30.3.07

O enamoramento da culinária

Podia falar do efeito balsâmico da cozinha. Podia explicar como mergulhar em cozinhados, manusear ingredientes, vasculhar a imaginação para combinar sabores desconhecidos, é um acto terapêutico que embebe o repouso do espírito. Podia acrescentar as horas gastas em preparados exóticos, mais as decepções do palato quando chega a degustação. Ou o seu contrário, quando nem mesmo o comedimento da humildade impede o comprazimento pessoal com o repasto confeccionado.

As sensações da cozinha escapam ao domínio do dizível, na maior parte dos casos. Há pessoas que ficam atónitas com as horas de enclausuramento culinário, sem perceberem onde radica a fonte do prazer pessoal. Não entendem o deleite das cores e dos aromas quando se espalham vegetais e ervas aromáticas na banca da cozinha. Não conseguem discernir as sensações ininteligíveis, que todavia se apoderam dos gourmets, quando o preparado toma gosto no calor do fogão. Não são apenas os aromas que invadem a cozinha, que tantas vezes chamam os comensais ao lugar da casa onde o convívio encontra o seu altar maior. É também a forma do cozinhado, com a cama que se faz no tacho, as cores dos alimentos que transfiguram a paleta inicial.

Diria que a cozinha é um lugar mágico onde se encerram os segredos da alma. Cozinhar é uma exaltação do estado de espírito. Quem lida de perto com a arte, seja especialista ou mero aprendiz, já foi tomado pela exasperação quando o produto ansiado aparece adulterado. Dizem os antigos: há preparados que não resultam quando a indisposição tomou conta do artífice. Um exemplo pessoal: quando estou azedado, sei que são tempo perdido as tentativas para levantar natas em chantilly. Acontecia o mesmo quando tinha paciência para edificar uma maionese consistente a partir de uma mistura líquida de gema de ovo, óleo e uma pitada de mostarda, meticulosamente batida à mão.

O que me agrada na arte da culinária, por estes dias, é o experimentalismo. Conjugar sabores e ingredientes que à primeira vista parecem desavindos. Tentar obter deles um conjunto homogéneo, que realce a textura harmoniosa dos ingredientes que se combinam. Tenho-me afastado da gastronomia tradicional. Deixou de encerrar segredos. Por vezes, há a tentação para reinventar pratos tradicionais. Uma erva imprevista acama no refogado, umas gotas de um vinho espirituoso adornam um assado, frutos que celebram um peixe umas horas banhado num molho acolhedor.

A culinária é a sagração da alquimia dos ingredientes. Uma festiva cerimónia de engrandecimento dos sentidos: os olhos também comem, os odores libertam-se de ingredientes crus ou em curatela de fogo, os sabores demoram-se nas papilas gustativas. Por cima destes prazeres, o maior de todos: entrar numa cozinha, encher os pulmões de ar como pregão que chama a imaginação, solfejar pela inspiração da arte culinária. Não exagero se disser que a culinária é uma alquimia dos sentidos (e não só dos ingredientes, dos sabores, dos aromas, das cores que celebram o festim que tem lugar na cozinha).

Este é um requiem por uma arte que já me foi mais pródiga. Tenho andado arredado das lides. Será demissão do enamoramento pela culinária, ou tão só uma exaustão da imaginação carecida pelos segredos da cozinha? Só sei que às vezes sou assaltado pela necessidade de enfiar no avental e mergulhar em tachos, utensílios e ingredientes, sentir extasiado a sinfonia de cores, sabores e aromas que me cerca, que banha todos os poros. Apenas lamento que os súbitos impulsos culinários cheguem nos momentos mais improváveis: na distância da cozinha, nas horas que não aconselham amesendação, ao volante no meio de uma auto-estrada, quando os pensamentos vogam em espiral no refluxo do stress de todos os dias. Talvez por isso mesmo: há na cozinha um esconderijo onde recupero as forças exangues pelos atropelos do quotidiano.
Uma vez em casa, noto que a pulsão culinária se evaporou. Fica adiado aquele exercício de experimentalismo gastronómico ensaiado mentalmente, na alta velocidade da auto-estrada. Parece que o desejo de regressar à cozinha se esfuma com a mesma velocidade que os apetites pela inovação culinária passam por mim, esmagados pelo pé direito que pisa o acelerador enquanto aguardo, ansiosamente, que a auto-estrada chegue ao fim. Refúgio na cozinha e fim da auto-estrada emparelhados numa necessidade comum: a fuga à cansativa rotina.

29.3.07

O metrossexual é gay?


Modas. Voláteis, como o tempo fugidio. Por estes dias, são os metrossexuais que fazem sucesso junto do sexo feminino. Procuro informação: “metrossexual é um termo originado nos finais dos anos 90, pela junção das palavras metropolitano e heterossexual, sendo uma gíria para um homem heterossexual urbano excessivamente preocupado com a aparência, gastando grande parte do seu tempo e dinheiro em cosméticos, acessórios e roupas de marca.

Retenho parte da definição: “preocupado com a aparência”. Seria ocasião para os líricos cultores dos intrínsecos valores do espírito denunciarem mais um aspecto deplorável da sociedade do consumo que nos domina. Mais uma vez, o Homem só dedica atenção a pormenores irrelevantes, desvalorizando a sua verdadeira essência. Por mais atraente que seja a retórica, não é por aí que quero seguir. Interessa-me indagar porque se preocupa tanto o homem com a sua aparência. Duas hipóteses surgem de supetão: ou para seu bem-estar – ainda que possa ser acusado pelos guardiães da espiritualidade de ser uma fátua personagem –, ou para agradar ao sexo feminino e aumentar o rol de conquistas.

Há outra parte da definição que me traz inquietação: “gastando grande parte do seu tempo e dinheiro em cosméticos”. Há dias a minha filha ofereceu-me uns cremes anti-rugas. Terá descoberto que o pai cava umas fundas rugas de expressão nas cercanias dos olhos quando esboça um sorriso. Terei passado a metrossexual? Os garbosos espécimes do marialvismo nacional dirão que sim. Que um homem não precisa dessas mariquices, da mesma maneira que um homem não chora – nunca chora. Quando um homem se entrega aos tratos de polé, com cremes e mais cremes e perfumes e roupas que espelham o último grito da moda, reproduz tiques próprios da feminilidade. Para o homenzarrão típico – comportamentos que o aproximam de um homem de Neandertal – o metrossexual confunde-se com um homossexual. O aspecto andrógino ajuda ao diagnóstico.

O problema é que as aparências iludem. Pode o metrossexual, com a sua pele imaculadamente limpa e lisa, na geometria dos cuidados proporcionados pelas intensas camadas de cremes e mais cremes, transpirar o aspecto pouco másculo que detona o escárnio dos homens de barba rija. Mas há que olhar para além da fina camada que a aparência deixa à mostra. Quem tem mais sucesso junto do sexo feminino? Homens abrutalhados, misantropos, cultores da máscula superioridade? Ou os metrossexuais, aspecto cuidado, ar esquálido mas límpido, mostrando uma sensibilidade surpreendente, que enchem as capas de revistas de moda e preenchem o imaginário de mulheres que repensaram os focos de atracção pelo sexo oposto? Consta que os segundos levam a palma. Porventura é isso que reforça a crítica viperina dos homens de barba rija: a pura inveja de se saberem ultrapassados por homens de andrógina aparência. Há que convir, é um rude golpe na auto-estima dos marialvas.

Não se faz por aqui uma apologia da metrossexualidade. Aliás, há algo que me causa uma tremenda confusão ao discernir o sucesso de lívidos metrossexuais junto das mulheres. Como um metrossexual cuida tanto da aparência a ponto de resvalar para a feminilidade, pergunto-me se o amplo sucesso junto do sexo feminino não revela um recalcamento lésbico das mulheres que se entregam nos braços dos metrossexuais. Elas enamoram-se de homens que se parecem cada vez mais com mulheres. Há, nesta inversão de comportamentos, uma escondida atracção pela homossexualidade feminina? No fundo, as mulheres revelam uma preferência dominante por homens que se assemelham cada vez mais a mulheres. Daí a interrogação.

Não estou por dentro do meio para afiançar se os metrossexuais são ou não homossexuais, como “acusam” os cultores da masculinidade tradicional ao destilarem a mais pura das invejas. O que parece indubitável é a androginia dos metrossexuais. Às vezes dou comigo a folhear catálogos de marcas de roupa que chegam pelo correio. Lá desfilam modelos masculinos que exalam metrossexualidade que é tão discreta como impante. Para além das figuras ridículas que a moda nos lega (há dias vi um jovem modelo envergando um fato de marca, gravata e tudo, com uns ridículos xanatos a descompor o quadro), vinga a imagem do metrossexual – ora efeminado, ora docilmente juvenil – ganhando terreno junto das mulheres. Que gostam, cada vez mais, de homens que lhes façam lembrar mulheres.

Vai grande a confusão de costumes na modernidade.

28.3.07

Como dói pagar impostos



Se há ritual que cumpro com sacrifício é o preenchimento anual da declaração de IRS. Valha-nos a tecnologia que dispensa filas intermináveis à porta da repartição de finanças e a antipatia congénita dos funcionários que colocavam o aliviante carimbo no formulário, não sem antes ostentarem arbitrariedade e presciência que exasperavam o mais fleumático. Agora é pela internet que os contribuintes se desoneram do encargo.

Custa-me compulsar todos os documentos. É penoso o somatório de recibos que não mais terminam, com somas que nunca batem certo em sucessivas tentativas. É pungente ler a verba do rendimento que já ficou retida do lado de lá, a título de retenção na fonte. Lembro-me de um professor usar um eufemismo para rotular a retenção na fonte: “anestesia fiscal”, pois o contribuinte vai pagando por conta e devagarinho. Em todo o caso, é doloroso sentir a percentagem do rendimento embargada no lado invisível do processo. De resto, a alegoria da anestesia fiscal não convence um refractário dos impostos (oxalá o pudesse ser…). Para quem impostos nunca deviam ser pagos, não há qualquer passe de magia na anestesiante retenção que emagrece o rendimento bruto para o angustiante rendimento líquido.

Navegar pelos formulários do IRS é uma aventura misturada com pozinhos de indignação. Lá vem embrulhado o retorcido linguajar dos juristas que dão o seu melhor como mangas-de-alpaca do fisco sequioso. Percorrer todos os campos com a atenção devida é uma tarefa homérica. Campo atrás de campo, na maior parte dos casos a resposta é “isto não se aplica a mim”. Os formulários deviam apelar à criatividade dos contribuintes. Da mesma maneira que é premiada a generosidade dos contribuintes que aceitem fazer donativos à custa do seu crédito de imposto, a criatividade devia ser premiada com descontos nos impostos. Teríamos então uma utilidade social inequívoca nos impostos: laureando a criatividade, um contributo para o crescimento de uma sociedade que teima em afocinhar na mesquinhez e na mediocridade.

Há algures, entre a parafernália de campos que compõem mais um formulário, a possibilidade de inscrever verbas relativas a mecenato a entidades que pertencem ao Estado. Inditosa possibilidade: já não basta a coercibilidade dos impostos, o Estado convida-nos à generosidade com ele mesmo, esperando que os contribuintes tenham um acesso de longanimidade e ofereçam dinheiro que engorda o património público. É como se fôssemos roubados por um meliante desesperado e depois soubéssemos que os impostos que não pudemos deixar de pagar vêm alimentar o rendimento mínimo garantido que o gatuno aufere. Quem gosta de ser espoliado duas vezes?

A retenção na fonte está tão bem orquestrada que agora compreendo a associação à eufemística “anestesia fiscal”. Para um numeroso grupo de pagadores de impostos, o preenchimento dos formulários traz a boa nova final: no acerto de contas, são credores do Estado. As pessoas ficam aliviadas, sabendo que daí a uns meses vão receber uma inesperada maquia. É nesta altura que o contribuinte agradece a ajuda divina que o colocou na posição de credor no deve e haver de impostos. Não lhe custa reconhecer que o Estado afinal é seu amigo, pois a devolução do dinheiro prova que durante o ano andou a pagar impostos a mais.

