28.2.06

A brigada dos bons costumes volta a atacar

Um sindicalista protestava. Desta vez com razão. Denunciava os códigos de conduta que certas empresas impõem aos trabalhadores, com regras detalhadas sobre a indumentária aconselhada e o vestuário não permitido. O sindicalista asseverava: estes códigos de conduta são um atentado contra os direitos de personalidade que a Constituição garante.

Olha-se em redor e o que se vê? Interferências sem fim na maneira de ser das pessoas. Como se não bastasse a bebedeira de leis que afina o nosso comportamento nos aspectos mais insignificantes, como se não fosse suficiente seremos conduzidos por um exército de engenheiros sociais que levam o colectivo pelo bom caminho, agora até as empresas deslizam para a mesma prática. Um contra-senso: quando as empresas reivindicam menos intervenção do Estado no mercado, eis que surge um punhado de visionários empresários (ou gestores de recursos humanos, o sucedâneo dos engenheiros sociais à micro-escala das empresas) com medidas que entram na intimidade de cada pessoa que aí trabalha.

Para variar, o sindicalista está cheio de razão quando invoca o atropelo dos direitos de personalidade. Quando a empresa estabelece o fato e gravata como indumentária oficial masculina, que as gravatas não podem ter cores garridas, que as peúgas devem ser de cano alto para que os homens não fiquem com as pilosidades da barriga das pernas à mostra; e quando fica vertido em regra que as senhoras devem vestir o tailleur da praxe e saias que não exponham as pernas à curiosidade dos colegas, quando tudo isto sucede pergunto-me o que virá a seguir.

Nisto devia imperar o bom senso – de quem zela pela eficácia de quem trabalha na empresa e dos trabalhadores. Se fosse o dono de uma empresa (ou o científico gestor de recursos humanos), pouco me importava a indumentária da mão-de-obra. Desde que fossem eficazes e passassem na prova da satisfação produtiva, esfregava as mãos de contentamento sem olhar para os trajes dos assalariados. É o estigma do aspecto exterior que continua a ditar regras. Em vez de se ajuizarem as qualidades intrínsecas, a primeira ideia com que se fica é a exibida pela roupa envergada pelo trabalhador. Quantas vezes cruzamos com um aprumado empregado que tresanda a incompetência, apesar de cumprir os requisitos do código de conduta que impõe as normas da boa apresentação? E quantas vezes o colega do lado, descuidado na apresentação, desempenha melhor mas fica prejudicado pela aparência exterior não condizer com os cânones definidos?

Certas funções exigem um suplemento de atenção à aparência. É para isso que existem fardamentos. Noutros casos, a ideia preconcebida da indumentária indicada é nada mais do que cinzentismo. Ou a força das convenções sociais, que leva um zeloso defensor das ditas a olhar com indignação para um funcionário bancário se, no serviço ao balcão, ele não se apresenta com a vulgar fatiota. Apetece perguntar a estes vigilantes servidores das brigadas de bons costumes: preferem um educado e competente atendimento de alguém que não segue as normas de vestuário, ou um atendimento impessoal, quantas vezes antipático e incompetente, de alguém que respeita os usos da fatiota que se deve pôr para agradar ao chefe e ao cliente?

Quando tomo conhecimento de várias empresas que impõem os códigos de conduta quanto ao vestuário, é a perplexidade que fala mais alto. Por entre o cerco ao livre arbítrio, por entre mais um grosseiro atropelo aos direitos de personalidade que fazem parte da individualidade que devia ser inexpugnável, hão-de surgir outras invenções. Por agora, o vestuário que têm que envergar, as roupas banidas. Doravante, o que mais? A vigilância aos filmes, à música, aos livros, aos locais nocturnos, à comida que ingerimos?

Podem pensar que exagero nos exemplos. Quando me recordo de um episódio passado há meses, não fico tão seguro que esteja apenas a fantasiar. Um funcionário de uma organização internacional com sede em Genebra foi despedido quando se descobriu que fumava dentro de casa. Sublinho, dentro da sua própria casa! A organização internacional foi longe na fobia antitabagista: na política de recrutamento de pessoal, um dos critérios é o não consumo de tabaco. Ao que consta, deve ter detectives ao serviço para se certificar que os funcionários não cometem o mínimo deslize, nem que seja na intimidade das quatros paredes das residências. Já não há certezas, nem do que é seguro como intimidade.

27.2.06

A discriminação positiva dos políticos

Salários avultados para trabalhos de poucos esforços. Alguns contemporizam, argumentam que eles merecem remunerações mais elevadas, dada a responsabilidade do que fazem. Não é por aí que me interessa entrar. Nem tão pouco pelas regalias a que têm direito, as mil e uma alcavalas a que deitam mão com a conivência das convenções estabelecidas: são representantes do povo e merecem ser compensados pela solenidade da sinecura.

Essas benesses convocam o foro da materialidade. Há-de haver quem aceite o generoso tratamento dedicado aos políticos pela importância da função, pela entrega à chamada “causa pública”. Como há-de haver quem suspeite do altruísmo dos “voluntários” da coisa pública, desfiando um rol de compensações invisíveis durante e após as funções. Para o que interessa hoje, é uma discussão estéril. Indigno é que alguém, da classe política, proponha que os membros da casta só possam ser julgados por tribunais superiores. Já não é do foro da materialidade que se fala, mas de outro mais grave – o dos princípios.

Ensinam nas faculdades de direito (e nas escolas secundárias onde os adolescentes tomam contacto com a introdução ao direito) que a lei é geral e abstracta. Decifrando o tecnicismo, que a lei é cega, não olha ao rosto de quem se coloca a jeito da sua aplicação. O princípio tem uma aplicação problemática. Primeiro, a suspeita de que, por vezes, quem aplica a lei contribui para a entorse do princípio. Quantas são as vezes em que os poderosos da nacional paróquia escapam às malhas tecidas pela lei, como se vivessem numa aura que os coloca acima da justiça feita à pessoa comum? Segundo, e mais grave, quando o legislador – uma das vestimentas da casta política – faz leis à sua medida. Mandaria a imparcialidade que um mínimo de decoro impedisse os políticos, enquanto legisladores, da produção de leis que os favorecem entre os demais.

Terceiro, uma dimensão escondida do problema. Quando se trata de chamar deputados à justiça, eles gozam de imunidade parlamentar. Como se fosse um cinto de castidade que protege contra as investidas de furiosas entidades que querem saciar o seu apetite sexual, a imunidade parlamentar garante o sossego de suas excelências. Tantos os episódios em que suas excelências se acobardam na imunidade parlamentar que a justiça fica em banho-maria, à espera que as eminências pardas tenham o bom senso de se entregarem nos braços da justiça, como o têm que fazer os representados. É o direito que não se aplica aos eleitos, só aos eleitores. Em rigor, a proposta de os julgar em tribunais superiores nem sequer faria corar de vergonha o mais incauto, porque raras são as vezes em que suas excelências, os parlamentares, se oferecem para sentar o rabo no banco dos réus.

Não são os detalhes da prática que importam, antes o plano dos princípios. Se somos um Estado de direito, e se um dos seus esteios é o princípio da igualdade de todos perante a lei, a possibilidade da casta superior ser julgada por tribunais superiores é um atentado ao princípio. Aos poucos, o governo vai mostrando a veia salazarenta de que este povo não se consegue desprender. É congénito.

O exemplo do julgamento de políticos por tribunais superiores, dando razão à orwelliana profecia de que uns são mais iguais do que outros, anda de mão dada com outra proposta impensável, do cunho de não confiável personagem (o ministro de uma coisa qualquer, Augusto Santos Silva): este governo quer assegurar a liberdade de expressão nos órgãos de comunicação social através de um reforço dos poderes da entidade reguladora, a quem serão dados meios para impedir excessos de liberdade de expressão. O problema está na fronteira volátil entre liberdade de expressão e excesso de liberdade de expressão. Quem o decide terá agendas pessoais escondidas, trazendo a incerteza para o plano da liberdade de expressão. Desconfio que o lápis azul de outrora será substituído pelo lápis cor-de-rosa com a chancela da superioridade intelectual de Santos Silva.

Das duas uma: tudo isto me faz apetecer mudar de poiso, emigrar para outras paragens mais civilizadas; ou então tudo isto não passa de uma brincadeira de Carnaval.

24.2.06

Corrupção, discreta forma de ser

Coisas surpreendentes, que prosperam a perplexidade porque passam quase incólumes por entre a poeira dos dias. O vereador da esquerda folclórica na câmara de Lisboa recebeu uma tentadora proposta de 200.000 euros para fechar os olhos num licenciamento de obra a favor de quem praticou corrupção activa (Bragaparques). O vereador, Sá Fernandes, denunciou a tramóia. Os jornais fizeram eco da vigarice, mas as ondas de choque foram do tamanho de um fraco abalo telúrico, daqueles que os sentidos não detectam.

É nestas alturas que me inquieta o poder de um polvo tentacular que paralisa tudo o que mexa. Não sei se lhe chame bloco central, o diagnóstico da doença que nos afunda para a segunda divisão das estatísticas, batidos pelos outros parceiros europeus (até por alguns dos países de leste, que estavam longe da nossa posição não há muito tempo). Como seria interessante constituir um grupo de trabalho para apurar o peso da corrupção na riqueza gerada todos os anos – por outras palavras, quanto é que a corrupção subtrai à riqueza gerada. Um grupo de trabalho composto por académicos descomprometidos, nunca mais uma comissão parlamentar que faz de conta que investiga para nada concluir.

A tarefa assemelha-se a encontrar uma mosca num quarto escuro. Mas se há quem se deite a adivinhar quanto pesa a chamada “economia subterrânea” no PIB, os sofisticados instrumentos de medição ao serviço dos economistas permitem avançar com a tarefa que me comprazeria. Talvez a missão estivesse destinada ao fracasso logo à nascença. Sujeita a boicotes de inúmeros interesses instalados a quem não é cómoda a divulgação da fatia consumida pelos actos de corrupção que, se suspeita, são o dia a dia de uma melodramática terrinha.

O que Sá Fernandes teve a coragem de denunciar será uma ténue ponta do icebergue. É de louvar a coragem do vereador (sem que daí passem encómios para o grupelho político que o acolheu como cabeça de lista, para evitar oportunismos espúrios). Dir-se-á: resistiu porque tem um acentuado sentido cívico, uma eticidade que o fez declinar o convite a açambarcar uma quantia tão avultada. Dirão outros que o vereador se deu ao luxo de denunciar a vigarice porque tem uma certa abastança; como não vive em estado de necessidade material, não sucumbiu à tentação de açambarcar a mala recheada de notas. Seja qual for a interpretação, aplaudo a recusa de enfileirar como agente passivo da corrupção e o desassombro de passar para os jornais a tentativa de corrupção. Oxalá todas as tentativas de corrupção tivessem o mesmo destino.

Curiosamente, o rastilho foi aceso e não tardou a ser apagado. Convenientemente apagado. Não foi o terramoto que poderia – e deveria – ter sido. Foi um sismo sem importância, registado para os anais do esquecimento. Haverá investigação doravante, para incriminar quem pisou a linha do ilícito? Haverá alguém a pagar pelo crime denunciado? O futuro se encarregará de dar resposta. Com o pessimismo do costume, aposto que tudo há-de ficar na paz podre da condescendência com aviltantes usos. Há-de vencer o habitual raciocínio: “se os outros corrompem e são corrompidos, porque hei-de ser diferente?”

