: a depressão exacerba-se, para mal da auto-estima pessoal e nacional.

26.7.05

Da pré-história do Felino (I): Soares ameaça outra vez: a presidência nos horizontes

(De vez em quando vou resgatar textos arquivados que foram escritos antes do Felino ter nascido. A publicação faz sentido quando esses textos se reencontrarem com a actualidade, fruto dos imponderáveis do destino)

(Escrito em 8 de Maio de 2003)

Mário Soares lançou para o ar o seu sentimento: não se importaria de voltar a ser presidente da república. Não se podem encontrar motivos de admiração pelo facto do senhor já contar 78 anos – e, portanto, se fosse eleito iniciar o seu mandato com 81 anos; nem menos não se importaria de regressar à presidência, dando de barato que ganha as eleições. Também aqui a estupefacção fica para os desatentos: tolerância e convivência com as regras do jogo democrático não são apanágio de Soares. Talvez lhe ficasse melhor confidenciar, a quem o quis ouvir, que gostaria de voltar a ser candidato à presidência da república.

Como interpretar o “aviso” de Soares? Levá-lo a sério? Ou apenas encará-lo na óptica de quem se tem entretido a lançar a confusão na vida política nacional, alimentando mais uma acha para a fogueira que começa a ser incendiada a três anos de distância – a sucessão de Sampaio?

Soares é a figura tutelar do PS, o símbolo paternal que liga este partido a uma espécie de complexo de Édipo com sinal sexual invertido. Desde os tempos conturbados da governação de Guterres, em especial os últimos anos de caos e de anomia, Soares desdobrou-se em intervenções nas quais não se coíbe de lançar farpas venenosas ao PS e a quem gravitou na órbita de Guterres. Qual a interpretação desta rebeldia política e ideológica (visível nos seus artigos de opinião, com incisivas críticas à globalização, quase pautando a sua conduta por parâmetros semelhantes aos do Bloco de Esquerda)?

Será este activismo mediático uma estratégia bem preparada para afastar do caminho potenciais rivais ao lugar que Soares ambiciona daqui a três anos? Tirando o tapete a Guterres, e não se vendo quem pode dentro da família socialista aparecer como alternativa presidenciável, estará Soares a armadilhar as possibilidades do anterior primeiro-ministro? Ou apenas um sinal da teoria do caos que, ao nível interno e com particular intensidade nas lutas intestinas dentro do PS, o anterior presidente da república vem alimentando?

Se o aviso que Soares deixou cair há dias for levado a sério, seria curioso verificar que um país que se quer rejuvenescido, onde se sente cada vez mais a necessidade de dar lugar a novas gerações de políticos que rompam com uma mentalidade ancilosada que não abona em favor da governação, seria paradoxal que o futuro presidente da república voltasse a ser Soares. Não que se deva dar crédito à figura presidencial, por mais que se argumente que a simples magistratura de influência funciona como um contra-poder que equilibra possíveis excessos do poder executivo. O presidente da república pouco mais tem reservado do que um lugar simbólico no nosso sistema político.

O que está em causa é o simbolismo da questão. É o regressar ao activo de um dinossauro, quando se pensava que a eleição para o Parlamento Europeu tivesse sido o seu último acto, a sua reforma dourada. Aqui as coisas correram-lhe mal. Vaidoso e ambicioso, desejou a presidência desta instituição da União Europeia. As regras internas de eleição do presidente do Parlamento Europeu ditavam que fosse escolhida uma personalidade entre a família política europeia que tivesse alcançado mais votos. O Partido Popular Europeu estava nesta situação, tendo designado Nicole Lafontainne para o cargo. Mau perdedor, Soares passou por cima dos costumes instituídos naquela instituição e teve a deselegância de comentar o discurso de recém empossada presidente do Parlamento Europeu com uma daquelas manifestações de intolerância que lhe são peculiares: “foi um discurso típico de uma dona de casa”.

Não tendo sido presidente de uma instituição europeia, parece ter adiado os seus projectos de reforma política. Quererá sair em grande? Mas agora apenas à escala nacional, onde será bem fácil aproveitar-se do unanimismo que a sua figura consegue reunir, para assim conquistar a presidência da república?

O que me causa espanto é como a insistência numa personalidade vetusta, que com alguma simpatia se poderia ver (não é o meu caso) como um espécie de património da vida democrática portuguesa, para a fazer regressar a Belém. Sinal dos tempos que passam, da crise de figuras com carisma para mobilizar o eleitorado. E sinal de que a desejável lufada de ar fresco será adiada por mais algum tempo.

Há quem invoque o exemplo francês para mostrar como a idade não é um óbice para novo cargo presidencial de Soares: Mitterrand em França. Pois, mas convém não esquecer duas coisas muito importantes: que não se deve comparar o que não é comparável, já que nem Portugal é a França, nem Soares é um clone de Mitterrand; e que, mesmo insistindo na comparação, veja-se o resultado do exercício de poder de Mitterrand em França, sobretudo tudo o que de obscuro se ficou a saber após a sua morte.

O povo merdoso

Este, o que conheço. Medíocre gente que se ufana de imbecis façanhas, garbosa, sem alcançar o ridículo que a cobre no estertor de feitos que roçam a boçalidade. Mercê da ideia estabelecida de que cada maior de idade que não seja inimputável goza de igual direito de voto, este é o povo responsável pelas incompetentes personagens que têm sentado o rabo no cadeirão do poder. Estão bem uns para os outros, eleitos e eleitores.

Povo definhado por múltiplas razões. Indulgente consigo quando devia ser exigente, exige do próximo o que não consegue obter de si. Falta-lhe inteligência, falta-lhe civilidade, falta-lhe decoro, faltam-lhe hábitos de higiene. Resta a ausência de discernimento que o faz prosseguir a alegre caminhada rumo sabe-se lá bem ao quê, ignorando que pisa terreno minado que traz fartos dissabores. Convive mal com um ambiente limpo. É só lembrar a sujidade nas ruas, as lixeiras que se amontoam quando o povo se reúne em bem dispostas celebrações de qualquer coisa. Ou, como vi há dias enquanto passeava no passeio marítimo da praia de Matosinhos, como as pessoas se aglomeram nas imediações de um esgoto que corre em direcção ao mar.

O areal é extenso, e naquele dia a praia não estava apinhada. É intrigante ver a concentração de pessoas que estendem a toalha a escassos metros do fio de água fétida que corta o areal na sua corrida para o mar. Pior ainda, como há banhistas (e não eram apenas crianças) que patinham alegremente na água do esgoto, sabe-se lá se ansiando por encontrar um animal morto, um dejecto, qualquer outra surpresa para saciar uma curiosidade escatológica destes ratos de esgoto. Quem sabe, talvez as águas que chegam do esgoto sejam mais quentes do que as gélidas águas do Atlântico, ali mesmo à mão de semear…

Mais ao longe, afastados do esgoto, imensos banhistas refrescavam a tez acalorada nas águas frias e poluídas do mar. Na quietude da leve brisa marítima que corria, fugindo ao estereótipo da nortada que varre as tardes destas praias, a água estava calma, sem ondas que justificassem a bandeira vermelha hasteada. A lógica diria, mesmo aos incautos, que a bandeira vermelha se explica pela fraca qualidade das águas. Paredes-meias com o porto de Leixões, e com uma sequência de esgotos que desaguam nas praias os resíduos domésticos da grande urbe, uns gramas de discernimento bastam para concluir que a água do mar não é própria para banhos. A leviandade popular encarrega-se de afastar o diagnóstico alarmista. Assim como assim, o povo vai e vem dos banhos marítimos e continua a ser saudável. Até que chegue um dia, quando as marcas se fazem notar, e já são irreversíveis.

Não muito longe dali, lúdicos pescadores espraiam-se horas a fio nas margens do rio Douro, de preferência em redor de esgotos onde vagueiam as tainhas. A modernidade tem um preço que é pago pela fauna ribeirinha. As tainhas não seriam peixes dados à pestilência dos esgotos quando as águas do rio não estavam conspurcadas pela poluição. O aumento da população urbana e o sistema de esgotos que conflui no rio mudaram a genética das tainhas. Gostam, à semelhança do querido povo da praia de Matosinhos, de se enlodar na espurcícia que desagua dos esgotos. Cá em cima, os pescadores ficam ansiosos à espera de as pescar, umas atrás das outras. Como iguaria devem ser um lauto repasto, com a sua carne que deixou de ser branca e que, adivinho, de suculência só terá o aroma pestilento da amálgama que corre pelos esgotos. Mais uma vez, falta de discernimento, ou apenas ignorância que abraça este povo?

A este povo, apraz-lhe chafurdar na imundice. Consta que os franceses são pouco dados aos hábitos de higiene que passam pela água do chuveiro. Os portugueses não têm a mesma fama, mas embarcam numa modalidade alternativa do anti-higienismo quando se mostram atraídos pelo lodaçal da poluição que vem dos esgotos, pela sede de se banharem em águas cheia de coliformes fecais e substâncias viscosas libertadas do porto vizinho. Um povo que anda pelo meio da merda é um povo de merda. Será por isto que o dono do café onde vou todas as manhãs disse que se 75% dos portugueses fossem espertos como os animais domésticos, seríamos um país melhor? (Descontando a exactidão científica da estimativa…)

25.7.05

O circo do sofrimento alheio

Não bastam as imagens cruéis dos incêndios que devastam a floresta, ano após ano. Não chega o espectáculo dantesco, labaredas assustadoras que trepam monte acima, galgam o asfalto da estrada e prosseguem a sua furiosa marcha através de mais árvores que acabam os seus dias nas cinzas de um incêndio. Ou a azáfama dos bombeiros, cientes de que o Verão é sinónimo de noites seguidas sem dormir, num combate desigual com as chamas assassinas. Como se tudo isto não bastasse, as televisões esmeram-se por mostrar o sofrimento de quem perdeu os seus haveres num maldito incêndio.

