9.2.07

Irritações


Do dicionário: “s. f., acto ou efeito de irritar ou de se irritar; exasperação; exacerbação.

Há as irritações cutâneas, quando a pele entra em contacto com substâncias que alojam uma urticária qualquer. Há as embirrações pessoais, aquelas pessoas que têm o condão de nos levar à exasperação de cada vez que aparecem, de cada vez que abrem e boca e articulam umas palavras. E há as irritações com coisas, fragmentos que se espalham diante de nós e semeiam a perturbação interior. Irritações maiores, ou apenas as exasperações por pequenos nadas – a atenção que se aglutina em pormenores desprezíveis, pois tudo o que conseguem é branquear o mau estar que corrói por dentro.

O pior é que só nos escassos momentos de lucidez se percebe que as muitas fontes de irritação são pálidas imagens que não deviam ser retidas por segundos que fosse. Ao contrário, são horas, dias a fio consumidos pelas irritações quotidianas. É nestas alturas que damos conta do tempo perdido com coisas miúdas sem sentido, detalhes que mostram o lado sombrio que nos habita. Enquanto andamos alijados da lucidez, a problemática consumição do insignificante é hasteada bem alto, na improvável entronização do banal no lugar das prioridades.

Irrito-me: com a prosápia dos ignorantes, que passeiam a sua oca eloquência sem perceberem a incauta cátedra que ostentam. Com os militares garbosos convencidos que vivem no século XIX, mais as guerras que alimentam, reais ou apenas imaginárias. Com os activistas da paz, mentores de um lirismo que entretece uma natureza humana idílica, mas impossível. E há os políticos, mestres maiores da mentira e do oportunismo, os maiores prestidigitadores da retórica quando certificam hoje que não disseram o que está registado na memória. Também os animalescos personagens que cerceiam direitos aos animais, pois a ordem natural criada pelo seu deus ensina que os animais são servis instrumentos da vontade humana.

E irrito-me com a bazófia de certas pessoas que desfilam tempo demais pelo espaço público: o evangélico Louçã, o das perenes verdades que são tão lhanas que não se percebe como há vozes dissidentes que não embarcam no culto. Ou os comentadores da praça pública que apascentam líderes maiores, ecoam a voz do dono, seguem-no cegamente e surgem como acéfalas criaturas que parecem tomadas pelo cérebro do dono. Mais as aves de arribação que alastram o seu esplendor pelas páginas cor-de-rosa, e o séquito que consome avidamente os detalhes mais sórdidos da vida privada destas almas que se entregam a um despudorado voyeurismo.

A irritação leva vencimento nas pequenas coisas que deviam ser apenas o terreiro do insignificante. Ao sair de casa, ambos os elevadores parados no último andar. O semáforo que está aceso por apenas trinta segundos. Ou os semáforos de dois cruzamentos seguidos que não estão sincronizados e o vermelho do segundo se acende quando no primeiro baixa o verde. Os antipáticos funcionários públicos das repartições, que dão a entender que os utentes é que são servis. Ou os sindicalistas, anacrónicas figuras a quem é dado um poder desmesurado, convencidos que o nefando capital persegue os oprimidos trabalhadores. E a vasta audiência que prossegue alegremente a sua vidinha enquanto aplaude com entusiasmo campanhas publicitárias que teimam em convencer-nos que o que é nacional é bom (mesmo que o resultado do exaltado nacionalismo saloio seja o romper dos bolsos por onde se esvaem os parcos rendimentos dos consumidores nacionais). Ainda os condutores desavindos com os pisca-pisca dos seus automóveis que mudam de direcção convidando quem vem a atrás a adivinhar para onde querem ir. Ou quando o sentido de humor tenta emergir e varrer a irritação dominante, mas nem ele serve de panaceia para impedir a irritação com aqueles que se ofendem com o humor alheio, quando deviam perceber que tudo entra no compêndio do humor, até as coisas mais sérias que alguns apoquentados sorumbáticos tratam com pundonor. E há os sacerdotes de todas as religiões, convencidos que podem manobrar as consciências dos crentes – ou os crentes, por mistérios insondáveis, entregando as suas consciências nas mãos dos sacerdotes que tratam de os pastorear pelo caminho certo. A irritação maior: com a intolerância.

E irrito-me. Por tudo isto me irritar.

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