31.5.07

Juízes-conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça com distúrbios de personalidade


Hoje escrevo como licenciado em direito. Acima de tudo, como cidadão, com o natural direito à indignação quando um tribunal escorrega para o dislate. Como um novelo que se entretece em si mesmo, é nestas alturas que regresso às catacumbas para onde foi atirada a inútil licenciatura em direito. Certifico-me que não há o menor arrependimento de andar tão longe dos corredores da justiça, onde o odor bafiento teima em gritar de pulmões bem cheios.

Há alturas em que somos surpreendidos por sentenças mirabolantes. Os magistrados fazem gala em mostrar a sua particular concepção de justiça. Algumas vezes, a opinião pública fica com o travo amargo da injustiça desta justiça. Lá dirão os especialistas que o povo não percebe nada de direito. Os mesmos especialistas que comunicam no típico linguajar hermético dos juristas, idioma que só eles percebem mais o seu raciocínio labiríntico. Esses especialistas vêm lembrar que nem o povo nem a comunicação social podem ajuizar os juízes que proferem sentenças, pelo desconhecimento do “caso concreto”. Na linguagem dos mortais, isto traduz-se numa ideia: a magistratura plana acima dos mortais, intocável do alto da sua sapiência que rivaliza com as divindades. Em alguns juízes haverá o íntimo desejo de censura prévia, para impedir que a justiça venha parar à comunicação social.

O último despautério partiu do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), o tribunal que está no topo da hierarquia dos tribunais (descontado o politizado Tribunal Constitucional). Decidiu reduzir a pena de um indivíduo condenado por violação reiterada de uma criança de treze anos. A imprensa deu a conhecer excertos do acórdão do STJ. A composição tresanda a ditirambo, pela soez argumentação congeminada pelo juiz-conselheiro que redigiu o acórdão. Retive duas justificações. Primeiro, não é a mesma coisa violar uma criança de treze anos e uma criança de seis anos. A última hipótese seria muito mais grave. Segundo, parece que ficou provado que a vítima tinha erecções, o que prova consentimento.

Eu acho que os juízes deviam passar pelo crivo de um aturado exame psicológico. Com alguma periodicidade, não apenas quando estivessem a fazer o tirocínio para chegarem a juízes. A avaliação psicológica servia para despistar comportamentos desviantes entre a magistratura. Com o propósito de impedir que a justiça seja inquinada por personalidades doentias que tropeçam no absurdo da argumentação como a que foi dada a conhecer. Apetece passar em revista os dois argumentos. É espantoso saber-se que é mais grave a violação de uma criança de treze anos do que uma criança de seis anos. As leis andam-me esquecidas, mas ainda tenho uma vaga recordação que a punição deste crime não faz distinção entre escalões de idades das vítimas. Por outro lado, é ainda mais assombroso dizer que o crime merece redução de pena porque a erecção da vítima deixa perceber consentimento. O magistrado fala com conhecimento de causa?

E depois há o patético mundo do direito que julga saber de tudo e mais alguma coisa, o direito que tem a pretensão de meter colheradas noutras ciências. O direito e os seus actores deviam ter a humildade intelectual de reconhecer que são leigos noutras ciências. E que, como leigos, deviam socorrer-se de especialistas para não serem apanhados na revelação da sua ignorância. Uma justiça que percorre os caminhos da ignorância entra em auto-negação com o que deve produzir – justiça. Se há dois dias tomámos conhecimento do absurdo julgamento do STJ, ontem foi a vez de psicólogos, psiquiatras e sexólogos se pronunciarem. A decisão do STJ foi arrasada. É o que dá a teimosia dos iluminados que se julgam senhores de toda a verdade, de todo o conhecimento. Os especialistas denunciaram o destempero dos argumentos do magistrado. Na prática, a falácia desses argumentos e, por aí, a negação da justiça.

Não hão-de adiantar de nada as exibições de solidariedade corporativa. Os magistrados andam enfadados por estarem no patíbulo da opinião pública. Oh! suprema heresia, que os iluminados vivem numa dimensão à parte. E mesmo não gostando de adágios populares, não resisto a pedir um emprestado: “quem anda à chuva, molha-se”. Se suas excelências os aplicadores da justiça não se querem pôr a jeito, façam um acto de contrição, deixem-se aspergir pela humildade intelectual de quem é tão mortal como os mortais a quem a justiça se destina. Até lá, são os magistrados os principais responsáveis pelo estado comatoso da justiça. Fautores de um dos ingredientes maiores da crise em que mergulhámos.

Hoje escrevo como licenciado em direito. Com vergonha de o ser.

30.5.07

Pelos mártires da greve geral



(Copyright: Brigitte Boitel Bonfils)

Este é um texto reaccionário.

Dia de greve geral. Dia para lembrarmos que os sindicatos mais anacrónicos da Europa têm pouso entre nós. Dia para as batalhas de números, testemunhas da ilusão estatística e da manipulação das cifras de grevistas pelos sindicatos e pelo governo. Já agora, que se aplauda a sensatez de algumas pessoas que não se deixam iludir pelo tenebroso maniqueísmo deste governo que vai, de deriva em deriva totalitária, atropelando liberdades. A Comissão Nacional de Protecção de Dados impediu a identificação dos grevistas, como o governo pretendia. Quando soube da intenção do governo, confesso que se fosse funcionário público teria pela primeira vez na vida pensado na hipótese de fazer greve. Apesar de ser “reaccionário” (como o texto de hoje há-de comprovar), apesar de não me rever um milímetro que seja nas causas sindicais.

Também confesso que me perturbam os argumentos ancorados na rigidez intelectual. É o que se passa quando se discutem os direitos dos trabalhadores. Fala-se muito nas regalias de quem trabalha, cimentando-se uma retórica que pastoreia direitos adquiridos. É de bom-tom advogar os direitos adquiridos, ou temos “retrocesso civilizacional”. Acredito que o fazem na suposição de que os “patrões” são todos, sem excepção, diabólicas entidades que se dispõem a oprimir os trabalhadores. Hão-de fiar-se que os “patrões”, se pudessem, instituam a escravatura, o trabalho infantil, cortavam salários pela metade, proibiam férias, obrigavam os trabalhadores doentes à jorna. O problema deste maniqueísmo é o de todos os maniqueísmos: excessivo e míope.

Manter uma discussão com argumentos que mostram inflexibilidade intelectual fermenta um monólogo. Não se equaciona repensar os pressupostos da lógica sindical, do excessivo proteccionismo dos direitos dos trabalhadores que vem nas leis do trabalho e que vitupera os “patrões”; é a lógica do “é assim, porque sim”. O hermetismo mental impede a discussão. Entramos no domínio do tabu. Por definição, sou avesso a tabus.

Não vou indagar as motivações da greve geral de hoje, se a razão assiste aos sindicatos ou ao governo. Não me apetece fazê-lo. Por um lado, porque seria necessário percorrer a via-sacra dos dossiers polémicos que dividem sindicatos e governo. Teria que argumentar que o governo peca por defeito: que lhe falta coragem para ir mais longe e cortar a direito nos privilégios obscenos dos funcionários públicos. Se estas palavras fossem escutadas por sindicalistas, teria que aguentar rótulos pouco simpáticos – “fascista”, “reaccionário”, “a soldo do capital”, etc. E não me apetece, apesar de não me incomodar a hipótese. Vindas de onde vinham, essas acusações seriam melodia para os meus ouvidos. Por outro lado, estar do lado contrário da barricada sindical pode ser entendido como um alistamento no governo, o que quero evitar a todo o custo. Imaginá-lo tira-me o sono. Acho que é suficiente o que já afirmei atrás – o governo devia ir mais longe no corte de regalias – para mostrar que estar contra os sindicatos não implica um apoio ao governo.

Mais importante é olhar, por um instante que seja, para os direitos dos mártires da greve. As pessoas que querem ir trabalhar: ou porque não se revêem na causa grevista, ou porque não podem prescindir do salário de um dia de trabalho. E que chegam atrasadas. E que têm que acordar sabe-se lá quanto tempo mais cedo. E que têm que enfrentar filas intermináveis para apanhar o transporte público, que se demora porque houve sindicatos que se acham senhores da lei e não cumpriram os serviços mínimos. E que penam ainda mais no trânsito de acesso às grandes urbes, porque as estradas estão entupidas. E que batem com o nariz na porta das repartições públicas, adiando a absurda burocracia que estava agendada para hoje. E que se deslocam ao hospital em vão, anulada a consulta por que estiveram à espera meses a fio, aguentando agora outro tanto até voltarem a ser atendidas (se não morrerem entretanto, insignificante detalhe para os sindicatos).

Alguém zela pelos interesses desta imensa maioria silenciosa? Alguns, enquanto sentem na pele os efeitos da greve, colocam-se ingenuamente ao lado de quem atormenta o seu dia. Todos temos direito a dar tiros no pé. Para os demais – os que suportam a arrogância dos sindicatos; os que ficam reféns de uma greve que, afinal, atropela o seu direito a trabalhar; os que começam mal o dia e nem sabem como ele vai terminar, quando vão conseguir chegar a casa – só direitos desvalidos. São os órfãos da democracia vigente.

Nunca ninguém se lembrou de formar um sindicato que proteja os seus direitos. Um sindicato dos mártires da greve, ah! ideia subversiva.

29.5.07

E Sócrates, gostaria de ser Chávez?


O ditador da Venezuela continua a eliminar vestígios de contestação ao seu reinado particular. A última golpada foi o encerramento de uma televisão privada que emitia há cinquenta e três anos. Sobre a estação pesa a acusação de ter patrocinado um golpe de Estado contra o messiânico ditador. Só fica por explicar por que razão demorou tanto tempo a abater o canal televisivo, se o pretenso golpe aconteceu há largos anos. Diz-se que a vingança pode tardar mas nunca deixa de acontecer. A demora apura os requintes de malvadez.