É o espectáculo circense do sofrimento humano. Um espectáculo indigno. É ver as câmaras à frente de uma velhinha com o coração nas mãos, sem saber se as labaredas que partiram do horizonte longínquo, e que se abeiram da aldeia, vão levar o seu parco património. É ver as câmaras retratarem a choradeira desesperada da velhinha, acompanhada de gritos desalmados clamando por um socorro divino que não há-de chegar. Uma plateia refastelada assiste às pungentes imagens. Como se fosse obrigação da televisão mostrar os padecimentos humanos de quem é afectado por um incêndio, num clamor colectivo que se confunde com um tenebroso acto de solidariedade. Através das imagens dolorosas, enviamos a nossa piedade que se esfuma em nada. Aquietamos a consciência: doemo-nos com o sofrimento alheio, sabendo que basta a partilha da dor de quem sente na pele os males de um incêndio.

Recuo umas semanas, aos atentados em Londres. E comparo as duas situações – se é que existe comparação possível, na devastação humana, na brutalidade que levou vidas inocentes. Os britânicos têm uma educação diferente dos portugueses. As lusitanas gentes comprazem-se com o mal dos outros, porque sabem que se algum dia a desgraça lhes bater à porta recebem os condoídos sentimentos de imensa gente. Atrelamo-nos uns aos outros na hora da desgraça. Numa partilha recíproca da dor: como se fosse a solução para atenuar a dor de quem sofre na carne as maleitas da desdita. Ao mesmo tempo, a partilha da dor revela um estranho sentimento de renovação: a nossa piedade significa que o mal continua a bater à porta do vizinho, não à nossa porta. É uma sagração do bem-estar que nos bafeja.

Em Londres, a discrição na hora de fazer a contabilidade das perdas. O respeito pela dor dos que perderam entes queridos nos túneis do metro, às mãos de bombistas suicidas. A decência de evitar o espectáculo mediático com o ingrediente do sofrimento alheio. Um sentido de decoro, mesmo na hora de tapar das indiscretas câmaras os primeiros socorros às vítimas que saíram ensanguentadas dos fatídicos túneis. Por cá, exactamente o contrário. Quanto mais sangue, melhor. Lá virá um aviso do jornalista: “as imagens que se seguem podem ferir a susceptibilidade das pessoas mais sensíveis”. É só um aviso que chama a atenção de mais gente ainda, ávida para saciar a sua curiosidade mórbida. Já me sinto repetitivo no clamor: esta comunicação social bestializa-se, demite-se das suas funções pedagógicas. Achincalha-se, descendo ao nível medíocre do povo que serve.

Se não é nos incêndios, é noutros cataclismos, acidentes, incidentes, desgraças da mais variada espécie. Sempre as imagens das vítimas emolduradas (quando elas podem falar), ou dos seus familiares (quando as vítimas perecem). Um retrato indecoroso do que somos, numa estranha confusão entre um dever de solidariedade pela dor dos outros e a necessidade de ser espectador dessa dor sob pena de se ausentar o espírito solidário. O preço a pagar, para a colectivização da dor, é a sua exposição perante os olhares indiscretos dos abutres do sofrimento alheio. Então sim, lugar às mágoas carpidas em sinal de respeito por quem sente a dor na pele. Sem se perceber que é indigno devassar a dor alheia.

22.7.05

Jorge Coelho, o Pinto da Costa da política



Quando fala, sentencia. É de verdades absolutas que falamos quando Jorge Coelho (JC) se dirige às massas. Se a verdade já é inquestionável quando discursa para as bases do partido, também o é quando o destinatário é o país que vai além do enternecedor PS. Gosto particularmente quando JC fala “em nome do país”: o país acha, o país exige, o país isto, o país aquilo. JC é o porta-voz do país, como se o país o tivesse mandatado para falar através da sua voz.

Há momentos de exaltação que, estivéssemos no tempo do Estado Novo, de exaltação patriótica se tratava. Como os tempos mudaram, apenas glorificação partidária, a afirmação de interesses que se sedimentam, por portas travessas, através da vida partidária. São os comícios, ou as intervenções que culminam jantaradas que reúnem os dedicados militantes do partido. Nem que o repasto seja do mais elevado calibre, nem que entre os comensais estejam pessoas com queda genética para as delícias da gastronomia, nem assim os prazeres gustativos levam a palma à gratificação de escutar JC numa empolgante prédica que prende a atenção da turba hipnotizada. JC não discursa, berra. Gesticula, enquanto mede ao milímetro as palavras que saem, jactantes, do púlpito para as massas. Que aplaudem sempre que o chefe do aparelho entoa ainda mais alto, e com mais entusiasmo, certa ideia (se é que as há) que, acha ele, deve cativar o aplauso. Assim se cimenta a fidelidade partidária. E se consolidam os interesses que se sentam à mesa do PS que ele lidera.

Não me equivoquei: é JC que manda lá em casa. E não é só no PS, pois os seus tentáculos alcançam os meandros do governo. Com a sua omnisciência, JC domina o aparelho do PS e domina o governo que é do PS (não vão os independentes, que convém arregimentar, desvirtuar a essência socialista do governo). É o “big brother watching you”. A expressão sublime do caciquismo partidário, na pior expressão da partidocracia reinante – o PS. Não é por acaso que o sempre atento “contra informação” tirou da cartola o cognome “Coelhone” para o boneco que é a caricatura de JC. Imagem sugestiva: “Coelhone” como Corleone. A máfia partidária que faz as regras do jogo, dentro do partido e com o alcance no exterior, lançando a rede a tudo o que mexa.

Com a segurança das suas certezas, JC acompanha uma reduzida elite (Soares, Louçã, Carrilho, Rebelo de Sousa, Freitas do Amaral, Vitorino) que sabe o que diz e pensa que os contestatários ou são ignorantes, ou estão de má fé, ou são ímpios adversários que convém espezinhar sem piedade. Não pede meças ao desbragamento verbal – quem não se lembra, ainda no consulado guterrista, da pérola “quem se mete com o PS, leva”? Fosse o ditirambo proferido pelo incontinente verbal de eleição – Alberto João, do Funchal – e imagino o terramoto que não se teria feito sentir. A JC tudo se perdoa, mesmo que as ameaças sobre os que se “metem com o PS” tresandem a violência (pelo menos verbal).

JC entrou no panteão das personagens que, quando surgem no ecrã, me fazem mudar de canal. Concorre com os nomes do parágrafo anterior, aos quais se junta Pinto da Costa. Fartei-me de apanhar a toda a hora com o “coordenador do PS para as eleições autárquicas” a perorar sobre todo e qualquer assunto. Por isso disse, numa ocasião anterior, JC é o verdadeiro primeiro-ministro deste país. Já me tinha fartado da gritaria, do vozeirão que ressoa a varina a apregoar o negócio na lota, nos fantásticos jantares que reúnem a família cor-de-rosa. Mas não consigo fugir da sua presença. JC é omnipresente, entranha-se por todos os poros: se não é na TV, é na rádio, nos jornais, nos blogs. Ele aparece sempre, invadindo a nossa vida, ditando leis, sentenciando, sempre sentenciado, a estola do grande educador que nos dispensa de pensar pela nossa cabeça. Ele encarrega-se da tarefa, magnânimo que é.

JC é a ilustração do que me leva a ser abstencionista. O odor a batota que nem mil banhos conseguem limpar, a retórica inconsequente que almeja figurar como verdade incontestável, as pequenas tricas que afastam uns e promovem outros dentro do aparelho (e depois, exportados para a máquina dirigista do país), a desonestidade intelectual que passa incólume. Quando há anos ouvi o jornalista Carlos Magno a tecer loas a JC, fiquei esclarecido: juntou-se a fome com a vontade de comer, numa irmandade que é o elogio supremo à mediocridade.

E JC é o cheiro da hipocrisia que se impregna na pele. A última preciosidade: elogiar Campos e Cunha depois do ex-ministro das finanças se ter cansado da companhia, batendo com a porta. Enquanto foi ministro, nunca teve uma palavra de encorajamento do grande JC. Este elogio fúnebre sugere a admiração por alguém justamente porque deixou de ser ministro!

21.7.05

Reuniões tumultuosas

Um lugar comum: onde há duas pessoas, duas formas diferentes de ver a mesma coisa. A desarmonia de opiniões vem da racionalidade que temos. Se a divergência é cultivada com paixão, levada a um ponto de exacerbamento, a discussão eleva-se a um tom que aflige os tímpanos e dói no espírito. Quando a assembleia é composta por muitas pessoas, a tendência para a anarquia (no mau sentido da palavra) é certa. É um enorme sacrifício quando tenho que estar presente em ajuntamentos do género. As últimas duas quartas-feiras testemunharam duas reuniões desta espécie: um conselho científico na universidade e uma reunião anual do condomínio.

