12.10.06

“Grandes portugueses”: Manuel João Vieira



A RTP, convencida do seu estatuto de “prestadora de serviço público”, tomou uma iniciativa que puxa o lustro à exaltação patriótica. Um gigantesco inquérito público, para saber quem foi a personalidade histórica que mais se destacou.

Haveria reticências de método a assinalar: uma consulta pública que permite ao público votar através da Internet levanta suspeitas acerca do rigor dos resultados. Por um lado, porque posso ir ao site da RTP e votar quantas vezes quiser no meu “herói” preferido. Segundo, o concurso presta-se a resultados falseados se muitos brincalhões entrarem no site e começarem a dar respostas disparatadas, boicotando a medida. Além do mais, é o próprio princípio que levanta interrogações: o mau gosto de organizar uma competição que procura saber quem, entre a gesta de “heróis nacionais”, é o herói supremo, uma espécie de campeão nacional de todos os tempos. Como se esse exercício simplista fosse rigoroso; como se o povo tivesse conhecimentos da História para se pronunciar.
Na televisão pública passam spots a sensibilizar a população para dar o seu contributo. Ora vemos varinas a destilar vastos conhecimentos históricos num qualquer mercado do Bolhão, ora apanhamos com petizes em sala de aula entretidos numa discussão de especialistas, ora somos testemunhas de uma bravata entre os comensais amesendados num qualquer restaurante lisboeta. Em todos os casos, divagando sobre as personalidades que mais se destacaram no lastro histórico deste grandioso país.

Dou uma espreitadela no site dedicado ao concurso (disponível em http://www.rtp.pt/wportal/sites/tv/grandesportugueses/bio_resultados.php). Há lá nomes que me são estranhos: Catarina Eufémia, João Domingos Bomtempo, Ribeiro Sanches, Wenceslau Moraes, só para citar alguns. Outros nomes aparecem, surpreendentes, não só por serem contemporâneos, mas pelo contributo pífio (nuns casos) e duvidoso (noutros) para sermos o que somos: Álvaro Cunhal, António Guterres, António de Oliveira Salazar, Francisco Costa Gomes, Jorge Sampaio, José Mourinho, Mário Soares, e, para cúmulo da asneira, Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Gonçalves. A inclusão de personalidades vivas pode influenciar o sentido de voto: o povaréu estará inclinado a votar em personagens mais familiares por serem seus contemporâneos. Corre-se o risco de não fazer justiça a personalidades históricas, mortas há muito tempo, que tiveram mais importância para chegarmos ao que somos hoje (e quando uso esta expressão – “sermos o que somos hoje” – interrogo-me se lhes devemos alguma coisa, ou se não seriam merecedores de apedrejamento público…).

Não me passa pela ideia embarcar em iniciativa tão patética. Porque a acho bizarra, sem rigor, apelando à participação populista de um povo impreparado para dar resposta acertada (devido ao desconhecimento da História). Com tantos lapsos, a iniciativa está fadada para produzir resultados enviesados. Depois, porque não considero a existência de heróis. E, por fim, porque se fizesse um esforço para escolher uma única personalidade que se tenha destacado entre as demais, essa seria uma tarefa impossível: se o fizesse estaria a sancionar a absurda ideia de que o esforço de tal pessoa foi a alavanca que permitiu elevar a grandeza deste país no horizonte da História da humanidade. Seria considerar que o que somos hoje é o produto de um esforço singular, como se sucessivas gerações não tivessem (para o bem e para o mal) cimentado um passado que chegou até ao presente.

Como se todas estas razões não bastassem, há outra que mata à nascença a iniciativa: procuro e procuro entre os nomes listados e não encontro Manuel João Vieira. Esse ícone da cultura nacional, poeta sublime, artista de várias artes (música, letras, pintura), político em potência, senhor de uma franqueza desarmante. Manuel João Vieira – ou um dos seus alter egos, o que o coloca à altura de um Fernando Pessoa e seus heterónimos – diz-nos o que andamos a balbuciar em surdina, ou em roda de amigos, mas que o recato impede de proferir em público. Vai às raízes mais profundas do sentir popular, no democrático pulsar de camionistas e trolhas, com a coragem de um discurso politicamente incorrecto ao fazer chacota de homossexuais (coisa proibida nos dias que correm, como se o respeito pela sexualidade alternativa proibisse a chacota a quem não se revê na homossexualidade).

E se Vieira – o Lello Minsk, ou Lello Cantor, que salta dos Enapá 2000 para os Irmãos Catita e para os Corações de Atum – não aparece na galeria dos ilustres ao lado de Soares, Cavaco, Sampaio, Cunhal e – pasme-se – Otelo e o camarada Vasco, então não somos dignos de o ter como figura do escol lusitano. Injusto não reconhecimento de alguém que, em vinte anos de carreira, produziu o dobro do que David Fonseca, ou Represas, ou Rui Veloso (estes dois na condição de “cantores do regime”) não seriam capazes de produzir acaso vivessem quinhentos anos.

2 comentários:

Ana Cristina Ferreira disse...

Dou-lhe os parabéns pelo sublime tom irónico com que escreve.

Ou será que está a pensar mesmo nesse senhor para Grande Português?

PVM disse...

É tudo o que lá está.
PVM