Gostava de assistir ao comentário do Prof. Boaventura Sousa Santos, que já sentenciou a lufada de ar fresco “democrático” que esta nova leva de populistas latino-americanos trouxe à política internacional. (As aspas no adjectivo democrático são da minha lavra, não da autoria do Prof. Boaventura.) Gostava de o ver perorar sobre a lufada de ar fresco que tiranetes deste calibre representam para a repressão da liberdade de expressão. É que, ou muito me engano, ou a democracia não é compatível com atropelos à liberdade de expressão. Porventura, o Prof. Boaventura é adepto daquelas democracias em que os que mandam são um número ímpar inferior a três.

Não merece a pena perder mais tempo com as concepções bizarras de liberdade de expressão do Prof. Boaventura e dos seus seguidores bem pensantes. Devolvo a atenção a uma comparação que parece espúria: entre o ditador da Venezuela e o timoneiro de Portugal. Justamente por causa da limitação de liberdade de expressão através da televisão. Chávez liquidou um canal que não gostava da sua cartilha populista, que se atrevia a denunciar as manobras que hão-de levar a uma ditadura efectiva. Hoje um canal de televisão adversário, amanhã um jornal que fuja da cartilha do ditador, depois de amanhã um adversário político silenciado com o beneplácito da justiça colaborante. Até terem sido varridos todos os restos de oposição a Chávez.

Entre nós, sedimentos do mesmo controlo governamental da comunicação social, em particular na televisão. Pode não ser tão ostensivo como na Venezuela, até pela diferença dos registos pessoais. O ditador venezuelano é o paradigma do estilo desbragado, típico da idiossincrasia latino-americana. Em Chávez há os tiques labregos tão bem retratados pelas xaroposas telenovelas latino-americanas. Sócrates é mais civilizado. Europeu. Da esquerda moderna rendida ao capitalismo, escorregando pelos vícios aburguesados. Sócrates traja Armani, faz jogging matinal na companhia dos pressurosos jornalistas que lhe apascentam a imagem, vai de férias para o Quénia, estropia um joelho ao esquiar na Suíça; Chávez é mais popular, envergando camisas vermelhas e boinas patéticas que simbolizam o ideário populista, misturado com o povo nas festanças folclóricas. Se Sócrates tem contenção verbal e Chávez é um desbocado, ambos têm a mesma incapacidade para tolerarem quem lhes faça frente. Incomodam-se. O primeiro mostra-o, apoquentado, arrogante, irritado. O segundo esmaga os opositores.

Na Venezuela deu-se o silenciamento de uma estação televisiva que incomodava o poder instalado. Em Portugal, três dos quatro canais estão na mão dos socialistas – agora que o inenarrável Pina Moura tomou conta da TVI. Que a SIC e Pinto Balsemão se ponham a pau. O proprietário da SIC arrosta o estigma de fundador do principal partido da oposição. Se o Balsemão capitalista se sobrepuser ao Balsemão político, hão-de ser dadas instruções para a estação não incomodar os intocáveis socialistas. Há que não esquecer que Sócrates inventou a Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC), posta nas mãos do subserviente Azeredo Lopes – que tem prestado inestimáveis serviços à maioria socialista, quem sabe se fazendo o tirocínio para secretário de Estado numa remodelação que tarda pela teimosia tão conhecida do timoneiro. Há que não esquecer que o perigoso Augusto Santos Silva tutela a comunicação social e já dissertou sobre a urgência em asfixiar o “jornalismo de sarjeta”.

O tandem Santos Silva-Azeredo Lopes só pode motivar desconfiança. Que estes socialistas não descansem enquanto não tiverem a comunicação social a mendigar na sua mão. A miopia da ERC (que só ataca quem incomoda o consulado socialista, fechando os olhos à manipulação socialista da comunicação social) e o exemplo de limpeza que Santos Silva se propõe a fazer, liquidando o “jornalismo de sarjeta”, são sinais do ambiente fétido em que vivemos. Da falsa liberdade de expressão. E de como os socialistas convivem mal com a liberdade de expressão. Entende-se: afinal é a liberdade de expressão que os pode correr do poder. Eis o perigo do combate ao “jornalismo de sarjeta”: tal como na Venezuela, tudo pode cair na categoria. Basta ser incómodo para os interesses dos socialistas que se querem enquistar no poder.

Será por acaso que dentro de dias Chávez vem a Portugal? Para ser tutor de Sócrates?

28.5.07

Da franqueza


A franqueza é ambivalente: virtude e fragilidade ao mesmo tempo, quando nos sentimos divididos entre o dever de falar e assim sermos incómodos e a necessidade de silenciar esse impulso que fica retido nos segredos que nos pertencem. Há por vezes o sentido do oportunismo a vir ao de cima. Remete a franqueza para segundas núpcias, poupando alguém ao desconforto das palavras agrestes que seriam aquelas tingidas pela dolorosa franqueza.

Quando a lhaneza é substituída por um complacente silêncio, é a comiseração que despoja a franqueza? Ou é apenas a ausente coragem para deixar falar as palavras pelas páginas da verdade, ainda que delas venha uma melodia que arranha os ouvidos do destinatário – uma  melodia trinada com versos impiedosos que expõem males que a miopia esconde do espelho? E a franqueza pode ter o preço do conflito, quando quem fica incomodado a leva a mal e mostra a amargura de quem ficou magoado com a sinceridade desarmante. O que pode coibir o desempenho da franqueza. Com o receio de que, através dela, sejam sufragadas tempestades de desarmonia onde antes existiam sentimentos que punham os afectos antes de tudo.

A franqueza é o registo dos dilemas maiores, sem saber que caminho escolher. Entre o dever de falar e o ímpeto de silenciar. Com a agravante do fel da covardia a estalar na boca quando vinga o silêncio. A dúvida a pesar na consciência: sobretudo quando os que são poupados à franqueza são pessoas queridas, pessoas que fazem os afectos falar em toda a sua pujança. A poupança da sinceridade lancinante é um acto piedoso que atropela a imagem que temos do outro. Sobra a interrogação: poupá-lo à franqueza condoída será assim tão piedoso? Faremos bem ao outro quando nos demitimos de exercer a franqueza que é pouco generosa com o que ele é?

Li há tempos o diagnóstico de um guru da análise de comportamento de altos quadros empresariais: os portugueses evitam o conflito, ou porque se afastam da franqueza, ou porque não sabem lidar com a dissidência de opiniões. É o mostruário da franqueza como terreno pouco frequentado. Pode aquele diagnóstico ser o espelho de um micro cosmos; mas até que ponto não é o retrato fiel das relações humanas, da família aos amigos, passando pelas relações profissionais? Curiosamente, deixamos a franqueza falar mais alto quando nos deparamos com estranhos. Não lhes escondemos aquilo que sentimos, aquilo que vemos. Até é com as pessoas estranhas que os juízos esbarram no exagero, porventura para compensar a falta de lisura quando são os mais chegados a convocar a franqueza. Os afectos ou o simples conhecimento são o alçapão onde vem derrotada a sinceridade.

Tenhamos a franqueza de admitir que poucos de nós gostamos que os outros sejam francos connosco. Sobretudo quando a imagem mostrada pela sinceridade dos outros é pródiga em desnudar as pedras pontiagudas que pertencem à nossa existência. Poderá, decerto, haver aqui uma lente desfocada que perturba toda a análise: a teima em ajuizar o outro é uma vertiginosa tendência que os tempos modernos não conseguem reprimir. Os afectos deviam ser a afirmação do imperativo da franqueza. O que se torna problemático é o fio da dissidência quando o executor da sinceridade esbarra num esgar de reprovação do alvo da franqueza. O temor dos afectos esboroados sanciona a franqueza demitida.

Às vezes, os afectos obrigam a calar a impertinente sinceridade. Com um custo doloroso: a superficialidade das relações viciadas, os sorrisos que escondem um cansaço larvar, as palavras tomadas pelos segundos sentidos. Em breve, a perturbação dos afectos, que perdem o traço genuíno. É aqui que a ambivalência nos divide em dois hemisférios: entre o imperativo da franqueza, com o custo da desaprovação do atingido, mais os afectos ensombrados; e o pragmatismo que esconde a sinceridade, em nome do pudor pelos afectos que passam pelo crivo da exigência.

Se calhar, entre os dois braços da ambivalência, somos muitas vezes tentados a repousar no regaço do pragmatismo. Rejeitando a franqueza, que pode ser dilacerante – para o outro, mas também para quem dê azo à pungente sinceridade. E, também se calhar, deixamo-nos tentar pelo travo agridoce da hipocrisia de quem esconde a franqueza numa caixa escura, porque sabemos que, lá no fundo, não gostaríamos de ser réus da franqueza dos outros.


25.5.07

Ecos do mau feitio


Alturas em que o tempo pára para olhar para dentro. Interrogar se não há miopia na maneira como vejo as coisas, tão desalinhado do sentir geral. Inquirir às entranhas do ser se os princípios que me regem são teimosia ou desassombro, mania da rectidão ou ingenuidade.

Às vezes sou tomado de assalto pela convicção que é apenas incorrigível mau feitio. A necessidade de me saber a remar contra a maré dominante, ver passar os outros em sentido contrário e reconfortar-me com a imagem. É verosímil que seja defeito de carácter. Ou uma lente desfocada através da qual decanto a realidade. Questiono o código de conduta que comanda as acções. Não quero, nem posso, perseguir a pretensão que o mundo se reconduz a um binómio, entre o que é certo e o que está errado. Nem sequer posso moldar a imagem do mundo à percepção resignada que há acções que reprovo mas que estão enquistadas no planalto do pragmatismo. Como se o pragmatismo deturpasse princípios, os moldasse à imagem da acomodação a que somos convocados em tributo dos novos tempos. Sem laivos de conservadorismo, inquieta-me sentir que o labirinto da vida nos coloca no limiar deste precipício.