Como se não bastasse a propensão para a discordância barata, as coisas pioram quando na assembleia temos egos que carecem afago. Criaturas que se julgam imbuídas de um espírito iluminado, ou gente que só quer falar sem nada dizer, apenas para abrilhantar a reunião com a sua presença. De repente, as reuniões resvalam para o descontrolo. Não há agenda de trabalhos que resista. Em pouco tempo, as pessoas embarcam numa onda gigantesca que as empurra para o acessório, deixando de lado do essencial. Discutem-se pormenores insignificantes, anda-se à volta do “sexo dos anjos”, a discussão eterniza-se por pequenas coisas que opõem dois teimosos que não querem dar o braço a torcer – sim, é a “mentalidade Mourinho”, o “não perder nem a feijões” que ganha adeptos em todo o lado, para gáudio dos egos altivos que se esquecem de uma coisa tão simples e importante, a eficácia.

À memória vêm as recordações da reunião de ontem da assembleia de condomínio, e da reunião da quarta-feira da semana passada do conselho científico: as pontes que se tecem são claras como a água. Quem julga que num conselho científico de uma universidade, que reúne todos os professores com o grau de doutoramento, a urbanidade e a eficácia na condução dos trabalhos são apanágio, desengane-se. Os professores universitários são mentes muito complicadas. As rivalidades entre facções, espúrias na maior parte dos casos, alimentam invejas bacocas, discussões estéreis, tempo perdido a discutir tudo menos o que interessa. As farpas venenosas, mas subtis, entendem-se nas palavras que ecoam da boca de certos académicos. Valha a frontalidade que poupa a covarde e falsa deferência que caracteriza o relacionamento de políticos e advogados, por exemplo.

Quando um condomínio é gerido por uma empresa especializada, e quando existe um historial de inimizade entre alguns vizinhos e a administração, a desconfiança congénita do ser humano trata do resto. Todos os actos, sobretudo os mais corriqueiros, são questionados (ontem questionou-se uma rubrica do orçamento para envelopes de correio azul, uns trocos…). Os contestatários, perdidos em minudências, artilham-se de argumentos para desmontar os gastos, sugerindo desgovernação e má-fé da administração. Aos poucos, vai-se percebendo que a minúcia, que passa a fronteira do admissível e entra no terreno da mesquinhez, tem origem em desavenças ocorridas no passado. Percebe-se a lógica: a reunião é um ajuste de contas público, como se os contestatários quisessem fazer da assembleia um tribunal popular para decapitar a administração. A baixeza atinge o ponto de se trocarem ameaças: tudo se resolverá “nos locais próprios”, supõe-se que em tribunal. Com a paciência a esgotar-se, lentamente.

Pelo caminho, vozes entoadas em tom ameaçador, a má educação em lampejos indisfarçáveis, arrogância transpirada a rodos. Até que alguém tenta pôr ordem na reunião. A noite ia avançada, o dia seguinte era de trabalho, e as pessoas estavam entretidas a discutir o nada e a esquecer o importante. De repente, a lembrança da reunião do conselho científico, uma semana antes. Uma hora e dez minutos a discutir, acaloradamente, se uma votação da reunião anterior era válida. Não era o conteúdo, apenas a forma que estava em causa. Dando razão aos que acusam os professores universitários de não serem atreitos aos aspectos pragmáticos da vida, uma hora e dez minutos consumidos para se chegar à conclusão que a votação da reunião anterior (que terá gasto largos minutos dessa reunião) afinal não era válida. Nos restantes vinte minutos despacharam-se os outros três pontos da agenda de trabalhos!

A cabeça humana é uma coisa complexa, um labirinto arrevesado que apetece desprezar, pois as tentativas para a decifrar trazem outros enigmas. Um poço sem fundo. Quanto mais se aprofunda a análise, mais problemas se descobrem, mais se escurece o diagnóstico. Como deve ser complicado ser psicólogo!

20.7.05

Fobias pessoais: a colheita de sangue


Quem não tem as suas manias? Quem não se deixa possuir por pequenos nadas que trazem um pouco do ridículo que nos invade? Entre coisas confessáveis e inconfessáveis, uns mais e outros menos, uns de peito aberto e outros recalcando essas manias – mas acredito que toca a todos. Serve o prolegómeno para me auto-desculpabilizar pela fobia de que vou dar conta. A fobia de tirar sangue.

Dizem-me: não dói nada! É verdade. Mas não é a dor que me traz insónias na véspera da colheita de sangue. É uma estranha fobia por agulhas espetadas nas veias. Explico-me melhor. Nem todas as agulhas me causam espécie. E há agulhas espetadas em determinadas veias que suporto sem o mínimo estoicismo. O problema está localizado. O bloqueio acontece quando uma zelosa técnica de análises me passa o algodão embebido em álcool na cova que divide o antebraço da parte superior do braço, aquele pedaço do corpo que as técnicas decidiram ser o melhor para fazer a colheita sanguínea, por as veias estarem mais salientes.

Há coisas esquisitas, para as quais o racional não fornece explicação. Lembro-me de me espetarem uma agulha numa das veias à mostra na face da mão, de uma vez que fui submetido a uma cirurgia. Por sinal, disseram-me, uma agulha bem mais grossa das que são usadas para fazer a colheita de sangue. Não tive problema em suportar o espetanço da agulha, nem de a transportar durante 48 horas. Quando pela frente está um dia de colheita de sangue, começo logo pela manhã a ter suores frios. Mentalizo-me que se trata de fraqueza, porque saltei o pequeno-almoço devido ao jejum obrigatório em dia de análises. Convenço-me que os suores frios têm essa explicação; não custa admitir que é um expediente que oblitera a verdadeira razão, o pavor quando me vão às veias. Quisesse ser heroínomano e teria um problema grave para derrotar.

Depois há as figuras tristes por que já passei. Houve de tudo um pouco, consoante as tácticas interiorizadas para tentar fazer da colheita de sangue uma coisa banal. Desde o pânico estampado na face – ou não conseguissem as técnicas analistas decifrar o pânico, a julgar pela pedagogia da tranquilidade que tentam incutir. Passando pela lividez, o mutismo que tentava esconder o temor pelo ataque às veias. Ou pela estratégia oposta, de falar pelos cotovelos com a senhora que me estava a subtrair o sangue, como se a senhora não conseguisse perceber que o palavreado prolífico mascarava o nervosismo de ocasião. Ou ainda um esboço de desfalecimento, assim que a função terminou e me levantei da cadeira. Uma vez, a tensão que tomou conta de mim bloqueou a artéria, forçando a uma mudança de braço e obrigando-me a deitar no chão, não fosse o desmaio bater à porta.

Chamam-me medricas quando assumo esta fobia. Quando a conversa descai para este tema, sinto-me tão desconfortável que peço para mudar de assunto. De resto, lamento que seja assaltado por este inexplicável medo. Como tenho um grupo sanguíneo de excelência (O positivo, que serve para todos os restantes grupos), preencho as condições para ser dador de sangue. Concedo: a fobia que me invade deixa o egoísmo falar mais alto que o altruísmo de ser dador de sangue. Por mais que me convença que devo mudar o comportamento, e aposte que consigo derrotar o medo e deitar-me numa marquesa doando sangue, quando chega a altura sou vencido pelos temores que me dominam por dentro.

Antecipar o ritual da colheita de sangue põe-me com tremuras. Por mais ridículo que seja – assumo-o – a agulha que vai esventrar a veia, depois de uma suave palmadinha para acirrar a veia, deixa-me em pânico. Aqueles instantes em que uma ligeira dor percorre a zona contígua à picada da agulha, seguidos pelos momentos em que sinto a dormência latejante do sangue a escorrer para fora do corpo, são segundos que se eternizam, são intermináveis minutos. Só quando a invasora veia se desprende do meu corpo consigo respirar fundo e baixar a frequência cardíaca. Terminado o suplício, anseio que não haja médicos ou exames obrigatórios que exijam, tão cedo, a repetição de todo o ritual da minha consumição.

19.7.05

As profecias do Bloco de Esquerda


Consta que pessoas ligadas ao Bloco de Esquerda (BE) andam por aí a espalhar a boa nova. Vão avisando que os países que estiveram na cimeira dos Açores, que decidiu a invasão do Iraque, já passaram pelo tenebroso carimbo dos actos terroristas. Bush esteve nas Lajes, os Estados Unidos já sofreram na pele os ataques da Al-Qaeda. Aznar esteve nas Lajes, Madrid foi palco de atentados em 11 de Março do ano passado. Ainda estão vivas as recentes imagens das bombas em Londres, e Blair também se deslocou à “cimeira da guerra” nos Açores. O êxtase da linha de raciocínio está para vir: quem foi o anfitrião? Durão Barroso, na altura o primeiro-ministro deste pacato recanto plantado na extremidade ocidental da Europa.

Pela lógica bloquista, que nos preparemos porque Portugal será o próximo alvo dos terroristas. Faz todo o sentido. Um após um, os países sentados à mesa das negociações na base das Lajes têm sido atormentados pela sanha do terrorismo. Falta apenas o anfitrião. Será uma questão de tempo. Adivinho os Rosas, Portas, Dragos, Fazendas, Louçãs e apaniguados a excitarem-se de contentamento pela perspectiva de uma cidade lusitana ser vítima de um covarde ataque. Só para que possam vir apregoar o monopólio da razão – a retórica cansativa que os vemos a desfiar nas suas aparições públicas, quando falam do alto da sua sabedoria e reduzem à insignificância os ouvintes que têm o privilégio de escutar as suas sábias prédicas. Mostrar a razão será mais importante do que chorar as vítimas que os ataques terroristas possam fazer. Parece que desejam ardentemente que o terrorismo dos fundamentalistas islâmicos faça uma aparição entre nós.