O silêncio que se fez é daqueles silêncios ensurdecedores que revela as culpas e os rabos-de-palha de muita gente. Se calhar, um daqueles domínios em que pouca gente pode atirar pedras ao ar sem medo que se estilhacem no seu próprio telhado. Como compreender que, aceso o rastilho para levar por diante algo que raramente se prova, o fogo tenha sido abafado? Terá sido pelas forças ocultas que se banqueteiam no lauto manjar dos dinheiros sujos? Nisto da corrupção, as coisas são engendradas por espertos que evitam deixar rasto; nisto da corrupção, quem denuncia acaba por curtir os ossos no banco dos réus, acusado de injúrias e outros crimes adjacentes.

Ao recordar o episódio não consigo resistir a ser tomado pelo moralismo, o moralismo que, como princípio, rejeito. Descanso na minha consciência. Só os outros podem responder perante a sua, quando escorregam para a tentação materialista insuflada pelas propostas indecentes da corrupção. Abro uma excepção na recusa em ser sacerdote da moralidade. Com a corrupção, é o calo mais doloroso que me pisam. E como ele se dói, estas as palavras feitas protesto. Dirão os que apaziguam reacções perante a corrupção: existe em todo o lado, mesmo nos países mais avançados. Pois, mas ela estende os seus tentáculos nos países mais pobres, mais incivilizados – onde a riqueza podia ser maior acaso não fosse desbaratada nos meandros obscuros da corrupção. É este o nosso protótipo? Ou apenas a minha ingenuidade?

23.2.06

A ternura das “manifs” dos camaradas do PC

Habituado a segui-las em noticiários, que se esmeram por dar voz desmedida a quem não representa mais do que seis ou sete por cento do eleitorado. Tal como acontece nas manifestações desportivas, uma coisa é vê-las retratadas no ecrã da televisão, outra bem diferente é ser testemunha directa. Só quando os olhos vêm ao vivo as manifestações (desportivas, e estas, de sindicatos ou dos camaradas do PC) é que certos pormenores deliciosos ficam na retina. Os pormenores que a voragem das notícias deixa escapar.

Descia a Rua de Camões em direcção à Avenida dos Aliados, no final da tarde de um dia de semana. O trânsito fluía, surpreendentemente. Arrependi-me de ter interiorizado a facilidade com que circulava naquele local, àquela hora. De repente, os faróis vermelhos acesos dos carros à minha frente mostravam que a calmaria tinha findado. Em fila, os carros deslizavam em passo lento. Não era acidente, nem o tráfego alucinante de uma cidade que se quer despedir de mais uma jornada de trabalho. Os faróis vermelhos travavam a marcha dos automóveis e sinalizavam a razão do contratempo: uma marcha, vermelha como os faróis dos travões dos automóveis. Uma “manif” de dedicados militantes do partido comunista, o enésimo protesto.

Manda a verdade, os manifestantes não estavam a ocupar o asfalto da avenida. Ordeiramente no passeio, em fila indiana, segurando numa mão a corda que circundava o edifício da câmara municipal. A outra mão, nuns casos, empunhando cartazes de um vermelho vivo debruado a letras negras, com os slogans que tinham convocado os fieis militantes naquele final de tarde. Protestavam contra um qualquer regulamento municipal. Estava mais entretido a olhar para a fauna do que para a mensagem veiculada pelas tarjas. Noutros casos, a mão livre dos militantes mostrava pertença: o punho bem fechado, ao alto, gestos ondulantes de trás para a frente, o sinal identitário dos camaradas que choram saudades dos tempos de glória da Moscovo soviética.

A lentidão da marcha quase dava para contar os manifestantes alinhados no cerco à sede do município. A preguiça do fim da tarde desaconselhou a contagem. Preferi passar os olhos, nem que fosse de relance, pelas pessoas ali arregimentadas no protesto. Os comunistas são ímpares na encenação das “manifs”, com uma capacidade de mobilização que causa inveja aos partidos burgueses à direita, mesmo que eles captem mais votos. Naquele dia, um detalhe despertou a minha atenção: a média etária dos manifestantes.

Rua abaixo, entoando as palavras de ordem que a música seleccionada no carro tornava ininteligíveis, reparei nas caras envelhecidas e carcomidas pelas rugas dos camaradas que ora agitavam o punho com brio, ora empunhavam as faixas com os dizeres da ordem. Cabelos grisalhos nas senhoras, penteados que faziam lembrar as revistas de propaganda soviética dos anos setenta. Muitas carecas altivas nos varões, algumas escondidas sob boinas que ganharam fama entre a facção republicana na guerra civil espanhola. Algumas pochettes de bolso com saudades da contestação do Maio de 68. Diria, um laboratório vivo para a gerontologia.

Nada contra a terceira idade. Acaso inveja, por os saber chegados a uma idade avançada sem a certeza que terei o mesmo privilégio. Louvo a predisposição física e mental para saírem do afago do lar, entregando corpos fragilizados a um fim de tarde frio, engrossando a mole humana que dá sentido a uma causa em que continuam a acreditar. O que despertou a minha atenção foi a amostra etária: espelho de um partido que envelhece sem se renovar. Nem um jovem, ou menos jovem mas não idoso, desfilava à volta do edifício da câmara municipal. Não será falta de mobilização, logo num partido como o PC, mestre na arte de arregimentar os fiéis. Apenas o sintoma do sangue fresco que rareia por aquelas bandas.

Regozijo com a prospectiva: saber que dentro de alguns anos perderão força, quando o envelhecimento das bases for dando lugar ao vazio das cadeiras, a ruas mais despidas de manifestantes quando as “manifs” ruidosas passarem a ser mais tranquilas.

22.2.06

As setenta virgens de Alá (exercício de blasfémia islâmica)

Tudo se presta à sátira, sem excepção. Para equilibrar as acusações de anti-semitismo do texto de ontem, as munições foram assestadas aos muçulmanos que acreditam na oferenda de setenta virgens se eles sacrificarem a vida num ataque suicida que ceifa a vida de um punhado de hereges.

Dir-se-ia que o preceito do Corão tem muito de marialva. Viesse a regra vertida na bíblia e adivinhavam-se banhos de sangue a toda a hora, tantos os incentivos para homens garbosos, na borbulhagem das hormonas ferventes, sempre ávidos para aumentar o rol das conquistas femininas. Falando-se de virgens, ainda imaculadas na sua castidade, território por desbravar, mais a conquista assume contornos de epopeia. Esta é uma das razões que leva eméritas feministas a deplorar a religião muçulmana. Por vezes surgem notícias de mulheres vestidas de negro que dão a vida pela fé. Confirmando a discriminação que remete o sexo feminino para um obscuro papel secundário, o Corão não promete às sacrificiais fanáticas setenta homens virgens quando franqueiam as portas do paraíso celestial.

Por cá, a regra teria o condão de funcionar como incentivo para um exército de desmiolados machos se oferecer para a chacina das massas. É tudo uma questão de incentivos, explicam Steven Levitt e Stephen Dubner num dos best sellers do momento, o livro “Freakonomics, o Estranho Mundo da Economia – o Lado Escondido de Todas as Coisas”. Orientamos a conduta consoante os incentivos que nos oferecem: caso os incentivos sejam generosos e apelativos, agimos em conformidade; poucos estão dispostos a mexer uma palha se o incentivo não compensar ou se estiver ausente. Por entre os escombros da despersonalização do Homem – com o culpado do costume, o capitalismo – o altruísmo quase foi banido do mapa. Os incentivos que nos movem fazem lembrar a metáfora da cenoura e do burro: o asno move-se quando vê a cenoura andar à sua frente.

Uma análise mais cuidada da alegoria das setenta virgens banqueteadas pelos fanáticos suicidas revela aspectos inquietantes. Primeiro, entre os fundamentalistas que oferecem a sua vida no teatro de terror não há homossexuais. Segundo, afinal o despego de si, a entrega às necessidades da religião, não é tão intensa como se apregoa. Não fosse a tentadora promessa de setenta virgens serem contabilizadas a favor do suicida e o exército de desmiolados que abdicam da própria vida em nome de Alá emagrecia. Os que se desapossam da sua existência fazem-no porque o incentivo é compensador, diria mesmo tentador. Não é de religiosidade pura que se trata; antes, de oportunismo que se esconde detrás de um apego cego às virtudes purificadoras da religião.

Não chega desmascarar o logro das setenta virgens prometidas a quem se enfeitar com quilos de pólvora à cintura e com ele levar alguns judeus para o inferno. Alá compreendeu a linguagem dos economistas: é preciso maquilhar a coisa, dar-lhe o incentivo generoso para organizar as fileiras de mártires em nome de Alá. Outra vez os incentivos, lá como cá: por cá, na entrega à materialização das relações humanas; por lá, sob o biombo da espiritualidade que leva os fanáticos a serem meros peões às ordens dos interesses tácticos dos sacerdotes que pregam a palavra de Alá. Sempre um incentivo, o espelho de como somos todos tão oportunistas, cercados de egoísmo por todos os lados.

Imagino as dificuldades que Alá terá na gestão de stocks das virgens que passam pelas mãos ensanguentadas dos suicidas que chegam ao celestial destino. Por cada suicida, Alá tem que prever a existência de setenta virgens. O problema pode crescer numa escala exponencial, à razão de um para setenta. Dando de barato que as virgens utilizadas não podem ser recicladas – virgindade perdida, virgindade nunca recuperada – Alá tem que se munir de um rebanho numeroso para saciar os apetites sexuais dos mártires que lhe batem à porta, despedaçados pela violência da explosão. A menos que Alá tenha os poderes mágicos para restaurar a virgindade perdida das donzelas oferecidas em banquete, ou consiga iludir os fanáticos que esfregam as mãos de contentamento enquanto esperam pelas virgens que, uma atrás da outra, embolsam.

E depois há um pormenor que me deixa intrigado: detecto uma falta de previsão nos mártires que exultam com a possibilidade de degustar setenta virgens. Acaso lhes passa pela cabeça que, na vida eterna assegurada lá pelo céu, têm apenas setenta oportunidades de praticarem o acto sexual? Contentam-se com pouco, a menos que nas leis celestiais haja lugar à reciclagem das virgens que o deixarem de ser, entregues então à escravidão sexual dos mártires depois de cada um deles esgotar o crédito das setenta virgens.

21.2.06

Bem prega Frei Tomás…

Um historiador inglês, David Irving, afirmou há dezassete anos, na Áustria, que o holocausto nazi não existiu. Dezassete anos mais tarde regressou à Áustria e foi capturado. Irving cometeu o crime de negação do holocausto. Na Áustria, a liberdade de expressão é condicionada: há certos tabus cuja profanação é irremissível. Quem quiser brincar com assuntos tão sérios, quem ousar duvidar da verdade oficial, arrisca-se a penar alguns anos nas catacumbas. Irving teve direito a um julgamento sumário. Vai passar os próximos três anos em detenção.

A oportunidade do episódio não podia ser melhor. O vulcão ardente que explodiu, depois dos cartoons do jornal dinamarquês em que Maomé era caricaturado com sátira, está agora amansado. É lamentável que as mesmas pessoas que se disseram dinamarquesas em solidariedade com o valor da liberdade de expressão estejam agora caladas, convenientemente caladas, perante a decisão do tribunal austríaco. Parece que a liberdade de expressão só funciona num sentido. Parece que o sentido de humor, oleado pela sagrada liberdade de expressão, só permite brincar com o que interessa parodiar; quando se vira a página para a segunda guerra mundial, as verdades estão instaladas e não podem ser questionadas.