Será mau feitio, apenas, nos conflitos que não consigo evitar. Demoro a reagir, notificado pela fonte do conflito. Avalio as opções: reagir, entrar na pendência, comprar a desconfortável sensação da acareação; ou, tomado pelo pragmatismo, olhar de lado para a fonte do conflito, simular a sua ausência em homenagem à acalmia interior. Quase sempre, um instinto empurra-me para a segunda hipótese. E, quase sempre, acabo por deixar vingar a primeira. Não consigo deixar incólumes fragmentos que se estilhaçam na minha janela, que fica partida. Se a busca interior pelo conforto falasse mais alto, haveria que substituir a vidraça estilhaçada, só isso. Acontece que só o consigo fazer depois de confrontar quem a partiu, digladiar argumentos, resolver a pendência. Não o faço para mostrar superioridades argumentativas, ou provar que a razão – essa coisa tão volátil – está do meu lado. Faço-o para apaziguamento da consciência. Teimo em acreditar que careço desse passo para herdar o sono tranquilo.

São as dores do pensamento a minha prisão. As dores do pensamento que fermentam o mau feitio que me traz refém. Esse pensamento que me traz em sobressalto, quando esbracejam episódios que semeiam a indignação, incapaz de lhes passar ao lado, ou por cima, e privilegiar as coisas mais belas da vida que estão algures. E prisão, contudo: a alternativa é fazer de conta que o estrondoso murro na minha porta não soou, na demissão do pensamento. Acovardado, se seguisse por esse caminho. Sobram as masmorras do pensamento ditador. Um dilema angustiante: deixar que o pensamento siga os tortuosos caminhos, no único mérito de me achar dotado de racionalidade; ou asfixiar o pensamento, iludir o que me rodeia, num ensimesmamento que seria profícuo à deriva por um bem-estar interior, porventura um enganoso bem-estar interior.

Assim dividido, entre um refúgio interior que anestesie as dores do pensamento e a reiterada mortificação quando tropeço nas desilusões dos outros que atraiçoam a ingénua confiança depositada. Não sei se os princípios que me orientam são inflexíveis. Não sei se esses princípios vogam em nuvens idílicas, mas insustentáveis. E não sei se os passos que dou, as ruas que decido percorrer, são um espelho do erro. O nutriente do obstinado mau feitio que semeia tormentosos dias.

De mim apodera-se uma vontade indomável de fazer as coisas diferentes. De domar as dores do pensamento. E quebrar as algemas que me trazem preso à ditadura do pensamento. Vogar sobre os fragmentos que hoje estilhaçam a minha janela e transtornam o sono. Vogar sobre eles, indiferente às dores que provocam. Só tenho que descobrir a anestesia certeira. Mas temo, dividido nas extremidades do dilema, que domando as dores do pensamento haja demissão de mim mesmo, na voragem da covardia que me deixa desassossegado. É então que reparo que para as dores do pensamento não há morfina que valha: pois são as dores do pensamento que gritam, desesperadas, ao intuir a urgência em domesticá-las.

Acho que estou fadado a conviver com o mau feitio inato. Dominado pelo pensamento ditador que me manieta. Pela incapacidade de saltar para o dorso e tomar conta das rédeas do pensamento tempestuoso que me dobra. Este é um tortuoso labirinto donde não vislumbro saída. Há dias em que fala mais alto a decisão de mudar. São os dias em, interrogados os confins do ser, sobra a indecisão, a prisão que me não deixa marcar encontro com a urgente mudança.

24.5.07

O ar na latrina está a ficar irrespirável


Há algum mal quando a superiora hierárquica suspende um funcionário que disse uma graçola zombando da licenciatura conseguida pelo primeiro-ministro? A única resposta concebível é dizer não. É aceitar que a única decisão perante a infâmia do funcionário seria fazer o que a chefe fez. As hierarquias não podem tolerar desrespeitos deste calibre. O facto de o funcionário ter pronunciado o comentário em privado é uma minudência. Há que não esquecer que por estes dias está instalado o convite à delação como comportamento padronizado. Não, não é arremedo do tal “fascismo” que os socialistas dizem ter combatido.

Os directores regionais de repartições do Estado devem ser vigilantes da moral e dos bons costumes. E à moral e aos bons costumes pertence o decoro, o recato verbal, a continência das palavras. Os funcionários devem saber o que podem e o que não podem dizer. Na dúvida, sugere-se que uma zelosa comissão penhora dos bons costumes redija um manual de comportamentos e dizeres. O manual há-de regulamentar ao milímetro o que se pode dizer, fazer, vestir, ouvir, ler, perfumar, a periodicidade do cabeleireiro, os hábitos gastronómicos, os deveres de exercício físico, direi até, a assiduidade do acto sexual. E nós, no rebanho ordeiro, só temos a agradecer por haver quem nos formate a vida.

Aos que, descontentes, protestam pelo cerco apertado que os engenheiros sociais têm vindo a fazer, dir-se-á que a sua é reacção excessiva. Dir-se-á que temos que prestar tributo à escrupulosa actividade destes funcionários que despendem as suas energias em prol do bem-estar de todos nós. Aqueles de nós que olharem com desconfiança para os préstimos dos engenheiros sociais são uns ingratos, incapazes de reconhecerem o bem que eles fazem – e como o fazem desinteressadamente, desapaixonadamente.

A directora regional achou inadmissível a piada feita pelo seu subordinado? Está no seu direito. Aliás, cumpre uma obrigação. Os subordinados não são contratados para desfilarem dotes humorísticos durante as horas de serviço. É desperdício de tempo o olhar desviado das funções que dão direito ao salário que sai do bolso de todos nós. Devíamos manifestar penhorado agradecimento à senhora directora regional. Por estar vigilante aos extravios dos seus subalternos, que esbanjam tempo de trabalho a congeminar chalaças sobre as habilitações literárias do nosso timoneiro. Nós, os contribuintes desvalidos, devíamos propô-la para uma comenda nas comemorações do 10 de Junho.

Também acho que estão errados os que diagnosticaram o perfume da censura no acto da directora regional. As palavras esbarram num limite. Não podemos andar por aí a dizer mal de tudo e de todos. Especialmente do primeiro-ministro, que se afadiga em conduzir a nau entre as águas tormentosas que um povo impreparado teima em sulcar. Desenganem-se os sacerdotes da desgraça que acusam a directora regional de servilismo bacoco. Ela nem deve a sinecura ao carreirismo partidário; porque haveria de ficar indignada com o despeito do subordinado? Consta por aí que a senhora é uma dedicada militante local do partido do governo. Maledicência, mais maledicência. Não se percebe qual a relação de causa e efeito entre o carreirismo partidário e o processo disciplinar a quem escarneceu do chefe mor da senhora.

O problema é que se abusa da liberdade de expressão. As pessoas deviam ser sensatas: e perceber que há domínios inexpugnáveis à liberdade de expressão. Por outras palavras, há assuntos que não admitem tiradas humorísticas. Como quem diz, com coisas sérias não se brinca. Então se elas vierem beliscar o culto de personalidade do timoneiro, mais inadmissíveis se tornam. Continuam com um diagnóstico errado os que supõem que houve servilismo da directora regional, como se ela estivesse a mostrar serviço ao chefe da banda, assim como quem se oferece para sinecuras ainda mais elevadas. Até o carreirismo político tem os seus limites. Esta zelosa directora regional ofereceu o peito às balas, num acto que tem muito de auto-imolação como de peregrino: deu o exemplo a todas as chefias da administração pública, que não se podem demitir de uma vigilância cerrada sobre o que fazem, dizem, pensam, cheiram, comem, lêem e ouvem os subordinados. Doravante, estes sabem que têm que andar na linha. E há algum mal nisso?

Os que reprovam o episódio dirão que “há muito tempo que nesta latrina o ar começa a ficar irrespirável”, pedindo emprestadas as palavras aos Mão Morta. Que exagero.

23.5.07

A procissão das carcaças


Bem cedo, ainda alvorada, poucas as pessoas que andam pelas ruas. É quando as carcaças dos porcos são descarregadas do camião frigorífico para o talho da esquina. Uma e outra, levadas em ombros pelos homens do talho, numa procissão contínua que convoca os poucos olhares curiosos. Há, naquele ritual, o sombrio espírito humano que sacia a curiosidade com a morte alheia. A sacralização da morte.

Tudo é feito na luz baça da manhã. Diria que é o pudor aviltante, para evitar que uma multidão desvie o olhar para os cadáveres esbranquiçados das reses no percurso entre o camião e a porta dos fundos do talho. Tudo combinado na necessidade da hora prematura. Para serem poucos os que, a caminho do trabalho, encaram o grotesco retrato das carcaças inertes em procissão ritmada no caminho longínquo aprazado para a sua mesa. Os corpos seccionados dos porcos desfilam em plena cidade, emprestando bestialidade à função.

Há sensibilidades que variam na complexidade das tão diferentes personalidades. Há os que se divertem na hedionda matança do porco, com vinho a jorrar e cantares ao desafio enquanto o animal é sangrado, guinchando desesperadamente até as forças se consumirem no traço final da morte. Os que são mais atreitos às tradições inamovíveis logo virão esgrimir o argumento da tradição popular como defesa do costume da matança do porco. A tolerância perante o argumento não chega para reprimir o meu, que vem em sentido contrário. Tudo me parece um sórdido espectáculo que, no fundo, ultraja a natureza humana. Não, não é o porco que é aviltado, na sua instrumentalização diante do comprazimento dos Homens. São os próprios Homens que cavam a sepultura da sua indignidade.