Sobre a irresponsabilidade da profecia não vale a pena perder muito tempo. Se é verdade que este grupelho de trotskistas reciclados consegue penetrar numa fatia considerável da sociedade, a profecia anuncia um alarmismo indigno para quem devia ter a responsabilidade de não atirar para cima da mesa cenários catastróficos que estão longe de corresponder à verdade. Aqui entramos no domínio da subjectividade. Adivinhar onde será o próximo ataque terrorista de larga escala é como procurar uma agulha num palheiro. Afinal a Indonésia não esteve nos Açores e Bali foi fustigada pelos semeadores do terror. Um pormenor que terá escapado às mentes brilhantes que andam pela sede do BE. A minha intuição diz-me que Portugal é um alvo insignificante para a agenda mediática dos fundamentalistas islâmicos.

Mas o oráculo à disposição do pessoal do BE dirá o contrário. Fica por descobrir se é política rasteira (arte em que são mestres), se é apenas uma anomalia técnica do oráculo consultado pelas anacletas figuras da política nacional. Cheira-me a esturro, ainda assim. Há sensivelmente um ano, a malta do BE plantou outdoors apocalípticos para as personagens envolvidas na cimeira das Lajes. Em parangonas, previam o decesso político de Bush, Blair, Aznar e Durão. “Eles mentem, eles perdem”, vaticinava o cartaz, para comprazimento da turba que se excita com a elevada imaginação que veste a propaganda do BE. Bush foi a eleições e ganhou; Blair foi reconduzido (estas vitórias não me encheram de contentamento – longe disso – a não ser pela satisfação de ver as “previsões” laudatórias do BE desmentidas); Aznar e Durão Barroso não foram derrotados, porque não foram a votos (o nosso ex-primeiro-ministro até foi premiado pessoalmente com a presidência da Comissão Europeia). O BE estava redondamente enganado! Ou o oráculo estava avariado…

Insistem no mesmo oráculo, na arte da adivinhação. Uma dimensão onírica de que a política de ralé do BE não consegue escapar. Por entre muito "wishful thinking" e irresponsabilidade, vão tentando construir o futuro antes de tempo. A extensão da postura professoral, das verdades incontornáveis, do género "está-se mesmo a ver que o que dizemos é a verdade e não há outra maneira de ver as coisas". Nada de novo para um grupo que convive mal com a tolerância de ideias diferentes. Um cheirinho do que seria uma democracia se esta gente algum dia conseguisse chegar ao poder.

Entretanto, ficamos à espera que a profecia do BE se cumpra. E que a devastação e a morte se instalem num acto de terror perpetrado por um árabe que vive junto de nós. Alegre e esperançadamente à espera, para caucionar o império da razão que lhes assiste.

18.7.05

O evangelho em acordes de rock-and-roll

A beleza da vida é deparar com surpresas, com o inusitado, com episódios que julgaríamos impensáveis. Põem-nos a pensar. Servem para interiorizar como o ser humano é fértil em imaginação, uma imaginação que se alonga bem para além do que se julgava possível.

Em Espanha há um jovem padre que faz da música arma de evangelização. Diz o padre Jony que quer chegar aos jovens através do rock-and-roll, demonstrando que o que parece incompatível (rock-and-roll e igreja) é um tabu sem fundamento. Desconheço os meandros da história do padre Jony, além das breves informações dadas numa reportagem de escassos minutos. Desconheço se há aqui muito de marketing – nisto da indústria musical, a roupagem que embeleza o produto vale muito mais que o conteúdo, e os especialistas de marketing acampados nas empresas discográficas sabem-no bem, sabem como os consumidores vão no engodo com toda a facilidade.

Estranhei a imagem do padre Jony, o vocalista da banda que estiliza uns sons pesados para acompanhar a mensagem “deus, paz e rock-and-roll” (padre Jony dixit). Um padre que não se libertou do cabeção que anda tão arredio dos padres dos nossos dias. É curiosa a indumentária: um cocktail desusado, que mistura o cabeção ao pescoço com umas calças negras que se ajustam à morfologia das pernas, mais umas botainas típicas de rockeiros de velha estirpe. O cabelo do cura foge aos estereótipos canónicos – farta cabeleira desgrenhada, que vai ondulando ao sabor dos acordes selvagens que se soltam da guitarra.

A acompanhar um som que roça o apocalíptico, letras que pretendem tirar os jovens da droga, recuperá-los para os bons valores da vida. Dir-se-ia estarmos perante um “rock-and-roll” atípico, que rejeita o niilismo que abunda entre os mensageiros da desgraça que desunham as cordas de uma guitarra em sons crus, destilando imagens de violência, de negação da beleza da vida. O padre Jony quis entrar pela música onde a igreja tem perdido adeptos – junto dos jovens que se deixam levar pela vacuidade dos valores (ou da falta deles), pelos aspectos mundanos da vida, entregues aos descaminhos que os levam a becos sem saída.

Na curta entrevista, o padre-rockeiro confessou que foi atraído pelo sacerdócio no dia em que um amigo de infância tombou, exangue da vida, consumido por uma overdose. O bichinho da música já vinha de trás, e acompanhou-o para o seminário onde se fez padre. Disse também que o bispo que o tutela deu-lhe coragem para prosseguir a carreira dual. Deve ser um bispo progressista, que também os há. Interessante seria saber a opinião da cúpula eclesiástica, tão dada à ortodoxia que desliga a igreja dos tempos que a cercam.

Depois do primeiro impacto, da surpresa, solta-se da memória a lembrança de como a música moderna se deixou acorrentar às preocupações metafísicas. Já há uns anos que Nick Cave, outrora figura demoníaca do panorama musical, se converteu às delícias da religião. E insiste em fazer poemas que enaltecem a mensagem divina como indicação celestial de um caminho que o tirou de uma vida de perdição, reencontrado com a tranquilidade do espírito. A diferença está em que Nick Cave não é padre. O exemplo de Nick Cave é o paradigma de uma transformação radical: de como alguém entregue à bebida, às drogas, a uma vida pecaminosa (na retórica que ressoa à linguagem eclesiástica) se reencontrou por dentro quando descobriu deus, aplicando-o essa introspecção à arte em que ficou conhecido.

Há as ovelhas tresmalhadas. Aqueles que foram educados nos dogmas da igreja católica, mas que perderam o rasto da luz que ilumina uma fé que toca o irracional. Esses, imersos numa angústia agnóstica, que se admiram, contudo, com os exemplos dos que se sabem reencontrar com um deus que, julgam eles na sua fé inquebrantável, lhes indica um caminho de felicidade. Genuína admiração, por irem no encalço de uma vereda que lhes traz a tranquilidade interior.

Para um agnóstico, a confusão de ver um padre trajar ícones tradicionais da igreja (o cabeção que saiu de moda) ao mesmo tempo que se ajoelha, olhos voltados ao céu, entoando o “pai-nosso que estás no céu” ao som de uma sinfonia de guitarras roucas, um som metálico e cabeleiras fartas que esvoaçam compassadas com os acordes que se soltam das guitarras. Apenas imagem bem conseguida, ou iniciativa genuína de quem sente que prega num deserto de ovelhas pouco dadas à mensagem bíblica?

15.7.05

O que há de comum entre o Ballet Gulbenkian e o speed dating


Take 1: um abalo telúrico, um país em estado de choque. O mundo da cultura, ciente de ser o detentor da verdade e incapaz de admitir que haja opiniões dissonantes, destila indignação. Para compor o ramalhete, excitados repórteres televisivos interpelam o presidente da Fundação Gulbenkian, são os mensageiros de um “país preocupado”. A extinção do Ballet Gulbenkian é um duro golpe na cultura nacional. Não interessa que a Fundação Gulbenkian seja uma entidade privada, com autonomia para fazer o que bem quiser com o seu dinheiro. Nem tão pouco interessam as pacientes explicações do presidente da fundação, dizendo que vão continuar a apoiar o bailado noutros moldes.

Take 2: uma inovação que promete fazer correr tinta – o primeiro encontro de speed dating. Fórmula que chega até nós importada do estrangeiro, que nisto de usos sociais somos tão conservadores que só temos pejo para ousar depois de outros terem experimentado as coisas novas. Vinte e cinco homens e vinte e cinco mulheres foram seleccionados para o encontro. Vão rodar uns pelos outros, num frente a frente que dura uns escassos minutos (três, de acordo de com uma das fontes, quatro minutos para outra – e viva o rigor noticioso!). Dizem os organizadores que é o tempo suficiente para os concorrentes se conhecerem. Cada um anota as qualidades que distinguem naquele/a que consideram o/a melhor. Se houver uma coincidência de preferências, os felizardos serão notificados por e-mail para aprofundarem o conhecimento.

