11.7.06

Como um governo socialista promove a exclusão social


No melhor pano cai a nódoa. É a imagem adequada deste governo cor-de-rosa. Somos bombardeados com a lógica de que os socialistas são os campeões da inclusão social, sempre na linha da frente contra as discriminações, sobretudo contra as discriminações que afectam as minorias. Os idosos desterrados no interior profundo, iletrados, em muitos casos analfabetos, constituem uma franja de excluídos. Deviam ser uma prioridade deste governo, que não se cansa de usar uma retórica que apela ao sentimento.
Este governo quer colocar a santa terrinha que governa na vanguarda das novas tecnologias da informação. Gaba-se de cobrir o território com Internet de alta velocidade. O primeiro-ministro aparece, vaidoso, a mentir aos cidadãos: diz que temos a Internet de banda larga mais barata da Europa. Os jornalistas, enfeitiçados pela verborreia jactante do sucessor de Santana Lopes (e aqui a palavra "sucessor" aplica-se em todas as suas propriedades), ouvem e não ripostam. Deixam passar a mentira em branco. Ou por conivência, ou por ignorância. Nem sei o que será pior - se a conivência entre jornalistas e este governo, se a ignorância dos jornalistas.
Ontem, mais um episódio da imparável marcha rumo ao progresso. Já chegou a Internet wireless a uma aldeola escondida no mapa do interior. A RTP, candidamente servil na disseminação da propaganda governamental, deu a notícia como se estivéssemos perante um terramoto tecnológico. Uma adolescente sentou-se no adro da igreja, colocou o computador portátil ao colo e toca a surfar na rede, sem fios. Resta saber se a adolescente com um ar muito citadino não estava em Benquerença, distrito de Castelo Branco, em deslocação de fim-de-semana. Resta saber quantos jovens habitam em Benquerença.
Logo de seguida, a jornalista cometeu a imprudência de entrevistar meia dúzia de velhinhos. A imprudente jornalista (que, adivinho, terá levado um puxão de orelhas do chefe, depois de instruído pelo ministro da tutela) borrou a pintura da propaganda governamental. Um atrás de outro, os idosos que passaram diante do microfone nem sequer sabem o que é um computador, quanto mais para que serve a Internet - e muito menos o significado de "wireless". Faltava desmascarar a vacuidade de mais um acto de propaganda socialista. Indagar sobre a composição demográfica de Benquerença. A jovenzinha trajando computador portátil pelas ruas da aldeia será uma excepção à envelhecida aldeia beirã. Quiçá filha de um funcionário público qualquer com cartão de sócio do PS, instruído para levar a criancinha até aos confins das origens familiares para mostrar um mundo faz-de-conta.
Como é belo promover a sociedade da informação, as tecnologias mais avançadas que nos colocam no mapa das vanguardas. Pena que seja uma inutilidade. Mais estranho é este governo, mestre na arte de ludibriar através da imagem sabiamente arquitectada, nem perceber como cai no alçapão do ridículo. Levar a Internet sem fios a uma remota aldeia é uma inutilidade. A população envelhecida não percebe para que serve essa coisa da Internet sem fios, se os computadores são uma ave rara naquelas paragens. Pelo caminho, o garbo de quem promoveu o gesto de modernidade. As gentes citadinas, empenhadas em beber cada gota da vanguarda tecnológica, aplaudem entusiasticamente a iniciativa. São elas que interessam na contabilidade dos votos. Coisa estranha: medidas que chegam a paragens distantes, sem serem úteis às populações locais, apenas para fidelizar as clientelas citadinas inebriadas com os ventos de modernidade aspergidos pelos dedos frenéticos dos Josés Magalhães acampados no governo.
Não há bela sem senão. Os velhinhos, a quem deve fazer espécie a bebedeira tecnológica que nos passa diante dos olhos, ficam especados sem saber o que fazer com ela. Não participam nela, pela sua abstémia condição ditada pela iliteracia, mesmo pelo analfabetismo. E quanto mais o governo andar entretido com as minudências do high tech da sociedade da informação, mais os velhinhos hão-de sentir que não pertencem a este mundo.
Desfasados, hão-de olhar para o horizonte à espera que a prometida vida celestial chegue depressa. Rezando aos anjinhos para que lá, na outra dimensão que os espera, os bites não tenham passado a cancela de S. Pedro. Daqui sugiro que as suas preces vão mais longe: que o zeloso S. Pedro barre o caminho aos frenéticos socialistas das tecnologias da informação que lhe batam à porta. Ou isso, ou um contrato: lá entrarão (decerto, tantos os serviços inestimáveis que esta malta socialista prestou à comunidade) com a condição de deixarem o high tech lá em baixo, na vida terrena. Lá, pelo menos, a justiça divina cerceará as tentativas de votar à exclusão social os pobres e analfabetos idosos.
Os socialistas que lá chegarem terão uma reciclagem forçada: obrigados a retomar contacto com a prática que a sua retórica estafada, enquanto vegetaram pela vida terrena, levou ao esquecimento. E se houver a transcendência dos contactos entre os socialistas vivos e aqueles que forem entregues aos cuidados de S. Pedro, pode ser que os de lá de cima sussurrem às almas vivas para não meterem de vez o socialismo na gaveta.

2 comentários:

Rui Miguel Ribeiro disse...