Haverá diferenças. A reacção dos fundamentalistas islâmicos foi tão violenta que, através dela, perderam a razão. Ainda que se compreenda o direito à indignação da comunidade islâmica, ela devia perceber que a liberdade de expressão é um valor civilizacional do ocidente, um esteio. Quanto ao holocausto, não tenho a obrigação de aceitar acriticamente as verdades oficiais. Poderá ser pela minha pouca simpatia em relação a judeus, juízo politicamente incorrecto que deixo aqui lavrado.

Há uma declaração de Irving que diz muito acerca da polémica (cito de cor): “os governos não me podem forçar a escrever a história de acordo com as suas conveniências. Eu faço história pelo que os arquivos me mostram”. É verdade que há toda uma diferença entre as ideias de Irving e as patacoadas do embaixador do Irão em Lisboa, quando perorou sobre os seus cálculos privados acerca do número de pessoas chacinadas em campos de concentração nazis. Irving é um historiador, um académico. Responde perante critérios de rigor científico, não pode fazer história enviesada que siga as conveniências tácticas de determinados sectores. Como historiador, repousa num manto de credibilidade. O embaixador do Irão mais parece estar a soldo de interesses judaicos, tanto o ridículo com que se cobriu ao tentar negar o holocausto com a máquina de calcular avariada que empunhava, nas suas amadoras estimativas. Parecia o engenheiro Guterres a fazer as contas ao PIB nacional…

Em boa verdade, pouco me interessa se Irving é um historiador conceituado, ou se é persona non grata entre os seus pares. Tenho uma desconfiança metódica de verdades oficiais que não admitem teses contrárias. E custa-me a acreditar em quão inquestionáveis são essas verdades quando os dissidentes são tratados como leprosos que necessitam de uma quarentena purificadora. Aí a desconfiança sobe de tom: o hiato entre uma verdade oficial e um assunto tabu leva ao desmoronamento do tabu enquanto verdade consabida. Podem alguns ripostar: há assuntos com os quais não se brinca. A esses respondo: que haja a mesma bitola para assuntos de melindre comparável; será que se pode brincar com Maomé e não com o holocausto? Porquê?

Percebo que o holocausto seja matéria susceptível, pela proximidade de tempo e de espaço. Compreendo que haja pudor em questionar o holocausto, em homenagem às pessoas vitimadas. Bastará a aritmética para elevar erros históricos ao patamar de coisas incontroversas? A propósito, recordo-me de uma discussão que tive, em tempos, com uma colega de trabalho: perguntava-lhe se não tinha havido holocausto continuado, ao longo de décadas, nos gulags da antiga União Soviética. A resposta deixou-me boquiaberto: disse-me que não é comparável, porque não era enquadrado num conflito bélico (como o holocausto nazi) e porque tudo se passava no interior de um país, entre as respectivas autoridades e cidadãos (sem a dimensão internacional do holocausto nazi). Fiquei sem perceber se a matança continuada de seres humanos é uma coisa diferente quando os critérios do holocausto nazi não estão preenchidos…

Por defeito de personalidade, olho de soslaio para as entorses históricas e para as versões bíblicas que enfatizam o percurso sofrido de um povo, sempre martirizado, sempre perseguido. Confesso que a minha antipatia pelo judaísmo está na exacta proporção da permanente comiseração que os judeus reclamam aos olhos do mundo. Mantenho que tudo é passível de sátira – até os tabus hermeticamente selados. O passado está encerrado num sarcófago, lá atrás. Quando houver almas impiedosas que queiram mexer com o passado, que isso não seja entendido como manifestação de desrespeito pelas vítimas do passado. Apenas um exercício de sátira, enfim, a liberdade de criação.

Mas o melhor é ir para dentro, não vá ser acusado de anti-semitismo por uma patrulha de tabus impenetráveis que não deixam pôr em causa a iconografia judaica.

20.2.06

Heroicidade

Um filme: a tripulação do submarino está em alerta vermelho. Uma fuga radioactiva ameaça sepultar o submarino no fundo do mar. Um compasso de espera traz as boas notícias. Os motores recuperaram energia, já vai ser possível emergir o submarino. Um sentimento de alívio percorre os marinheiros. O comandante reúne a tripulação para agradecer o esforço colectivo. Diz que se sente orgulhoso porque todos eles foram heróis, heróis em nome da pátria.

(A linguística tem segredos curiosos. “Motherland” é a palavra inglesa para pátria. Eis como em dois idiomas a mesma palavra muda de género: em inglês, referência ao feminino, é a terra mãe que dá guarida às lealdades nacionalistas. Em português prevalece o espírito masculino, pois pátria deixa a descoberto a filiação paternal da nacionalidade. Seria interessante perceber as razões que explicam a diferença entre os dois idiomas.)

O comandante dedicou uma palavra especial ao marinheiro que arriscou a vida, entrando no coração do reactor nuclear para tentar reparar a avaria. O infeliz jovem, definhado pelas radiações insuportáveis, a poucas horas de se despedir da vida, era o herói maior de todos eles. Empenhara a vida para salvar os companheiros e o submarino, para não expor a pátria soviética ao enxovalho de uma missão fracassada.

O filme retratava uma época diferente da que vivemos. Em plena guerra-fria, as tensões entre soviéticos e norte-americanos estavam ao rubro. Terreno ideal para as pulsões nacionalistas, para uma educação centrada no colectivo, no necessário desprendimento do indivíduo. Cada pessoa apenas um peão dispensável no tabuleiro de xadrez manipulado pelos mais altos servidores de ambas as causas. Carne para canhão, costuma-se dizer. As pessoas acreditavam no desígnio colectivo. Entregavam-se de peito aberto ao que fosse indispensável em nome da pátria, nem que o indispensável acabasse por culminar na morte. Uma morte honrosa, a mais digna forma de morrer: em nome da pátria, que decerto teceria louvores na hora de homenagear os heróis nacionais.

Os tempos mudaram. Acabou a guerra-fria, a paz pelo medo da guerra, a ameaça constante de um conflito nuclear. Outros receios se instalaram, perpetuando a desindividualização do ser. Alguns profetas da desgraça acusam a pessoa de ser mais individualista, desligada de causas que são o cimento solidário de uma colectividade; porém, continuam a vogar sentimentos de entrega a causas que exigem um desprendimento do indivíduo, uma entrega aos ideais de uma causa que irmana a colectividade. Há novas formas de heroicidade. A heroicidade suicida dos kamikazes que matam em nome do fundamentalismo islâmico, como a heroicidade dos militares de vários países que morrem longe de casa, em nome dos valores da sociedade ocidental.

Heroísmos destes são coisa estulta. Uma forma diferente de religiosidade. Uma crença inabalável na superioridade da pátria, ou da religião, merecedoras de tudo o que seja exigido em seu nome. Até vidas humanas, entregues de peito aberto perante as balas que perfurariam a integridade da pátria. Momentos de bravura que ceifam vidas, honrarias prestadas que se esgotam no instante da homenagem. Com uma agravante: os heróis que legaram a vida em nome da pátria não estão lá para testemunharem a homenagem que lhes tributam.

Para um agnóstico, que não acredita na vida para além da morte, mais incompreensível se torna a heroicidade fatal. Concedo que haverá almas mais generosas, dedicadas ao devir colectivo que se sobrepõe ao sentir individual. Para elas fará sentido a entrega a actos de bravura que merecem o aplauso de outros candidatos ao heroísmo. Como concedo que haja crenças que asseguram a existência da vida eterna, mesmo quando o corpo se despede com o último suspiro. Para esses, o destino de serem carne para canhão: ensinam-lhes que, na vida eterna, flutuam sobre a terrena existência dos que permanecem vivos. O meio para verem, lá de cima, as sentidas homenagens que lhes são prestadas, a eles, heróis em nome de sacrossanta pátria, ou da religião exacerbada que leva tudo pela frente como se fosse um vendaval destruidor.

Será reconfortante dar a vida em nome da pátria ou da religião. Reconfortante por saber que a entrega é um acto em que o herói se despe da sua individualidade e corporiza todo um sentir colectivo. Como se a vida fizesse sentido em nome dos outros. A vida individual, apenas um pormenor; ela só se torna grandiosa quando um acto de bravura mostra a entrega pela causa de todos. Ainda que o sacrificial herói não esteja de olhos abertos para testemunhar os encómios e comendas que lhe são distribuídos, post mortem, em mais um momento de arrebatamento colectivo que o remete para a condição de vírgula de um extenso romance.

17.2.06

Espanhóis e língua inglesa: uma incompatibilidade genética

Há pessoas que não nascem fadadas para certas tarefas. Já que estamos em plenos jogos olímpicos de Inverno, vem à lembrança a quase ausência de atletas portuguesas no historial da competição. Somos latinos, temos um pequeno oásis de montanha com neve na Serra da Estrela e poucos hábitos de deslizar de esquis. Pode ser que daqui a trinta anos haja mais atletas lusitanos a competir nos jogos olímpicos de Inverno; como agora é moda esquiar pelas estâncias de Espanha, França, Suíça e Itália, veremos até que ponto o hobby se converte em predicados de alta competição, ou se ficamos pela vertente lúdica.

Outros povos não são atreitos a manifestações tão vulgares noutros locais. Não estou a ver islandeses em competições de surf. Não imagino suíços e austríacos em concursos de pesca em alto mar. Ou árabes como rivais de ingleses boémios num dos seus desportos favoritos de fim-de-semana – as bebedeiras descomunais. Entre as incompatibilidades genéticas há uma que acho deliciosa e perturbante ao mesmo tempo: os espanhóis não conseguem falar um inglês inteligível.

É raro encontrar um espanhol que consiga falar inglês não poluído pelo acentuado sotaque castelhano. Ou por experiência pessoal, ou por relatos de amigos, há histórias cómicas, tanta a falta de jeito para comunicarem na língua inglesa. Das minhas participações em congressos no estrangeiro, são inúmeros os exemplos de oradores espanhóis com uma grande dificuldade em passar a mensagem.

É simultaneamente divertido e angustiante. Fico embevecido com as suas figuras ridículas quando esboçam a articulação de umas frases em inglês; não fosse este um dos povos mais chauvinista que conheço, mais altivo na defesa da espanhola maneira de ser. Ficam expostos ao embaraço perante os outros quando tentam falar inglês. Por outro lado, sou tomado por um instinto de comiseração porque, afinal, sempre é o povo que está mais próximo de nós – assim o ditam os caprichos da geografia. Quando olho em redor e reparo na audiência, atónita, libertando esgares de incompreensão quando escuta as palavras debitadas, e quando reparo na dificuldade com que os vizinhos espanhóis tentam comunicar, um assomo de solidariedade emerge.

Um amigo que trabalhava numa multinacional contou-me histórias de levar às lágrimas. Em reuniões de trabalho com os representantes da empresa em vários países europeus, o meu amigo fazia de tradutor dos espanhóis. Os outros já estavam habituados ao papel desempenhado pelo seu colega português. Quando os espanhóis tentavam dizer alguma coisa em inglês, o meu amigo tinha que traduzir o inglês-castelhano para inglês compreensível.