Eis o equívoco: não há aqui nenhuma bondade. Não fosse suficiente o roubo legal corporizado no imposto que leva aos cofres públicos uma parcela do suor do nosso trabalho, o fisco surge com a imagem magnânima de quem devolve poupanças forçadas ao longo do ano. Não se pergunta ao contribuinte se aceita entregar, a título de estimativa do imposto que há-de ser devido, uma quantia superior à que depois se vem apurar ser a efectivamente devida. Mais uma para o infindável rol de imposições que destroem a liberdade individual.

A perseguição é tão refinada que o cruzamento de dados informáticos simpaticamente lembra aos contribuintes quando eles se “esquecem” de declarar certos rendimentos. Não há mal nenhum nisto, dirão os mais condescendentes com a fobia da cobrança de impostos. Aceitando a derradeira lógica dos cobradores de impostos (ministro das finanças como expoente máximo) dirão que quanto mais forem os infractores a pagar, menos hão-de pagar os cumpridores. Lamento, estão errados. A crer na experiência pessoal, os últimos anos têm sido mostruário de mais impostos pagos. Sendo tão propalado o sucesso no combate à evasão de impostos, seria razoável que a minha factura fiscal viesse diminuindo. O que está longe de acontecer: tem crescido.


A isto chama-se engenharia fiscal: mudam-se as regras mil e uma vezes, todos os anos; no discurso oficial, a patranha do costume – com as novas regras, os cidadãos poderão ver aliviada a sua factura fiscal; quando a poeira assenta e a memória se perdeu na lonjura do tempo, poucos se apercebem que as promessas não foram cumpridas. E mais onerosa passou a ser a factura fiscal.

Eu gostava que me aparecesse um Aladino. Só lhe pedia um desejo: a abolição de todos os impostos.

27.3.07

“Allgarve”: publicidade pimba ao serviço do governo


Compreende-se que a publicidade seja à medida do público-alvo. Por exemplo, os anúncios a detergentes costumam primar pela imbecilidade, fazendo da dona de casa uma senhora embrutecida pelas lides domésticas. (E eis que, de repente, me ocorre explicação para o comentário do infalível Mário Soares a propósito do discurso de Nicole Fontaine, que o tinha derrotado na “eleição” para a presidência do Parlamento Europeu: com a delicadeza que lhe é conhecida, sentenciou que a oratória era própria de uma dona de casa.)

Os exemplos de publicidade pimba não se restringem ao ramo dos detergentes. Acossam outros domínios, que os publicitários não acordam todos os dias mergulhados em criatividade, e que os há cultores do cavernoso mau gosto. O governo contrata publicidade e cuida da propaganda. Normalmente andam de braço dado: publicita as pérolas lusitanas, sobretudo para captar os estrangeiros que por cá podem deixar uns tostões valentes; de caminho, a publicidade é o mostruário do diligente governo dotado de visão estratégica para fazer as apostas certas, benzidas com a facúndia dos publicitários.

À semelhança dos publicitários, também há no governo quem seja pródigo no juízo anti-estético. Ou isso, ou pura distracção. Resta uma terceira hipótese, do agrado dos cultores da teoria da conspiração, daqueles que receiam pela diluição da portugalidade: os funcionários do ministério da economia que passaram os olhos pela campanha publicitária que promove o Algarve estão mancomunados com interesses inconfessáveis que são inimigos da pátria. Senão, como entender o slogan “Allgarve”?

Há, neste mundo, os inteligentes e os que se ficam pela esperteza saloia. E os mais ignorantes de todos: aqueles que não se apercebem como são lastro da pantanosa ignorância e acham que são lustrosas personalidades a quem tanto devemos. Pressinto que os arquitectos da campanha “Allgarve” e os mandantes, quem no ministério da economia encomendou a obra, devem andar lá perto. Imagino-os, publicitários e mandantes, deliciados com a imaginativa descoberta: “Allgarve”, na engorda de um “l” que a região ganhou.

A transformação do nome algarvio, que já motivou exaltados protestos de desassossegados nativos, tresanda ao pior mau gosto que se pode conceber. Mistura-se tudo com uns grãos de esperteza saloia: o “all” que precede o “garve” é o étimo que traduz “todos” para português. Este “all” é inclusivo. Possibilita a campanha virada para dentro e para o estrangeiro. Cá dentro, somos “all” “garvios”, porque o turismo que se espraia lá para o sul é sedutora fonte de divisas que enriquece o país. Lá fora, impinge-se aos destinatários a ideia de que são “all” bem-vindos aos campos de golfe, às praias onde ficam cor de lagosta, aos clubes nocturnos onde agravam cirroses e aos braços do Sr. José Camarinha.

Diria que a pincelada de língua inglesa que adorna a metamorfose do Algarve é uma insólita colonização às avessas. Como se fosse possível o globo girar no sentido contrário da sua órbita, agora convidamos os outros a entrar e a serem reis e senhores de nós mesmos. Outrora conquistadores de mares e mundos, agora resignados à pequenez que nos remete para a condição de conquistados. O “Allgarve” faz-me lembrar a rameira sempre de pernas bem escancaradas, pronta a satisfazer o cliente pagante, sem tugir nem mugir. É o Algarve no seu pior: enxameado por turismo de quarta classe, com a ralé operária, do campesinato ao suburbano, que fala alto e polui a paisagem com a sua presença. O Algarve das ementas em não-sei-quantas-línguas-menos-o-português. O Algarve tão acolhedor para os turistas e, logo a seguir, tão diligente em aldrabá-los nos trocos quando vão às compras ao supermercado.

Ser-se publicitário deste jaez é tarefa fácil. Faz lembrar aquelas poesias baratas de rima previsível. Apostar no “Allgarve” é teimar em fazer um turismo de massas, popular, sem qualidade. Uma imagem triste do turismo, à imagem de um país tristonho, enfadonho. Ver o “Allgarve” como barriga de aluguer onde nidificam hordas de hooligans e adereços familiares é fazer da região a Carcavelos de muitos europeus. Elitismo? Decerto a única saída para o turismo, enquanto válvula de escape que ampara a economia nacional. Adulterar o nome do Algarve para atrair as hordas parece uma capitulação inútil. Curiosamente, por onde Portugal concluiu a fixação das fronteiras há-de ser por onde começa a desanexação territorial. Falta saber se o ministério da economia, em parceria com o dos negócios estrangeiros, vai comunicar às instituições da União que doravante Algarve se passa a chamar “Allgarve”.

Esta publicidade pimba não é fautora de “all” garbo. E podemos teimar na manipulação das letras que compõem o nome Algarve. Se o “g” cair, temos diante dos olhos a descrição de quem assinou por baixo esta lamentável campanha publicitária: alarve.

26.3.07

Cinquenta anos de União Europeia e a tribo do futebol: uma dança descompassada


Ontem a União Europeia celebrou o quinquagésimo aniversário. Solenidade. Discursos oficiais enaltecendo o espírito europeísta. Algum do jargão europeísta foi repisado: unidade na diversidade, legado de paz duradoura, aprendizagem para a convivência com o outro, fronteiras diluídas, prosperidade que ungiu os países mais atrasados com o selo da solidariedade dos mais ricos. Uma Europa agasalhada pelo manto da construção política em que se transformou a União Europeia, apesar das crises, dos retrocessos, dos egoísmos nacionais.

Cinquenta anos de passado em comum. Valha a verdade que o meio século é uma miragem: apenas cobre os seis países que fundaram as Comunidades Europeias. Aos outros, os que foram aderindo ao longo do tempo, participação mais recente. Não há intenção de depreciar a celebração de meio século de concórdia, nem de ofuscar os espíritos vanguardistas (Monnet, Schuman) que fermentaram o que é hoje a União Europeia. Com sucessivos alargamentos, os cinquenta anos de União Europeia são um terreno de heterogeneidade. Os países têm diferentes abordagens à integração europeia. Uns mais colaborantes, outros mais renitentes; uns, com uma tradição de cooperação arreigada pela mais antiga participação, predispostos a colocar o bem comum acima dos interesses nacionais; outros, porventura por serem neófitos na União, olham para a União com o oportunismo de quem vê nela um manancial de regalias sem reciprocidade ao nível dos deveres.

O balanço positivo não prejudica a identificação de tropeções, de percalços, de tantos momentos de egoísmo nacional que ofuscam o espírito europeísta. Por mais que vingue uma retórica europeísta, ressoando uma vanguarda de comportamentos que o cidadão comum não perfilha, são os próprios políticos dos países membros que não hesitam em colocar os interesses nacionais à frente do interesse comum da União. Nem que depois, nos momentos que convocam a solenidade das comemorações, venham proclamar os valores que sedimentam a União. Valores que remetem para o agnosia quando um passo em frente na edificação da União implica prejuízos nacionais.

Não me admira que a União Europeia continue a levantar desconfianças na maioria da população. Ao corporizar o espírito visionário de uma realidade que rompe com tradições ancestrais, a União mexe com hábitos estabelecidos. Não se pede aos povos europeus que sejam europeus e só depois nacionais. Não se pede que desviem as lealdades políticas dos respectivos países para a União, como pretexto para reforçar a legitimidade democrática da União. Nem sequer está em causa a construção da União Europeia como um super Estado europeu, um sucedâneo dos Estados Unidos da Europa.

Os que se situam na vanguarda reclamam um genuíno nacionalismo europeu. Os preconceitos enraizados impedem um passo em frente: supõe-se que implica a anulação da pertença nacional e a sublimação da entrega dos povos nacionais à União Europeia. O nacionalismo europeu encerra o equívoco da semântica: “nacionalismo” presume a construção de uma “nação”, o que está fora do horizonte da integração europeia. Neste contexto, nacionalismo desafia os cidadãos a uma pertença a valores comuns no quadro da participação dos países na União Europeia. É este o significado de nacionalismo europeu: reconhecer o que há de comum entre os povos europeus e que tanto contribui para uma caminhada que os irmanou numa paz duradoura. É esta entrega que se reivindica: das pessoas a valores, não a construções fictícias (como o são os Estados ou outras entidades de natureza semelhante). O nacionalismo europeu complementa a pertença nacional, não a destrói. Enfatiza o que nos une - que é muito, e importante - sem que sejamos levados a sobrevalorizar o que nos distingue (que é residual).

As pessoas não estão preparadas para a ruptura com o passado. Continuam enfeudadas aos dogmas da nacionalidade. Os egoísmos nacionais, o obstáculo imaginário a mais Europa, têm um sentido ascensional: vêm de baixo para cima, dos povos para os dirigentes, que são contaminados com o espírito. Acontece nas coisas mais corriqueiras, como o futebol, nas competições que colocam em campo selecções dos países. A rivalidade ancestral vem ao de cima. Por mais que o espírito europeísta flutue nos discursos oficiais, é em alturas de competições entre países que descemos à terra: esse europeísmo é uma utopia, mesmo que já tenham passado cinquenta anos de integração europeia. As rivalidades nacionais despertam o nacionalismo primário que pulsa nas veias. É nessa altura que se percebe como o cidadão médio não está preparado para conviver com o outro, para tolerar o que tem uma nacionalidade diferente.

O que se viu na semana passada, com grotescas exibições de nacionalismo primário de belgas e portugueses (que iam jogar entre si), é um exemplo disto. Da minha parte, vergonha dos laivos de nacionalismo suicida. No rescaldo, mais exibições lamentáveis: da vingança (pelas manchetes dos jornais, enaltecendo a esmagadora vitória dos portugueses) e do falso fair play – daquele fair play que se exibe porque correu tudo bem. Como é lindo o fair play quando o impomos aos derrotados! Não aprendemos nada com a História.