De volta ao take 1. Sem surpresa, a indignação varreu o lobby da cultura. Vingou a retórica que já começa a encher os ouvidos – a retórica dos “direitos adquiridos”. Diz-se que o Ballet Gulbenkian firmou o seu nome, que foi uma pedrada no charco no panorama do bailado nacional. A Fundação Gulbenkian, na pessoa dos seus administradores, não escapa da mácula ao extinguir o Ballet. Nos depoimentos de anónimos solidários, bailarinos afectados e figuras gradas da arte, ouvi Olga Roriz, afamada coreógrafa, dizer com a ingenuidade de uma criança que os senhores que tomaram esta decisão ficam para a história como “pessoas más”. Para aumentar a vaga de fundo, anda pela Internet um abaixo-assinado que protesta contra a morte decretada do Ballet Gulbenkian. Recebi ontem um e-mail para subscrever o abaixo-assinado. O mau feitio, ou uma forma diferente de pensar, levaram-me a quebrar a corrente. Não terei o privilégio de engrossar a lista de subscritores.

Há algo que não bate certo neste histerismo colectivo. Primeiro, parece que a Fundação Gulbenkian é o ministério da cultura. Desenganem-se, não é. É uma entidade privada, que tem liberdade para decidir utilizar os seus recursos como bem entender, sem ser condicionada pela “vontade colectiva” (no que isso possa ser). Segundo, insiste-se em passar a mensagem que a cultura tem que ser subsidiada, como se não houvesse lugar a um mercado para a cultura como há um mercado para qualquer outra coisa. Antecipando as acusações de “neo-liberalismo” que me poderão fustigar, digo que é estranho que os arautos da cultura sejam defensores dos oprimidos, que andem sempre a clamar por uma justa redistribuição da riqueza; e depois defendam o financiamento público da cultura, que aproveita apenas a uma reduzida e não carenciada elite. Regista-se a coerência argumentativa.

Take 2, de novo. Adivinho João César das Neves a tomar conhecimento do evento de speed dating e a contorcer-se de arrepios. A desaprovação viria registada em prosa beática na sua crónica das segundas-feiras no Diário de Notícias. Ensaio um esboço: “o speed dating prova como os costumes sociais perderam o rasto da decência. Tudo se consome na voragem do tempo, despersonalizando as relações pessoais, unicamente viradas para os prazeres carnais que se desligam da imaterialidade da alma. Como podem duas pessoas apaixonar-se, envolver-se num relacionamento duradouro, quem sabe constituir família, se partem de um conhecimento fugaz? Sinal dos tempos da depravação moral em que vivemos. Somos educados para esquecer os bons valores cristãos, olhando para os prazeres que exibem a espontaneidade dos sentidos. Qualquer dia, haverá concursos em que as pessoas fazem sexo umas com as outras, sem sequer se terem conhecido antes. É a sintomatologia do mundo perdido para que nos encaminhamos. O Senhor perdoá-los-á, do alto da sua bonomia!

Afinal o que há de comum entre o Ballet Gulbenkian e o speed dating? A fugacidade das coisas, que não podem aspirar à condição eterna. Numa escala temporal diferente, tudo é efémero, tudo tem o seu tempo. Quando ele se esvai, resta a sepultura e o registo nos anais da história. Sem lamentações, apenas olhando para o tempo que ainda pode ser aproveitado – o tempo que nos resta percorrer, não o que já foi percorrido. Na consciência de que tudo é fugaz, tudo tem o seu tempo, numa exibição da fragilidade das coisas que nos rodeiam. Sem dramas.

14.7.05

O pecado (?) da gula

Questão prévia: para mim, não existe o pecado. É um legado do cristianismo, dos seus quadros mentais. Fomos habituados à nossa pequenez perante o “criador”, seres imperfeitos, atreitos ao erro, educados a admitir que pecamos e obrigados a expiar os pecados. Sempre na esperança de que a expiação dos pecados receba a condescendência da entidade divina, para que mais pecados sejam cometidos pelo tempo fora.

O pecado católico é um mistério. Quando erramos, das duas uma: ou temos consciência da asneira, e sabemos que a fazemos; ou só damos conta da asneira depois da vermos as consequências do acto, se ela não foi premeditada, devemos colocar este acto na gaveta dos pecados? Voltando à primeira hipótese: quando há o erro deliberado, podemos estar à espera da bondade da entidade divina no seu perdão magnânimo? Porque então todos podemos fazer as maldades do pior jaez, umas atrás das outras, sabendo que o perdão se desprende da mão generosa da entidade divina. Então o pecado deixa de o ser, pela indulgência do deus generoso.

Na simbologia religiosa, a gula é um dos sete “pecados”. Quando se fala em gula vêm à lembrança tentações alimentares a que, uns mais do que outros, somos dados. Aquele jantar faustoso em que as iguarias se sucedem à frente da vista que enche as medidas mais do que o estômago. Este é o ponto crucial: diz o povo que os olhos comem mais do que a barriga. Tirando os esfomeados compulsivos, os que têm anomalias hormonais que levam à ingestão maciça de comida, e os que têm um gosto apurado pela arte da gastronomia, é verdade que os olhos comem mais do que a barriga.

Por isso é que muitos chefes de cozinha se esmeram na arte da apresentação dos pratos que servem à mesa. Tudo se passa como se o sentido visual trouxesse uma ilusão ao sentido gustativo. Ou por serem muitas horas sem ingerir alimentos, ou por um qualquer mecanismo psicológico que desperta a atenção da vista para o embelezamento do pitéu, a primeira reacção ao repasto é de excitação. E as primeiras garfadas trazem uma satisfação ao palato que já não é reproduzida à medida que vamos para o fim da refeição. Os economistas descobriram uma lei que talvez explique o fenómeno: a utilidade marginal decrescente. O que contraria o pecado da gula: se atacamos com toda a vontade as primeiras garfadas (ou as primeiras dentadas) de uma iguaria, depois a satisfação vai diminuindo. Se calhar o “pecado” concentra-se nos momentos iniciais da degustação. É aí que tem o seu expoente máximo.

Ou terá o pecado uma medida relativa? Será um desafio à consciência daqueles que se deixam inebriar pelas tentações gastronómicas, passando por cima da subnutrição que condena ao definhamento milhões de pessoas espalhadas pelos países pobres? Então o pecado do eu é definido em função da carência do outro. Deixa de ser pecado, passa para o domínio das “injustiças” que semeiam um mundo desigual. E a menos que cada indivíduo responda hoje pelos erros dos seus antepassados que criaram as injustiças na redistribuição da riqueza, não vejo como censurar a gula pela carência dos países que vivem à míngua. Quando era mais pequeno e não queria acabar o almoço, diziam-me: “coitadinhos dos meninos que não têm que comer. Se não comeres tudo e for para o lixo, é um crime!” Nunca percebi a pedagogia: a comida que eu não queria, podia ser enviada para quem tem fome em vez de ir para o lixo?

A gula é na comida, como é na música, nos livros, num hobby, numa tarefa (nas mulheres?). A gula é a intensidade que aspergimos na vida, nas coisas que fazemos. Será a pressa de viver depressa, com o medo que seja a última vez que fazemos aquilo que gostamos. Nem que depois se regresse ao pátio do pecado, uma e mais vezes. A gula perdoa-se na consumição dos actos que são alvo da censura da consciência. Já que ela se concentra nos momentos iniciais da coisa gulosa, e se esbate com o seu consumo, é natural que se vá perdendo o rasto à gula. Acaba por se diluir no nada, haja a consciência que a gula, não sendo pecado (porque não existe), é o motor dos sentidos que fazem de nós seres que rejeitam a dormência.

A gula é o apetite de viver, com intensidade. Como poderia ser “pecado”?

13.7.05

Baile de debutantes

Às claras (ou por trás dos cortinados do glamour social). O que deve passar para o exterior, receptáculo de sinais de convivência social que convém perpetuar (ou o bas-fond detrás das regras de etiqueta).

Adolescentes empertigadas excitam-se com os candelabros da ribalta social. Emproadas, trajam os seus vestidos de gala na noite de “apresentação à sociedade”. Festança da grande, progenitores garbosos – pois que mais do que dar a conhecer a descendente aos seus pares, é ensejo de se fazerem mostrar pela enésima vez. Um ritual partilhado. De reafirmação de pertença para os pais que deixam escapar uma lágrima furtiva, embevecidos pela continuação da prole e pela manutenção do estatuto. E ritual iniciático, como se fosse preciso passar pelo crivo da aprovação social de um universo que se auto-promove reciprocamente.

(Depois da festa onde se promovem egos, as meninas despem as lantejoulas e, proletária calça de ganga coçada, desaguam nas discotecas onde as pastilhas de droga sintética correm de mão em mão, atreladas a garrafas de água vendidas a preço de ouro. Olhinhos de sedução a rapazes mais velhos, que se aproveitam, sabichões, da ingenuidade das noviças que acabaram de ser presenteadas à sociedade. Ilusão: da virgindade só restará uma vaga lembrança.)

Elas já foram ensinadas a andar de nariz no ar, satélite orientado para as câmaras fotográficas dos profissionais das revistas cor-de-rosa. Em busca de uma fotografia que depois, com os bons serviços do pai – e com as cunhas que abrem portas, porque os favores do passado são sempre para cobrar algures no futuro –, há-de surgir num canto recôndito das publicações que enxameiam os escaparates. É o zénite, para umas. O ponto de partida para uma longa carreira de vazio espampanante, para as que desbravarem o caminho do sucesso. Há muito de “nobiliárquico”, e o seu quê de hereditário. As linhagens são meio caminho andado para as descendências dos nomes cotados na praça social abrirem as portas da visibilidade social. Outros têm que palmilhar um trajecto de sacrifício para rivalizar no protagonismo.