E como há sensibilidades tão variadas, haverá quem não abrande o passo quando vê àquela hora madrugadora as carcaças dos porcos a caminho de serem desmembradas pela faca afiada do talhante. Como há quem se impressione com a procissão macabra dos cadáveres dos porcos partidos em dois, na longitudinal, a serem tirados do camião frigorífico por um trabalhador para os ombros do comparsa que, dobrado pelo peso, se encaminha a passo lento para o interior do talho. Um espectáculo gratuito, a morte desfilando diante dos olhos. Na heterogénea sensibilidade, haverá quem espicace a gula antecipando iguarias que aquela carcaça, depois de desconjuntada, virá depositar no seu prato. Enquanto outros, no encontro marcado entre o olhar e a descarga das carcaças, não conseguem reprimir a perturbação pela imagem que passa diante dos seus olhos. Ainda que não tenham ido no encalço da vegetariana dieta, o espectáculo fúnebre da procissão das carcaças não será o idílico quadro para descerrar os alvores do dia.

Na diversidade dos povos, mudam as tradições, as culturas. Há os povos que não consomem porco, como os que entronizam vacas num altar sagrado. Há aqueles que, de espírito aberto, educam as papilas gustativas para uma variedade imensa de bichos. Os asiáticos são conhecidos pela sortida de animais que entram na sua dieta. Basta ir a Londres, ao Soho, para testemunhar a reprodução do ambiente gastronómico chinês. Nos restaurantes, as montras são oráculos que ostentam patos, galinhas, lulas gigantes. Todos em forma de cadáver, já cozinhados. Os patos e as galinhas de corpo inteiro, assim cozinhados, para estranheza dos ocidentais habituados a decepá-los antes de os deitarem no leito onde são cozinhados.

Já ouvi comentários de ocidentais horrorizados com estes hábitos asiáticos. E, no entanto, do alto do seu etnocentrismo indisfarçável, não lhes ocorre a bestialidade que é a procissão das carcaças de porcos seccionadas em duas metades no percurso curto entre o camião frigorífico e as portas do talho. Ao etnocentrismo adiciona-se a variante que aqui colhe proveito: o antropocentrismo que educa o Homem na sua superioridade, por ser o único dos animais na posse de faculdades racionais. Dizem: é a necessidade de sobrevivência que de nós faz seres carnívoros, que leva ao necessário sacrifício de animais que foram talhados para amesendar a nossa dieta. E porventura, pelo conforto do quadro mental, alguns participam na procissão das carcaças como se ali não houvesse o menor traço de selvajaria. Da selvajaria humana que, afinal, deprecia as intrínsecas qualidades de superioridade da espécie que os antropocêntricos militantes apregoam.

22.5.07

Esta é a verdade


Ouvi esta expressão da boca de uma eurodeputada comunista. À exaustão. Num discurso circular, cheio de redundâncias, cheio de desvios por assuntos que nem colaterais seriam para as perguntas colocadas. A retórica de sempre. Que tenta convencer a audiência pelo cansaço. Entrecortando o discurso com expressões chave que caem, bombásticas, despertando a atenção da audiência. Uma e outra vez, culminava o raciocínio sentenciando “esta é a verdade”. Não deixava margem de manobra a quem a tinha interrogado, por vezes com perguntas incómodas das quais tinha dificuldade em se desenvencilhar. Pedra sobre o assunto com a mágica expressão: “esta é a verdade”. Sem contraditório.

Debates assim são desequilibrados. Não espanta que os políticos se deliciem com estas discussões assimétricas, em que adoçam a boca da audiência com a possibilidade de levantarem interrogações, mas nunca contra-interrogações que seriam desconfortáveis e lá viriam abalar o pedestal onde suas excelências se colocam. Sobra o apaziguamento das consciências dos políticos: consideram-se escrutinados pelo público a quem é dada a hipótese de lavrar questões. Suspeito que esta é uma democracia pela metade. Sem contraditório, quem fica com a última palavra no bolso são os interrogados.

Debates assim são uma falácia: ao saberem que não vão ser contra-interrogados, os políticos sentem a pulsão de coroar as suas palavras com mentiras ou raciocínios que se distanciam do rigor. O público desinformado só retém as derradeiras palavras dos representantes da classe política. Quando elas vêm enfeitadas com sentenças incontestáveis (“esta é a verdade”), é como se fossem palavras debruadas por um manto divino, palavras insofismáveis. A verdade sem contestação. Aos políticos, a pedra derradeira que coroa “a verdade”.

Esta retórica afirmativa semeia um mar de dúvidas em mim. Quando alguém sente a necessidade de encerrar o discurso com a sentença assertiva que identifica “a verdade”, é porque algo está errado. Ou o discursante sabe que a verdade se situa algures, mas é conveniente distorcê-la para a trazer para a sua barricada, num mero oportunismo táctico que se afasta dos alvores da verdade (se é que ela existe…). Ou é um mero expediente retórico para hipnotizar a audiência, tratando de assegurar que as enfáticas palavras ditas (“esta é a verdade”) levam a mensagem ao destinatário. Levam-na embrulhada com a convicção das palavras fortes. O suficiente para dobrar as hesitações dos mais dúbios, conquistando adeptos para a causa.

Por sorte (que é desdita para os que enfeitam o discurso com fórmulas tão assertivas), há quem esteja informado. Há quem não esteja distraído. E quem não se deixe derrotar pelas palavras matraqueadas em sucessivas derivas do tema. A banha da cobra só a compra quem quer: os que estão convictos da sua terapêutica, os que andam aligeirados pela vida e se convencem da primeira patacoada oferecida, os distraídos. Não me espanta que a eurodeputada comunista tenha seguido pelos caminhos da “verdade” que é a que ela espalha, sem lugar a dissidências. Sei os pergaminhos democráticos dos camaradas, como são educados para não tolerar os que pensam de maneira diferente. Quem diz, de forma tão enfática, “esta é a verdade”, não contempla a hipótese de haver quem pense de maneira diferente. A senhora deveria dizer: “esta é a minha verdade”, ou “esta é a verdade como eu a vejo”. A fórmula faria a diferença.

Diante destes sacerdotes da verdade, sinto uma vontade indomável para tomar a via do antagonismo. Nem que seja por irracional reflexo, como se fosse um reflexo condicionado, atraído pelo lado contrário da verdade tão categórica. Há por aí cultores da verdade tão certeira – os comunistas, como alguns que de outras paragens pregam a verdade à sua maneira – sem admitirem (uns e outros) que alguém possa ver o mundo com outras lentes. Aos que crescem do alto da sua “autoridade intelectual” e garantem que “esta é a verdade”, a resposta que merecem é a provocante certeza que nada é verdadeiro, um lampejo da dolorosa (para eles) relativização de tudo.

Mas, no fundo, sinto comiseração dos comunistas que prosseguem o seu sacerdócio, quase em isolamento, quase órfãos. É sintomático quando a urgência em certificar “a verdade” é tanta. Nisso, não há grande diferença para os peões do culto das testemunhas de Jeová, também enfáticos na “verdade” que pregam. A única coisa que muda é “a verdade”.

21.5.07

O leão é o enxovalho do feminismo


É convenção adquirida: igualdade dos sexos, em tudo. E mesmo quando, num assomo de cavalheirismo, varonis personagens cedem a passagem às senhoras, logo são acusados de mergulhar nas catacumbas de antanho, quando os homens dominavam e as mulheres se submetiam. Hoje, as mulheres até vão à tropa (coitadas). Até no futebol já há mulheres que arbitram, pondo-se a jeito dos tradicionais impropérios da trupe. Elas gerem empresas, lideram países, comandam famílias. Que fique bem entendido: nada tenho contra, a não ser contra a existência da tropa.

Só que a natureza parece insubmissa aos ventos da modernidade. A natureza mostra-se inexpugnável aos imperativos da igualdade de género. É aqui que os documentários do National Geographic saltam do baú das memórias, para resgatar os episódios que retratam a vida dos leões. Imediatamente vem à memória o ritual da caça. São as leoas, em grupo, que cercam a vítima e a aniquilam com certeiras dentadas que seccionam a carótida. E, à medida que o animal caçado se esvai em sangue, indo com ele as últimas forças que trazem a despedida da vida, as fêmeas levantam-se. Lentamente, afastam-se para que venham os imponentes leões, ostentando a juba farta. A eles cabe o privilégio do primeiro manjar. Ficam com as partes nobres da caça. Às fêmeas, as sobras que foram deixadas para trás pelos insaciáveis machos.

Este verso da natureza encerra uma leitura equívoca. Pode querer mostrar que a causa feminista esbarra nas imbatíveis forças da natureza. Que são inquebrantáveis, imunes aos pregões que aspergem o politicamente correcto do momento. Nesta leitura, percebe-se que os machos deixam para as fêmeas a tarefa da caça, ficando com o privilégio de desbastar os troféus. Os machos chegam e as fêmeas recuam, resignadas, sabendo que a primeira dentada que arranca carne fresca pertence aos machos. É a sagração da superioridade masculina.

Há leitura alternativa, nada meritória do papel desempenhado pelos majestosos leões. São as leoas que se organizam para prover o sustento do grupo. E, apesar de se afastarem para que venham os machos exercer o privilégio da degustação das carnes suculentas, elas são entronizadas no papel mais importante. Sublinha-se o contraste: as leoas são as empreendedoras que trazem o sustento para casa, onde esperam os indolentes machos espreguiçados na juba que determina estatuto. Ainda que as leoas cedam lugar aos leões, só as aparências mostram a superioridade masculina. Quem traz a caça desempenha o importante papel de saciar a fome do grupo. São elas o alicerce do grupo. Pelo olhar alternativo, as leoas exercem o papel mais nobre dentro da estrutura familiar.

Ao descontar a leitura alternativa, dir-se-á que contra os mecanismos da natureza não pode a força de um milhão de acérrimas feministas reunidas em protesto audível. Mecanismos ancestrais, sem poderem ser mudados pela vontade humana. Incapaz de incutir nos leões um revolucionário espírito que os leve a caucionar um estatuto que traga dignidade para as fêmeas. Espírito aliás impotente para convencer as fêmeas de que são oprimidas pela deplorável superioridade masculina.