23.3.07

Duas bizarrias




Tomava o café ao balcão, enquanto passava os olhos pelos títulos dos dois jornais do costume. Num deles, na última página, um fait divers delicioso: este fim-de-semana, uma prova de motocrosse, categoria de infantis, lá para os lados de Santarém. Até aqui nada de insólito. Só que o patrocinador da competição é uma empresa funerária. O jornal assevera, misturando ironia com mau gosto, que este é o patrocínio adequado a uma corrida de motas.

E as funerárias não podem fazer publicidade? Porventura o jornalista, que deu de caras com a faixa com letras debruadas a amarelo garrido anunciando a prova de motocrosse, tenha ficado perplexo com a bizarria. Talvez tenha pensado que este é o patrocínio mais improvável para uma competição que envolve riscos para a integridade física dos participantes. Parece que há algum desconforto pelo cinismo da situação: ainda por cima por se tratar de uma competição onde os petizes montam nas motas e arriscam quedas onde ossos se partem e o sofrimento físico ameaça à saída da próxima curva. Cinismo: porque uma funerária faz negócio com o sofrimento dos entes queridos da pessoa que parte e usa os serviços da mortuária. É aceitável que a funerária se promova num evento que incute nos jovens devaneios de adrenalina que, executados na estrada, ceifam tantas vidas?

Perseguindo na senda do cinismo, dir-se-ia que a funerária percebeu o público-alvo. Os que assistem às provas de motocrosse são apaixonados pelas duas rodas. Não resistem a pisar o risco de vez em quando, abusando da velocidade e de manobras arriscadas. Às vezes, para sua desdita. Às vezes, pagando a ousadia com demoradas estadias no hospital, onde convalescem de ossos partidos. Outras vezes o infortúnio é tanto que nem chega a existir convalescença. É então que são requisitados os serviços de uma funerária. Percebe-se agora o rasgo da funerária que abriu os cordões à bolsa e emprestou o seu nome à prova de motocrosse juvenil. Aconselho os estudiosos da publicidade a olharem com atenção para este case study.

Segunda bizarria: noutra notícia para descomprimir, os leitores de outro jornal tomaram conhecimento que há um padre, lá para os lados de Vouzela, que é adepto da adrenalina ao volante. O padre confessa o pecado – não mortal pela cartilha da igreja: o pé direito gosta de esmagar o pedal do acelerador quando viaja pela A25. Disse que fica extasiado com o ar perplexo dos outros condutores com quem compete em velocidades alucinantes. Não porque os outros saibam da sua condição de sacerdote, que o padre não se entrega ao volante de sotaina. Os outros ficam atónitos porque o padre se desloca num pequeno Ford Fiesta. Os automóveis mais vitaminados derrotados pela perícia do clérigo desconhecem que aquele pequeno automóvel tem um bónus de potência que autoriza as façanhas. Diz a notícia: é o único no país, para além de outros dois que andam pelo campeonato de ralis.

Não se esperava que um padre desse a cara confessando os constantes atropelos ao código da estrada. Descaiu-se: já experimentou 210 quilómetros à hora. E percebeu que o bólide ainda pode alcançar velocidade mais elevada. Duzentos e dez quilómetros à hora! Tomara o senhor padre nunca ser apanhado por um radar da brigada a esta velocidade. Suspeito que é a protecção divina especial, que agracia os sacerdotes em primeira instância, a caucionar as diatribes rodoviárias do cura. Ele lá saberá do acordo privado a que chegou com o seu deus. Aposto que as preces deste padre envolvem também a atenção divina enquanto espalha os seus dotes de condução pelas estradas beirãs. Como filho dilecto de deus, os agentes que fiscalizam o excesso de velocidade são maquinalmente encaminhados para outros lugares quando o cura decide expiar a adrenalina.

E, no fundo, a funerária de Santarém e o padre beirão estão umbilicalmente ligados. Há almas que saem das mãos do sacerdote apressado para os tratos da funerária: os jovens endiabrados que se inspiraram no cura e se perderam de amores com as velocidades excessivas. O sacerdote prestou-lhes, sem o saber, a extrema-unção que é o maná para o negócio da funerária de Santarém.

22.3.07

David feito Golias


Há muitas formas de ser Golias e David. No concerto das nações, muitos fazem o papel de amestrados David. Poucos alcançam a qualidade de Golias. O curso da história é um movimento contínuo que altera estatutos dos países. Alguns emanciparam-se da sua pequenez tradicional e hoje ostentam uma soberba típica de quem passou anos a fio dependente dos poderosos. Invertem-se os papéis. A lógica dos negócios fornece a ajuda que falta para cimentar a nova geopolítica de interesses, para a metamorfose de David em Golias.

Angola mostra, a cada passo, a grotesca arrogância de quem procura exibir uma grandeza internacional conquistada em troca da satisfação dos interesses dos grandes países: na extracção do petróleo que abunda e noutros negócios faustosos, dos diamantes à construção civil – sobretudo aqui, que há um país imenso destruído pela desonrosa guerra civil que dizimou um país tão farto de riquezas naturais. É inquietante ser espectador da relação desequilibrada entre as autoridades angolanas e os sucessivos governos que mandam desde o Terreiro do Paço. Como se fosse um passe de magia determinado pela alvorada dos novos tempos, o antigo colonizado marca a agenda do anterior colonizador. Com a aquiescência deste, que parece adormecido sob a batuta do fardo do passado, dos deveres morais que parece arcar pelos excessos das gerações anteriores. Uma dor de consciência que expede ministros lusos para um covarde silêncio perante a pesporrência habitual das autoridades angolanas. Um exemplo acabado de prepotência internacional, com o conivente acocorar dos governos lusitanos.

Custa-me a inversão do tabuleiro, a insidiosa verborreia dos angolanos mostrando sede de vingança do passado colonial. Fazem-no porque percebem a passividade das autoridades portuguesas. Não concordo com os anacrónicos personagens que ainda defendem que Angola nos deve respeito. O que deve existir é uma relação equilibrada, sem um dominador e um dominado. Nem muito menos um cabisbaixo ex-colonizador, que persegue a interminável via-sacra de colonizador de antanho, com o habitual consentimento perante a arrogância dos angolanos. Como se essa arrogância limpasse o registo passado, obliterasse exageros e crimes da colonização (que os houve – e não com comedimento). Que me seja perdoada a ingenuidade, mas nunca entendi as relações (e as reacções) que se alicerçam na mais pura das vinganças.

O recente episódio tem a mácula do caricato. Um futebolista angolano, com contrato com um “grande clube” (dizem que é o “maior clube do mundo” …), foi apanhado ao volante com uma carta de condução carimbada por Angola, algo que é inválido por terras lusas. Dias depois, na mais arbitrária das retaliações, os polícias de Angola foram à caça de portugueses ao volante. Funciona a reciprocidade: se as cartas de condução angolanas deixaram de ter validade em Portugal, eis um decreto que vem por telepatia até Angola, deixando as portuguesas de habilitar à condução nas estradas angolanas.

Não chegou a incidente diplomático. Não houve protesto pela obscena perseguição com o odor fétido da vingança. Os cidadãos lusitanos, incomodados pela polícia e sujeitos ao humilhante crivo da condenação por um tribunal angolano mancomunado com o poder político, não foram defendidos pelo governo do país que os viu nascer. Por estes dias, o ministério dos negócios estrangeiros terá esquecido, com oportunismo, que Angola existia. Para não beliscar os interesses económicos portugueses espalhados por Angola. A isto chama-se arbitrariedade, assimetria nas relações entre países. Um país refém do outro, em nome da sacrossanta economia. Muito me custa ser observador disto: de como nos pomos em cócoras perante a sobranceria de Angola; e de como a economia, que tanto prezo como ciência, assobia para o ar quando valores fundamentais são atropelados porque os interesses económicos assim o aconselham.

É que, lá diz o adágio, quanto mais alguém se rebaixa, mais se lhe vêm os fundilhos. Qualquer dia, aprendizes de tiranetes angolanos (daqueles que aplaudem o muito democrático e respeitador dos direitos humanos regime do Zimbabué) tomam as rédeas desta lamentável terrinha. Será outro tempo para pensar no obrigatório exílio.

21.3.07

Nutriente poesia


(No dia mundial da poesia)

A poesia é mais que alimento. O que alimenta contem em si desperdício. Só os nutrientes trazem o benefício para o corpo que se alimenta. É o que se passa com a poesia. A poesia é depuração das palavras, como se nela houvesse uma geometria bem definida que as torna límpidas, expurgadas de adereços que tornam o discurso redundante e inútil.

Eu diria que os poetas são os arquitectos da palavra. Jogam com as palavras, exaltam a sua musicalidade. São penhores da reinvenção do discurso, com as fórmulas originais que empregam para expressar sentimentos, descrever emoções, ou apenas retratar a singeleza das coisas. Até na leitura se percebe a vocação especial da poesia: nunca se percebe um poema à primeira leitura. A poesia consome uma atenção singular do leitor. Tantas vezes a catarse do poema exige regressar atrás umas estrofes, repousar noutras e repetir a sua leitura, regressar ao poema dias mais tarde.

Não se deve vindicar um lugar diferente daquele que a poesia ocupa. Desenganem-se os enamorados da poesia, que terão a tentação de aproveitar o dia mundial da poesia para reclamar um altar mais elevado, uma proeminência desavinda dos poetas. A poesia não é a síntese da cultura popular. Não é um espaço ocupado pela democracia da leitura. Só enquanto a poesia permanecer um recôndito lugar que recebe esparsas visitas dos espíritos que nela se saciam é que há-de reter toda a sua grandeza. Por mais que haja perfídia no raciocínio, vejo a poesia como um alcantilado castelo que se protege nas ameias do elitismo. Alguma vez perca a aura de distanciamento, alguma vez entre na sagração do popular, e a poesia perde o seu encanto.

Há no poema um bálsamo que anestesia o espírito para o mundo grotesco que desfila diante dos olhos. É por isso que a poesia é um refúgio, um simulacro tantas vezes idílico contido nas palavras congeminadas, ou apenas a denúncia da escura tez que cobre as pessoas e as coisas. Mesmo que tenha um travo amargo e esconda as dores que açoitam o desconforto da existência, o poema é a sublime forma de trespassar a fealdade das coisas em palavras poderosas, lancinantes por vezes, expondo a dor dilacerante que queima o sangue que nada nas veias. Ou então temos poemas que cantam a manhã fria, as aves que esvoaçam em plácidos voos que parecem proteger quem ambicionava voar, as águas brumosas do rio que se soltam do esquálido manto de nevoeiro.

Às vezes dou conta que a ausência da poesia é um engano que inflijo a mim mesmo. Um esquecimento que me traz de encontro à vilania das coisas e das pessoas, mais os sentimentos que exibem. Não será um encerramento do ser num ilusório mundo, tapando os olhos à verdade que se descerra diante de si. Cada qual parte em demanda do lugar onde há conforto de pertença, o esconderijo que, sendo-o, não é demissão de si mesmo. Apenas um templo onde cada um encontra o que o preenche. A poesia tem esse predicado: um fértil aluvião que me retira do abismo sombrio onde por vezes há a tentação de cair.

Não tenho pejo em dizê-lo: os poetas são os espíritos mais elevados, empossados no desassombro das palavras tecidas. Ora com uma singeleza desarmante, ora com a precisão cirúrgica das palavras que ninguém diria que estão em harmoniosa cumplicidade. A sua grandeza só existe enquanto continuarem remetidos à clandestinidade, ausentes do reconhecimento popular que seria traição da sua essência. Não interessa se são vanguarda; há quem assim os rotule. Na poesia e nos poetas, retenho apenas a diferença como tratam as palavras, como as amontoam em originais estrofes de inebriamento, os festins que saciam pela singeleza de um poema que se acastela em meia dúzia de estrofes, ou o esmagamento interior depois de ler demoradamente um poema que se estende por longas estrofes e complexos versos.

Eu gostava de voltar à infância. Quanto mais não fosse, para poder dizer “quando for grande quero ser”, como tantas vezes o fazem as crianças. Só que o tempo voltasse atrás para então aspirar a condição de poeta quando chegasse a minha vez de ser adulto.