Testemunhei o episódio mais bizarro num hospital no sul de Espanha. Uma antiga namorada decidira recordar os tempos de patinadora. Em má altura: ao fim de cinco minutos estava estatelada no chão com fortes dores num tornozelo. Levei-a à urgência do hospital mais próximo, onde fez radiografias que foram analisadas por uma equipa de três ortopedistas. O chefe de equipa, com ar de catedrático que costuma ir a congressos internacionais da especialidade, entrou em diálogo comigo e reparou que eu era português. O médico preferia falar em inglês, porque, dizia, a comunicação seria mais fácil do que se ele falasse em espanhol e eu em português. Quando sintonizou a língua inglesa acabou-se a comunicação entre nós, tão estranhas eram aquelas palavras que soavam a qualquer coisa menos a inglês.

Esta incompetência linguística é mais intrigante porque nativos de países latino-americanos se conseguem fazer perceber em inglês. Os mexicanos falam um inglês escorreito, apenas com um ligeiro sotaque que deixa perceber as suas influências hispânicas. Descontar-se-á o facto dos mexicanos viverem paredes-meias com os Estados Unidos. A proximidade geográfica não explica tudo. Os restantes povos latino-americanos conseguem falar um inglês perceptível. Arte que os espanhóis estão longe de alcançar. O sotaque de um espanhol é diferente do sotaque de um latino-americano – menos cerrado, sem os “cês” de sopinha de massa que tantos engulhos causam quando se esforçam por falar em língua inglesa. Talvez seja esta a explicação. Ou a tendência ancestral de se considerarem um povo acima dos demais, num chauvinismo que nem os tempos modernos tem capacidade para levar à erosão.

16.2.06

A malta de direita (ou porque não sou “de direita”)

Os rótulos, quando envolvem dicotomias, são uma armadilha. Para quem os coloca e para os que são arquivados na rotulagem fácil. Por exemplo, a tentação de olhar para as pessoas, e para cada um de nós, como alguém que é “de esquerda” ou “de direita”. Às vezes a catalogação emerge por exclusão de partes: quando me insurjo contra os disparates que as esquerdas vão pregando, colam-me logo o rótulo: “é de direita”. Se por acaso defendo a total liberalização das drogas (duras e leves, orgânicas ou sintéticas), sou empurrado para “a esquerda”. Ando assim, aos trambolhões, como se fosse uma bola de pingue-pongue atirada de um lado para o outro da rede.

Um dia, uma colega confidenciou-me a sua surpresa quando um aluno lhe disse que eu era “de esquerda”. Conhecendo a minha fama, ela ficou atordoada com a análise do aluno. Perguntou-lhe se eu era aquela pessoa a quem o aluno se referia. Podia dar-se o caso de estar a confundir o nome com outra cara. Pela descrição pormenorizada do aluno, não havia equívoco: era eu, o “tipo de esquerda”. Fiquei mais espantado do que a minha colega. Se há coisa que faço tenção de afirmar a pés juntos é que não sou um navegante das águas das esquerdas – no plural, que as consigo distinguir pelas suas diferenças. Poderei defender soluções tradicionalmente rejeitadas pela “direita”. O que não faz de mim um esquerdista convicto.

O largo intróito serve para entrar no assunto: as peças que enfeitam a “direita” caseira são tão folclóricas que, não fossem as adesões ideológicas espontâneas à outra banda, isso bastava para perceber porque têm que existir as não menos folclóricas esquerdas lusitanas. O protótipo do homem e da mulher “de direita” gera um retrato escorreito. Em comum, pessoas que se aninham pelo CDS e pelos quadrantes mais “liberais” (na utilização errónea que se dá ao conceito) do PSD.

Rejeitam o marxismo e as suas degenerescências diversas. Estão contra o peso excessivo de um monstro chamado Estado. Quando têm a oportunidade de se banquetearem na lauta refeição do poder não se diferenciam das esquerdas que engordam o paquiderme: dependentes da teta do Estado, incapazes de o emagrecer. São os apóstolos da iniciativa privada, mas reclamam intervenções dos poderes públicos para resguardar os centros de decisão nacional. Vivem mergulhados em conceitos ultrapassados – a nação, a soberania nacional, a importância dos símbolos nacionais (o amor à bandeira, o interesse nacional encapotado nos seus interesses paroquiais, etc.). Um vasto oceano de incongruências.

Os homens são distintos representantes da arte machista, nuns caos, marialva, noutros. Afirmam, com indisfarçável garbo, que os sexos são diferentes e um desígnio natural (quando não divino…) votou as mulheres à condição de sexo fraco. Endeusam as mães dos seus filhos e procuram amparo exterior para os devaneios carnais. Praticam, com abundância, um discurso moral, uma ética pregada para os outros e esquecida nas palavras que se soltam boca fora; uma moral que não se aplica a eles mesmos. E gostam de touradas e de caça. Atributos de um homem que só é homem de corpo inteiro se tratar mal as mulheres, arrotar entusiasmo com as sevícias praticadas em inocentes touros, e disparar uns chumbos que ceifam a fauna que teve a desdita de encontrar pousio nas coutadas e reservas associativas.

As mulheres de “direita” são espécimes raros. Elas existem, mas são pouco vistas na órbita pública. Por definição, estão remetidas ao remanso do lar, às lides domésticas. As coisas públicas são sérias de mais para as mulheres conseguirem sequer percebê-las, quanto mais sobre elas agir. Para o típico homem de “direita”, as discussões com mulheres não espicaçam o intelecto, porque as mulheres são de casta intelectual inferior (mesmo que um destituído mental perceba que o homem em causa nem aos calcanhares da interlocutora chega). Apoucam as mulheres quando elas lhes barram o caminho, como pedras salientes da calçada, um estorvo à sua cómoda caminhada.

Quando os vejo em desfile mediático, apetece-me correr para os braços de uma esquerda qualquer. Resisto. Desse lado o panorama não é melhor. Remeto-me a uma orfandade de referências. Não é angústia dolorosa. Prefiro cultivar a independência das ideias.

15.2.06

O dia dos namorados, versão de um acólito do Prof. Boaventura

O acólito do Prof. Boaventura levantou-se tarde, depois de uma regalada maratona de doze horas de sono. Não faz por menos: deambular pelos meandros da investigação, com o carimbo “investigação alternativa”, e militar em causas que exigem forte empenhamento pessoal consome todas as energias ao fim de um dia. Exangue de forças, remete-se ao sono que presta justiça ao seu inestimável contributo para o avanço da humanidade, em prol de uma humanidade mais fraternal, justa, igualitária.

Quando saiu de casa e degustou o pequeno-almoço – já pessoas havia amesendadas à espera do almoço – reparou que era dia dos namorados. Começou a espumar toda a raiva militante contra estas aberrantes figuras inventadas pelo nefando capitalismo. Não podia calar a revolta contra a conspiração das forças opressoras do capital, que tecem as teias onde os alienados consumidores se enredam, desprotegidos. Prometeu perorar sobre o assunto na aula da tarde, aos seus alunos de Sociologia Geral. Saiu do café e enquanto passava ao lado do Choupal ia gizando mentalmente o discurso.

Quando entrou na sala estava montado o circo que o acólito do Prof. Boaventura tanto gosta. A turma caótica. Fumava-se, bebia-se, discutia-se apaixonadamente sobre a polémica dos cartoons dinamarqueses (ainda). Uma minoria alienada refugiava-se num canto entretendo-se com jogos de telemóvel. Entrou e não cumprimentou a turma – isso de respeitar os "usos sociais" que nos impõem é uma patacoada, a antítese da sua rebelde maneira de ser. Bateu a porta da sala com estrondo, o sinal para o grupo perceber que a prédica ia começar. Se o programa da disciplina fosse cumprido, ditava a calendarização que se continuasse a discutir Giddens e a falácia da terceira via social-democrata. A preguiça mental e a largueza de “criação intelectual” dada pelo Prof. Boaventura autorizavam estes desvios às linhas do programa. Mais uma vez a aula ia ser sobre tudo menos Sociologia Geral.

O acólito do Prof. Boaventura lançou o tema para a mesa: o significado do dia dos namorados, invenção recente que reforçou a dependência consumista da horda, mais uma importação da origem de todos os males, os Estados Unidos. Tomou a palavra.

A celebração do dia dos namorados é um desfile de iniquidades. Primeiro, a materialização dos sentimentos. Acentua-se a ideia de que mostramos os afectos através da prenda necessária nos momentos que o opressor pensamento único convencionou serem especiais. Quem não dá a prenda à namorada prova que deixou de nutrir aquele sentimento especial por ela. Esta é a imagem da confusão de planos: os sentimentos têm um preço, pago com as prendas que enchem os cofres das multinacionais a quem uma orgia de celebrações tanto interessa.

Segundo, o dia dos namorados é discriminatório em vários sentidos. Discriminatório dos comportamentos sexuais alternativos. Basta estar com atenção à iconografia oficial, à retórica desfiada pela comunicação social lacaia dos interesses do grande capital. Tudo gira em torno de namorados de sexo diferente. Acaso alguém viu manifestações de namorados homossexuais em celebração do dia de S. Valentim? Por outro lado, a discriminação é metafísica. A teimosia em mostrar os símbolos da religião católica, omnipresentes como caução da oficialidade das celebrações. Não basta sermos impingidos com a tolice do dia dos namorados; ainda temos que suportar mais um símbolo da iconografia católica. É uma ofensa aos não crentes. Mais uma imposição de um Estado que só na aparência é laico.

Somos jovens. Não podemos calar a nossa revolta. O nosso silêncio será a vitória do grande capital, que continuará a colonizar uma burguesia dependente do consumismo vazio. Proponho que a aula continue lá fora, numa acção cívica de protesto contra a celebração do dia dos namorados. Tenho a certeza que o Prof. Boaventura dará a sua bênção ao nosso boicote ao dia dos namorados na sua faceta mercantil. Pela importância da acção cívica, estão dispensados do resto das aulas os que alinharem comigo nesta imprescindível acção de sensibilização das mentes anestesiadas pelo dormente capitalismo.

Uns por convicção, outros pelo oportunismo de não terem que suportar mais aulas o resto da tarde, todos saíram na peugada do acólito do Prof. Boaventura. Deixaram a Av. Dias da Silva e foram a pé até à Rua Garrett. Plantaram-se nas lojas das multinacionais que ostentavam gigantescos avermelhados corações apelando à caridade das carteiras dos apaixonados. Retiraram os corações, picharam outros com as latas de tinta que andam nas suas carteiras a tiracolo (num lampejo soixant-huitard tão tardio como anacrónico e idiossincrático). A polícia trouxe a comunicação social atrelada. Ocasião para fazer passar a mensagem. Os cinco minutos de fama pouco interessavam. A missão comunitária de proteger a humanidade dos descaminhos do capitalismo era mais nobre.

Naquela noite, o acólito do Prof. Boaventura sentia-se recompensado. Denunciara a hipocrisia do grande capital. Tinha esperança que as consciências começassem a despertar da letargia em que o grande capital as mergulhou. Nessa noite sonhou que em 14 de Fevereiro de 2007 Portugal seria notícia mundial: pela recusa em embarcar na oca fantasia do dia dos namorados.

14.2.06

Apenas um pesadelo

Meio da tarde de um dia frio e plúmbeo. No gabinete, atafulhado em papeis e minudências. A escuridão das nuvens acrescenta um travo tristonho à tarde sombria. Há uma tranquilidade exasperante. Na estrada habitualmente pejada de trânsito apenas um carro aqui e ali. Quase parecia uma madrugada desabitada de almas. A luz do dia desmentia-o. E nem o vento se notava, sequer uma ténue brisa, na quietude angustiante das folhas que já começavam a despontar nos galhos. Também os pássaros se tinham ausentado. De repente, um frémito de solidão. Pressentia algo de inusitado, desconfortável, inquietante.