Já sei: as feministas, e os arautos do pensamento correcto, dirão que não é no reino animal que encontramos o termómetro que mede o progresso social, através da escala da igualdade dos sexos. Porque lá, no reino animal, vivem enquistados os seres irracionais. A irracionalidade explica o comportamento submisso das leoas. Não será de estranhar que as militantes feministas desviem o olhar do reino animal (mesmo que casos haja que podiam ser usados em favor da causa que defendem: é só lembrar como após o coito dos louva-a-deus a fêmea come – literalmente – o macho). O reino animal é pródigo em demonstrações incómodas para a igualdade de sexos que elas preconizam. Refugiando-se na irracionalidade do reino animal, as amazonas feministas obstruem outra vanguarda: a dos que, enclausurados na bioética, defendem a igualdade de direitos entre o Homem e os ditos animais irracionais. É interessante como duas vanguardas podem esbarrar entre si.

18.5.07

Preferia adivinhar os números do totoloto

As esquerdas já não são românticas?


Acompanho com enternecimento a polémica que envolve Paul Wolfowitz, presidente do Banco Mundial. Vem acusado de nepotismo. Terá favorecido a sua namorada, funcionária daquela organização, autorizando-lhe um salário astronómico. Wolfowitz já pediu desculpas em público, num acto de humildade que engrandece. Falta saber se não terá sido apenas um acto mais a juntar às encenações de que os políticos são capazes, com aprumo e mestria.

Houve nepotismo? Deve ser punido? Como? Abandonando a presidência do Banco Mundial? São as perguntas que não me trazem a este texto. Percebo que haja muitos abutres salpicando saliva do canto da boca, pedindo a cabeça de Wolfowitz. Vão ao baú das memórias: Wolfowitz foi um dos arquitectos da intervenção externa de Bush Jr. Esteve no âmago dos neoconservadores, com a visão unilateral e belicista do mundo, expoentes máximos dos Estados Unidos que tanto desagradam a tantos. Daqui o digo: é nutrida a antipatia pessoal pelos Estados Unidos. E se Wolfowitz representa o que representa, não há nada que me motive simpatia pela personagem. Só me recuso a alinhar no folclore do antiamericanismo primário. Por ser antiamericano por outras razões, e porque rejeito andar de mão dada com o oportunismo ideológico de amanhãs que cantam que, contudo, estão órfãos de tenor.

E percebo a urgência em decepar Wolfowitz: ainda carrega o lastro de ideólogo de Bush Jr. A queda de Wolfowitz é a derrota dos Estados Unidos. Seguindo a retórica destes justiceiros do mundo, é a vitória do bem contra a representação do mal. Dispenso o binómio simplista. Não quero, contudo, patrocinar o branqueamento do inaceitável nepotismo, ainda para mais vindo de quem devia dar o exemplo.

Afino agulha para o que interessa: as esquerdas perderam o norte ao romantismo? Convém explicar o contexto da interrogação: as esquerdas, em doses variáveis, sempre se apresentaram como penhoras de uma visão romântica da política e da sociedade. Sempre pródigas em enaltecer os valores humanos, depreciando o materialismo das relações humanas, mais um sinal de como o capitalismo selvagem e a globalização são tão nefastos. São essas esquerdas que exigem a demissão de Wolfowitz, aproveitando para cimentar a imagem de sacerdotisas da moralidade. Passam uma esponja pelas motivações que terão levado Wolfowitz a privilegiar uma funcionária do Banco Mundial com quem partilhava lençóis. Desvalorizam o acto heróico do presidente do Banco Mundial, que quis fazer prova de amor – ainda que tenha abusado do poder para o mostrar. É nepotismo? Será. Mas, não o podem as esquerdas negar, é também um romântico acto, o sinal maior dos laços que o prendem à senhora que passou a auferir um salário astronómico.

Wolfowitz foi um romântico no tempo errado, no local errado, no contexto errado. E teve um erro de análise, ao querer compensar os afectos através de salário generoso. Foi atraiçoado pelo Cupido que o atacou em força. Mas foi uma lição: de como devemos compensar as nossas amadas. Uns perdem a cabeça em prendas mirabolantes que os colocam financeiramente no prego. Outros puxam lustro à imaginação e presenteiam inesperadas viagens exóticas, ou inopinados poemas, ou um dia num spa para relaxamento terapêutico. A Wolfowitz só ocorreu torcer as regras para que a companheira tivesse alcavalas ilegítimas. Lá dirão os mais cáusticos que, afinal, o presidente do Banco Mundial caiu na armadilha dos afectos inquinados pelo valor material, pois a prenda repetia-se todos os meses na forma do chorudo cheque pelos serviços prestados.

Um detalhe insignificante, na minha maneira de ver. Às esquerdas não convém reconhecer o gesto impregnado de romantismo na louca acção de Wolfowitz. Elas, que tanto apregoam a igualdade, afinal tratam situações iguais de maneira desigual. São capazes de placidamente heroificar um sanguinário como Che Guevara, em nome de ideais que tresandam ao mesmo romantismo que conduziu Wolfowitz à humilhação de ser desmascarado em público. São romantismos diferentes, com motivações que divergem, como diferentes são os instrumentos. Em ambos os casos são líricas perspectivas do mundo que nos toca. Afinal Wolfowitz não matou ninguém quando caucionou o salário principesco à companheira. O mesmo não vale para Che Guevara.

Suspeito que esta caça às bruxas não passa de um ajuste de contas. Expoente do neoconservadorismo, Wolfowitz teve uma juventude de entrega aos ideais – tão cheios de romantismo – do trotskismo. O tempo amaciou o radicalismo e juntou muitos militantes da extrema-esquerda nas fileiras neoconservadoras que ajudaram Bush a conduzir os Estados Unidos. Talvez esse seja o pecado capital de Wolfowitz. O julgamento está na praça pública, para gáudio de algumas esquerdas que não perdoam que certas ovelhas se tenham tresmalhado, e de outras esquerdas que não perdem o ensejo de crucificar a demoníaca “América”. Esta é a hora do acerto de contas. Nem que haja que empalhar o ternurento e oportunista romantismo que distingue estas esquerdas. É só uma ligeira incoerência…

17.5.07

Vai estudar, malandro!


Pensei duas vezes antes de escrever este texto. Ele vai ser cáustico para as comissões de praxe, dux veteranorum e outros arcaísmos que abundam nas universidades. As palavras que se seguem poderão soar a moralismo. Daí a razão para a hesitação: odeio moralismos de qualquer espécie. Se acaso houver ressonância de moralismo, que se entenda que essa não foi a minha intenção.

Acontece que na vetusta Coimbra universitária houve mais praxes violentas. É recorrente. Costuma ser no início do ano lectivo, como mercê de socialização dos estudantes neófitos. Os patéticos “códigos” que regem a actividade da praxe prevêem a possibilidade dos caloiros se submeterem a praxe em qualquer momento até à queima das fitas. Foi o que aconteceu na semana passada, naquela que seria a última humilhação que alguns acatam com um plácido sorriso nos lábios. Como acontece às vezes, a praxe passou dos limites. Para azar dos carrascos, uma vítima denunciou os insuportáveis maus tratos. Terá sido agredido na cabeça, o que o fez receber tratamento hospitalar.

Ontem apareceu o focinho de uma criatura qualquer que tinha responsabilidades na “fiscalização da praxe”. Não percebi se seria um ilustre manda-chuva da comissão de praxe ou o dux veteranorum, essa figura emblemática das universidades, estatuto que os ditos ostentam com um orgulho sem que cheguem a perceber o ridículo em que mergulham. A criatura aparentava já ter entrado na terceira década de vida, daí a sua veterana condição. Falava com uma pesporrência grotesca. Começou por rejeitar as agressões que, “alegadamente”, teriam levado o caloiro à urgência do hospital. Para passar ao “registo oficial” da tourada: que sim, tinham rapado os pelos das pernas a alguns rapazes; que sim, até tinham rapado pelos púbicos a alguns. Com a naturalidade de quem vai ao café e pede uma água das pedras.

A criatura já tem idade para estar a trabalhar, em vez de andar a passear a sua condição de parasita social. Porventura é a ausência de discernimento – os brasileiros diriam que esta criatura “não se enxerga” – que o levou a descrever a disparatada praxe com um misto de naturalidade e bazófia. Não lhe ocorreu (e aos demais brincalhões) que a intimidade das pessoas é limite que não pode ser pisado, nem em nome da (pensam eles) sacrossanta praxe. Arrancar pelos púbicos aos infelizes caloiros? Quero acreditar que o álcool, que jorra com abundância nas veias destas lúdicas personagens que dedicam o seu tempo ao entretenimento e às “tradições académicas” em vez de fazerem aquilo que deles se espera (estudar), o álcool toldou o discernimento destes veteranos e fautores da praxe coimbrã.

Se nem a intimidade dos alunos resiste à avassaladora praxe, vou concluir que a praxe é uma coutada muito especial. Escapa às leis gerais. Todavia, esta conclusão não legitima os abusos da praxe. Tenho que confessar a embirração pessoal com praxes e anacronismos que, paradoxalmente, se procuram modernizar pela pior das razões – com os exageros de que se tem conhecimento, com a imbecilidade impensável, dando razão aos cépticos que acreditam que a criatividade humana está, na maior parte dos casos, ao serviço de maléficos desígnios.

Não posso deixar passar em branco um detalhe delicioso. Nas comissões de praxe costumam emergir os garbosos marialvas da universidade. Aqueles que se aproveitam da sinecura para se destacarem entre os seus pares, passeando a verborreia fácil como ingrediente para a conquista de donzelas que caem, com maior ou menor ingenuidade, na esparrela. E são os mesmos exemplares do másculo orgulho que se dedicam a arrancar pelos púbicos a desafortunados neófitos forçados a acatar a praxe caricata. Dou conta de alguma homossexualidade reprimida entre os máximos representantes da comissão da praxe, que se emprestam ao altar do orgulho masculino? Se fossem aquilo que apregoam, não se prestavam à tarefa ignóbil – e nada máscula – de furtar pelos públicos a estudantes do mesmo sexo.