20.3.07

Direita decrépita


Apogeu do descrédito na direita apatetada que se acolhe no CDS-PP. Imersos na luta pelo poder interno – coisa saudável em qualquer organização plural – insultos e pateadas, exibições de intolerância em relação a adversários, a chicana política na sua pérfida contumácia. Decerto não seriam mais eficazes se quisessem implodir o partido.

Para memória futura, imagens à saída da reunião de Óbidos: alguns descontentes acossam os vencedores (ou vice versa, já nem sei bem), dirigem impropérios que não diriam a adversários de outros partidos, estou seguro. Há uma jovem quadro que se passeia, furibunda, entre uma floresta de homens. A sua baixa estatura não a intimida: vai despachando apartes furiosos. A senhora, que aparenta ter entrado na terceira década de vida há poucos anos, traja tailleur oficial. Os preconceituosos não hesitariam em rotulá-la, no imediatismo dos estereótipos que aprisionam o imaginário: uma dondoca que conseguiu abocanhar uma licenciatura entre reuniões da agremiação católica a que pertence e chás das cinco com pretendentes ao estrelato social da linha de Cascais. (Posso estar enganado, que os clichés que ornamentam as aparências por vezes são falazes.)

A senhora andava ali, para trás e para a frente, vociferando contra adversários de contenda que saíam da sala onde estiveram reunidos longas horas. E nem a sua pretensa “classe” impedia de se comportar como regateira de feira, se bem que não ecoassem berros estridentes da sua boca. Percebia-se a indignação e a forma desbragada como a senhora se atirava aos traidores do lado errado da barricada (o oposto ao seu). Foi o que as imagens deixaram ver, que a reunião esteve no segredo dos militantes com assento no conclave. Sabe-se, por inconfidências que nunca o chegam a ser, na barganha intimista entre jornalistas e políticos, que houve insultos e só faltou a violência física a fazer lembrar as altercações com direito a soco que acontecem em parlamentos de países latino-americanos e de Taiwan.

Esta direita não tem emenda. É uma direita bolorenta, encerrada em problemas existenciais que a deposição da ditadura não depurou. Uma direita que convive mal com a dissidência de opinião. Sem tomar partido pelos pretendentes à liderança futura (que se merecem enlear no mesmo lodaçal), informação e contra-informação dão conta de tácticas grotescas, questiúnculas que tanto apetecem aos juristas, uma labiríntica via-sacra que acomete o acessório e adia (mais uma vez, como quase sempre) o essencial para as calendas.

Os que me conhecem um pouco confessam que, ao primeiro retrato, me colocam nas faldas deste partido. Só com o tempo e mais conhecimento é que percebem o equívoco desse retrato. Poderei dar a impressão que estou nas proximidades do terreno ideológico do CDS-PP, pela aversão inata a tudo o que ressoar a esquerda (do PSD em diante). O que não chega para me colar a uma partido tão patético como o CDS-PP, que reproduz valores que são a antítese do que sou: um nacionalismo arcaico, a apologia do intervencionismo do Estado para proteger o que é nacional, uma retórica trauliteira que vem ao de cima em momentos de confrontação, um plácido beatismo que põe este partido na órbita dos interesses da igreja. Pouco, ou quase nunca, a agenda incorpora uma matriz liberal. Aliás, não há partidos em Portugal que se revejam, com fidedignidade, no liberalismo. Não sei se isto também faz de mim abstencionista militante.

Poderão pensar: magoam-me as cenas lastimosas de militantes do mesmo partido no limiar do engalfinhar. Poderão insinuar que acentuo a orfandade política, carente de um ponto de mira (partidário) onde me possa ancorar. Nada de mais errado. Dá-me prazer ver a decrépita direita desintegrar-se a cada dia que passa, imersa nas suas teias mesquinhas, entregando mais trunfos aos partidos rivais, à medida que anteriores votantes vão desviando a preferência para outros. Com esta direita acossada pelo estigma da autofagia, dá vontade de ser votante de outros (não fossem eles de esquerda; não esbarrasse na minha antipatia congénita com as esquerdas).

Os sucessivos episódios que enlameiam esta direita sugerem que ela não está fadada para governar (até porque nos escassos tempos que se banqueteou o saldo deslustra, coloca-a no mesmo patamar de oportunismo do poder a que o bloco central se e nos habituou). É bom que esta direita decrépita não tome o poder em suas mãos. Pela amostra de Óbidos, o exemplo é edificante de como esta seita deve andar nos antípodas do poder. Nem é necessário ter uma oposição liderada por um émulo do primeiro-ministro (ou o primeiro-ministro émulo desse pretendente, nem sei bem qual a ordem dos factores).

19.3.07

Uma bebedeira de povo


Uma certa cultura faz a sagração do povo. É lá que se encontram os sentimentos espontâneos, a entrega descomprometida, alguma ingenuidade que impede o genuíno povo de ser farsante da tragicomédia alimentada pelos poderosos. Por mais que seja aliciante engrossar a tendência de glorificação do povo – quantas vezes como instrumento de uma demagógica formatação ideológica – ando em descompasso com o povo profundo que tem as luzes da ribalta sobre si com a boda entre a comunicação social e um pulsar democrático popular.

É recorrente: dar a voz ao povo, porque o povo é a raiz do poder. E quando o povo leva vencimento num pleito e a verdade se aproxima da justiça popular, mais são os motivos para festejar. A dar razão ao imaginário cultivado em formas menores de teatralização, aquelas que o povo consegue discernir nas suas curtas vistas – novelas a rodos e filmes de terceira categoria. Nessas tumefacções da arte a mensagem sublima-se: há sempre um final feliz, os cavernosos fautores do mal chegam ao fim da linha sem compensação pelas aleivosias cometidas. Os bons acabam por recolher a recompensa pela ética postura, os maus são desmascarados, eventualmente condenados a recolhimento prisional.

A mais recente manifestação da sagração do povo vem do norte, após a polícia ter encontrado um bebé raptado do hospital de Penafiel, ainda recém-nascido. (Foi patético assistir a uma conferência de imprensa onde um director da polícia judiciária puxou dos galões, clamando os louros da vitória por ter “deslindado” o caso. Em momento algum admitiu que só conseguiu “deslindar” o caso porque houve uma denúncia da mulher raptora. Escusava o senhor agente de fazer tão gritante confissão da incompetência da polícia judiciária.)

Logo o circo mediático foi montado na pequena aldeia onde residem os pais da bebé raptada. E assim pudemos ser testemunhas do pulsar popular, da comovente solidariedade de todos para com os pais que reencontraram a filha furtada dos seus braços. Como enternecedor foi o terço rezado em uníssono, uma prece de agradecimento aos santos e santas de devoção daquele povo, golpe rude na auto-estima dos agentes da polícia judiciária que não foram agraciados por terem “deslindado” o caso. De seguida, a autorizada voz do povo passou pelas câmaras da televisão numa sucessão infindável de sentenças que pontuam as certezas incontestáveis que assistem sempre ao povo. A meio do caminho, um desvio até ao tribunal de Penafiel, onde a raptora foi interrogada e depois encaminhada para prisão preventiva. Seria de estranhar que o povo não fizesse uma inconsequente espera à porta do tribunal. Com as costumeiras excitações contra os juízes que não sabem praticar a verdadeira justiça, aquela que o povo faria com as suas mãos tivesse ensejo de provar que vivíamos num lodaçal ainda mais caótico que o actual.

Tivemos ainda direito a carinhosas manifestações de entrega material do povo: roupas, brinquedos, até uma cotização colectiva para fazer obras na casa do agregado familiar, para a bebé ter condições para crescer como deve ser. O zénite: uma festança popular celebrou o apogeu da justiça e do bem, que – como sabemos – acabam sempre por vir à tona. Aconteceu no dia em que a bebé ingressou no lar a que pertence. E ainda que os especialistas tivessem recomendado o recolhimento da bebé, o povo exigiu a sua presença na celebração colectiva. Se era o motivo da festança, ela que viesse temperar com a sua presença a festa que a homenageava. O povo exigia. O povo é penhor da razão. Faça-se a vontade ao povo. Não interessam os preciosismos dos especialistas que aconselhavam o recolhimento da bebé.

Lamento o meu pessimismo antropológico. O povo que aprenda que raras são as vezes em que o “bem” triunfa sobre o “mal”. O povo sabe-o, pratica-o à primeira oportunidade. Quando o povo ambiciona transformar a vida real no prolongamento da novela lamechas é um lampejo daquilo que nega a cada dia que passa. Uma expiação de pecados individuais, no ensejo de fazer a sagração colectiva do bem através da exposição de um mal maior praticado por um entre eles.

É por estas alturas, na condoída sensação da áspera ignorância do povo, que percebo que a igualdade é uma miragem. Um atalho que ofusca desigualdades que oportunistas querem iludir só para captar a simpatia das maiorias que depois lhes permitem deitar a mão ao poder. Por entre a espuma das aparências, o povo é o mostruário da desigualdade. De como a desigualdade é a negação prática da excitada igualdade vindicada.

16.3.07

Maravilhas do Estado polícia


Pacatez da lota de Setúbal. Prestasse tributo à verve literária dos neo-realistas, destilava uma descrição exaustiva da sacrificial vida dos pescadores e de quem vende o peixe descarregado na lota. Não cultivo o estilo. Mas agride-me saber que a curatela da imagem do governo socrático exige operações de cosmética para impressionar o público. Ontem havia ordem de soltura para os operacionais de um organismo que anda na ribalta – a ASAE. Entraram de rompante na lota de Setúbal, empunhando artilharia pesada, e fiscalizaram o local de fio a pavio.

A operação só teria sentido se a comunicação social fosse convidada para o festim. A bem do impacto desejado. O cidadão atento é convidado, através da ingenuidade inoculada pela propaganda governamental, a aplaudir o afã sanitário do governo. Dirá: “é para o bem de todos nós”. A dúvida metódica, que instala a suspeita permanente sobre este governo, impede-me de concordar. A operação podia ser eficaz sem a espectacularidade mediática. A partir do momento em que as câmaras de televisão foram amesendadas nesta operação de força bruta, desce o pano sobre o verdadeiro cenário. Os interesses sanitários são um pretexto que compõe a imagem, sempre a imagem e nada mais que a imagem, do governo.

O jornalista falou em “operação policial”. Só por distracção, ou por ter os ouvidos enxameados pelo fazedor de imagem de serviço, não relatou o que ali se passou. Quando os operacionais vêm acolitados por uma brigada de agentes encapuzados e armados até aos dentes, falar em “operação policial” é um sofisma. O que ali estava encenado era uma operação militar. Não fosse o diabo tecê-las, e os pescadores revoltados começassem a insubordinação, o melhor era prevenir desacatos. O arsenal era vistoso. Armas de porte majestoso, com o previsível efeito dissuasor de altercações de pescadores mais exaltados. Como se sabe, os pescadores de Setúbal distinguem-se pela terrível violência. Consta que há milícias formadas, com armamento pesado, que espalham terror pela cidade. Só assim se entende a operação militar montada.

A imagem conseguida foi diferente da pretendida pelos feitores da imagem governamental: o humilde povo pescador setubalense revoltou-se contra a desproporção de força ali exibida. Em vez da operação apaziguar os ânimos, a forma como foi instrumentalizada, com trejeitos de exibição de autoridade, teve o efeito contrário. Se dúvidas houvesse, há gente neste governo que confunde autoridade com autoritarismo. O poder deslumbra uns quantos. Inebriados pela bebedeira do poder, em dois actos perdem as rédeas da sensatez e abusam do poder.