(Nas escolas, estas meninas arrastam a sua ignorância genética. Penam para passar de ano. O sucesso não é imagem do mérito – que não têm. Também aí os nomes contam muito. Nos finos colégios pagos a peso de ouro, os professores são instruídos no regime do facilitismo. O estigma das linhagens faz o resto: substitui-se ao esforço que os outros, sem fama cultivada por um passado de fulgor social, têm que mostrar. Depois entram nas universidades, para engrossar as estatísticas do insucesso.)

Os bailes de debutantes são uma bolorenta homenagem aos costumes de antanho. Síntese de um mundo faz-de-conta que enleva uma turba que dele não faz parte, mas que tanto gostaria de por lá se peneirar. Uma imagem desfocada, batida pelo néon dos holofotes concentrados no evento. Um regresso ao fausto de tempos idos, fortunas gastas em vestimentas de ocasião que se consomem no instante do baile que passa. Uma representação da pertença social, marca distintiva de uma casta exclusiva a que só chegam os privilegiados. Dizem-me que o tempo mudou as coisas. Que também aqui o dinheiro faz milagres. Abrindo as portas a plebeus que saltam para a ribalta à custa do poder dos cifrões que surgem do nada. Os bailes de debutantes democratizam-se, melhor dizendo, banalizam-se pelo capitalismo que subverte os usos sociais de castas seleccionadas. Agora, uma vindima medíocre que vulgariza a selecção de debutantes expostas aos olhos de meio mundo.

(Estas meninas crescem. Depois dos devaneios adolescentes, mais atreitas aos pecadilhos que censuram nas outras, casam-se – com um rapaz de “boas famílias”, para a casta não envilecer. Eles e elas acomodam-se a uma relação mecânica, fingida. Mantêm os seus amantes e um casamento de faz-de-conta. E não se coíbem de sentenciar sobre usos e costumes, mas sempre usos e costumes alheios. É mais fácil varrer o lixo da casa dos outros do que limpar a casa própria de cima a baixo. E julgam-se a consciência moral de todos nós.)

12.7.05

E porque não viver debaixo da ponte?

Compramos uma casa e temos que reservar uma pipa de dinheiro para pagar impostos, contribuições, taxas e emolumentos vários. Dizem os que acreditam na necessidade de pagar impostos: é o preço por vivermos em comunidade. Só não entendo que mantenham a ingénua opinião quando olhamos para todos os lados e nos encontramos cercados por uma teia de impostos que nos aprisiona, como se fôssemos o manjar que a aranha (o Estado) espera depois de tecida a teia.

Agora já não pagamos o imposto que um primeiro-ministro que não deixou saudades apelidou de medieval – a sisa. Foi substituído pelo imposto municipal de transacções (IMT). Feitas as contas, o comprador de uma casa não ficou a ganhar com a troca: as avaliações fiscais ficaram mais próximas do valor de mercado das habitações. É sempre assim: quando as autoridades decidem mudar impostos, e da mudança resulta o abate de dois impostos que passam a estar condensados num só, da engenharia fiscal resulta prejuízo para o contribuinte. Fazem-se as contas e da calculadora salta à vista o diagnóstico: a cifra a pagar é mais elevada.

Antes de pagar o IMT, há que registar a habitação. Perde-se tempo infindável na conservatória do registo, com o risco de apanhar um antipático funcionário que continua a pensar que somos nós, utentes, que estamos ali para o servir a ele, funcionário. Pagamos os registos provisórios, para depois pagarmos os registos definitivos (para quê a duplicação?). Uma conta calada. Aposto que o valor de mercado destes actos seria bem inferior ao exigido pelo Estado. Se fosse possível computar o valor económico da participação dos funcionários de uma conservatória de registo predial, adicionando um valor pelo acto em si que não fosse a exorbitância do momento, decerto o custo dos registos seria menor. Não o é porque o Estado beneficia de uma posição de monopólio. Os monopolistas fixam o preço que lhes for conveniente. Para os utentes, é pegar ou largar.

A aquisição da casa obriga a pagar o IMT. Onde campeia a imoralidade: o Estado sabe que os intervenientes no negócio escrituram a casa por um valor inferior ao real, para que ambos paguem menos impostos (IMT para quem adquire, IRC para quem vende). As finanças sabem que existe esta ficção, no fundo uma desautorização do Estado. Fosse outra a ousadia tributária, fossem os impostos menos penalizantes, houvesse a percepção de que nos vão estupidamente ao bolso pelo acto nada luxuoso de comprar uma habitação, e decerto se dispensava esta situação de faz-de-conta. Com a agravante da arbitrariedade e da incerteza que estão instaladas. Os fiscais de impostos têm conhecimento da duplicidade de valores. No afã fiscalizador, nunca se sabe se o preço declarado será baixo demais, motivando a ira persecutória de um zeloso funcionário das finanças. Com azar, lá vem multa e mais IMT a pagar.

O monstro dos impostos sobre a habitação ainda não está saciado. Todos os anos, liquidar a contribuição autárquica (depois de passados os dez anos de bónus que piedosamente são oferecidos, esteja o valor da aquisição abaixo de um certo limiar). Tecnicamente, este imposto justifica-se porque a casa ocupa terreno implantado no município respectivo. É de bradar aos céus: que se saiba, as casas ainda não podem planar no ar! Como se dá o caso de terem que estar alicerçadas no solo, e como todo o solo corresponde a um município, eis a oportunidade de ouro para inventar uma receita que enche os cofres das autarquias. À custa de quem se dá ao “luxo” de não querer dormir ao relento.

Se vendemos a casa, e acaso a vendemos por um preço superior ao da compra, mais um imposto a pagar – o imposto sobre as mais valias. Se o mercado tem a ousadia de se caracterizar pela inflação de preços com a passagem do tempo, há que tributar o lucro gerado (como se o lucro fosse uma imoralidade que dá direito a penalização através de imposto). Vale a decisão dos fiscais de impostos. São eles que decidem o valor da mais valia. Depois é só aplicar a fórmula que consta dos códigos, e alegremente liquidar a verba devida.

Diz a Constituição: todos os cidadãos têm direito a habitação condigna. Quando tentamos ser proprietários da nossa habitação levamos com uma enxurrada de impostos e contribuições avulsas, como se houvesse uma contradição entre o preceito da Constituição e a prática. O paradoxo assume maior evidência ao comparar dois cenários – ser proprietário da habitação, ou optar pelo arrendamento. Para quem arrenda, nenhum imposto, taxa e emolumento é devido. E pergunto-me: este afã de arrecadar receitas, tributando tudo e mais alguma coisa, será, no caso da habitação, sinal de uma economia marxista que penaliza a ousadia de quem quer ser dono da sua casa?

11.7.05

Ainda os atentados em Londres: a caminho da demissão das liberdades?

No rescaldo da barbárie em Londres, a emoção fala mais alto. Reclama-se um reforço da segurança, para evitar a repetição do terrorismo que espalha a morte de forma indiscriminada. Como se fosse possível combater um inimigo que não se mostra, caçador furtivo entre nós. Não me interessa a discussão de especialistas que se entretêm a gizar cenários mil para afugentar atentados terroristas. O que me interessa é saber se a ameaça do terror chega para nos demitirmos das liberdades individuais.

Soube-se que o ministro britânico no interior vai propor aos seus colegas europeus um controlo apertado sobre as comunicações telefónicas e por correio electrónico. Quer colocar a Europa sob escuta, arquivando (entre seis a doze meses) todos os telefonemas e mensagens de e-mail que se façam na Europa. Com o objectivo de interceptar mensagens que possam conter, em linguagem aberta ou cifrada, indícios que levem a descobrir estratégias terroristas.

Os que não têm nada a temer não se indispõem com a proposta. Como quem não deve não teme, e como a prioridade é garantir as condições para a não repetição de covardes ataques terroristas, nada obsta a que se faça avançar a medida securitária. Não vejo as coisas dessa forma. Temo que a possibilidade de nos colocar sob escuta seja um passo intolerável que espezinha as liberdades individuais. Se há algo que nos separa dos fundamentalistas árabes, algo que os puristas da civilização ocidental reclamam para si como factor de diferenciação, é o respeito pelas liberdades individuais. Avançar neste sentido significa destruir um elemento valioso do nosso acervo civilizacional, significa um retrocesso. Capitulamos perante a ameaça terrorista.

Há que ter a honestidade intelectual de olhar para o outro lado e interrogar: e na ausência destas medidas extremas, o que nos resta? Não ficamos expostos aos métodos hediondos dos arautos do terror, que aos poucos vão definhando outro bem valioso que é a segurança das vidas e bens? Concedo, há algo de afirmativo na resposta à questão. Como o terrorismo se serve de métodos ao mesmo tempo rudimentares e requintados (por escaparem à tutela dos serviços secretos), e como não há possibilidade de diálogo com os fautores do terrorismo (por mais que Soares e companhia venham sugerir o contrário), pela frente surge um beco sem saída. O que fazer? Continuar como até agora, e deixar o terreno livre para a actuação dos grupos que espalham o terror? Ou aumentar a segurança, nem que isso implique reduzir as liberdades individuais?

Um dilema de difícil resolução. Há muitas pessoas que consideram que este terrorismo é a modalidade contemporânea de guerra. E como estamos em guerra, a excepcionalidade admite soluções que fogem aos cânones. Para situações excepcionais, soluções excepcionais: a restrição das liberdades será o preço a pagar pela segurança. Os que defendem esta forma de actuar dirão que a conjuntura aconselha a dar prioridade à segurança sobre a inviolabilidade das liberdades.