O veterano que saiu em defesa da patética praxe discorria palavras vãs, sem dar conta que a cada palavra vomitada se afundava no precipício do absurdo. Como me doeu saber que um cêntimo que seja dos meus impostos subsidia o parasitismo deste e de outros comparsas do género. Que eles não percebam a indigência em que se colocam, é revelador da curteza de vistas. É problema deles. Eu cá não gosto de manter preguiçosos na indolência militante. E como aos sindicalistas e outros preguiçosos sociais digo “vai trabalhar malandro”, a estes folclóricos espécimes do meio universitário sobra o convite: “vai estudar, malandro”!

16.5.07

O terrorismo intelectual, é mesmo necessário?


O povo ajuíza que aos grandes males prescrevem-se grandes remédios. A democracia, ensinam-nos, é o governo do povo para o povo. Faz sentido que certas políticas públicas sejam o espelho da insensatez que costuma andar de braço dado com o povo. Só falta, um dia destes, a justiça ser inquinada por essa excrescência que se chama “justiça popular”. Até lá, vamo-nos entretendo com outras medidas gizadas com o compasso da brutalidade das gentes impreparadas.

Na última visita a Madrid deparei com três cenários fantasmagóricos montados em locais carismáticos: na Puerta del Sol, na Plaza Mayor e em frente ao Palácio Real, o aparato do que restava de acidentes rodoviários. O cenário retratava o mais ínfimo detalhe: um sapato de salto alto jazendo ao pé da porta dobrada do Jaguar, que embateu contra um Renault onde viajava uma família com um bebé cuja vida se salvou por ir instalado numa cadeirinha de segurança; uma luva ensanguentada do paramédico, deixada junto aos restos do Jaguar; os destroços de um BMW que se enfaixou num rail – e até pedaços do rail estavam junto da carcaça do veículo! – misturados com um telemóvel despedaçado. Que, reza a dramática mensagem, tinha sido responsável pelo acidente. Para o realismo ser completo, só falavam os corpos das vítimas.

A mensagem é subliminar. Perante a alta sinistralidade rodoviária, o melhor remédio é chocar as consciências. Espalhando o rescaldo de acidentes rodoviários, com um realismo arrepiante, uma frieza que actua como um seco soco no estômago de quem se abeira da dantesca encenação. Lá diria o povo, outra vez chamado a pronunciar-se: se não vai a bem, vai a mal. Através do choque de consciências de quem não consegue passar indiferente ao insólito que enfeita aqueles emblemáticos locais de Madrid. Decerto as autoridades tencionam colocar as imagens terríficas no subconsciente das pessoas que ali confluem – e são muitas, pela centralidade dos locais, por serem atracções turísticas.

Podem alguns achar que a medida não é desproporcionada. Há quem advogue que a elevada sinistralidade rodoviária é uma espécie de terrorismo, com vidas inocentes ceifadas pela imprevidência de alguns. Os que condescendem com a lancinante encenação instalada naquelas praças madrilenas, convocam o princípio, tão em moda, de que os meios hão-de justificar os fins. Dirão: se isto servir para baixar o número de mortos nas estradas, não há-de ter sido em vão. E se houver pessoas mais sensíveis, desconfortáveis com as terríveis imagens que reproduzem os acidentes, saibam elas que o mostruário de destruição terá salvado vidas se alguns passaram a ser mais prudentes ao volante.

Nos três locais, o cenário é uma crueza impressionante. Falta o cheiro dos fluidos dos automóveis espalhados pelo asfalto, o odor do sangue que escorre das vítimas ainda presas dentro dos ferros retorcidos. E a azáfama da polícia e dos paramédicos, mais as luzes das ambulâncias que emprestam um dramatismo maior ao acidente. Eu tomo isto como terrorismo intelectual. Ao mesmo tempo, denuncia a capitulação das autoridades. Como são incapazes de educar os condutores para comportamentos cívicos e de segurança na estrada (e tudo devia começar por um ensino capaz, não pela pedagogia dos mínimos que não prepara os condutores), atalham caminho concebendo campanhas que aterrorizam quem frequenta as estradas. Não será difícil imaginar o efeito: pesadelos nas mentes mais sensíveis, ou o regressar ao passado de um acidente que deixou marcas dolorosas, naqueles que já sofreram acidentes viários.

Está na moda o terrorismo intelectual. Os engenheiros sociais que o idealizam consideram que é a última instância para contrariar efeitos nefastos que atingiram dimensões consideráveis. Não interessa a imagem tenebrosa que os cidadãos são forçados a contemplar. As dores de consciência ficam a cargo de cada pessoa, com as reacções que variam com a sensibilidade que é tão subjectiva, tão heterogénea. As autoridades limitam-se a encenar o teatro do sangue e dos automóveis destinados à sucata.

Esta nova forma de arquitectura urbana, no afear das praças que são ex-líbris da cidade, serve para dissimular a verdadeira mensagem: que devemos obediência às autoridades, como se fôssemos um recatado rebanho cujo bem-estar depende da magnanimidade de quem manda. Uma alternativa para semear o terrorismo intelectual que sedimenta dependências. E que fortalece a autoridade de quem detém o poder. Lá no fundo, apenas um exibicionismo estulto, que se acerca do domínio do pornográfico.

15.5.07

As beldades não podem dar com ossos na cadeia


Uma rapariga famosa, filha de milionário e, consta, figura de proa do jet set mundial, anda a contas com a justiça. Ao que pude saber, lendo notícia do Público remetida para a secção das banalidades sociais, a menina é pródiga em tropeçar na justiça. Males de quem nasce em berço de ouro, recebe mimos em excesso em troca de nada de responsabilidade. A menina mimada anda com sérios problemas: pena de quarenta e cinco dias de cadeia para cumprir. Cadeia efectiva, não essa ficção da “pena suspensa” que apenas envergonha o cadastro onde fica registada.

Conta a notícia que a personagem foi apanhada ao volante do seu potente bólide. Isto não é crime. O mesmo não se dirá se a condutora estiver impedida de tomar as rédeas do volante, pois a carta de condução está apreendida. Porventura por confiar nas influências – o estulto brilho social que carrega consigo e as ligações do riquíssimo progenitor, acreditando que o dinheiro compra ilibações. Nas tintas para o crime de conduzir sem o poder fazer, mesmo sabendo que não seria por carência material que podia tirar partido de chauffeur e limusina. Para seu grande azar, uma brigada de trânsito estava no caminho. Prevaricou, duas vezes. A justiça foi célere e implacável: quarenta e cinco dias de reclusão, em espaço exíguo, sem a maquilhagem, as fatuidades costumeiras, as fatiotas bizarras com a assinatura do estilista do momento, os comportamentos aberrantes de estrela social.

Desenganem-se os que acreditaram que Paris Hilton se choramingou assim. Ninguém gosta de arrastar a solidão pela cadeia. Ninguém gosta de se ver privado da liberdade, mesmo os piores meliantes que têm consciência do elevado risco de verem amanhecer o sol partido pelos quadrados das grades quando reiteram no crime. A menina Hilton não será diferente do comum dos mortais. Só que a donzela espantou os espíritos desprevenidos. Terá confessado em tribunal que teimou em conduzir por acreditar que não seria apanhada em falso. E, mesmo que o fosse, o seu estatuto de patrona do vão estrelato social do planeta chegaria para alquebrar as rígidas dobradiças da justiça. Esqueceu-se que a justiça é cega – metáfora mais que simbólica que, sendo levada sem desvios, faz da justiça a coisa mais democrática de que há conhecimento, pois tubarões e pequenas sardinhas apanham pela mesma medida quando deixam o patamar da delinquência intuída e pisam o terreno do ilícito.

À menina Hilton saíram as voltas trocadas. O crime foi detectado. E julgado foi, com condenação sem mesuras. Os tais quarenta e cinco dias de enclausuramento, que é para a menina aprender que em sociedades que se vangloriam da sua superioridade, um dos esteios é a cegueira da justiça. Agora, em prantos, acha-se injustiçada. Que não pode, nem deve, dar com os ossos na prisão porque assim se ausenta um dos holofotes do mediatismo social, para grande desgosto de um numeroso séquito que lhe presta as devidas genuflexões. Perorou: o mundo há-de ficar acabrunhado e acidulado, porque nos longos dias de cárcere ficará privado da sua estonteante beleza.

Eu que, tão dado a estas coisas do mundo cor-de-rosa, se me cruzasse com Paris Hilton nem sabia que a cara condizia com o nome, declaro que os quarenta e cinco dias de reclusão não constituem sacrifício nem jejum de beleza feminina. Porém, registei a inovadora retórica: dir-se-ia que as beldades que emprestam brilho especial à estética teriam estatuto de privilégio, com a justiça dos mortais a passar ao seu lado. Como se a sua luzente beleza as investisse numa divina condição – e às deusas não se aplica a justiça terrena, pois não? Retumbante.

Da bizarria fica uma lição: a beleza de alguém passaria a ser bem público (caso vingasse a patética pretensão da menina Hilton). Por outras palavras: quem é agraciado com o dom da estética e enfeita revistas mundanas, devia merecer tratamento a condizer. Um atributo individual seria objecto de apropriação colectiva. Como se a beleza desarmante entrasse no rol do património público. A beleza cumpriria uma inestimável função social. Quantas pessoas, cegadas pela beleza imparável destas prima donas, se sentem reconfortadas ao saberem que há no mundo gente tão bonita? Uma multidão que se engalfinha para ver as sobredotadas da beleza passar entre os mastodônticos gorilas que impedem o acesso dos fãs às imediações do chão calcado pelos seus dóceis pés.