Maquinalmente, invadi a Internet. Como tantas vezes, em pausas do trabalho para uma actualização da marcha do mundo. Só tranquilidade. Notícias corriqueiras, o marasmo habitual de factos feitos notícias na falta de coisa relevante para informar. Lá fora, a venenosa tranquilidade era a ilustração do macilento dia. E, no entanto, sentia que a calmaria era um falso sinal de sossego.

Subitamente, o alvoroço. Nos corredores, correrias desenfreadas de um lado para o outro. Na rua, atropelos de pessoas e de automóveis, todos em fuga desabrida. Até o vento estava de regresso, uma brisa gélida enterrada até à medula, trazendo arrepios que percorriam o corpo em toda a sua extensão. Ainda a lucidez de voltar à Internet, para perceber a razão do caos. Notícias desencontradas de um ataque nuclear. Londres, Berlim, Roma, Madrid, Paris, Munique, Viena, Varsóvia já tinham sido atingidos. Entre a confusão semeada, informações contraditórias, a angústia do silêncio do lado de lá, dos sítios onde as bombas tinham detonado. A incerteza aumentava: constava que ainda havia bombas por rebentar. Só não se sabia onde.

Enquanto o caos continuava a tomar conta das ruas, permanecia à frente do computador, procurando decifrar os acontecimentos. Tentei fazer telefonemas. Em vão: a rede estava sobrecarregada. Procurava saber junto de familiares algo mais, eles que tinham acesso à televisão. Queria saber se estavam em segurança, a minha maior preocupação. Pela impossibilidade do contacto, a angústia crescia. Soube-se, entretanto, a origem dos ataques: o Irão. E das retaliações prontas dos Estados Unidos, que não demoraram a enviar uma mão cheia de mísseis para o Irão. O cenário dantesco representado em filmes catastróficos estava montado. Do gabinete ao lado alguém me veio chamar. Que era imperioso que saíssemos já, para nos refugiarmos num abrigo (como se abrigos houvesse – apenas mais influências cinéfilas que se alojaram no subconsciente).

Fui, sem saber por onde, apenas guiado pela multidão aturdida, parar ao abrigo. Depois de muitas escadas descidas rumo à escuridão de um refúgio enterrado incontáveis metros abaixo do solo. Estranhamente, a desordem tinha dado lugar à organização. As pessoas tinham-se arrumado, ordeiramente, nos vários compartimentos. A luz era baça, o ar carregado. Uma sensação de claustrofobia tomava conta de mim. Claustrofobia pela ausência de notícias sobre as pessoas que me são queridas. Pela incerteza de as voltar a ver. Ao meu lado, preces entrecortavam-se com os pensamentos que vogavam, confluindo sempre na interrogação que me angustiava: onde estão, como estão, as pessoas que quero bem? Nem assim consegui partilhar as orações que se contagiavam de pessoa em pessoa. Ao início apenas um rumor que se espalhava pela sala, as súplicas ficaram audíveis. Mergulhei no silêncio à medida que a ansiedade me invadia com mais força. Perdi a noção do tempo. Foi então que despertei. Não tinha passado de um pesadelo.

No torpor inicial da alvorada, ainda com a sensação desagradável de ter vivido o pesadelo que parecia tão real, perguntei-me que mistérios tem o subconsciente para nos conduzir por sonhos tão insondáveis. Lembro-me que escrevi, há meses, contra a campanha da moral internacional que quer vedar o acesso do Irão a armas nucleares. Discordei que as armas nucleares são um perigo se estiverem nas mãos de loucos ou Estados párias, rótulo que serve, no tempo que vivemos, ao Irão. Defendi que as armas nucleares são perigosas pela sua simples existência, não pelo facto de estarem nas mãos erradas. Meses mais tarde, um pesadelo que desmente ideias que coloquei em letra de forma.

Terão sido as imagens de violência dos extremistas islâmicos, as promessas de interminável guerra santa pela blasfémia dos cartoons dinamarqueses, e os comícios do presidente iraniano em que perpassa a imagem de uma ensandecida personagem que se prepara para semear o terror?

13.2.06

Sitiado em casa

Uma advertência para começar: este texto é inspirado por um estado de espírito sorumbático. Uma neura de tamanho considerável. Algum fel vai ser destilado. Possivelmente, uns pós de linguagem expressivamente dura irão ser espalhados ao longo do texto.

À hora do costume, estava preparado para sair de casa para o jogging matinal. Rotina toda respeitada. Baixei à garagem. Ao ligar a ignição, nunca pensei que segundos mais tarde estivesse retido diante do portão da garagem, impossibilitado de sair. Durante o fim-de-semana o portão esteve avariado. Esteve sempre aberto. A entrada na garagem era um livre passe para toda a gente – moradores, visitantes, pessoas que moram na vizinhança e que por aqui passeiam os cães, até potenciais larápios. Um vizinho mais zeloso da segurança colectiva terá decidido, durante a noite, fechar o portão da garagem. Não podia ser melhor a ideia: a menos que haja um truque para abrir manualmente o portão, os que o desconheçam estão sitiados dentro de casa, sem poderem sair para o trabalho numa segunda-feira de manhã. Até que apareça o salvador, o diligente vizinho que nos sitiou em nome da segurança dos nossos haveres.

É nestas alturas que me ponho a pensar como será idílico viver sem vizinhos. Citadino desde a nascença, vivi sempre em conglomerados que albergam uma resma de vizinhos. Partilhar um prédio com vizinhos é uma aventura que traz amargos de boca. Alguns utópicos defendem a lógica do condomínio como a melhor forma de organização social, crentes nas vantagens da máxima descentralização. Passam ao lado do problema de raiz dos condomínios: quando vou viver para um prédio faço uma aposta no escuro porque desconheço a vizinhança. Comprar habitação sem saber quem vive no apartamento ao lado, com quem me vou cruzar todas as manhãs ao sair de casa, ignorando os atentados estetas com que serei forçado a conviver. Para o futuro estará guardada a inovação de um período experimental, habitando ainda sem móveis, certificando se a vizinhança que sai em sorte compensa a compra do novo lar.

Há alternativa. Afastar o estigma da vizinhança que partilha as chamadas “zonas comuns” que obrigam a reuniões periódicas do condomínio. Outro pesadelo, estas reuniões onde se ajuíza o fino calibre de algumas peças que se afadigam em passar uma imagem do rejeitável que o ser humano contém: indelicadeza, mesquinhez, avareza, conflitualidade genética, problematização gratuita. A alternativa existe: uma moradia que dispensa reuniões de condomínios e convivência forçada com aquelas caras que nos olham com suspeição, que esboçam um cumprimento forçado (quando nem isso esboçam), que se fazem passar por engenheiros encartados e tentam reparar mecanismos sem estarem habilitados, perturbando a vida de todos os demais vizinhos. A alternativa existe. As minhas finanças pessoais lamentam não poderem lá chegar.

Quando vi que o portão da garagem não respondia ao comando, teimando na imobilidade, saí do carro e tentei perceber se existia forma de o abrir manualmente. Estava lá um manípulo que tinha o ar de permitir abrir o portão caso a electrónica tivesse metido baixa. Puxei, com todas as forças que tenho, e o portão continuou fechado. Tentei mais do que uma vez. E nada. Resignei-me a fazer marcha-atrás. Porventura teria sido o primeiro a tentar sair da garagem. Por acaso, para nada de urgente – tirando a urgência de quem não se sente bem se falha a corrida matinal. Ponho-me a pensar se tivesse que sair de casa àquela hora por um compromisso profissional que obrigasse a viajar bem cedo. Acaso tivesse um avião para apanhar e, sitiado na minha própria garagem por um vizinho cuidadoso, o avião partisse sem mim? Terá o vizinho discernido que outros desconhecem o truque para abrir o portão (se é que ele existe)?

Um exemplo do mais puro egoísmo. Ainda que o dedicado vizinho acreditasse que estava a proteger o património de todos os condóminos, aposto que foi impelido pela protecção do seu automóvel – e, só por arrastamento, dos automóveis dos demais. Egoísmo puro, pois se ele conhece a solução para a abertura manual do portão, devia-se interrogar se os demais também a descobriram. Só lamento não saber quem foi a alma que fechou o portão e me sitiou em casa. Teria todo o prazer em a tirar do sono tranquilo para ao menos me ensinar como se abre o portão quando ele não responde ao comando.

10.2.06

Se tivesse um restaurante chamava-lhe “Colesterol”

Um forte elogio para o espírito de missão da brigada de costumes que não se cansa de advertir para males que perturbam a saúde pública: é o tabaco, a alimentação desregrada, a falta de exercício físico que semeia doenças cardiovasculares. Um cardápio interminável que leva pressurosos guardiães do bem alheio a um acto tão intenso de generosidade. Ainda que (quantas vezes?) quem dá a cara pelo anti-tabagismo seja um bom garfo, quem chama a atenção para uma alimentação cheia de gordura termine a noite com um belo charuto acompanhado por vários whisky velhos, cultivando o sedentarismo que faz os corpos crescer para vários lados ao mesmo tempo, colonizados por avantajadas adiposidades.

Os tempos que correm são terreno fértil para dar lições de moralidade aos outros, ainda que essas lições tivessem que ser aplicadas em primeiro lugar a quem as prega. O tão conhecido “olha para o que eu digo, não para o que eu faço”. Pela parte que me toca, não fumador e praticante (dizem-me, compulsivo) de exercício físico, fico à mercê das vigilantes brigadas no capítulo da alimentação. Agradeço a atenção que dedicam a quem morre pela boca. É atenção que dispenso quando a campanha atinge a exaustão e se serve de uma retórica que instala o terror nos gourmets enredados na pecaminosa gula.

Nada contra campanhas de informação sobre alimentos que fazem mal à saúde. Ainda que por vezes desconfie do rigor da informação, pois nisto da ciência o que hoje é verdadeiro deixa de o ser amanhã. Com frequência leio relatos alternativos: que os fritos não são prejudiciais à saúde, que o chocolate em doses generosas tem predicados, que o álcool não é a dramática história dos milhões de neurónios destruídos. Fico sem saber qual a informação verdadeira: se a das brigadas do fascismo higiénico que nos querem empurrar para uma vida sem sal, ou a dos cientistas que desmistificam as regras do bem comer.

Na dúvida, vou deixando vingar o instinto. Pecando pela boca, na empatia com as comezainas que são a antítese da cozinha saudável. De que serve adiar maleitas dolorosas ou fatais se o preço desse adiamento é uma vida alimentar asséptica? Entre penar longos anos na abstinência dos sabores para prolongar a vida saudável e mergulhar nos prazeres gustativos de banquetes cheios de colesterol, prefiro a segunda opção. Agradeço a informação dos atenciosos defensores dos “bons hábitos alimentares”. Como também agradeço que se limitem a passar informação sem o terrorismo sanitário que leva à abdicação do livre arbítrio. Acaso alguém tem a ver alguma coisa com o facto de me deliciar com assíduas e fartas francesinhas, ou um bacalhau impregnado de azeite, uma entremeada esturricada com o pingo a soltar-se da outrora esbranquiçada gordura, as petingas (oh, infanticídio piscícola!) fritas em óleo que já foi límpido há vários dias, os ovos-moles que entram em catadupa goela abaixo, um tiramisú com o toque sublime do queijo mascarpone e do rum vertido nos palitos La Reine?