Esta gente está espalhada por todo o lado e adora puxar os galões pessoais como imposição afirmativa da razão que julgam ser seu monopólio: são os engenheiros que nas reuniões de condomínio dissertam sobre questões técnicas, apenas porque “são engenheiros”; ou os bancários que julgam ser o escol do país, fosse a condição de bancário um feito notável só ao alcance dos iluminados; ou o estigma do “presidente da junta de freguesia”, em tempos tão bem retratado por Herman José. Quando estes personagens herdam poder não resistem à tentação de o ostentar. Pouco mais fazem durante o mandato senão exibir o poder que os deslumbra, atirá-lo à cara dos que se subordinam à sua lídima autoridade. É a página de ouro registada no seu álbum de memórias. Para memória futura, quando contarem à descendência que um dia também foram gente muito importante.

Não me sinto seguro com o Estado polícia que está montado. Há pretextos mil para cercear as liberdades. A cada passo, a manietação das liberdades, sempre embrulhada em razões de segurança que nos tentam convencer que o indivíduo deve ceder lugar aos imperativos do colectivo. O militarismo que campeia, até para operações que de tão corriqueiras sempre dispensaram os adereços militares, é um sintoma do cerco que se aperta. E quando temos um ministro, delfim do primeiro, que em blogue pessoal que se mistura na página do ministério que tutela desmonta quem tem a ousadia de o criticar em páginas da imprensa – ó suprema heresia, haver quem não concorde com sua excelência – e ameaça, em bom estilo trauliteiro, “da próxima vez, senhor jornalista, pense duas vezes antes de criticar”, está tudo dito.

É a ameaça institucionalizada. Só falta, como nos tempos de antanho, desafiar o adversário para um duelo de armas. E se há alturas em que apetece descer do altar da não-violência, é para dizer ao ministro Costa que a sua coragem física não amedronta ninguém. É aí que apetece partir a cara de um ministro que destila intolerância e pesporrência.

15.3.07

As traseiras dos automóveis, que tanto contam


As mensagens veiculam-se de formas tão diferentes. Há a palavra, o altar-mor da comunicação. Mas também as imagens, símbolos, formas de estar, até os silêncios. Há imagens que falam por mais que mil palavras. Símbolos que se descerram em ocasiões especiais, iconografia particular de quem está em transe para difundir um retrato pessoal para outros tomarem conhecimento. São como voyeurs ao contrário: desnudam-se perante os transeuntes que olham para aquilo que garbosamente querem mostrar.

As traseiras dos automóveis são um mural vivo onde apetece demorar. Vemo-las quando estancamos na fila de trânsito, quando percorremos as ruas da cidade a pé e o olhar se cruza com automóveis estacionados. Ou quando, no aleatório devir, calha em sorte uma sucata profusamente ornamentada nos instantes em que o semáforo impede a marcha. As traseiras dos automóveis descobrem um mundo heterogéneo de preferências individuais. Que, estranho eu, mostram o afã do povo na exposição pública, como se houvesse a necessidade perene de abrir as janelas de casa e exibir a decoração interior. Afixar dísticos na traseira dos automóveis é como devassar a sala de estar em plena noite através das cortinas recolhidas.

Os donos têm orgulho no que mostram através da simbologia. E assim vamos conhecendo, na mudez ensurdecedora das imagens afixadas na retaguarda dos automóveis, os gostos dos concidadãos. É o automóvel que ostenta a sombra de uma Penélope, percebendo-se que o proprietário passou as férias da sua vida na divinal Benidorm (ou, como o povo se habituou a soletrar, na obliteração economicista do vocábulo, “Benidor”). O jovem com cabelos cor de banana, música trance em gritos audíveis à distância, que faz saber aos demais que é fanático pelo surf, a crer na prancha colorida que enfeita a traseira do Volkswagen Golf. Há também adeptos do futebol que anunciam ao público as cores clubistas da preferência através de um galhardete que balouça pendurado no espelho retrovisor. Alguns saudosistas da monarquia colam na traseira divisa alusiva ao Portugal dos reis em que gostariam de viver: a bandeira azul e branca que seria oficial se a monarquia derrubasse a vigente república. É norma o condutor ostentar farfalhudo bigode, religioso praticante que, todavia, se gaba da sua misantropia inexcedível. Lá dentro a música entoa os acordes do sucedâneo de fado trinado pela voz de arremedos de fadistas que exultam com tourada e prestam vassalagem a sua excelência o pretendente a um trono inexistente.

Também já deparei com mensagens indecifráveis: símbolos que não permitem distinguir a mensagem, ou palavras que soam a nada na sua avulsa condição. Ainda a necessidade latente de mostrar aos outros uma condição, uma pertença, uma afinidade. Ou, quando muito, espicaçar a curiosidade nos que olham demoradamente para aqueles símbolos ou palavras que, sozinhas, nada revelam. Um desnudamento menor.

Às vezes apetece andar de câmara fotográfica sempre a tiracolo, preparada para captar automóveis diversos que surgem na rua com a traseira enfeitada com imagens ou dizeres. Apetece emoldurar essas imagens e palavras e fazer o registo, decifrar o sentido dos símbolos e palavras que não dizem nada, e a estatística da parafernália que atraiçoa a estética dos automóveis circulantes. Cientistas sociais – da sociologia, à antropologia, à psicologia – teriam terreno fértil para investigações com direito a programas financiados. Teriam que interpretar: o que determina as pessoas a adornarem as traseiras dos automóveis; os motivos desvelados pela simbologia, o que querem mostrar os proprietários ao enfeitar as traseiras dos seus veículos; e a reacção dos transeuntes quando deparam com automóveis adereçados com estes símbolos – se lhes desperta a curiosidade, o significado que atribuem à mensagem veiculada pelos donos dos automóveis de traseira codificada, como reagem quando palavras e imagens que ornamentam os automóveis vão contra as suas convicções. E se não acham que esta fobia de ornar a parte de trás dos carros não atenta contra a estética.

Não há algo do doentio quando alguém exibe um gosto pessoal, uma recordação de férias, a preferência musical, o clube do coração? É todo um eu que se vomita para a rua, as entranhas reveladas a quem ali passar. Não sei se o decoro entrou em desuso.

14.3.07

Um anúncio da Vodafone explicado às criancinhas


Amanhece – ou, talvez seja início de tarde, depois de uma noite que se prolongou madrugada dentro. O rapaz acorda, estremunhado. Os olhos fixam-se no tecto, onde está um soutien pendurado no candeeiro. Cai em si. Naquele instante começa a perceber que não foi um sonho. O que a alvorada lhe revelou como um sonho afinal tinha sido real. Meio a medo, não fosse a manhã brumosa que passava diante dos seus olhos desmenti-lo (confirmando a tese do sonho), olhou à direita: estava deitada uma escultural mulher mergulhada num sono profundo. Olhou à esquerda: outra mulher esboçava o mesmo ar de satisfação misturado com o sono apaziguador. Segue-se um largo sorriso, a garbosa exibição de um feito masculino que iria alimentar a inveja nos amigalhaços. Havia que enviar fotos do momento por telemóvel. Senão, nas palavras do guionista do anúncio, “ninguém acredita”.

Na plateia, o beato da Opus Dei reprovou com veemência. É inaceitável que a juventude veja desfilar na televisão imagens de depravação. O que é feito da probidade das gentes? O que é feito dos bons costumes ensinados pela moral cristã? Como aceitar que um anúncio publicitário veicule uma mensagem que contém as sementes da devassidão, sem que ninguém corte a eito numa necessária censura a bem da moral e dos bons costumes? Convém não abusar da liberdade, senão a liberdade toma conta de nós. E depressa se transforma em libertinagem que fará de nós animalescas criaturas. Os sentimentos, os nobres e puros sentimentos, deixarão de valer. É a imagem do mundo em que vivemos: o império do hedonismo, de braço dado com o cerco dos prazeres carnais.

Por uma vez que fosse, haveríamos de testemunhar uma aliança entre o conservadorismo pacóvio do beato da Opus Dei e o vanguardismo de uma feminista exaltada. Que tomou a palavra para concordar com a reprovação do católico. Começou por se revoltar contra a intolerável coisificação da mulher. A empresa de telecomunicações continua na senda do marialvismo que, languidamente, se espalha numa sociedade que teima na desigualdade dos sexos. Naquele anúncio, é a mulher que vem embrulhada no papel de coisa. Um objecto inanimado, retratado à perfeição pela imagem do anúncio: só o homem está acordado, enquanto elas permanecem inertes, como se o sono a que estão votadas fosse a mordaça que submete o sexo feminino à resignação perante o império do prazer masculino. A feminista concluiu a sua indignada intervenção com esta interrogação: e se acaso os papéis estivessem invertidos, se na cama estivesse uma mulher ladeada por dois homens, não seria etiquetada como galdéria entregue à devassidão que só aos homens é consentida?

O marialva foi convidado a participar no debate. A escassez de neurónios só lhe permitiu esboçar o seguinte comentário: “só duas?!”

Foi a vez do adepto da alter-globalização entrar em cena. Lamentou que o capitalismo subverta a natureza das relações humanas (sem dar conta que a seita a que pertence é defensora de causas fracturantes onde se incluem comportamentos que escapam ao tradicional). E também lamentou que a publicidade atraia os consumidores com mensagens de gosto duvidoso, que o produto publicitado apareça envolvido neste papel vistoso. O capitalismo foi acusado de atraiçoar os ingénuos consumidores, que ficam desprotegidos perante o ilusionismo da publicidade cada vez mais sofisticada mas, ao mesmo tempo, vazia de conteúdo.

Até que da plateia emergiu uma tímida voz, alguém que se apresentou como o ingénuo de serviço. O rapaz apatetado sugeriu que todas as interpretações que revolvem os fundilhos do anúncio publicitário descobrem o que apenas existe nas sugestões que passam diante dos olhos dos críticos. Disse: as vozes anteriores estão equivocadas. Naquela cama estão deitados três bons amigos. Como a casa é pequena, e como não seria confortável deixar um dos membros do trio a dormir no chão, acabaram todos por se deitar na mesma cama. Além de que aquela noite invernal estava fria, o que convidava ao aquecimento dos corpos bem enroscados uns nos outros.

13.3.07

Cães raivosos que mordem na riqueza


Na berma da estrada, com a praia do Guincho nas costas, Louçã denunciava uma “negociata” do “grande capital”. Esboçou uns números e atirou os mastins ao nefando capitalista. Acusação: esta gente está fadada para grandes negociatas à custa da entorse das leis. Para prejuízo do povo, que nem sequer consegue contar os tantos zeros à direita que engordam o património destes capitalistas. Mas eis que ali aparece o apóstolo que não dorme em serviço. Avisou: há-de calcorrear o país de lés a lés, farejando estas veniagas que engrossam a abastança dos ricos, uma miragem inalcançável para o povo comum.

Valham-nos estes justiceiros que não calam a voz contra os atropelos dos capitalistas. Estamos bem entregues nas mãos de quem apregoa a superioridade moral por não condescender com o pérfido lucro: uma brigada vicentina de vigilantes instruídos para combater a aleivosia do lucro, porfiando na senda da estrada correcta. Que há-de ser justiça social, lucro especulativo a arrostando com pesados impostos. Aos que nunca almejam distinguir sequer uma milionésima parte das fortunas destes capitalistas só resta agradecer, com genuflexão e para todo o sempre, o afã de justiça popular tão do agrado do povo a quem a justiça à maneira de Fafe sempre soa bem.

Porque é disso que se trata: justiça de Fafe. Aprouvera aos sacerdotes da ética anti-capitalista um altar de influência e tudo o que restava era calcular o tempo que o terrífico capital tardaria a emigrar. A sede pela anexação de parcela substancial de lucrativas actividades ao erário público é a terapêutica para chegar à tão desejada rua da equidade social. Já há trinta anos outros revolucionários espalharam o pregão pelas paredes de cidades e vilas: os ricos que paguem a crise. Há, nos dias que correm, um novo candidato a Robin dos Bosques, versão moderna: Francisco Anacleto Louçã.