A menina Hilton padecerá de um patogénico ensimesmamento. Ou de um colossal apedeutismo. Ou de ambos. É nestas alturas que abdico da repulsa congénita ao ideário da igualdade: há momentos em que nenhuma condição especial chega para afugentar os incómodos ventos da justiça que leis com aplicação heterogénea. Nisso, os predestinados (ou os que disso se auto-convencem) são da mesma igualha da maralha.

14.5.07

Do “amor casto”


O que há de enternecedor nas visitas papais é a pregação do anacrónico. Que a igreja está cada vez mais desfasada da realidade, até um cego será capaz de sentir. E se a igreja anda alarmada pela crise de missões, pelo emagrecimento do rebanho, pela crise de missionários que se alistem para (continuar a) espalhar a fé, duvido que a retórica de sacristia bafienta seja a melhor estratégia.

Convém esclarecê-lo: não que me importe com o sucesso ou o fracasso do devir da igreja. É-me indiferente que a igreja católica compulse mais ou menos militantes. Ou que influencie mais ou menos um país que, por lei, é laico mas arreigadamente católico nos costumes, ainda que sancionados pelas autoridades que deviam fazer cumprir a lei que sanciona a separação entre Estado e confissões religiosas. Eis como as leis, uma vez mais, são feitas para o seu quotidiano atropelo. O anarquista que há em mim exulta quando as leis, espelho da autoridade do Estado, existem para o contínuo desrespeito. É a autoridade do Estado que se esvazia.

Regresso ao anacrónico catolicismo. Alguns comentadores têm sublinhado o retrocesso da igreja com a entronização do papa Bento XVI. Alegam que é mais conservador que os anteriores papas. Na linearidade do seu raciocínio, o facto de a igreja resvalar para o conservadorismo é um retrocesso. Declino o argumentário linear, o raciocínio simplista. Prefiro decifrar a retórica papal, os discursos de bispos e padres que vão tecendo a palavra da igreja – e produzindo doutrina que cimenta os dogmas que se impõem sobre o livre arbítrio dos crentes. Faço-o sem a tentação dos rótulos. Não me interessa saber se há mais ou menos conservadorismo na igreja católica, até porque esses rótulos costumam vir de braço dado com o oportunismo ideológico.

O papa anda em périplo pelo Brasil. Pregou a habitual moral católica, indicando aos jovens brasileiros o caminho da virtude: o “amor casto”. Que a igreja combata com denodo o hedonismo e a materialização dos afectos, compreende-se: a sublimação do espiritual não se compadece com a fatuidade do efémero. A entrega aos sentimentos que cultivam prazeres espirituais, isso sim, alimenta recompensas que se prolongam no tempo. Só que os sacerdotes passam ao lado do essencial, pela enésima vez: idealizam um mundo que é apenas isso mesmo, um ideal, tão utópico quanto divorciado da realidade. Pode ser essa a sua aspiração, convencer os jovens que o despojamento do sexo é fundamental para recuperar a primazia dos sentimentos genuínos. Não fosse uma pregação no deserto, e a igreja atingiria o objectivo: derrotaria então as forças demoníacas do hedonismo, do relativismo, do pérfido individualismo que amiúde degenera em autofágico egoísmo.

Lamentavelmente – para os desígnios da igreja – o mundo de hoje é uma imagem bem diferente da idealizada pelos sacerdotes. Podem aspirar a castrar a sexualidade dos jovens. Só não percebo se o fazem em nome de valores que interiorizam na sua dogmática (regressar à pureza dos sentimentos, com abdicação dos prazeres efémeros) ou em nome da consabida intrusão na esfera individual (perdurando a lógica de entrega do eu à causa da igreja). Seja como for, a mensagem que aconselha o “amor casto” significa uma castração dos jovens. Quase como se fosse uma castração química, que me pergunto se não é secretamente imposta a todos os que entram para o sacerdócio católico, convidados a abdicar dos prazeres carnais. (Claro que havia aqui lugar a um interlúdio, para recuperar estórias de padres de província que mantêm um secreto harém entre as beatas que se põem a jeito, na desigual relação entre o sacerdote e as devotas que se entregam; mas não é isso que está em causa.)

Debaixo dos seus paramentos, os curas continuam convencidos que podem interferir na vida íntima dos membros do rebanho. Há uma obediência imposta pela igreja: os fiéis devem respeito aos dogmas enunciados, devem pautar os comportamentos pelas ordens ditadas pelo papa e conselheiros. E mesmo que perorem sobre temas que, pelos mesmos preceitos que invocam, teoricamente desconhecem, não faz sentido semear a castração dos crentes. O que vale é que as hormonas dos jovens, mesmo dos arreigados católicos, falam mais alto. Sobra o patético apelo que nos traz de volta aos tempos de antanho, onde ainda não se falava da libertação sexual das pessoas.

Esta é uma igreja cheia de prisões mentais. Uma igreja que teima em invadir a intimidade dos fiéis, para cimentar a obediência destes e assim reforçar a sua autoridade. Ainda assim, a pregação papal por terras do Brasil trouxe um refrescamento das ideias: ao falar do amor casto, deixa espaço para os jovens se socorrerem dos prazeres carnais dos profissionais do sexo. É que o papa só invocou o “amor carnal”. Suponho que fora do amor, os prazeres da carne não sejam proibidos. Sem dar conta, eis a igreja na linha da frente da legalização da prostituição. Portanto, o papa Bento XVI não é assim tão conservador como o pintam.

11.5.07

A maior virtude? A capacidade de auto-sátira


Há dias assisti na RTP 2 a uma série de humor que me pôs a pensar sobre uma das maiores virtudes que uma pessoa pode ter. The Kumars é o nome da série. Percebi que se filia no estilo britcom, com o selo da BBC. Mas uma britcom especial: feita por actores de origem indiana, passava todo o tempo a satirizar os indianos. Era uma refinada auto-sátira.

Daí que me tenha posto a pensar na capacidade de auto-satirizar como uma das virtudes maiores. É preciso muita ginástica mental para o fazer. Nos tempos modernos, em que as cabeças bem pensantes ensinam aos seguidores que cada um de nós é intocável, como se fosse proibido sinalizar os podres ou as fraquezas que nos expõem à chacota alheia, há carência desse poder de encaixe. Só é permitido troçar dos outros; quando somos derriçados, fala mais alto a ofensa e, por vezes, a virulenta defesa de honra.

Os comediantes escarneciam de certos aspectos que formalizam a idiossincrasia indiana. Parodiavam com danças típicas, onde as mulheres ensaiam uma coreografia que, aprendia-se na comédia, era a antítese do erotismo. Um sketch dava pano para mangas a atarefados sociólogos: dois casais de origem indiana conviviam num meio social aburguesado, onde abundavam os trejeitos tão tipicamente britânicos. Para os de origem indiana era imperativa a inserção social, para que os outros os vissem como um deles, sem distinção de raça, cor, credo ou origem geográfica. Mas mais para que eles mesmos se convencessem que o fio que os prendia às raízes indianas era ténue, prestes a romper-se com a aceitação no meio social tão tipicamente britânico. A certa altura, um dos anfitriões fez chalaça usando o termo “asiáticos”. Ofendidos, os convidados indianos retiraram-se da festa. Indignados, despediram-se dizendo que não gostavam de ir a lugares frequentados por asiáticos.

Talvez sociólogos empenhados numa análise aprofundada do sketch chegassem a conclusões elaboradas. E denunciassem o desenraizamento dos indianos, que à força se queriam fazer passar por genuínos britânicos quando o não eram. Outros poderiam apelar ao emergente multiculturalismo, sublinhado como aquele sketch era o sinal dos tempos em que vivemos, a simbiose entre pessoas de múltiplas raças e cores, o autêntico melting pot que é a cidadania de certos países. Eu limito-me a interpretar o humor em toda a sua sublimação. E a aplaudir a capacidade dos actores indianos para folgarem com o que são. Só os espíritos acabrunhados conseguirão ver neste humor o desmerecimento das raízes, como uma esponja que zurze nas idiossincrasias de um povo.

A falta de poder de encaixe para satirizarmos de nós mesmos é um dos sinais da mesquinhez impante. Há coisas intocáveis; com elas é proibido brincar, absolutamente proibido. São as reminiscências de uma cultura entediante, sombria, cinzenta, acabrunhada. Sem se dar conta, a ausente auto-sátira é a imagem que cada um de nós constrói de si, elevado a um altar sagrado, quase como nos considerássemos deificadas entidades. Ainda somos dominados pela cultura do respeitinho, que se não for acatado pode levar por caminhos desagradáveis. Há cominação feroz para os que ousarem dissidir do respeitinho: a sugestão da animalesca violência que repõe, à força, o respeitinho no seu lugar.

Estes são tempos de muitas vacas sagradas, aparentemente imunes à sátira alheia. É a igreja católica, políticos que não encaram olimpicamente o humor que deles zurze, o lobby gay que acertadamente batalha pelos seus direitos e logo de seguida destila intolerância em relação a manifestações que consideram homofóbicas. Há dias li no El Pais que uma associação de defesa dos homossexuais se empenhou em proibir a segunda actuação de um artista em Barcelona devido ao conteúdo que deslizava frequentemente para a homofobia. Não sei se os homossexuais ganhariam mais respeito e simpatia (dos heterossexuais) se descobrissem poder de encaixe ao humor que os satiriza, sem chegar ao ponto de os desrespeitar. Quando se exige muito respeitinho e a gritaria ensurdece através dos protestos contra a sátira que saem à rua, é a razão que se esfuma.

Para mim, tudo é passível de sátira. Tudo, sem excepção. Só assim teremos oportunidade para sair do buraco que é a nossa vida quotidiana. É o ensejo para que o humor seja cultivado todos os dias, sabendo que hoje somos fautores do humor e amanhã poderemos ser os alvos da sátira de outros. Sem drama, nem sequer a patética reacção em defesa da honra, como se a sátira desonrasse alguém.