Bela desmontagem do fogo fátuo político. É o inebriamento mediático a substituir a noção da realidade e as necessidades dos cidadãos.
Agora, quanto ao socialismo, se sair da gaveta, só se for para o caixote do lixo. Já tivemos socialismo de mais.

P.S. Enternecedor o enquadramento cristão do seu post. Também gostei dessa parte.

MAFALDA disse...

Cópia de uma carta anteriormente remetida ao Provedor do Ouvinte da RDP:

De: absilveira
Enviada: ter 11-07-2006 2:25
Para: zenuno@rdp.pt
Assunto: Não se pode referir o Expresso mas pode-se fazer publicidade...

Ex.mo Sr.
José Nuno Martins
Provedor do Ouvinte da
Rádio e Televisão de Portugal, SGPS, S.A.

Desculpe-me se lhe dirijo estes desabafos. Porém, face ao autismo de quem preside aos destinos da Rádio Pública, Vossa Excelência arrisca transformar-se – a breve trecho – no muro de todas as lamentações...

Mas deixemos os preliminares e avancemos para o essencial.Segunda feira (10/07) ouvia eu o Noticiário das 20h00 na Antena 1. A propósito do “caso Casa Pia”, um repórter divulgava palavras de uma testemunha do Processo, Felícia Cabrita, tendo o cuidado de a identificar (por duas vezes) apenas como jornalista de um “orgão da Comunicação Social escrita”. Como sei perfeitamente que a Felícia Cabrita é do Jornal Expresso, estranhei que o órgão de informação a que ela pertence não fosse identificado.
Principalmente, porque foi nas páginas daquele semanário que pude ler as primeiras informações sobre toda esta escandaleira.Numa primeira fase admiti tratar-se de orientações internas que pudessem levar a que um título de jornal fosse considerado uma espécie de marca comercial e, portanto, não passível de divulgação aos microfones de uma Rádio de Serviço Público. Depois, caí em mim: não pode ser... eles passam a vida a referir nomes de editoras, de hotéis e até de outras empresas...

E lembrei-me até de (na passada semana) ter ouvido abundante propaganda a uma empresa alemã que terá disponibilizado a sala onde a Antena 1 realizou uma série de emissões do Mundial. Não... não sonhei - devem existir registos disso e pode (re)ouvir - lembro-me perfeitamente de escutar diversas referências do Sr. António Macedo a essa empresa, identificando-a sempre através da sua designação comercial.

Conseguiu até tratar, uma organização privada que exerce uma actividade (legítima e respeitável) de captação de investimentos dos emigrantes portugueses para projectos imobiliários, como se de um organismo benemerente e não lucrativo se tratasse - tantas (e de tal tipo) foram as referências à empresa alemã. Um português, representante local dessa firma, foi alvo de entrevistas em dois dias subsequentes e, obviamente, aproveitou para fazer a propaganda da sua actividade e da rendibilidade dos negócios que propunham à comunidade portuguesa na Alemanha...

E isto, pasme-se, na Rádio Pública que não pode identificar o jornal Expresso.As referência a essa entidade privada violaram claramente (pelo menos) dois dos princípios legais e éticos que o Serviço Público de Rádio deveria respeitar: um tem a ver com o desrespeito por regras de concorrência, com o Operador Público de Radiodifusão a privilegiar uma empresa em detrimento de todas as outras que prestam idênticos serviços no ramo imobiliário; outro radica no facto de as referências feitas serem claramente de carácter promocional - descrevendo em pormenor o objecto de negócio, os serviços prestados, o grau de satisfação dos cliente, etc. etc. etc. Mais grave ainda: tudo isto envolto numa roupagem discursiva que poderia levar a pressupor não estarmos perante uma situação de acessoria(?) de transação comercial mas sim perante algum mecanismo de apoio e aconselhamento da emigração ...!!!

Espero que ninguém tenha a lata de argumentar que aqueles minutos de publicidade (numa rádio onde ela é liminarmente vedada) constituíam a contrapartida pela cedência de instalações onde se sediaram aquelas emissões. Isto, a ser verdade, seria ainda mais grave. Porque, se à Antena 1 está vedada a venda (ou simples comercialização) de publicidade, ela está também impedida de praticar qualquer tipo de permuta publicitária. E mesmo, em casos especiais de apoio institucional a uma qualquer sua realização, esse suporte terá de ser claramente identificado e não camuflado através de enviesadas entrevistas.

Aliás, face aos montantes que vieram a público relativamente aos gastos Rádio e Televisão de Portugal com o Mundial de Futebol, é quase ridícula, e amesquinhante, a situação de trocar umas entrevistas pela disponibilização de um espaçozito para albergar a emissão dos programas da RDP... Até porque, na Taxa para o Audiovisual que nos cobram no recibo da electricidade, já devem estar dinheiros que cheguem para estas coisas... Ou então, acabe-se com o financiamento público e a Antena 1 que procure sobreviver à custa do mercado, como as privadas...

Em síntese, não consigo perceber porque é que não se pode dizer que a Felícia Cabrita é do Expresso mas se pode divulgar os negócios desenvolvidos pela tal empresa alemã onde a RDP se aboletou para as emissões do campeonato do Mundo. Razão que me dá a ousadia de incomodar Vossa Excelência, buscando, através de si, o esclarecimento destas tão estranhas relações de "peso e medida"

Respeitosamente,
António Brito J. Silveira