Avisa a sensatez que a máscara não se perca entre os corredores da democracia onde nidifica, mais os seus acólitos. Para que não fique na espessura do olvido, convém recordar que não são grandes amantes da liberdade. Acaso o poder desaguasse nas suas mãos, curavam da vingança contra os hediondos capitalistas que perseguem com denodo. Não me custa a perceber a espécie que o lucro, o capitalismo e os seus intérpretes lhes causam: a retórica das desigualdades é um tónico poderoso que encanta os espíritos enamorados de um lirismo inconsequente. É fácil passar a imagem do capitalista diabolizado, o homem egoísta que não hesita em espezinhar quem lhe aparece pela frente no caminho ambicionado até ao rédito.

O capitalista é o mau da fita, o monstro das alegorias infantis. O homem de coração de ferro, insensível às chagas dos carenciados, que passa por um pedinte sem sentir a mínima pulsão de generosidade. E mesmo quando pratica generosidade há água que traz no bico: ou desonera a contabilidade da consciência, ou quer reconhecimento público (sem que as pessoas, apatetadas, percebam que a generosidade é uma singela gota de água no imenso oceano da sua fortuna), ou é para calar os que se atiram à volumetria da sua riqueza. O capitalista é o homem em que nunca se pode confiar. Abusa da sofreguidão pelo lucro, como se no mundo apenas o lucro contasse, tudo girasse à roda do lucro e todos os sentimentos pudessem ser retratados através do lucro. São pessoas pequeninas. Campeões da avareza que se confunde com o egoísmo de que não se desprendem.

Os catedráticos da nova ética contra o “grande capital” irrompem entre as massas. Aproveitam-se da inveja congénita da pessoa, que olha de soslaio para as grandes fortunas, cortando a eito em conspirativas teorias acerca da origem das fortunas. A onda cavalga, avassaladora, contra os detentores do capital. Há-de chegar um dia em que rédito é sinónimo de crime. Vingassem os padrões da nova ética que se insurge contra o capitalismo, era isso que sucedia. E o empobrecimento das gentes, súmula da migração da riqueza até outras paragens onde fosse tratada com predilecção.

Pode a imagem do capitalista não ser simpática. Tem a mácula da imensa sede pelo lucro, uma sede que chega a cegar os demais sentidos. Pode até a estreiteza de vistas de muitos deles degradar a maneira como são vistos pelos demais. De uma coisa podiam os sacerdotes da ética anti-capitalista certificar as gentes: que de tanto perseguirem o capital, ele acabaria por fugir rumo a outras paragens. E depois, sem potencial de riqueza, onde estariam as receitas de impostos para financiar a mirífica política social? Onde estaria a riqueza que gera algum bem-estar aos descamisados?

Só o oportunismo de quem procura granjear apoios baratos explica a teimosa perseguição à riqueza. É por isso que as palavras que ecoam na boca destes sacerdotes, no apronto da denúncia das “negociatas” dos magnatas, me soam a pretexto e a preconceito. Pretexto para arregimentar fidelidades, que o abismo das sinecuras do regime deixa as suas mossas; e preconceito contra quem gera riqueza, fosse esse o mais aviltante dos crimes.

12.3.07

A moeda ateia – ou a definitiva materialização da vida


As autoridades monetárias dos Estados Unidos emitiram moedas de dólar desprovidas da divisa "in god we trust". Consta que os acérrimos defensores de deus protestaram contra a ousadia ateísta. Dizem que retirar a vocação teísta da moeda é uma violência inaceitável. Por um lado, por atentar contra as crenças dos que devotam as suas preces a um qualquer deus. Por outro lado, porque a moeda já tinha entranhado em si o lema agora retirado. Invoca-se o costume enraizado para se oporem ao modernismo.

Estranho o pé-de-vento que por aí vai. Talvez seja a perplexidade motivada pelo ateísmo militante, o que me impede de olhar para a celeuma com a distância necessária que a imparcialidade exigiria. A bem da verdade, é a mesma parcialidade que veste os crentes que se insurgem contra o despedimento de deus da face das moedas de dólar.

Seja como for, a polémica que se serve é o prato requentado dos antagonismos entre aqueles que continuam a crer em deus e os que se encontram no lado oposto, divididos entre ateus e agnósticos. Agora com uma moeda como pretexto para mais um episódio da polémica. No fundo, a discussão é estéril: que interesse terá a menção a deus numa moeda, ou a sua ausência? Vendo pelo prisma dos crentes, como podem sentir-se violentados na sua fé se, de repente, as moedas que transportam na algibeira aparecem desnudadas de referências divinas? A moeda perde o seu valor? Vão deixar de usar a moeda, remetendo-se a um ascetismo obrigatório até que a pressão fale mais alto que a impiedosa materialização da moeda determinada pelas autoridades? Olhando pela óptica dos ateus e agnósticos, haverá intolerável violência se as moedas que usarem tiverem a inscrição "in god we trust", se afinal sabem que as suas convicções falam mais alto que o lema lacrado na liga metálica?

Sei que é difícil desprender-me da parcialidade da análise por ser ateu. Contudo, este é um vício que inquina a discussão, e inquina-a independentemente do lado da barricada em que nos situemos. Registada a declaração de interesses, prossegue a investigação da celeuma. Primeira tarefa: localizar o contexto da polémica. Tudo se passa nos Estados Unidos, país que combate o fundamentalismo islâmico que alimenta o terrorismo. Dir-se-ia que os Estados Unidos têm um móbil neste combate: enfatizar a dessacralização da sociedade, insistir na laicização do Estado. Esta estratégia será um instrumento essencial para combater os fundamentalistas do terror. Só que depois não se compreende como podem certos sectores norte-americanos agarrar-se à tábua religiosa com unhas e dentes, fazendo uma tempestade em copo de água porque alguém decidiu retirar da moeda uma mensagem de profundo cariz religioso. A incoerência é clara: na frente externa luta-se contra algo que ao nível interno é branqueado.

Em segundo lugar, estas lutas fratricidas que se aventuram pelo terreno da religião, onde se confunde o divino e o profano, entram no domínio da imposição de comportamentos ao adversário que se pretende vergar pela força da argumentação. Tudo se resume a saber se é aceitável a uma das facções impor a vontade sobre a outra. Poderão os crentes vingar as suas ideias, continuando orgulhosamente a ostentar a sua crença através da moeda, forçando ateus e agnósticos a conviverem dia a dia com uma fraseologia estranha às suas convicções? A interrogação pode ser invertida: poderá a modernidade e a expansão laica remover da moeda uma inscrição que já estava enraizada nos hábitos sociais, atropelando as convicções dos que acreditam que deus existe?

Apoderado pela parcialidade da análise, só me ocorre responder que será maior a violência se persistir o hábito de colocar na moeda a inscrição alusiva a deus do que o contrário. Parece incontestável que as religiões - sobretudo nos países ocidentais - têm vindo a perder terreno, principalmente entre os mais jovens. Acresce que a imposição de padrões comportamentais parece-me desajustada. Quando alguém que não acredita em deus olha para a moeda e repara na inscrição "in god we trust", há ali um acto confessional que representa uma injunção nas convicções de alguém que não se revê no lema. Decerto poderá o ateu desvalorizar a inscrição, ele que é acusado de padecer da materialização das relações sociais que, para os crentes, é um dos males contemporâneos. Mas poderá não se alhear da inscrição divina que faz do todo um indiferenciado grupo que através da moeda se revê numa confissão religiosa. O contrário não me parece tão violentador: se o lema que sugere a crença colectiva em deus desaparecer da moeda, não será por isso que os crentes serão violentados nas suas convicções. Não é pela omissão que deixam de ser crentes.

A diferença está entre impor um comportamento a alguém que nele não se revê e eliminar uma referência divina (para mais de algo que nada tem a ver com a religião - a moeda), sem que isso constitua uma intrusão nas convicções religiosas de quem as professa.

9.3.07

O presidente da Petrogal, o cobrador de impostos


Temos a sorte de viver num sítio onde o disparate é visita assídua. Vamos levando a vida com um largo sorriso nos lábios, rindo com as patacoadas de pessoas que deviam pelo menos aparentar alguma inteligência. A primeira reacção que esboço é de atarantamento. Interrogo-me como alguém se enreda nas teias de um raciocínio que desagua na imbecilidade. Passada a primeira reacção, relidas as palavras cretinas, só há lugar à algazarra. Ler uma e outra vez para rir mais e mais. Estes especialistas do disparate são a nata do humorismo que por cá se faz.

O mais recente candidato à entronização na confraria dos disparates é o presidente da Petrogal. Cinzenta personagem, aposto que nada e criada no escol de gestores públicos do bloco central – aqueles especialistas em colocar empresas públicas no vermelho, que vão saltando de sinecura em sinecura, abarbatando salários superiores aos do ministro da tutela, vivendo em cumplicidade com os dois esteios partidários do regime. Este senhor decidiu fazer doutrina em matéria de impostos. Para surpresa de muitos (os atentos), pois que se saiba o presidente da gasolineira nacional não trabalha para o ministério das finanças.

De acordo com a notícia, “Ferreira de Oliveira criticou os portugueses que vão a Espanha abastecer os seus veículos, uma vez que os cidadãos vão pagar os impostos em Espanha e depois usam a nossa rede rodoviária”. Há cobradores de impostos por todo o lado: não é apenas a malta das finanças, zelosos funcionários que perseguem os heróis que escapam aos nefandos impostos. Outros engrossam o rol de sacerdotes do erário público, tão preocupados com o dinheiro que foge dos cofres públicos por causa de “comportamentos censuráveis” de pessoas e empresas.

Alguém devia ter chamado a atenção de Ferreira de Oliveira. De várias coisas. A começar, que ele não é o director geral de contribuições e impostos. Fica-lhe mal a ingerência em assuntos que não são da sua lavra. Em segundo lugar, devia discernir a diferença entre evasão e elisão fiscal. Se no primeiro caso a fuga aos impostos é um atentado às leis estabelecidas, no segundo não há crime: apenas comportamentos que aproveitam as oportunidades da lei, sem pisarem o risco do ilícito.

Terceira observação para despertar Ferreira de Oliveira para a realidade que se lhe escapa: em vez de apontar o dedo acusador aos cidadãos e empresas que se aproveitam da proximidade de postos de abastecimento espanhóis, critique o governo que teima em manter impostos tão elevados sobre os combustíveis. Talvez não perceba, e este governo também não, a diferença de preços é um convite para empresas e cidadãos alegremente subsidiarem os postos de combustível espanhóis. Já houve quem metaforizasse com a alegoria da cenoura e do burro: fazemos as vezes do burro, que vai atrás do engodo da cenoura. Paradoxalmente, o governo atira a cenoura para o quintal do vizinho espanhol, para onde o asno segue em resposta a instintos pavlovianos.

Última chamada de atenção: sua excelência devia perceber que escassos são os cidadãos que auferem o milionário salário de quem se senta na presidência da Petrogal. Se ainda não percebeu, algumas palavras adicionais para reforçar a ideia: para quem vive à míngua, fará sentido descobrir o milagre da poupança de uns dinheiros. Se a poucos quilómetros de distância se encontram combustíveis mais baratos, é crime passar a fronteira? Haja quem refresque a memória de Ferreira de Oliveira: desde 1986, estamos na Europa sem fronteiras. O patriotismo dos impostos, reclamado pelo presidente da Petrogal, estala barato na boca de quem tem um salário milionário. Não creio que a ideia seja simpática a quem ganha apenas o suficiente para sobreviver. Acresce que Ferreira de Oliveira não gasta dinheiro em combustível, quando abastece o depósito do seu (isto é, da empresa) automóvel: as senhas de combustível desoneram-no dessa preocupação.

Por tudo isto, releio as palavras de Ferreira de Oliveira e não consigo parar de rir. E mais me rio ao adivinhar o senhor, garbosamente a emoldurar a notícia no álbum das recordações das aparições públicas, tanto peito inchado. Sem compreender a idiotia que o cobriu. Estas manifestações de patriotismo dos impostos ficam bem num registo de civismo militante, hoje muito em moda. Lamentavelmente, sou pouco dado a estas coisas. A vassalagem que o presidente da Petrogal prestou, obedientemente, à vaca sagrada dos impostos é só uma barata manifestação patrioteira. Saloia.