No pódio do fascismo higiénico está a sanha que persegue os compulsivos fumadores. Como não fumador, apenas me incomodo com o fumo do tabaco quando um distraído fumador solta baforadas da mesa do lado para cima da minha refeição. Tirando esse caso, apetece-se sacar de um cigarro quando ouço o moralismo de enfatuados pregadores do anti-tabagismo. Como não são fumador, incomoda-me mais a campanha em prol de uma alimentação saudável, uma campanha menos ruidosa. A reacção é a mesma: quanto mais barulho fazem na denúncia do que não devemos ingerir, mais tenho vontade de sentar à mesa do tasco mais próximo para me empanturrar com petiscos cheiinhos de gorduras multi-saturadas.

Talvez seja o meu mau feito a falar. Ou apenas a recusa de ser tratado como mais uma ovelha de um ordeiro rebanho, do rebanho que os diligentes pastores do fascismo higiénico se envaidecem, lá no seu íntimo, de conduzir pelo “bom caminho”.

9.2.06

Nacionalismos emergentes ou idiossincrasias regionais? Catalunha e o norte de Portugal

O novo estatuto autonómico da Catalunha, acordado entre as autoridades de Madrid e as autoridades regionais de Barcelona, tem levantado polémica. Os que temem pela desagregação da Espanha sentem no ar uma ameaça. Suspeitam que o novo estatuto liberta o garrote que tem aprisionado as asas da independência catalã. Do outro lado, o descontentamento dos que se sentem subjugados a uma soberania alienígena: a autonomia será reforçada em relação ao que existia antes, mas ainda longe do objectivo final, a total independência da Catalunha.

Há anos passei férias na Catalunha. Conheci terras, convivi com as gentes catalãs. Percebi que há uma afinidade muito grande entre os catalães e quem vem do norte de Portugal. Talvez por erro de análise deles, julgando que no norte sofremos do mesmo asfixiamento centralista que impede a Catalunha de ser um país soberano. Discerni uma desconfiança congénita em relação a Madrid, por vezes um ódio latente. Se bastasse uma língua diferente, uma história distinta, costumes que diferenciam uma região de quem nesse local exerce dominação, a Catalunha reunia as condições para ser um país independente.

Tento fazer a ponte entre a Catalunha e o norte de Portugal. Por diversas vezes escutei palavras de conforto dos meus interlocutores catalães. Olham para os nativos do norte de Portugal à sua imagem, aprisionados no jugo de um país que teima em manter a unidade de um todo que, como todo, é um produto artificial. Por cá é tema que não faz correr tinta. Medem-se regionalismos exacerbados, no norte como na Madeira. Declarações que soam a patético, na exteriorização de um regionalismo bacoco, quantas vezes confundido com a inveja por não ser o norte o protagonista.

Não há tensões nacionalistas, apenas assomos de regionalismo inconsequente, insatisfação pelo “complexo do Terreiro do Paço”. Nem os mais fanáticos regionalistas defendem o desamparcelamento com o resto de Portugal. Por aqui, apenas regionalismo, não o nacionalismo que se sente latejar nas veias de tantos catalães. Só um fermento de rivalidade de gente que, no limiar, partilha uma identidade. Rivalidades, invejas, ressentimentos de uma região que, rezam as crónicas, tanta riqueza produz e pouco é reconhecida na sua importância. Ressentimentos de pessoas quando a acentuada pronúncia nortenha é vilipendiada por sulistas ensimesmados. Nada de importante. Nem comparável aos atritos reprimidos entre catalães e madrilenos centralistas.

Não é a norte que passa o discurso da auto-determinação. Nem nos mais patéticos militantes de um “nortismo” inconsequente. Porque há diferença entre ser nortenho e ser nortista. Nortenho sou, nascido no Porto, quase sempre aqui a viver. Com orgulho na minha cidade, com tantas palavras elogiosas para paisagens e gentes espalhadas pelo norte, das verdes extensões que alindam o Minho até às gentes acolhedoras de Trás-os-Montes. Recuso-me conceber o Porto natal como bandeira de uma grande região que se demarca pela geografia. Que sentido faz lutar contra o “complexo do Terreiro do Paço” e depois arrepiar caminho a mais um Terreiro do Paço, a norte, algures na Avenida dos Aliados?

Há fenómenos que o tempo se encarrega de trazer para a contemporaneidade que são a imagem de um colete-de-forças, emparedando tendências contrárias. A globalização, com a sua força indomável, parece esvaziar os países, empurrando-os para organizações onde se agrupam para combater os ventos da globalização. Ao mesmo tempo, nacionalismos reprimidos pelos descaminhos da história, remetendo comunidades minoritárias para um papel subserviente dentro de um país que funciona, para essas comunidades, como um invasor, um corpo estranho. De um lado, a união de países em organizações, como se a cooperação entre os países domesticasse a globalização. Do outro lado, pressões para a pulverização dos países, pelo reconhecimento de nacionalismos que gritam bem alto os desejos de auto-determinação e independência.

Quando estive na Catalunha, recordo-me de um anfitrião, durante um jantar, ter protestado contra a hispanidade. “A Espanha é um mosaico de nacionalidades. Uma artificialidade”, asseverou. Disse-o com a esperança de um dia poder descansar no túmulo, coberto com a bandeira da Catalunha, da sua Catalunha já arvorada em nação independente. Não adivinho, aqui pelo norte, ambições tão ousadas, neste território tão homogéneo, tão estanque a desvios regionais (para além dos ditirâmbicos devaneios de alguns madeirenses). É a diferença entre um nacionalismo sedimentado na história, na cultura, numa língua; e um regionalismo que nasceu de um erro histórico, a centralização que deu mote ao aforismo “fora de Lisboa, a província”.

Um provincianismo alimentou outro provincianismo de sinal contrário – os cultores do centralismo do Terreiro do Paço e os invejosos nortistas que querem uma talhada do poder lisboeta, quantas vezes por simples despeito.

8.2.06

É o tempo que não abranda

Nem a vida demora. Cada passo em frente parece o caminho percorrido que se aproxima de um abismo. Não há tempo para olhar para trás, tanta a urgência de cumprir o relógio que só sabe marchar no sentido do futuro. Quando, depois, a nostalgia reclama um lugar, por um instante que seja, lugar apenas para sentir que o tempo voa sem que se deixe segurar nas pontas dos dedos.

Na urgência do modo, a sede de viver a vida, arrebatada, apaixonada, intensa. Muitas coisas no mesmo tempo, outras tantas apenas registadas nos planos por cumprir. Os adeus que ficaram por dizer, as palavras que deviam ter sido ditas, as tantas coisas idealizadas que nunca disso passaram. Quando a voragem do relógio amansa a pressa por uns instantes, sente-se que há um algo que falta para aprimorar o que ficou lá atrás, no registo das memórias. Alguém sussurra que à vida falta decantação. Esbarro nas borras que vêm à tona, as necessárias impurezas de um percurso imperfeito. Razão para o descontentamento, como se pudesse voltar com a página atrás e corrigir as letras impressas que saíram imutáveis da tipografia que teceu aquele livro.

Uma tensão permanente, a dialéctica entre o tempo cristalizado e o tempo desconhecido que quero captar em todos os instantes. Por mais que anua que o tempo das memórias é uma clepsidra inútil, mais o impulso para rever o que já foi vivido. Como se fosse o fio inquebrantável que se tece desde antanho até ao agora. Resta a sensação amarga de não saber o que fazer com as memórias – as boas, as más, as neutras. O apelo à nostalgia é mais forte umas vezes, ausente noutras. Acaso a mentalização rotina o convencimento de que só interessa o tempo que vem pela frente, e que escasseia a cada dia que passa, mais são as vezes que um irreprimível apelo de olhar para trás semeia o desconforto: a revisitação dos tempos idos, um inútil desgaste do tempo que resta.

É perene a vida latejante, o estranho relógio que teima em dobrar a folha do calendário quando se cumprem as vinte e quatro horas convencionadas. Não fosse razão de angústia, sobra ainda o conflito do sono, do tempo gasto no descanso da mente. Uma hibernação que esconde horas perdidas no temporário encerramento dos olhos. Organismo imperfeito, este que carece de algumas horas de sono. Não podem os apressados regozijar-se com a sua natureza: corpos curtidos pelo cansaço dos dias, imersos no sono, parênteses da vida no tempo gasto com o esbanjamento do sono. Como ansiava desligar-me do sono.

O dilema: correr o tempo com a vertigem dos ponteiros do relógio, competindo com eles, para ver quem passa mais depressa pelo tempo; ou ir repousado, no desprendimento da urgência, sem apressar a vida por ser ausente o temor da prematura despedida. Viver à velocidade vertiginosa de quem receia que no desencantamento definitivo muito tenha ficado por fazer; ou deixar vogar o navio na serenidade das águas calmas, movimentos sempre singelos, bebendo a acalmia das águas que o navio vai tragando, sem soprar tempestades que turvam as bonançosas águas. Viver tudo e depressa; ou prolongar a vida até provecta idade, sem tempo para o arrependimento para o tanto que haveria de ser feito outra tivesse sido a ambição de uma frenética vida.

Na dúvida dilemática, a certeza de que o tempo não tem regresso. Umas vezes a sensação de que ele viaja depressa demais, com a amargura de intuir que tanto fica por cumprir, mesmo na alucinante forma de viver de quem tanto suga do que a vida lhe oferta. Outras vezes, um saudável desprendimento das horas e dos dias, a decantação que separa a imperfeição das urgências. Lugar-comum tão estafado: a diferença entre a quantidade e qualidade das coisas que desfilam perante os nossos olhos. E, como tantas vezes, a lucidez de perceber que é tanto o tempo em que o percurso escolhido não é acertado.

7.2.06

Poligamia encapotada?

No marasmo radiofónico descobri uma estação alternativa, com pouca publicidade, pouco palavreado dos animadores e boa música: a Rádio Universitária do Minho. Ontem, um anúncio publicitário ousado, mas ao mesmo tempo delicioso. Uma perfumaria lançou a sua promoção especial para o dia dos namorados. Por cada namorada um desconto de vinte por cento. E desfiava a ladainha, não se fosse dar o caso da audiência não saber os múltiplos de vinte por cento: o perfume oferecido à segunda namorada tem um desconto de quarenta por cento, para a terceira namorada vale um desconto de sessenta por cento, para a quarta namorada atinge-se os oitenta por cento. Quem tiver arcaboiço para cinco namoradas é premiado com um perfume gratuito para a derradeira consorte.

Primeiro comentário: a perturbação das feministas de serviço. O anúncio dirige-se a quem tenha namoradas. Pelos cânones da “normalidade”, os garbosos machos que desfraldam a bandeira da poligamia são o público-alvo. A promoção não se aplica a uma ninfomaníaca que se desdobre por mais do que um namorado? Resta saber se as funcionárias da Must Parfum estão autorizadas a conceder os descontos anunciados se lhes aparecer pela frente uma arrojada polígama que queria oferecer perfumes aos seus adorados namorados.

