31.1.06

Desnudamento

Há tempos escrevi sobre uma espécie escondida de voyeurismo, dos aspirantes aos estrelato social. Hoje reflicto sobre a tarefa de escrever e de expor a escrita. De como existe exposição do eu aos olhos de outros. Um certo desnudamento do autor, quando o texto resvala para o pessoal ou para a exposição de ideias embrulhadas em polémica.

Sempre tive pudor em revelar certas dimensões de mim. Às vezes olho para trás, viajo pelos textos publicados, e sinto que está lá uma parte indelével de mim. E interrogo-me se não estou a permitir uma violentação do eu reservado que se quer manter assim. Sabia que a escrita (ou os ensaios dela) constitui um acto de revelação pública. Já me disseram que isso requer coragem. Nunca o encarei por esse prisma. Já antes de ter gerado o blog escrevia com a mesma regularidade matinal. Decidi fazê-lo por imperativos de higiene mental. Para não viver cerceado pelas muralhas da investigação científica que a profissão exige. O blog terá sido um modismo, uma aventura ao que tanto recusava: a exposição da escrita, da opinião.

Na encruzilhada é difícil discernir por onde ir. Por momentos, a pulsão de deixar de escrever – ou apenas de o revelar aos olhos dos outros, como agora. Noutros momentos, a necessidade de partilhar com a restrita audiência. Por vezes, a forma encontrada de desempacotar coisas que é mais difícil libertar nas palavras que se dizem. Dividido entre os dois lados que se antagonizam. Há alturas em que a revisitação de certos textos faz sentir que parte de mim se desprendeu, agarrada a esses textos. É deste desnudamento que falo. Este o desnudamento que me inquieta.

Não há ambições mediáticas. Nem projectos de carreira literária, apesar do prazer incomensurável da escrita. Se acaso algum dia viesse a publicar escrita (não o que já está publicado, que esse não é de gesta literária), saberia que a exposição era a mesma, talvez numa escala amplificada. A escrita, essa, tanto pode ficar resguardada numa pasta secreta do computador, inacessível, como florir em forma de letra publicada, num blog como num livro. Para adensar o dilema da encruzilhada, questiono-me para que serve uma escrita mergulhada para o íntimo de mim mesmo, invisível aos olhos dos outros, porque deles escondida pelo recato da não publicação. Seria uma escrita narcísica, ainda com os predicados profilácticos, mas sem um destinatário.

Outro dilema semeado: deve a escrita ter um destinatário? Por vezes, nem que seja por portas travessas, nas entrelinhas fica sugerido o destinatário. Outras vezes o texto é enviado para essa comunidade gigantesca que navega na rede, pondo o pedaço do eu que vai incrustado no texto à disposição do aleatório acto de pesquisa de quem o encontra. Resta-me a opinião, desbragada por vezes, outras tantas excessiva apenas com o fito de exercitar a veia provocatória. O preço a pagar é a exposição do excessivo, um autor desalmado que caustica demais, expondo-se aos maus fígados alheios (afinal, maus fígados que destilam contra o mau fígado que opina deste lado).

Não sei se não serei voyeur de mim mesmo, com estes textos. Involuntariamente voyeur de mim mesmo. O quanto me custa sentir com a revelação através da escrita: invasão que faço a mim mesmo. Matéria para introspecção pelos tempos que se seguem. Com as devidas proporções, há algo de perturbante na ideia: como angustiante deve ser, para as figuras públicas, andar na rua e ver que as pessoas que com elas se cruzam os fitam, reconhecendo-os na qualidade de figuras públicas. Com as devidas proporções, às vezes sinto que a revelação dos textos é a revelação da minha nudez. Só ainda não sei se o recato trará mudança, com o irromper de um novo tempo, um encerramento nas masmorras de mim mesmo.

12 comentários:

Anónimo disse...