Há quem discorde do método, por não ser consensual o diagnóstico. Tudo passa pelo elenco das prioridades. Mesmo que admita que a segurança está seriamente ameaçada, não acredito que seja motivo suficiente para atalhar caminho sobre as liberdades individuais. Como o disse antes, porque então estaremos a fazer o jogo daqueles que queremos combater. Deixamos de nos distinguir deles, embora reconheça que exista uma ampla diferença de grau nos atropelos às liberdades – os fundamentalistas desvalorizam a vida humana, por cá “apenas” iremos limitando as liberdades individuais. E nada garante que a restrição das liberdades traga eficácia: nada garante que o dia-a-dia securitário que atropela as liberdades consiga amparar a segurança, varrer do mapa as ameaças de terror que pendem sobre nós.

Interrogo-me se o cenário de terror que não tem lugar nem tempo para atacar não é idílico para os governantes dos países ocidentais que necessitam de vincar a sua autoridade. Nada melhor que um “estado de sítio” para exercer o poder sem ser contrariado. O Estado de direito transfigura-se ao ser desafiado pela ameaça de terror. No afã de derrotar o terrorismo, não estará o Estado de direito a desvirtuar-se, num atropelo consciente das liberdades individuais? E os que aceitam a limitação das suas liberdades, néscios por acreditarem que essa é uma exigência do estado de sítio semeado no mundo?

8.7.05

Terrorismo, hipocrisia

A angústia macerava-se na boca dos londrinos, à espera do inevitável. A ameaça vinha de longe, fermentando no espírito ignóbil dos terroristas carrascos de inocentes. É este o âmago da questão: a chacina de inocentes, no inditoso destino de serem nacionais de um país cujo governo entrou em aventuras bélicas, ou pessoas que não tendo essa nacionalidade tiveram a infelicidade de serem visitantes do local no dia errado.

Tenho um certo fascínio pela civilização árabe. Dado ao multiculturalismo, não subscrevo teorias que objectivam comportamentos e padrões civilizacionais. Este local já serviu para renegar as visões etnocêntricas do mundo. São o combustível que inflama um choque de civilizações cuja nitidez se faz notar com a passagem do tempo. Também não fui adepto da última intervenção militar no Iraque, nem da fórmula escolhida para pacificar a região após a deposição do sanguinário ditador. Nada disto me leva a compreender os actos de terrorismo que a rede Al-Qaeda espalha pelo mundo.

Os que esboçam teorias que levam à compreensão do fenómeno terrorista, tentando analisá-lo na óptica de quem perpetra os actos de terror, alegam que este é o único meio à disposição do beligerante mais fraco devido à desproporção de forças. Um terrorismo que prolifera na incerteza do local que será atacado, na incerteza do momento em que as bombas serão detonadas. Uma chaga sem rosto, um inimigo invisível que só se detecta depois da devastação ter chegado sem aviso. É óbvio que existe uma gritante desproporção de meios entre os grupos terroristas árabes e os exércitos das potências ocidentais que os combatem. Não será esta desproporção que justifica os meios utilizados pelos terroristas.

A frieza, a brutalidade praticada, o sangue de vítimas inocentes derramado, nada legitima os actos cometidos nem embeleza a causa dos fundamentalistas árabes. Dir-se-á que pouco lhes importa a avaliação feita deste lado, mesmo por aqueles que mostrem uma certa compreensão pela causa que defendem. Vivem num mundo diferente, presos a quadros mentais ininteligíveis para os leigos do ocidente. É como se um abismo profundo nos dividisse. Nesse abismo cultiva-se uma intolerância de parte a parte. À intolerância que se exibe no fragor das bombas que guilhotinam inocentes apanhados pelo caminho, a resposta vem na intolerância que goteja em reacção às horrendas imagens da destruição semeada pelos terroristas. O abismo vai-se adensando, numa caminhada para o caos que se desconhece.

Mesmo com as cautelas de quem evita cair no alçapão do etnocentrismo, não aceito os métodos hipócritas dos terroristas que atacam inocentes. Eles dirão que as pessoas que vitimam não são inocentes, porque são cidadãos de um país que é, como um todo, o inimigo a abater. Tomam a árvore pela floresta, arriscam-se a fazer tombar sem vida pessoas que não se revêem nas decisões bélicas do seu governo; a matar turistas que estejam no gozo de um merecido descanso na cidade errada, no dia errado; até a ceifar a vida de irmãos da fé islâmica, que tantos há por Londres, tantos frequentam os transportes públicos para irem trabalhar.

Nada disso interessa aos fundamentalistas árabes que covardemente se escondem na face anónima dos cegos ataques terroristas. São vítimas colaterais, mas vítimas que destilam a absurda cegueira da causa que prosseguem, misturada com os traiçoeiros métodos em que são peritos. Adivinho que questões de imagem não são prioridade para estes grupos terroristas: não estão preocupados em captar simpatias entre o mundo ocidental. Por isso se esmeram nos métodos carniceiros, primitivos, desumanizados. Perdendo razão na causa por que dizem lutar.

O método de atingir inocentes não é exclusivo dos fundamentalistas árabes. Há dias passaram imagens de uma das inúmeras manifestações de activistas anti-globalização, onde o folclore se mistura com violência. Vi os manifestantes avançarem em direcção da polícia, arremessando tudo o que estava à mão, obrigando os polícias a um recuo táctico – não fossem investir com bastões e canhões de água, para depois serem acusados de “violência policial”. Vi um encapuçado adepto do anti-capitalismo a partir o vidro lateral de um anónimo automóvel que, para infelicidade do proprietário, estava parqueado no local errado. Já nem pergunto pelo respeito pela propriedade alheia, coisa desvalorizada pelos grupelhos que cirandam em redor destas folclóricas manifestações. E se, por acaso, o proprietário daquele veículo tivesse alguma simpatia pelas ideias dos movimentos anti-globalização, onde está a justeza do acto violento praticado pelo animal?

Em ambos os casos – ataques terroristas em Londres e violência indiscriminada que leva tudo à frente nas manifestações anti-globalização – uma irmandade nos métodos utilizados. As consequências são diferentes – menos graves no segundo caso, por não tolherem vidas. Mas nada os separa nos métodos.

7.7.05

Optimista desenfreada

Um sorriso desarmante. Uma lição, por ver na vida as coisas belas, mesmo nas mais insignificantes coisas que a vida é capaz de oferecer. É capaz de admirar as pessoas, de ver a bondade que delas irradia. Apetece-lhe conhecer vidas diferentes, sabendo que cada vida que conhece é um livro aberto de onde retira ensinamentos para a sua vida. Aborda os dias com um vibrante optimismo. Acredita que o dia que começa será pródigo em momentos que lhe trazem o reconforto que é saber-se feliz. Num ciclo infindável: no seu optimismo metódico hasteia a indelével esperança que o dia que virá depois traz mistérios que só podem deslumbrantes.

Ciosa do seu bem-estar, recusa o derrotismo. É incapaz de perceber os que se colocam na defensiva perante a existência – a sua própria existência individual, e a dos outros. Deposita a sua fé nas virtudes do ser humano. Sabe que a vida a sós é destituída de sentido. Que o Homem só o é na sua plenitude quando marca encontro com os seus semelhantes, numa vida em comum plena de interacções. É militante das causas que professa. Sempre que pode, agenda estocadas nos ímpetos abúlicos que se acercam. Participa, interessada, no seu entorno. Quer deixar a sua marca, ainda que saiba que por entre uma multidão anónima o que interessa não é o estrelato do legado, mas o legado no que representa para a satisfação interior.

Duvida, por vezes. Aguça o espírito crítico, desafiando o que revê na sua pessoa. Um percurso necessário para se reencontrar quando desventuras a levam a encruzilhadas dilemáticas. Mesmo quando se sente à beira do desnorte, mantém viva a chama do optimismo que nunca deixa de habitar em si. Percebe que o bem-estar não é uma linha contínua, sempre em alta. Aparece interrompida por momentos baixos, que não a deixam sufocar na vertigem do abismo interior. Nesses momentos de devaneio, em que procura reordenar os ponteiros da bússola, fixa com discernimento a divisa que a guia – a clarividência de se manter arreigada à postura optimista, a um espírito positivo que consome a sua vida a eito.

Do alto da sua metódica compostura, desafia a desconfiança alheia mostrando-se confiante nas pessoas que a rodeiam. Acaba mergulhada numa ingenuidade desarmante mas genuína, que conflui em instantâneas amarguras. Encara-as como desafios de crescimento. Ainda que por momentos esteja em crise pela mágoa que se apodera, sabe como retirar o sumo das nuvens negras que a atropelam. Não se deixa definhar numa consumição gratuita; olha em frente, ri-se com as figuras tristes que deixou retratadas no álbum das memórias, aprende com os erros do passado, em tudo consegue ver uma essência positiva e recusa-se derrotada.

O bem-estar interior giza o caminho para a negação de conflitos. Não os conflitos interiores, as perplexidades que a visitam a espaços. Afinal um optimista militante tem mergulhos introspectivos que lançam sementes para o crescimento do ser. O que rejeita são as guerrilhas espúrias. Evita o contacto com as almas conflituosas que se alimentam da força diáfana das relações desavindas com o outro. São estas as pessoas de que foge com convicção, pois exercem uma força negativa que desfere lanças venenosas sobre a sua essência optimista.