8.3.07

Inveja das mulheres


Cortar a direito pela semântica do título, que se presta a hermenêutica plural: não vou tratar da inveja entre as mulheres, ou da inveja que as mulheres nutrem pelo alheio, numa diferenciação de géneros ainda latejante. É outro o sentido do título: sou eu que invejo as mulheres. Em tempos de igualdade dos sexos, sem um dia internacional que celebre a masculinidade.

Continua febril o discurso da igualdade dos sexos, que fermenta a retórica da discriminação positiva em favor do sexo feminino. Por conta das décadas, senão séculos, de subalternização da mulher pelas convenções culturais fixadas pelo “sexo forte”. Ainda ninguém explicou por quanto tempo mais há-de vingar o logradouro da discriminação positiva. Ninguém avalizou critérios para concluir que a era da discriminação positiva terá chegado ao fim, num dia em que os desmandos marialvas de antanho já foram todos compensados. Nem vejo como se fará esta absurda aritmética que se ajoelha perante a torpeza da represália.

Elas continuam a reclamar igualdade. E, contudo, ficam indignadas quando um homem não lhes cede passagem na porta do restaurante, quando não recua a cadeira para a senhora se sentar, não exagera nas deferências que a educação cavalheiresca sempre cultivou. Como, logo a seguir, são capazes de olhar de soslaio para excessos de cavalheirismo, logo rotulados de machismo inconveniente. Elas são as ditadoras dos tempos modernos. De mansinho, para que os exemplares do marialvismo lusitano não percebam que perderam as rédeas.

Têm direito a dia internacional, onde a pertença de género é festejada. Ocasião para o disparatado ritual que explora as cicatrizes da guerra dos sexos, como se fosse desventura nascer homem ou mulher e ser confrontado com o sexo oposto. A novidade é a tentativa de fazer entrar a efeméride no rol de datas que se amparam na comercialização de coisas em troca de afectos pessoais. Por este andar, arranja-se uma efeméride por mês à conta das celebrações alusivas à mulher: é Fevereiro para as namoradas, Março para as mulheres todas, Maio para as mães. Enquanto isso, os exemplares do sexo masculino prosseguem a travessia do deserto, sofrendo na pele os maus-tratos que antepassados ignaros dedicaram à mulher.

Hoje, ser homem é sinónimo de gente discriminada. Da literatura que explora as (artificiais) separações entre os sexos jorraram páginas infindáveis de elegia à mulher. Na contraposição do néscio homem, a mulher é glorificada à exaustão – por escritoras feministas, por escritoras que destilam homossexualidade, por escritores que endeusam a mulher destapando um mal resolvido complexo de Édipo, por escritores que se entretêm em singelas homenagens ao sexo feminino, no seu íntimo transformistas que a ausente coragem os impediu de ser. O homem fica sempre mal no quadro. É uma dicotomia entre dois mundos tão diferentes: o preto e branco rançoso da masculinidade e as joviais cores da feminilidade; a sensibilidade feminina e o empedernido coração másculo; a intuição apurada do oráculo das mulheres e a indolente sarna dos homens; e de todos os demais estereótipos que são redutoras imagens de pessoas separadas à nascença pela aleatória distribuição dos sexos.

Quem foge aos lugares comuns da dicotómica fantasia apanha com a suspeição dos dois lados da barricada: um homem que acredite nos seus dotes intuitivos (o famoso sexto sentido feminino), ou que auto-proclame a sua apurada sensibilidade, é recusado pela sociedade feminina e alvo da chacota homofóbica dos expoentes do marialvismo. Não que, no seu íntimo, aspirasse a ter nascido mulher; não que seja homossexual. É vã a tentativa de desmontar a artificial separação, como se homens e mulheres fossem a cara e a coroa da mesma moeda. São apenas a simbiose na moeda indiferenciada.

Invejo as mulheres: são deusas em todos os altares. E mesmo quando vingam anacrónicas expressões que a coisificam, sobram as reacções de pesar, a censura social que acertadamente denuncia vetustos machos que ainda não discerniram a dignidade da mulher. De um fôlego só, a masculinidade é achincalhada, como se houvesse lugar a figurar no mapa genético da humanidade o opróbrio histórico de ter nascido homem. Longe de mim a misógina condição (ao contrário, ao contrário…).

Às vezes dou comigo a imaginar a sensação de pertencer ao sexo politicamente correcto, pelas benesses e tratos de polé, pelo enaltecimento moderno. Não tardo a cair em mim: não é sensação agradável, antes o desconforto de quem se sentiria mimado pelas piores razões. E pela perturbação de saber que os erros históricos são intemporais: gerações inocentes arrostam a culpa das gerações culpadas, entretanto fenecidas. As mulheres que se amesendam neste banquete, já deram conta da iniquidade? Da leviandade de serem empossadas na condição de amazonas divindades?

7.3.07

Irrelevâncias em saldo


Há alturas em que a discussão mergulha na irrelevância. Dir-se-ia: uma anestesia forçada, para passar ao lado dos temas que importam. Também é verdade que cada um escolhe o âmago do relevante, entre a panóplia de coisas que borbulham em seu redor. Na diversidade está a grandeza da espécie humana. Portanto, o que se segue é o produto de uma escolha pessoal. Tão subjectiva como todas as escolhas pessoais, tão exposta à discordância como acontece com as coisas que reinam na subjectividade.

Discute-se muito Salazar. Ou porque o ditador se arrisca a entrar para o patético panteão do mais ilustre português mercê de um concurso televisivo que arremata a história em duas penadas; ou pelo burburinho causado por um museu iconográfico em Santa Comba Dão, para desgosto desses expoentes da liberdade que são os propalados “resistentes anti-fascistas” – um dos vários alter-egos que acomodam a pandilha comunista.

Repito: continua-se a dar excessiva importância ao ditador. Esse sombrio período devia ser esquecido. Não digo que seja apagado da memória, ao jeito da metodologia estalinista ainda tão celebrada. Apenas devia ser desmerecido das atenções. Quanto mais o fantasma de Salazar pairar sobre nós, maior é a relevância que se lhe atribui. Não há memória que um sepultado seja motivo de tão assanhadas confrontações. Aos “resistentes anti-fascistas”, o opróbrio da palavra liberdade que soa mal quando ecoada pelas suas bocas, tão saudosistas de outro modelo de ditadura. Espanta-me como alguns dos ingénuos defensores do ditador o fazem como reacção contra a totalitarismo comunista que tenta impor a sua vontade anti-democrática: não percebem como caucionam o lamentável passado salazarista. Virar a página, é o que se impõe. Ou haveremos de ateimar nas masmorras incendiárias dos quarenta e oito longos anos da pequenez salazarista. Mais um sintoma da falta de maturidade da democracia que temos.

Nos saldos das irrelevâncias entram os queixumes contra a corrupção que grassa, tentacular – política, futebol, economia, a corrupção endémica. Grandes são as parangonas quando casos de corrupção sobem a tribunal. Sobretudo quando gente famosa se senta no banco dos réus. O povo rejubila com a evaporação da impunidade dos poderosos. Não se pense que sou favorável à corrupção, ou que os poderosos que se julgam acima da lei não devam acomodar o traseiro no humilhante banco dos réus. O que me perturba é ver o povo exultante, a apontar o dedo contra os poderosos desmascarados por actos de corrupção. E depois, à primeira oportunidade, o mesmo povo é fautor de pequena e média corrupção.

Há, no julgamento popular, a mais pura inveja a gotejar. Como o povo gostaria de poder embarcar na nau das negociatas que se confundem com o ilícito, nos obscuros lucros, mergulhar nos dinheiros que aparecem por artes de prestidigitação. Como gostaria de adejar sobre os demais, com a pesporrência dos oportunistas, rindo-se fartamente porque os outros são desgraçados que vegetam na escassez material. Enquanto eles, os espertos, aumentaram a abastança (nem que tenha sido por métodos que levantam suspeitas). É o povo que gosta de adágios. Entre nós vulgarizou-se este: “os espertos triunfam na vida”.

Quando a praça pública se entretém a tomar conhecimento, e depois a comentar, de suspeitas de corrupção dos poderosos e de figuras públicas, é apenas um inútil desgaste de energias. A confissão da inveja. Um merdoso povo que aponta o dedo aos acusados de corrupção, mas que tanto ambicionaria alambazar-se com as mesmas benesses que os corruptos alcançaram antes de se suspeitar que o são. Como rareiam as oportunidades de entrar no Olimpo dos agraciados pela abastança da corrupção, ou dos proventos de duvidosas origens, recolhem os calhaus necessários para a lapidação pública dos suspeitos de corrupção. Que interessa que nem sequer tenha havido julgamento? Este é o povo com afã da justiça de Fafe.

O que há de mal no tempo dedicado às estéreis discussões? Teimamos no hipnotismo colectivo, atenções concentradas em assuntos que desaguam num escuro beco. Com uma alegria contagiante assobiamos para o alto, convencidos que as energias dedicadas a estas (e outras) inutilidades farão de nós uma nova Irlanda. Quando o que há é a agulha afinada para a linha errada e as carruagens do comboio que prosseguem. Um caminho vão.

6.3.07

Escolas vandalizadas


Crescem os ataques a escolas. Assaltos; grupos de jovens meliantes que espalham terror entre alunos, professores e funcionários; agressões entre tudo e todos, pois nem os professores escapam. Das agressões dos alunos, amiúde verbais e às vezes com marcas no corpo; e das agressões dos progenitores dos alunos, que se desforram das vezes que, ainda petizes, apanhavam reguadas e nem sequer tugir podiam.

De repente assoma à memória um castiço que, aproveitando a generosa política deste governo (que permite a entrada na universidade a maiores de vinte e três anos sem terem concluído o décimo segundo ano, bastando “experiência profissional relevante”), retomou os seus estudos. Entrado para a universidade, depois de mais de trinta anos sem assistir a aulas de qualquer espécie, o senhor estranhou. Personagem decerto saudosista dos quarenta e oito anos de ditadura, sugeriu que aos professores universitários fosse permitida amplitude para esbofetear alunos que se portassem mal. O que faz falta, disparou, é disciplina.

Lembro-me deste abencerragem, de como está deslocado do tempo. Deve corar de vergonha ao saber que os professores primários e do ensino secundário estão proibidos de sequer chegar um dedo aos corpos dos alunos. Qualquer esboço de agressividade é uma ofensa intolerável, um gesto indecente que se afasta dos parâmetros vigentes de educação escolar. E eis como, num breve retrato, ficam expostos dois extremos: o rigor da disciplina militar do neófito aluno universitário que tão perto está da idade da reforma; e a complacência com a indisciplina dos alunos que semeiam terror pelas escolas, infernizam a vida dos professores e prosseguem, alegremente, na metódica recusa da aprendizagem.

A violência é intolerável. Qualquer género de violência. Nos alvores do século XXI, recuar aos tempos em que os castigos se faziam com reguadas que emprestavam um tórrido calor às palmas das mãos é um anacronismo. Um método datado, com a bênção das arrojadas pedagogias que empossam o aluno em direitos mil e apagam do registo o vector dos deveres. Reafirmo que não é aceitável a violência que passa do professor para o aluno. Temo é que num vasto mar de liberalidades, engrossado pelo redemoinho da irresponsabilidade pessoal semeado pela vanguardista pedagogia, os professores entrem para o antro das vítimas da agressividade soez de mal amanhados petizes sem amanhã. Como não chegam as aleivosias dos petizes, os familiares – ao bom jeito da justiça popular – resolvem pleitos alheios pelas próprias mãos.