Mantenho o que sempre te disse: parabéns pelo teu atrevimento! Pelo revelar de um teu "eu" tão facilmente criticável. Eu nunca o conseguiria fazer.
Só fico surpreso quando te vejo a responder a provocações de quem está completamente "passado"...! Se é verdade que as suas reacções amplificam o que dizes, a tua reacção às reacções também as salienta.
E há algumas que deveriam ser pura e simplesmente ignoradas.

Ponte Vasco da Gama

P.S. - Quanto às Tunas, concordo com o Carter: aquilo é só gajas, alcool e música. Coisas contra as quais não tenho absolutamente nada. Mas não passam disso.

Anónimo disse...

Não sei se já to tinha dito: parabéns por ser quem és. Pelo mostrares o que tens de Paulo Coelho. Eu não tenho, senão mostrava.
Só me surpreendes ao ligares a esses tipos que se injuriam com tão justa análise, uns drogados por certo...! Se é verdade que eles ligam a tão pouca coisa, a tua resposta a tão pouca coisa faz dessa pouca muita. E algumas resistências a tão pouca coisa deveriam ter sido claramente apoucadas.

Parque das Nações

P.S. Quanto aos coros, ranchos e outros agremiações pseudo-musicais, concordo com o Fidel (ou tocam todos rumbas, ou...): aquilo é malta abichanada com umas vestimentas estranhas, que só faz piqueniques, beberetes e tocam ou cantam (que chatice, tinham de produzir alguma coisa). Actividades que eu não condeno. Mas que nada têm que ver com produção cultural...

Anónimo disse...

Exmºs Srs e Senhoras:

De drogados a abichanados, agora, até, são as Tunas, nas Vªs Doutas e Sapientes mentes iluminadas. Eís a Raça Suprema do Português de Elite, personificada em Vªs Senhorias, qual Nova Ordem Lusitana a estrebuchar o que é "Cultura" e a rotular o que não é! Triste, muito triste.



Um grande "Heil" para todos vós!

Anónimo disse...

Calma. A posta era irónica e dirigida ao estremoso amigo (Ponte Vasco da Gama) de sua Excelência.
Um abraço e um murro no catchaço.
Parque das nações

Anónimo disse...

Extremoso. Naturalmente.
Parque das Nações.

Anónimo disse...

Avaliando a natureza dos considerandos produzidos eu chamar-lhe-ia mais "estrumoso".

É no entanto um estrumoso ligeiramente desalinhado. Os outros membros do triunvirato apregoam que as tunas "é só gajas" e "comer gajas", este iluminado atira com um ousado e quiçá humurístico "malta abichanada"... mau, em que ficamos afinal?

Sim sr., com a chegada da "cavalaria" isto animou e de bêbados, chulos e falhados passámos também a drogados e homossexuais e fomos ainda brindados com um neo-conceito de cultura por parte deste rapaz "sensível".

De facto, bem diz o povo do alto da sua sapiência: "diz-me com quem andas..."

Parafraseando o saudoso Pessa: "E esta hem!?!?!"

Anónimo disse...

«É no entanto um estrumoso ligeiramente desalinhado. Os outros membros do triunvirato apregoam que as tunas "é só gajas" e "comer gajas", este iluminado atira com um ousado e quiçá humurístico "malta abichanada"... mau, em que ficamos afinal?
Sim sr., com a chegada da "cavalaria" isto animou e de bêbados, chulos e falhados passámos também a drogados e homossexuais e fomos ainda brindados com um neo-conceito de cultura por parte deste rapaz "sensível".»

Calma.

A posta que redigi ironiza o comentário anterior.
Quer isto dizer que exponho ao ridículo o que foi dito pelo senhor Ponte Vasco da Gama (PVG), amigo do comandante deste pseudo-blog.
Mas não se chateiem. Estão a tirar a piada de gozar com o senhor que mora ao pé de mim: PVG.

