15.2.06

O dia dos namorados, versão de um acólito do Prof. Boaventura

O acólito do Prof. Boaventura levantou-se tarde, depois de uma regalada maratona de doze horas de sono. Não faz por menos: deambular pelos meandros da investigação, com o carimbo “investigação alternativa”, e militar em causas que exigem forte empenhamento pessoal consome todas as energias ao fim de um dia. Exangue de forças, remete-se ao sono que presta justiça ao seu inestimável contributo para o avanço da humanidade, em prol de uma humanidade mais fraternal, justa, igualitária.

Quando saiu de casa e degustou o pequeno-almoço – já pessoas havia amesendadas à espera do almoço – reparou que era dia dos namorados. Começou a espumar toda a raiva militante contra estas aberrantes figuras inventadas pelo nefando capitalismo. Não podia calar a revolta contra a conspiração das forças opressoras do capital, que tecem as teias onde os alienados consumidores se enredam, desprotegidos. Prometeu perorar sobre o assunto na aula da tarde, aos seus alunos de Sociologia Geral. Saiu do café e enquanto passava ao lado do Choupal ia gizando mentalmente o discurso.

Quando entrou na sala estava montado o circo que o acólito do Prof. Boaventura tanto gosta. A turma caótica. Fumava-se, bebia-se, discutia-se apaixonadamente sobre a polémica dos cartoons dinamarqueses (ainda). Uma minoria alienada refugiava-se num canto entretendo-se com jogos de telemóvel. Entrou e não cumprimentou a turma – isso de respeitar os "usos sociais" que nos impõem é uma patacoada, a antítese da sua rebelde maneira de ser. Bateu a porta da sala com estrondo, o sinal para o grupo perceber que a prédica ia começar. Se o programa da disciplina fosse cumprido, ditava a calendarização que se continuasse a discutir Giddens e a falácia da terceira via social-democrata. A preguiça mental e a largueza de “criação intelectual” dada pelo Prof. Boaventura autorizavam estes desvios às linhas do programa. Mais uma vez a aula ia ser sobre tudo menos Sociologia Geral.

O acólito do Prof. Boaventura lançou o tema para a mesa: o significado do dia dos namorados, invenção recente que reforçou a dependência consumista da horda, mais uma importação da origem de todos os males, os Estados Unidos. Tomou a palavra.

A celebração do dia dos namorados é um desfile de iniquidades. Primeiro, a materialização dos sentimentos. Acentua-se a ideia de que mostramos os afectos através da prenda necessária nos momentos que o opressor pensamento único convencionou serem especiais. Quem não dá a prenda à namorada prova que deixou de nutrir aquele sentimento especial por ela. Esta é a imagem da confusão de planos: os sentimentos têm um preço, pago com as prendas que enchem os cofres das multinacionais a quem uma orgia de celebrações tanto interessa.

Segundo, o dia dos namorados é discriminatório em vários sentidos. Discriminatório dos comportamentos sexuais alternativos. Basta estar com atenção à iconografia oficial, à retórica desfiada pela comunicação social lacaia dos interesses do grande capital. Tudo gira em torno de namorados de sexo diferente. Acaso alguém viu manifestações de namorados homossexuais em celebração do dia de S. Valentim? Por outro lado, a discriminação é metafísica. A teimosia em mostrar os símbolos da religião católica, omnipresentes como caução da oficialidade das celebrações. Não basta sermos impingidos com a tolice do dia dos namorados; ainda temos que suportar mais um símbolo da iconografia católica. É uma ofensa aos não crentes. Mais uma imposição de um Estado que só na aparência é laico.

Somos jovens. Não podemos calar a nossa revolta. O nosso silêncio será a vitória do grande capital, que continuará a colonizar uma burguesia dependente do consumismo vazio. Proponho que a aula continue lá fora, numa acção cívica de protesto contra a celebração do dia dos namorados. Tenho a certeza que o Prof. Boaventura dará a sua bênção ao nosso boicote ao dia dos namorados na sua faceta mercantil. Pela importância da acção cívica, estão dispensados do resto das aulas os que alinharem comigo nesta imprescindível acção de sensibilização das mentes anestesiadas pelo dormente capitalismo.

Uns por convicção, outros pelo oportunismo de não terem que suportar mais aulas o resto da tarde, todos saíram na peugada do acólito do Prof. Boaventura. Deixaram a Av. Dias da Silva e foram a pé até à Rua Garrett. Plantaram-se nas lojas das multinacionais que ostentavam gigantescos avermelhados corações apelando à caridade das carteiras dos apaixonados. Retiraram os corações, picharam outros com as latas de tinta que andam nas suas carteiras a tiracolo (num lampejo soixant-huitard tão tardio como anacrónico e idiossincrático). A polícia trouxe a comunicação social atrelada. Ocasião para fazer passar a mensagem. Os cinco minutos de fama pouco interessavam. A missão comunitária de proteger a humanidade dos descaminhos do capitalismo era mais nobre.

Naquela noite, o acólito do Prof. Boaventura sentia-se recompensado. Denunciara a hipocrisia do grande capital. Tinha esperança que as consciências começassem a despertar da letargia em que o grande capital as mergulhou. Nessa noite sonhou que em 14 de Fevereiro de 2007 Portugal seria notícia mundial: pela recusa em embarcar na oca fantasia do dia dos namorados.

1 comentário:

Anónimo disse...

Curiosamente, conheço o tipo de prole intelectual do Prof. Boaventura e, realmente, quando esta recusa uma celebração, porque sexualmente descriminatória, está a confundir o que é inconfundível. O que não implica, de todo, que quando há recusa de um consumismo primário, seguidista até, essa prole não tenha razão.
A transposição para Portugal dos dias das bruxas, dos namorados e outros que tais, não são realmente mais que a procura da criação de picos de consumo durante o resto do ano não-natalício. Se até já querem impor um costume de oferecer prendas na Páscoa!
É triste perceber que, na base de um discurso elaboradamente produzido e intelectualmente evoluído, o gato das botas não perceba que essas celebrações induzidas são apenas devaneios de uma sociedade hiperconsumista...
Adiante.
Parque das Nações ou Ponte Vasco da Gama (já não me lembro do pseudónimo)