Logo agora que tanto se discute o respeito pelos valores religiosos por quem não professa um certo credo, este anúncio é o exemplo de tolerância que outros não conseguem praticar. A menos que as autoridades andem distraídas, ou que o clero não sintonize a Rádio Universitária do Minho para lançar a habitual sanha moralista, eis como passa incólume uma mensagem que apregoa algo que é censurado pelos costumes e pelas leis. A poligamia é crime. A promoção da perfumaria é um convite a que os polígamos militantes de Braga e arredores se revelem. Sem que haja ofensas tão graves que mereçam perseguição policial, encarceramento ou que sejam vistas como atitudes blasfemas que levam à excomunhão dos crentes que coincidem na poligamia.

Gostava de saber se a ousadia da perfumaria compensou. Se, no final da campanha promocional dedicada ao dia dos namorados, foram muitos os clientes que foram à loja e compraram mais que um perfume de senhora, numa confissão de que as atenções se dividem por várias mulheres. Uma pedrada no charco, se este anúncio funcionar como uma libertação das amarras que prendem homens polígamos ao recato de não revelar as vidas paralelas que levam. Tenho um amigo que é dono de uma ourivesaria. Vender ouro e jóias é um excelente negócio, já o suspeitava. As suas expectativas foram ultrapassadas. Não há semana em que não apareça na loja homem de meia-idade, com ares aburguesados, comprando jóias a dobrar: para a legítima e para a amante. Com a vantagem – para o dono da loja – da compra ser paga em dinheiro vivo, para não deixar rasto que denuncie a vida paralela do cliente.

Há antropólogos que tentam desmascarar a monogamia dos usos e costumes. Sublinham a natureza polígama do ser humano. Remam contra a maré dos hábitos instalados. Mesmo que, tantas vezes, a máscara mostrada seja pintada com as cores da hipocrisia: tantos os casos conhecidos em que se mantêm apenas as aparências, pois os sentimentos e os afectos são vividos em vidas separadas, fora da falsa harmonia familiar. Nas leis continua codificada a monogamia. Na vida real, tão distante da chancela legal, os desdobramentos afectivos mostram como a sociedade ocidental prega coisas que não pratica. Sem dramas. Vale-nos a dessacralização da vida terrena. Não como nas sociedades teocráticas, onde a religião penetra bem fundo em todos os aspectos da vida pessoal.

O Horácio – que não é quem certos castiços julgam – também escutou, condoído, o anúncio da Rádio Universitária do Minho. Por mero acaso, pois aquela não está entre as estações que se habituou a sintonizar. Ficou de orelhas quentes. Lembra-se do seu passado áureo, em que arrebatava os corações de meninas incautas que caíam na cantilena. Dava umas facadinhas na namorada oficial. Coisa sem importância, até porque são ancestrais os costumes que dizem que homem que não se desmultiplique por leitos alheios não é macho decente. Para azar de Horácio, a namorada soube de uma das escapadelas. Jurou vingança na mesma moeda. Um dos amigos do Horácio foi o alvo escolhido, para a retaliação ser mais dolorosa. Sangrado na sua honradez, Horácio penou largas semanas. Julgava que a infidelidade era monopólio masculino. Ainda hoje carrega a cicatriz. Para evitar mais desonras do tipo, não voltou a aportar numa namorada estável.

6.2.06

Os cartoons da (in)tolerância religiosa

Vai um grande pé-de-vento por causa da publicação de doze cartoons que caricaturavam Maomé. A publicação foi feita num pequeno jornal dinamarquês. Quando as ondas de choque se começaram a fazer sentir, as caricaturas foram reproduzidas um pouco por toda a Europa. Os árabes sentiram-se ofendidos e os tumultos não demoraram. Agora debatem-se os limites à liberdade de expressão: serão aceitáveis para não beliscar crenças religiosas? Uma ténue fronteira: o respeito da liberdade religiosa exige restrições à liberdade de expressão? Ou será a liberdade de expressão um bem mais valioso?

Terreno movediço. Nem para os liberais, descomprometidos na análise das liberdades individuais, foi fácil fixar regras quanto aos limites. Dizem que a minha liberdade termina quando ela interfere com a liberdade de outra pessoa. Mais difícil é definir critérios objectivos para se saber quando a minha liberdade, puxada ao limite, entra na esfera da liberdade alheia. Quando a discussão é trazida para o plano da religião, e quando toca credos dominados por dogmas fundamentalistas, as verdades escapam-se entre os dedos tal como o vento.

De um lado e do outro, argumentos a reivindicar a razão. Não me custa reconhecer razão aos que defendem a liberdade de expressão como matriz da civilização que somos. Só lamento que os mesmos que vêm agora dar o peito contra as restrições à liberdade de expressão não se comportem sempre assim. Aceitam limitações à liberdade pessoal em nome da segurança, com a fobia anti-terrorista que nos domina. Não nego o perigo do terrorismo que ataca indiscriminadamente, ceifando a vida de inocentes. Só não consigo perceber a condescendência com travões à liberdade individual em nome da fobia securitária e depois defender, quais virgens ofendidas, a sagrada liberdade de expressão quando fervilha um conflito civilizacional que põe frente a frente o ocidente e os fanáticos crentes do islamismo.

O antagonismo está nas diferentes concepções do mundo. Quando, deste lado, empunhamos o valor da liberdade de expressão utilizamos uma linguagem que é desconhecida do outro lado. Do lado de lá, a prioridade é o respeito dos dogmas religiosos – e não me interessa saber se se trata de uma interpretação que perverte o Corão. Duas civilizações que falam linguagens diferentes, ancoradas em valores diferentes, com pouca sensibilidade para a compreensão recíproca, estão condenadas a viver de costas voltadas. Condenadas a mergulhar numa espiral de violência que não augura nada de bom.

Na minha escala de valores, a liberdade pessoal (onde se abriga a liberdade de expressão) vem antes da liberdade religiosa. Aceito que em caso de conflito a fronteira é volátil: não ofendo a liberdade pessoal daquelas pessoas que os meus cartoons retratam de forma depreciativa? Devo prescindir da minha liberdade de expressão porque vou ofender a crença dos que retrato de maneira acintosa? As respostas não são fáceis. Optar por um dos extremos implica o sacrifício de um valor que merece respeito. No limite, opto pela prioridade da liberdade de expressão. Desde que haja a consciência do preço a pagar quando a liberdade de expressão é levada ao limite.

No contexto destes cartoons, adivinhava-se a tempestade. Os árabes – e mais ainda os que levam a religião com o fervor fundamentalista – não aceitam que se amesquinhe Maomé. Na latência de um choque de civilizações que cresce de intensidade, o jornal dinamarquês, e todos os outros de maior tiragem que fizeram eco das caricaturas, sabiam o preço da publicação dos cartoons. Para os árabes atingidos, o sabor da blasfémia. Do lado de cá, apenas o exercício da liberdade de expressão. Sendo um liberal agnóstico, a liberdade de expressão tem mais valor do que a liberdade religiosa. Mas muitas vezes na vida temos que ser pragmáticos: e a menos que quisesse atear uma fogueira que ameaça tornar-se incontrolável, não ousaria publicar os cartoons, sabendo que o ódio que os fanáticos islâmicos alimentam pelo ocidente pode semear mais violência cega.

Por uma questão de princípios, estou ao lado dos que defendem a liberdade de expressão. Duvido, porém, que muitos deles tivessem o mesmo comportamento se, nas caricaturas, o alvo fosse o cristianismo.

Inquirido sobre o assunto, Horácio nada opinou, por desconhecimento de causa.

3.2.06

A saga do Horácio

Uma noite como tantas outras. O roteiro, nunca preparado. Ao acaso, errando pelos becos nocturnos, atrás da miragem de um véu de sombras semeadas noite fora. Enganara o estômago, à boleia de um pândego endinheirado. O longo desfile etílico começara. A mente desperta para uma estranha lucidez, que se alimenta da mistura de bebidas alcoólicas.

Por entre ruelas esconsas, sobem e descem as colinas da cidade perseguindo a agitação. Dir-se-ia que ele e os amigos são os fautores da agitação. Mobilizam as massas sequiosas de uma vida fremente, enquanto os anónimos da vida corriqueira estão plantados no seu sono. Perturbam apenas os que se indignam com a boémia nocturna que levam. Um modo de vida, como outro qualquer, reclamando o mesmo respeito que todos os outros modos de vida merecem.

Naquela noite havia um fervilhar especial. Sem explicação. Não era fim-de-semana, quando as laboriosas almas saltam da toca e vêm saborear o ar nocturno. Não havia eventos que trouxessem tanto frenesim às ruas. Mas que interessava o porquê de tão intensa movimentação? Tarefa para os teóricos do mundo, entretidos com elucubrações intermináveis sem sumarenta matéria. Aos cavaleiros da folia, apenas o ofício de empunhar a diversão, testemunhas e actores da boémia inflamada.

Horácio nunca tinha escutado tantas línguas estrangeiras como naquela noite. Interrogava-se se a bebida, já tragada em dose generosa, não lhe trouxera miragens auditivas. Miragens visuais, tinha-as como um hábito. A vista a dobrar era imagem de marca de noites sucessivas, quando o whisky marado, os shots diversos, ou a cerveja (na escassez de dinheiro) entravam em doses abundantes e tingiam a circulação sanguínea com o álcool reconfortante. Era a primeira vez que passava pela experiência de miragens auditivas, com uma torre de babel de línguas estrangeiras a entrar pelos tímpanos.

Não era pródigo em línguas estrangeiras. O eterno cábula sempre se gabou de empregar o menor esforço para atingir as metas do sucesso estudantil. As línguas não foram excepção. Foi metendo conversa com alguns estrangeiros que aprendiam a noite da cidade. Sabia que tinha que usar a língua franca do momento, o inglês. Aos poucos foi desenferrujando o macarrónico inglês, aqui e ali entrecortado por anglicismos que ele traduzia à letra do português (“I convite you for a beer”). A condição etílica já toldava o discernimento. Porém, a comunicação ia-se fazendo, de vez em quando com desistências dos visitantes que o deixavam entregue à solidão. Apenas por breves momentos. Naquela noite Horácio sentia a veia internacional a latejar.

Ancorou em companhia duradoura. Não quis saber nacionalidades, nem se lembrava dos nomes dos comparsas. Era irrelevante. Um militante empenhado da boémia nocturna tem como lema a efemeridade dos laços. Conhecem-se pessoas que o excesso de álcool remete para um canto das remotas lembranças, ou para o total obscurantismo quando a bebedeira beijou o coma alcoólico. No dia seguinte, ainda na cama, num primeiro esforço para rebobinar os acontecimentos, Horácio nem sequer se recordava quantos eram os companheiros de noite ocasionais. Apenas traços mais fortes – a verruga mesmo abaixo do lábio num deles, outro ruivo e sardento (devia ser inglês), um terceiro cravejado de piercings, outro que tanto bebia uma cerveja como a vomitava de seguida.

Noite de caixão à cova. Com o corpo ainda mergulhado no torpor etílico, a cabeça já a rebentar de dores tão familiares, ia-se demorando na letargia de quem irrompe do sono. Na tentativa de reconstituir a noite, começou pelo fim. De nada se lembrava. Nem sequer de como tinha ido parar à cama, àquela cama que só uns instantes depois de despertar percebeu ser a sua. No cabide, do outro lado do quarto, um casaco pendurado que não era seu. Teria dado guarida a um dos companheiros de estroinice? Saltou da cama, a tropeçar corredor fora, olhou para a sala, espreitou na cozinha; não havia sinais de ninguém.