Parque das Nações

P.S. Isto da dialéctica é lixado. Se gozamos com este atiradores de postas de pescada que têm a mania de escrever blogues pseudo-intelectuais contra o mundo inteiro, e ironizamos com os seus seguidores, logo há-de haver alguém que – correctamente animado de valores e ciente da postura respeitadora que devemos ter para com os outros – nos vem estragar, inadvertidamente, a festa.
Raios. Se utilizarmos a linguagem pseudo-intelectual destes tipos (FELINO e PVG) e lhes devolvermos as postas com um bocadinho de acidez, sempre gozamos mais um bocado.
Tenho dito.

Anónimo disse...

Cultura s.f. : (...) maneiras colectivas de pensar e de sentir,; conjunto de costumes, de instituições e de obras que constituema herança social de uma comunidade ou grupo de comunidades; conjunto de das acções do meio que asseguram a integração dos indíviduos numa colectividade; conjunto dos conhecimentos de alguém (...)

Parece-me que muitas coisas se englobam no conceito de cultura...

Anónimo disse...

«Cultura s.f. : (...) maneiras colectivas de pensar e de sentir,; conjunto de costumes, de instituições e de obras que constituema herança social de uma comunidade ou grupo de comunidades; conjunto de das acções do meio que asseguram a integração dos indíviduos numa colectividade; conjunto dos conhecimentos de alguém (...)
Parece-me que muitas coisas se englobam no conceito de cultura... »

Ora aí está uma forma elevada de brindar estes pseudo-intelectuais.

Acrescento as palavras do senhor professor que subtitulam o nome deste jornal de parede virtual:
"Ideias sem freio. Palavras selvagens. Rebeldia aquietada."
Ui. Já estou a sentir um frémito com tanta verborreia paulocoelhística.
Vá lá confesse: é um adepto, não é?

Anónimo disse...

Parque das Nações. Naturalmente.

Pena disse...

Eu fiquei curioso em saber a definição de cultura e que actividades podem ser consideradas culturais no entendimento sobranceiro dos amigos do Felino.
Ao menos expliquem-se e argumentem com dados objectivos.
Atirar que ranchos, tunas, grupos e modinhas não são cultura, é mesmo de quem demonstra uma ignorância total em termos sociológicos, históricos e musicais.

Mas provem que não é cultura, que raio!
Digam, pois o que o é!

Anónimo disse...

Caro Pena

Repito o penúltimo comentário que fiz sobre este pseudo-desnudamento do professor felino.

«Calma.

A posta que redigi ironiza o comentário anterior.
Quer isto dizer que exponho ao ridículo o que foi dito pelo senhor Ponte Vasco da Gama (PVG), amigo do comandante deste pseudo-blog.
Mas não se chateiem. Estão a tirar a piada de gozar com o senhor que mora ao pé de mim: PVG.

Parque das Nações

P.S. Isto da dialéctica é lixado. Se gozamos com este atiradores de postas de pescada que têm a mania de escrever blogues pseudo-intelectuais contra o mundo inteiro, e ironizamos com os seus seguidores, logo há-de haver alguém que – correctamente animado de valores e ciente da postura respeitadora que devemos ter para com os outros – nos vem estragar, inadvertidamente, a festa.
Raios. Se utilizarmos a linguagem pseudo-intelectual destes tipos (FELINO e PVG) e lhes devolvermos as postas com um bocadinho de acidez, sempre gozamos mais um bocado.
Tenho dito.»

Poderei, no entanto, ter induzido os leitores em erro. Deste modo esclareço: Quem parece ser um adepto da verborreia paulocoelhística é a excelência felina, não o anónimo que posta, e muito bem, o conceito de cultura.

Naturalmente, não sou amigo, porque não tenho qualidade intrínseca (leia-se abstémio em todos os sentidos), do senhor professor felino.

Parque das Nações

N.R. Assinando como Parque das Nações passo a ser vizinho do senhor Ponte Vasco da Gama...