22.7.05

Jorge Coelho, o Pinto da Costa da política



Quando fala, sentencia. É de verdades absolutas que falamos quando Jorge Coelho (JC) se dirige às massas. Se a verdade já é inquestionável quando discursa para as bases do partido, também o é quando o destinatário é o país que vai além do enternecedor PS. Gosto particularmente quando JC fala “em nome do país”: o país acha, o país exige, o país isto, o país aquilo. JC é o porta-voz do país, como se o país o tivesse mandatado para falar através da sua voz.

Há momentos de exaltação que, estivéssemos no tempo do Estado Novo, de exaltação patriótica se tratava. Como os tempos mudaram, apenas glorificação partidária, a afirmação de interesses que se sedimentam, por portas travessas, através da vida partidária. São os comícios, ou as intervenções que culminam jantaradas que reúnem os dedicados militantes do partido. Nem que o repasto seja do mais elevado calibre, nem que entre os comensais estejam pessoas com queda genética para as delícias da gastronomia, nem assim os prazeres gustativos levam a palma à gratificação de escutar JC numa empolgante prédica que prende a atenção da turba hipnotizada. JC não discursa, berra. Gesticula, enquanto mede ao milímetro as palavras que saem, jactantes, do púlpito para as massas. Que aplaudem sempre que o chefe do aparelho entoa ainda mais alto, e com mais entusiasmo, certa ideia (se é que as há) que, acha ele, deve cativar o aplauso. Assim se cimenta a fidelidade partidária. E se consolidam os interesses que se sentam à mesa do PS que ele lidera.

Não me equivoquei: é JC que manda lá em casa. E não é só no PS, pois os seus tentáculos alcançam os meandros do governo. Com a sua omnisciência, JC domina o aparelho do PS e domina o governo que é do PS (não vão os independentes, que convém arregimentar, desvirtuar a essência socialista do governo). É o “big brother watching you”. A expressão sublime do caciquismo partidário, na pior expressão da partidocracia reinante – o PS. Não é por acaso que o sempre atento “contra informação” tirou da cartola o cognome “Coelhone” para o boneco que é a caricatura de JC. Imagem sugestiva: “Coelhone” como Corleone. A máfia partidária que faz as regras do jogo, dentro do partido e com o alcance no exterior, lançando a rede a tudo o que mexa.

Com a segurança das suas certezas, JC acompanha uma reduzida elite (Soares, Louçã, Carrilho, Rebelo de Sousa, Freitas do Amaral, Vitorino) que sabe o que diz e pensa que os contestatários ou são ignorantes, ou estão de má fé, ou são ímpios adversários que convém espezinhar sem piedade. Não pede meças ao desbragamento verbal – quem não se lembra, ainda no consulado guterrista, da pérola “quem se mete com o PS, leva”? Fosse o ditirambo proferido pelo incontinente verbal de eleição – Alberto João, do Funchal – e imagino o terramoto que não se teria feito sentir. A JC tudo se perdoa, mesmo que as ameaças sobre os que se “metem com o PS” tresandem a violência (pelo menos verbal).

JC entrou no panteão das personagens que, quando surgem no ecrã, me fazem mudar de canal. Concorre com os nomes do parágrafo anterior, aos quais se junta Pinto da Costa. Fartei-me de apanhar a toda a hora com o “coordenador do PS para as eleições autárquicas” a perorar sobre todo e qualquer assunto. Por isso disse, numa ocasião anterior, JC é o verdadeiro primeiro-ministro deste país. Já me tinha fartado da gritaria, do vozeirão que ressoa a varina a apregoar o negócio na lota, nos fantásticos jantares que reúnem a família cor-de-rosa. Mas não consigo fugir da sua presença. JC é omnipresente, entranha-se por todos os poros: se não é na TV, é na rádio, nos jornais, nos blogs. Ele aparece sempre, invadindo a nossa vida, ditando leis, sentenciando, sempre sentenciado, a estola do grande educador que nos dispensa de pensar pela nossa cabeça. Ele encarrega-se da tarefa, magnânimo que é.

JC é a ilustração do que me leva a ser abstencionista. O odor a batota que nem mil banhos conseguem limpar, a retórica inconsequente que almeja figurar como verdade incontestável, as pequenas tricas que afastam uns e promovem outros dentro do aparelho (e depois, exportados para a máquina dirigista do país), a desonestidade intelectual que passa incólume. Quando há anos ouvi o jornalista Carlos Magno a tecer loas a JC, fiquei esclarecido: juntou-se a fome com a vontade de comer, numa irmandade que é o elogio supremo à mediocridade.

E JC é o cheiro da hipocrisia que se impregna na pele. A última preciosidade: elogiar Campos e Cunha depois do ex-ministro das finanças se ter cansado da companhia, batendo com a porta. Enquanto foi ministro, nunca teve uma palavra de encorajamento do grande JC. Este elogio fúnebre sugere a admiração por alguém justamente porque deixou de ser ministro!

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