Não sei se exagero: a escola devia ser um lugar sagrado. Não sou daqueles que vê na escola o altar exclusivo da aprendizagem. É um lugar, entre vários. Mas um lugar importante. É à escola que me habituei a frequentar que faço alusão: com papeis definidos e objectivos delimitados. Não é da escola arrojada, que sai dos laboratórios experimentais em que as escolas são transformadas pelos visionários pedagogos do ministério da educação. A escola é um lugar de saberes, o triunfo do conhecimento, o inexcedível contributo para que as crianças sejam homens e mulheres capazes. Daí a sagração das escolas: sem elas, as crianças estariam entregues à tacanha mundivência das famílias. Apequenar o papel da escola: é o que sucede quando a violência impera, quando o medo é o sentimento dominante, quando os alunos acreditam que detêm poder sobre os professores. E acanhar o papel da escola é remeter o futuro para um cenário negro, um abismo sem fundo para onde vogamos em queda livre, sem retrocesso que se antecipe.

Há muitas maneiras de vandalizar as escolas. De cada vez que uma agressão mancha a quietude de uma escola é o machado da infâmia que se abate sobre todos. Não que sejamos culpados pela brutalidade dos que se apoderam de animalescos instintos. Somos todos vítimas do manto indecoroso que cobre uma escola vandalizada. De resto, faria sentido pôr os políticos a pensar em penalizar impiedosamente os crimes que desonram a escola. Em homenagem aos saberes, a virtude maior do ser humano. Por respeito aos que se esforçam por difundir saberes entre as criancinhas educadas para os maltratar (aos saberes e aos seus mestres).

Uma terra que se recusa a respeitar o lugar sagrado da escola é uma terra que não merece respeito. Um lugar que se amesquinha todos os dias, numa impressionante deriva autofágica. Restariam palavras de endeusamento das escolas, não andassem elas destruídas pelos próceres das experiências pedagógicas que são, em primeira instância, fautores do mal maior de que as escolas padecem. É o triunfo da leviandade.

5.3.07

A minha aldeia ausente


As pessoas dizem “fui à aldeia”, na exibição de um brilho nos olhos de quem se orgulha das raízes aldeãs. Todas as pessoas que conheço que se exilam na sua aldeia fazem-no na urgência de saciar as dores de serenidade que a grande cidade inspira. Há aqui uma confluência de contrastes: a grande cidade, com o seu bulício impessoal, floresta de casario que parece não ter fim, ar carregado que cansa a cada golfada inspirada, feiura dos edifícios na arquitectura desordenada; e a aldeia, reduto da placidez humana, singelo presépio de casas onde todos são vizinhos, a enquadrar campos, vales, montanhas que tocam as nuvens que adejam sobre o casario, o ar tão límpido que dá a sensação de purificar a alma.

Este é um contraste de gerações, também. Pelos exemplos da minha geração e da geração dos meus pais. Quase todos os meus amigos nasceram na cidade. E quase todos os pais dos meus amigos vieram da província até à grande cidade, num êxodo que a década de sessenta testemunhou, começando Portugal a perder a sua ruralidade entranhada através da fuga maciça dos campos até às grandes urbes.

Imaginários diferentes, quando as duas gerações esquadrinham raízes. A geração dos nossos pais ainda presa à ruralidade. Repetida necessidade de visitar a distante aldeia, onde regressam às origens. Como se fosse imperativo mergulhar nas raízes para o reencontro com a essência de si mesmos. Na aldeia recupera-se a genuinidade que a grande cidade pervertia. Pelas pedras das calçadas, entre o verde refulgente dos campos em redor, percebe-se que aquelas pessoas são aldeãs na sua plenitude. E percebe-se, talvez, como nadam em águas pesadas nos longos dias da faina citadina. Imagino quão dolorosa terá sido a decapagem da província, quando se instalaram na imensidão urbanística.

Quando as escuto a dizer “fui à aldeia”, o brilho no olhar é sintomático da oxigenação quando escapam à floresta de anódinos edifícios. A voz revigora-se quando confessam a viagem às entranhas do seu passado. É a forma perene de resgatarem a meninice feliz vivida no bucolismo da aldeia perdida entre vales e serranias. Noutro contraste gritante: houvesse mister de retratar esse tempo distante e perceber a ausência de condições de bem-estar, naquilo que hoje são os ingredientes consabidos do bem-estar – electricidade, água canalizada, esgotos, televisão. E, no entanto, mostra a contemplação dos dias todos vividos na lonjura da aldeia que nem a ausência destes ingredientes furtava a felicidade desnudada pela saudade dos tempos idos.

A minha aldeia é a grande cidade que me viu nascer. Onde sempre vivi. Escapam-se as referências ao bucolismo dos campos, dos animais nos pastos, dos pastores de abalada para uma temporada de isolamento no alto dos montes. Ou do trabalho da lavoura, da poda das árvores de fruto e dos vinhedos, do arrotear das terras que se roubavam da desordenada incultura. Não foi na grande cidade que me habituei ao adocicado odor libertado pelas lareiras durante o frio invernal. Da grande cidade guardo as imagens dos altos edifícios acotovelados onde as pessoas vivem acanhadas, sem um espaço verde para refrescar a respiração nos tempos livres. E os carros em loucas correrias nas manhãs que são sempre de atrasos, ou no entardecer que traz cansados autómatos de regresso aos lares impessoais.

Da minha urbana condição, há algo de estranho quando ouço as pessoas dizerem “fui à aldeia”. Até hoje não percebi se é inveja, salutar inveja, quando as vejo extasiadas a contar as coisas mais corriqueiras da deslocação às entranhas do passado petrificado nas paredes e ruas da aldeia. E nem quando ia como passageiro das memórias dos meus pais de visita às suas origens me sentia engrenagem da aldeia. Antes, um corpo estranho. Todo aquele silêncio, as pessoas que amavelmente me saudavam na rua, as pedras frias da casa, o rumorejar das águas do regato, os montes que cercavam a aldeia por todos os lados, a paisagem de uma beleza esmagadora, a hospitalidade dos aldeãos (num ríspido contraste com o impessoal trato a que me acostumei na grande cidade) – tudo passava diante dos meus olhos como um retrato que se fazia corpo estranho. Até hoje, nunca consegui inculcar uma aldeã forma de viver nos poucos dias de visita às aldeias, às muitas aldeias onde pernoitei.

O imaginário não se força. As raízes são consumadas pelo tempo. Os locais que trazem até nós as raízes pessoais são um templário que nos foi destinado, algo que não temos a capacidade de mudar. De tanto urbanismo enraizado, sou assaltado por um paradoxal sentimento de asfixia dos elementos quando estou de visita a qualquer aldeia. Falta-me a selva de betão armado, o burburinho das pessoas apressadas que ignoram outros transeuntes, o ar plúmbeo que infecta a saúde.

2.3.07

Al Gore, a Honda e o ambiente que volta a estar na moda



Quando se parte em busca dos lugares onde a demagogia habita, o ambiente arpoa o campeonato. Se hoje alguém quer tocar bem fundo na sensibilidade humana, basta desfiar o rosário dos atentados ambientais e de como a humanidade se encaminha para um beco sem saída se nada for feito para proteger o meio ambiente. Para quem aspira a compor a imagem perante o público, ser advogado de defesa do ambiente é um manancial inesgotável.

Aquele que se apresenta como o ex-futuro presidente dos Estados Unidos – Al Gore – é o novo cruzado do ambientalismo. Já o era, de forma mais tímida, enquanto vice-presidente de Clinton. Como é novo para ser encerrado no bastião dos reformados da política, e como político que se preze não engavetou as ambições pessoais, Gore deu a cara por um documentário que apresenta o estado lastimável do meio ambiente. De como a humanidade tem espezinhado o ambiente, sem perceber que cada atentado cava mais fundo a cova que anuncia um futuro medonho para o planeta. Gore tem-se desdobrado num périplo cansativo, proferindo conferências secretas (só para um público seleccionado de “ilustres”, sem a presença da comunicação social ou do povo rasteiro que esteja interessado). Até já teve direito a figurar ao lado das estrelas de cinema de Hollywood, presenteado com um Óscar para o melhor documentário.

Ponto de ordem: não me é indiferente a preservação do meio ambiente. Esforço-me, nos comportamentos quotidianos, por dar um contributo singelo: a separação do lixo, a metódica poupança de água, o jornal diário que leio em formato digital (modesto contributo para salvar árvores), as pilhas colocadas no pilhão – eis uma amostra de actos amigos do ambiente que, de repente, me ocorre. Já sou pouco sensível aos militantes devotos do ambientalismo. É uma causa que arregimenta fidelidades caninas, onde se acantona uma das expressões do fundamentalismo contemporâneo. E alguns dos arautos do ambientalismo servem-se da sensibilidade da causa em proveito próprio. Os ingénuos que aplaudem, servis e cegos, as verdades convenientes dos guardiães do ambiente caem no engodo sem darem conta.

O frenesim de Al Gore pelo ambiente deixa-me um oceano de suspeitas pela frente. Há muitos aspectos que não batem certo no sacerdócio ambiental do algures no futuro novamente candidato à presidência dos Estados Unidos. Como pode um monástico defensor do ambiente – depois de traçar um diagnóstico dantesco, depois de dar uma lição de moral que indica os comportamentos censuráveis no plano ambiental – mostrar o contrário do que apregoa? Dois exemplos: viaja num avião privado e, quando chegou a Portugal, fez-se deslocar num automóvel topo de gama que é tudo menos poupado no consumo de combustível. Saber que os políticos são mestres na arte da retórica, que aplicam todos os dias o princípio “olha para o que eu digo, não para o que eu faço”, não é novidade. Os que consentem a cilada, os que acenam concordantemente porque é de bom-tom aplaudir as profecias de Gore, estão no seu direito à ingenuidade. Porventura desconhecem a agenda de longo prazo: o calendário não é adequado à ressuscitação das ambições presidenciais de Gore, agora que a ex-presidenta quer regressar ao cargo. Fica para mais tarde. Entretanto vai cimentando o seu estatuto de super estrela de uma das causas politicamente correctas, com a augusta complacência da audiência.

Recentemente deparei com outro exemplo de absurda demagogia ambientalista: a Honda inovou na decoração do seu monolugar de Fórmula 1, cobrindo a carroçaria com uma fotografia do globo terrestre. A explicação vem de seguida: a Honda está muito preocupada com a degradação ambiental. Quer contribuir para mudar hábitos, na educação para o ambiente. Convenceu os seus patrocinadores a prescindirem do espaço onde habitualmente colocam autocolantes alusivos contra ao pagamento da verba que dá direito à publicidade. É uma espécie de mecenato ambiental. A encenação vai mais longe. Há um site (www.myearthdream.com) onde qualquer pessoa pode fazer donativos que revertem a favor de organizações de promoção do ambiente saudável. Com a garantia de que o nome do filantropo ambiental irá aparecer na carroçaria de um bólide que consome 75 litros por cada 100 quilómetros percorridos.

Quando o filantropo está a meio do processo de doação em prol da causa ambiental, o site convida-o a escolher uma das mensagens pedagógicas que alerta para hábitos condizentes com as boas práticas ambientais. A escolha é variada: “partilho o meu carro; evito voos desnecessários; instalei pelo menos três lâmpadas de baixo consumo; utilizo os transportes públicos; desloco-me a pé ou de bicicleta; diminuo um grau centígrado a temperatura do termóstato; deixo de passar a ferro; não deixo os electrodomésticos em standby ou o telemóvel a carregar desnecessariamente; lavo a roupa a 30 graus; não deixo a água a correr enquanto lavo os dentes; reciclo todo o papel; mudei para um fornecedor de energia renovável”.

Atitude louvável, decerto. Mas fico atónito por partir de uma empresa que participa num desporto que consome tanto combustível. O que não percebo é a incoerência, tanto mais que este é o meu desporto favorito. A campanha faz tanto sentido como vermos um fanático da pesca desportiva apoiar as decisões das autoridades da União Europeia que restringem o acesso aos bancos de pesca. O ambiente é o altar onde a demagogia em estado puro é esposada. Al Gore e a Honda são os exemplos mais recentes.