Regressou ao quarto. Estacou defronte do bengaleiro onde jazia um casaco castanho, todo coçado. Nas costas um dístico em garrafais letras douradas: “Bergen, Norge”. Por entre a anomia dos sentidos teria acaso trocado o querido casaco de couro por aquele andrajo? A inquietação despertou-o do vegetativo acordar. Acendeu a luz para afastar a penumbra que enchia o quarto. De súbito sentiu a pulsação acelerada do coração, a aflição que o acossava. Na desarrumação habitual do quarto encontrou o casaco meio escondido debaixo da cama. Sossegava. Voltou ao casaco usado. Vasculhou nos bolsos em busca de sinal da identificação do dono. Tudo o que encontrou foi um bilhete:

What a terrific night, amazing excitement. You are the best! When you come to Norway, call me. Knud.

O desafio não o motivou. Não se imaginava imerso no frio glaciar, acompanhado de noruegueses que bebem ao fim-de-semana ate caírem para o lado. Não se dá com inexperientes, não gosta de climas frios, nem simpatiza com pessoas frias. O ego, contudo, refulgia de brio. Sentira-se cicerone da sua cidade, dos meandros escondidos da agitação nocturna. Estava seguro de que tinha desempenhado o seu papel com excelência. A nota deixada no casaco era a recordação de uma noite formidável. Já não se sentia apenas um herói local. A sua marca herdara um carimbo internacional. Se, porventura, um dos raros acessos da consciência reprimida o desafiasse a mudar de vida, esta era a prova que faltava para continuar na senda do caminho percorrido. Por tanto haver ainda por percorrer.

2.2.06

Um quadro cor-de-rosa

Horácio acordou. Noite tão longa, já tinha a aurora raiado quando se abraçou aos lençóis pintados a escarlate. Ao lado, na mesinha de cabeceira onde jaz a bíblia em dinamarquês, olhou para o relógio e discerniu uns números avermelhados, que lhe queriam dizer qualquer coisa que não chegou a perceber bem o que seria. Ensonado, tirou o sapato direito e ficou a olhar para o esquerdo. Este entrou nos lençóis, para fazer inveja ao que acabara de sair do outro pé. A roupa fez-lhe companhia na cama, roupa ainda com o cheiro nauseabundo de um camarada de boémia que vomitou em cheio em cima do Horácio.

Acordou, por entre as malditas buzinadelas de condutores de carros cheios de pressa para viver uma vida vertiginosa. Aprendessem a lição de viver com a languidez dos apóstolos dos projectos adiados. Sem preocupações, nem dores de cabeça (para além das que são curtidas em ressacas monumentais). Uma viola canta a melodia que embala a vida dos desinquietados. Só no dia seguinte, ainda etílicos vapores ensombram o juízo, acha as horas, o casaco que só tem remédio na lavandaria, o telemóvel com a capa do Benfica, os óculos de sol cujo último paradeiro conhecido teria sido nos olhos de um ganso quase a ser sacrificado para gáudio da trupe.

O Horácio gosta mais do Inverno. Dura menos o sol, essa irritação que prova que deus ou não existe ou anda equivocado. Detesta o sol, pela luz intensa que fere as delicadas pupilas onde transbordam vasos que nadam em derrames sanguíneos. O dia é uma inutilidade. Gente a mais na rua, apressada para as tarefas desconhecidas que se perdem nos caminhos anónimos onde essas pessoas urgentes se perdem de vista. A noite tem a magia do negro, mistério que resguarda os segredos que o dia descodifica. Menos transeuntes, menos as caras semi-cerradas que se cruzam como se mais ninguém existisse. Pela noite, só as almas merecedoras. Os consortes da leveza de espírito.

O que a gente comum não sabe é sugar o tutano que a vida contém. Fica-se pela superfície, numa amostra radiante do travo amargo da felicidade efémera. Penam longamente para a exultação de algo, ou com alguém, apenas por uns breves instantes. Passam por aqui como os eléctricos que devoram a linha num quase atropelo aos automóveis que se acercam.

Ao sair de casa, cruza-se com o cão da vizinha, aquele cão estranho que tem unhas de papagaio nas patas traseiras. O cão desconfia sempre do Horácio. Só do Horácio. As vizinhas alcoviteiras, que fazem parelha com a dona do insuportável canídeo, afagam-lhe os pompons e o bicho fica logo extasiado, estendido de quatro no chão, a mostrar a barriga que aloja os ácaros da alcatifa. O Horácio, que acredita em ciências ocultas e assina por baixo a teoria da reincarnação, está convencido que o malvado cão foi um pérfido nazi numa vida anterior. Ou mais um rosto anónimo da horda que vegeta, sem interrupções, numa labuta feita vidinha maquinal.

São só dois passos até ao café do senhor Maurício. Um quarto de Vigor, para desintoxicar. No balcão, o jornal do dia noticia mais um crime terrífico, com pormenores sádicos. Desvia o olhar para a televisão, encimada pela figura da Nossa Senhora de Fátima que tutela a protecção do estabelecimento. A emissão é feita do Cadaval, do primeiro congresso anual dos anões. Horácio toma conhecimento que os anões querem pagar impostos à medida do seu tamanho. Exigem desconto nos impostos, para serem compensados da iníqua natureza que os dispôs como são. Tudo lhe parece ainda uma nebulosa bola sem contornos, um quadro surreal onde as cores se sobrepõem. As coisas ainda não fazem sentido.

Ao seu lado o famoso Vitorino, acabado de chegar – Bitorino, em homenagem à prolação dominante no lugar. Outrora pequeno traficante de drogas leves, o tempo trouxe-lhe o sucesso do empreendimento. Horácio acha-o um parasita, um oportunista que leva inocentes adolescentes no engodo. Quando dão conta, estão emaranhados nas malhas das substâncias mercadas pelo Bitorino, eles e elas, o peixe pequeno que se consegue desensarilhar das apertadas malhas. Os culpados são os Bitorinos que por aí pululam, mais os grandes tubarões que fazem fortuna com o negócio. O primeiro lampejo de sobriedade (na maneira de ver as coisas pela lente do Horácio), já a luz solar rareia e os lampiões se anunciam para breve.

Hora de cambalear. Encostar a indisposição num banco do jardim. Pode ser que o ar fresco que se pôs seja terapêutico. Toda uma noite pela frente exige outra disposição. Ou haverá lugar a uma daquelas maratonas de sono para pôr em dia o descanso de que perdeu rasto. As coisas compõem-se, entremeadas com um cochilo interrompido pela cabeça que toscanejou para a frente, despertando-o. O silvo dos pardais tardios é o mote para a aventura que se segue. O desafio de fazer que todos os dias sejam diferentes, intenso apelo à fértil imaginação dos reis da felicidade. Anoitece, mas o quadro que desfila perante os olhos do Horácio é, agora, cor-de-rosa.

1.2.06

O que pode o hooliganismo

(Advertência à legião dos meus admiradores “tunos” espalhados pelo país: este texto – como o texto “Desnudamento” – não vos é dedicado. Não enfiem a carapuça.)

Surpresa pelo acto de barbárie contra o treinador do FC Porto? Só para os distraídos. A inquietação, essa, em crescendo. O fervor clubista alimenta-se de uma escalada de ódios contra os adversários – que agora surgem como “inimigos”, na palavra sempre sábia do presidente daquele clube. E como a reprovação seria geral caso as traulitadas caíssem sobre o “inimigo”, destila-se o fel no treinador da própria equipa, quando as coisas não correm de acordo com as exigentes expectativas dos energúmenos.

Para quem esteja a leste do cosmos do futebol, o episódio é mais perturbante ao dar uma vista de olhos à classificação. A equipa treinada pela vítima da violência covarde está destacada no primeiro lugar, com quatro pontos de avanço em relação ao “inimigo”. É caso para imaginar o que podia acontecer ao holandês caso a equipa andasse perdida num lugar qualquer que não o primeiro.

São os ódios futebolísticos que fermentam a violência intolerável. Os adeptos ainda não se converteram à nova realidade. Vivem no tempo do amor à camisola. Ignoram que o futebol é uma indústria, um mercado como qualquer outro mercado (descontando o perverso hábito dos agentes de futebol, que se consideram um caso especial para tantas coisas, como se fossem um país dentro do país – basta recordar inúmeros regimes de excepção que beneficiam o futebol). Os adeptos ainda acreditam que eles são os genuínos detentores do clube. Na era das sociedades anónimas desportivas (SAD), não há lugar a estes laivos de emotividade. Os adeptos são, quando muito, sócios que pagam para terem o lugar anual na cadeirinha no estádio. Não são accionistas – se o são, tão minoritários que não têm voz audível nas decisões tomadas.

Para estes adeptos, tantas vezes arregimentados nas claques organizadas, o futebol ocupa vinte e quatro horas diárias da sua vida. É mais importante que o achaque da mulher, o insucesso escolar dos petizes, a desgovernação costumeira. Quando o clube enche as vitrinas de taças, enobrece-se o ego. Andam altivos, como se atingissem o zénite de uma vida inteira. Quando as coisas descambam querem cabeças no cadafalso. E se a cabeça dos culpados não é ceifada por quem de direito, faça-se justiça pelas próprias mãos. A populaça grotesca em todo o seu esplendor. Os mesmos que cercam as portas de um tribunal, na ânsia de fazer “justiça popular” a um arguido acusado do mais tenebroso crime.

A escalada de violência só pode intrigar quem passe ao lado das tricas entre dirigentes do futebol. Põem-se em bicos de pés, roubando protagonismo aos artistas que jogam o jogo no relvado. Alguns, arrivistas, entram no futebol para o estrelato. Outros servem-se do futebol para sedimentar negociatas. Em tempos houve quem usasse o dirigismo no futebol como trampolim para a carreira política. Mas há quem sirva com dedicação a causa. E seja endeusado por um séquito de fiéis seguidores (que não dão conta que a fidelidade é canina, sem desprimor para os canídeos), que se entusiasma com declarações inflamadas que incendeiam o ódio pelo “inimigo”. Numa permanente teoria da conspiração que vê em tudo e em todos uma perseguição para impedir as vitórias de um clube que se afunda, por iniciativa sua, no espartilho do regionalismo saloio.

Estes dirigentes têm nos fundamentalistas e violentos apaniguados das claques organizadas um sustentáculo oportuno. Acontece no FC Porto, como no Benfica, no Sporting ou mesmo noutros clubes onde as claques já têm atingiram alguma organização. Os apoios são generosos, a caução aos desmandos que fazem nunca findou (acaso alguma vez o FC Porto censurou os actos de pilhagem em estações de serviço nas auto-estradas, por exemplo?). Enquanto as cumplicidades se mantiverem, enquanto estes grunhos sentirem que têm as costas quentes pelos silêncios complacentes dos dirigentes do clube, o terror há-de continuar a ser espalhado. Ao menos louve-se a intenção dos dirigentes do FC Porto para incriminar quem tentou atentar contra a vida do treinador (ou não foi isso que esteve em causa, quando uma besta disparou um very light contra o automóvel do treinador?).

As virgens ofendidas costumam acusar o toque, argumentar que o futebol move multidões. Que não se deve mexer com as tradições assimiladas. Este argumento das tradições soa à mais pura irracionalidade. Quem ousa desalinhar das tradições apanha com a artilharia pesada, como se fosse um herege a quem deve ser dedicado um tratamento bem ao jeito da inquisição. É só ver como reage a trupe do futebol quando alguém põe em causa as benesses por onde o futebol navega.

Entretanto, fazem-se estudos antropológicos acerca de claques de futebol. Coisa que me causa espécie: a antropologia estuda o comportamento humano, não o comportamento animal.