Renega as concepções existenciais que renunciam as cores belas espraiadas diante dos nossos olhos. Aos que insistem que o mundo é um local hediondo para se viver, dá como casos perdidos, entregues ao seu destino, ao seu livre arbítrio de mudarem de vida sob pena de morrerem por dentro dos seus espíritos. Não confunde o seu optimismo vivencial com espírito de missionária, que não tem. Convicta de que em nós habita o acto espontâneo de trilhar caminhos percursores do bem-estar interior, afasta-se das influências negativas e aposta tudo, com a força inquebrantável que dela emerge, nas pessoas que partilham o seu genético optimismo.

A esses entrega-se descomprometida, sem espartilhos, ao saber que deles pode beber a inspiração que alimenta a sua maneira de viver apenas entregue às coisas belas que a vida oferece. Procura nelas - pessoas e coisas belas - o oxigénio da existência. Sem o querer, uma invejável lição de vida, um mapa que orienta a forma de jugular a intuição do pessimismo sombrio que insiste em perfilar-se no horizonte.

6.7.05

“Orgulhosamente sós” e xenofobia

Há uma marca de iogurtes que apostou numa atractiva campanha de marketing: nas embalagens dos iogurtes de fruta, a menção de que só contêm fruta nacional. É o regresso ao velho ideal “o que é nacional é bom”.

(Era interessante indagar a fundo o conteúdo do produto, para testar a seriedade da informação. Sabendo-se que a indústria agro-alimentar recorre com intensidade a corantes, conservantes e substâncias que substituem produtos naturais – há tempos descobri que a indústria da pastelaria usa ovo em pó… – a fruta publicitada é fruta verdadeira, ou apenas mais um embuste ditado pelas necessidades do marketing?)

Num programa matinal de televisão que chega até aos meus olhos nos momentos que antecedem o almoço, passa uma rábula. O actor informa que todos os dias são criados não-sei-quantos postos de trabalho na agricultura nacional por causa da empresa de lacticínios que se envaidece de usar fruta dos pomares nacionais. A assistência, entusiasmada e ciosa de preocupações sociais (tê-las é de bom tom, há que não olvidar), aplaude. Sinto que todos vão sair dali mais ricos com a diligente informação.

Eis senão quando, num golpe de asa, o actor tira da cartola uma proposta imaginativa. Lança um repto aos autarcas: pede-lhes que ao licenciarem a construção do enésimo hiper-mercado contratualizem a obrigação da superfície comercial se abastecer de frutas e legumes oriundos de agricultores locais. E se a produção destes fosse insuficiente para as necessidades, dar-se-ia primazia aos agricultores de concelhos limítrofes. Só quando se esgotasse a produção nacional é que poderiam comercializar bens provenientes de outros países. Excitado, o actor finaliza a rábula: ainda que os géneros frutícolas e as leguminosas regionais fossem mais caros, deviam os hiper-mercados apostar na produção nacional por imperativos de pedagogia. Eu descodifico o que o inefável actor não conseguiu dizer: que nós, consumidores destes bens, temos que ser uma espécie de “segurança social” dos agricultores portugueses.

A cordeirada presente no estúdio acenava a cabeça em sinal de concordância. Ao lado do actor, a Barbie apresentadora esboçava o milionésimo sorriso de orelha a orelha, branqueada dentadura a contrastar com a tez estorricada por incontáveis sessões de solário, saltando de excitação com a ideia brilhante do actor. A criatura terá tirado a licenciatura em direito e terá tido uma disciplina que lhe ensinou os fundamentos da União Europeia. Que ser membro da União Europeia envolve muitas coisas, entre as quais uma que se chama “liberdade de circulação de mercadorias”. Nenhum país que pertença à União Europeia pode impor obstáculos à entrada de produtos com origem noutros Estados membros. Só se pode exigir reciprocidade de tratamento se os outros não discriminarem contra nós. Porque se formos nós a discriminar os outros países da União, então só podemos esperar que a seguir venham retaliações que nos discriminem. Participar na União Europeia não é só colher os benefícios; é também participar nos deveres.

A figura Barbie que co-apresenta aquele programa, do alto da sua ignorância, deixou escapar este importante aspecto que desmontava a rábula do actor. Em vez disso, permaneceu com o seu sorriso Pepsodente, encantada com a performance, fazendo tábua rasa do que lhe foi ensinado nos bancos da universidade. Fazer cidadania também é isto – corrigir os erros dos outros, sobretudo quando eles podem induzir muitos mais em erro.

Nota final para a incongruência do actor: quis opinar sobre mais um dislate a que Alberto João Jardim nos habituou. Desta vez com as lamentáveis afirmações que entoaram xenofobia contra chineses, indianos e pessoas de leste. Mas paremos para pensar: quando se reclama tratamento prioritário à fruta e legumes portugueses, não estamos a admitir uma discriminação dos que não são portugueses (mais a mais quando as regras da União Europeia o não consentem)? Concedo a existência de uma diferença de grau: numa coisa falamos de pessoas, noutra de produtos. Mas mesmo nos produtos não há uma implicação indirecta nas pessoas? Quando se defende a primazia dos produtos agrícolas portugueses não se pretende defender o emprego nacional?

Num mercado aberto, exposto à globalização que é tão positiva para quem consome, estes proteccionismos são a versão encapotada da xenofobia que o actor desdenhou no episódio de Alberto João, mas que nem deu conta que estava a ser fautor na rábula que protagonizou.

5.7.05

Publicidade perigosa…


Reportagem sobre a “democracia à socialista” – ou de como alguns destes espécimes têm um entendimento muito particular das palavras “democracia” e “tolerância”. Aconteceu em Braga, onde o edil decidiu embirrar com os outdoors do candidato concorrente. Alegou que os cartazes são um perigo à segurança rodoviária, porque foram plantados nas imensas rotundas que enxameiam Braga, podendo distrair os automobilistas. Ainda bem que se cumpre Estado de direito: o candidato rival queixou-se em tribunal, que lhe deu razão. Obrigando o dinossaurico autarca bracarense a meter a viola no saco. Às vezes os tribunais dão lições de convivência democrática aos supostos democratas que não sabem distinguir maioria absoluta de poder absoluto.

O jornalista entrevistou o candidato da coligação PSD-CDS. Tentou entrevistar a pessoa pequenina de barbicha ridícula e olhos esbugalhados que se encontra agarrado ao cadeirão do poder em Braga há longos anos. Talvez por ainda estar a sofrer os efeitos da indigestão causada pelo tribunal, não estava disponível para declarar coisa alguma. Como vai sendo hábito no nosso jornalismo, o repórter tinha que opinar.

(Um parêntesis, em sentido literal: causa-me espécie este jornalismo que se ufana da maior imparcialidade e depois resvala candidamente para a exibição de opiniões próprias, quantas vezes marcadas pelo desconhecimento de causa e pela leviandade da análise. Julgava-se que jornalismo é isenção; afinal, é só atropelos a este dogma. Será produto da evolução do sector, com a formação de jornalistas por universidades consagradas ao estudo do jornalismo como ciência elevada a um patamar superior?)

O jornalista opinou: deu a entender que o argumento do autarca de Braga era inadmissível, absurdo. Mesmo tendo razão, não é isto que se espera do jornalista quando exerce a sua função. Ninguém pediu aos jornalistas para serem “educadores do povo”. Nem que se bata na tecla da impreparação geral da audiência, nem assim é aceitável que os jornalistas se façam passar por professores do povinho que consome com religiosidade o que eles decretam do alto da sua sapiência. Dispensava-se o comentário final do jornalista. Até porque, querendo brilhar, terminou a reportagem exibindo a imagem que reproduzo lá em cima, lançando a interrogação: “e publicidade desta, não será ela a pôr em perigo a segurança rodoviária?

Era o que faltava, termos uma qualquer autoridade investida de um iluminado poder moral a sentenciar sobre o que é publicidade segura e publicidade insegura! Já não bastam os ministérios, secretarias de Estado, direcções-gerais, sub direcções-gerais, observatórios disto e daquilo, agências especializadas, altas autoridades e quejandos que existem a rodos? É magnífico o espírito criativo desta gente, com uma sede inventiva que descobre mais um domínio onde o Estado tem que pousar a pata regulamentadora.

Fiquei sensibilizado com a preocupação do jornalista. Num tempo em que tanto se disserta acerca da segurança rodoviária, porque não inserir uma norma no novo código da estrada que proíba a exibição de imagens sugestivas, com mulheres semi-desnudadas, expoentes de sensualidade, que possam fazer cavalgar as hormonas masculinas para níveis preocupantes ao ponto de causar despistes e embates? Aliás, as próprias seguradoras deviam contribuir para o peditório: recusando-se a pagar os danos de acidentes provocados por varonis distracções de quem se embevece com as imagens tórridas plantadas pelos outdoors de norte a sul.

A imagem é sugestiva. Deter o olhar na menina que começa a tirar o calção e deixa exposto o mínimo biquini que se entreabre pelas curvas adocicadas que começam na curvatura dos rins e findam nos alvores das pernas faz bem à vista, é inequívoco (perspectiva marialva, claro!). Ir além disso é entrar no domínio do doentio. Sê-lo-á o jornalista que quis misturar alhos com bugalhos e, sem dar conta, acabou cercado pelo ridículo?