10.5.07

Masmorras mentais


Ensaios que se esboçam, pela redescoberta das palavras, a sua musicalidade. Embelezam-se, as palavras, mais que as ideias. E, no entanto, a impressão de que a mente anda em círculos. Esbarra sempre nas mesmas palavras, nas mesmas fórmulas, em ideias gastas. Ao que parece, há um cansaço que vem bater com os seus dedos. Em vez de encruzilhada, uma prisão: como se fosse um labirinto de onde não se consegue discernir saída.

O que há de perturbante é saber que todos temos os nossos quadros mentais. E ainda que alguns façam um esforço maior para contemplar abertura de espírito, de janelas abertas ao que é diferente pelo convencimento de que assim se alargam horizontes, vemos sempre as coisas por um certo ângulo. Depois sobram os enviesamentos. Somos formatados, queiramos ou não. E por essa formatação entregamo-nos nas masmorras, voluntárias ou imperceptíveis, que estreitam as vistas. É assim com as ideias, com as reacções espontâneas às situações banais da vida, às palavras entendidas como ofensa, aos olhares depreciativos, ou mesmo aos elogios.

Será pormenor saber que outras são as formas de ver as mesmas coisas, outras as leituras das ideias consoante mudem as lentes de que as ideias se socorrem. É a riqueza da pessoa, do mais alto da sua subjectividade. Por isso, absurdo falar de “pensamento único”, ou das algemas intelectuais que dissidentes julgam espalhar-se de forma tenebrosa, apoucando a maioridade que cimenta a liberdade de cada um. Podem as influências exercer-se, seja maior a autoridade intelectual de gurus que incendeiam causas onde se acolhem os militantes. Afortunadamente, há sempre alguém do outro lado da barricada. Quem recuse o alistamento nas masmorras mentais que destroem a liberdade dos que se entregam cegamente a uma causa. Esquecem-se os dissidentes que há um momento singular em que cada militante decide embarcar na corrente, entregando-se à causa. Um momento de exaltação da sua liberdade pessoal. Desmerecê-lo é atropelar a singularidade mental de cada um.

Por entre a desordem que se instalou, estranho as ideias que não subscrevo da mesma maneira que presto tributo aos seus sacerdotes. É sempre tempo para erguer interrogações. Interrogar as convicções que alicerçam as teias mentais onde estamos presos. E interrogar as ideias que alinhavam quadros diferentes, mentalmente descomprometidos para confrontar as ideias que sedimentam o que somos e aquelas em que não nos revemos. É o devir da maioridade mental, tarefa em constante renovação que exige a contínua interrogação da interioridade. O mergulho às entranhas pode resultar num apelo tonitruante a outros paradigmas. A mudar de quadro mental que tece os alinhavos dos passos que serão dados.

Não me desprendo da desarrumação mental. Haja monolitismo ou abertura de espírito à consagração de novos quadros, ainda e sempre uma masmorra mental que impera. Pode mudar a retórica, podem ser outros os pressupostos que coam a realidade, pode haver aceitação do que antes era rejeitado; há sempre aprisionamento pelas ideias concebidas, um esqueleto mental que pode mudar de ingredientes mas que é sempre a ossatura rígida da existência. Eu creio que a racionalidade da espécie humana é a sua prisão maior. Uma torturante asfixia, como se fosse amaldiçoada factura que a espécie humana suporta pela superioridade em que se investiu (no reino animal).

É o paradoxal deserto das ideias, das palavras que se arquitectam na reinvenção da escrita. Ora com a gratificante sensação de as ter, de as descobrir, como se fôssemos agraciados com o dom da gravidade mental – ainda que, sem darmos conta, ela se alije da originalidade; ora com a desagradável percepção que as masmorras mentais, quando levadas a extremos que encerram a insanável divergência, motivam a autofagia da espécie. As guerras, tragam mortes ou dolorosas inimizades, são o quadro vivo das masmorras mentais que se digladiam.

As prisões onde a mente se enclausura são um árido terreno onde fumegam fragmentos de actividade vulcânica, as tempestades cerebrais que muito prometem e que se saldam, as mais das vezes, por inócuas realizações. Eis o dilema para o qual não acho resposta: o traço indelével da maioridade intelectual vive aprisionado nas masmorras mentais. Ou de como a liberdade se encerra no seu contrário.

9.5.07

Extrema-esquerda e maus fígados


Aceito que há derrotas que custam a decantar. Percebo que haja gente com menos capacidade para deglutir decepções que vêm das urnas. Até compreendo a tentação de alguns, no ausente fair play eleitoral, que nem hesitam em elucubrar sobre a ignorância do povo que sancionou a vitória de quem não podia ser escolhido. Curiosamente, é mais pelas esquerdas que habitam personagens deste calibre. Daqueles que (só) gostam da democracia quando ela é benfazeja para os seus gostos particulares.

Apesar de descontar tudo isto – com uma dose elevada de indulgência por quem o faz – o que se tem passado nas ruas de cidades francesas em reacção à vitória de Sarkozy é deplorável. A mesma canalha que Sarkozy apelidou, quando a violência gratuita desceu às ruas dos subúrbios de Paris e destruiu tudo o que aparecia pela frente, renovou a sua fé violenta. Dirão os que toleram estas manifestações de descontentamento que se misturam com uma inaceitável violência: são franjas extremistas, as mesmas que estão de candeias às avessas com Sarkozy que outrora, ministro do interior, ordenou a carga policial contra a violência gratuita. Esses sectores, decerto alimentados pela decepção da derrota eleitoral, terão a tentação para esboçar arrevesadas teses que procuram explicar (e justificar) os actos dos violentos. Que interessa se, pelo caminho, a vontade da maioria é espezinhada? Que interessa se nesta eleição foram batidos recordes de participação, reforçando a legitimidade de quem chegou em primeiro lugar?

Faça-se a vontade a estas almas generosas que parecem tolerar a violência dos intolerantes. Encontrem-se os violentos entre a extrema-esquerda, portanto. Que a extrema-esquerda tem uma concepção muito particular de democracia, só será novidade para os distraídos. Já sei que os enamorados da esquerda caviar darão o seu melhor na arte da argumentação: dirão que o direito de manifestação que exprime a insatisfação pela escolha da maioria é legítimo. A liberdade de expressão é isso mesmo: a possibilidade de opinarmos contra a maré dominante, ainda que ela venha revestida do manto legitimador do voto. Poderia aqui entremear um parêntesis, para recordar que a extrema-esquerda não é penhora da liberdade de expressão – antes pelo contrário. Adiante. Mesmo que se entronize a liberdade de expressão, o bom senso aconselha ao recato quando não ficamos contentes com o resultado de uma eleição. Por respeito à maioria que votou nesse sentido. Senão, a democracia apregoada é um conceito vão, um mero engodo retórico que traz a extrema-esquerda para dentro do sistema partidário.

Estou ansioso pelas reacções da extrema-esquerda caseira. Como não se coibiram de mandar palpites durante a campanha eleitoral para as presidenciais francesas (como se fossem eleitores e interessados na escolha), estranha-se que tenham primado pelo silêncio agora que passam diante dos olhos imagens da violência estúpida patrocinada por alguns dos que se encontram do mesmo lado da barricada. Percebo a esquerda caviar: falar agora seria um incómodo. Ou porque teriam que concordar com as execráveis manifestações, caindo de seguida a máscara de intolerância que têm sabido disfarçar. Ou porque teriam que criticar estes actos de violência gratuita, mais a exibição de intolerância que dá provas do pulsar antidemocrático dos manifestantes, ficando aí órfãos de causas. Só que há silêncios comprometedores. Silêncios ruidosos. Este é o silêncio da extrema-esquerda lusitana.

E também estou ansioso pela próxima teorização sofisticada do Professor Boaventura, para gáudio da seita que o segue. Do alto da sua sociologia militante (e pouco científica), haverá lugar a complexas explicações que justificam a violência dos intolerantes e inculpam a maioria da população que não teve a sageza de votar na candidata que sempre seria o mal menor. Lá virá o Professor Boaventura sentenciar que os violentos não se sentem confortáveis ao saberem que o presidente do país onde vivem já os ofendeu em tempos, chamando-lhes “canalha”. E que isso justifica a violência e a intolerância.

Que o raciocínio não cause surpresa aos desatentos: pelos lados daquela seita, vinga o oportunismo de substituir as vítimas pelos culpados e vice-versa. Assim se cimentam ideologias que já estão no domínio da pós-pós-modernidade. E assim se joga no tabuleiro da desonestidade intelectual. Quanto ao resto, a gratificação de saber a dimensão da tolerância e o entendimento de democracia da extrema-esquerda. Por isso fico refastelado no sofá a ver a canalha a espalhar violência e, afinal, dar razão à maioria da população ter escolhido Sarkozy.

8.5.07

O que o fumo baço deixa ver


Saltavas do eléctrico em andamento. Não podias esperar que se detivesse na paragem, tanta a voragem pela vida. A adrenalina da juventude. E, no entanto, longos anos haviam passado desde que te despediste dos loucos tempos da adolescência. Que, em ti, tinham sido de uma perturbante quietude. Eras elogiado pelo remansoso mar em que navegavas, nos anos de profícuas experiências que renegaste. Eras o menino exemplar, o paradigma dos progenitores a quem nunca houvera mercê de inquietações. Só tarde reprovaste esses anos abúlicos. Só tarde houve a ânsia de reparar o erro. A descompasso com a idade, pouco complacente com desvarios extemporâneos.

Havia, nesses tempos de correria contra o mordaz tempo, uma lucidez inexplicável. Querias reter todos os poros das pessoas amadas. Querias tê-las entre ti, no teu regaço, saciá-las de beijos. Parecia que desconfiavas que o tempo se esgotava no dia seguinte e tudo em ti chamava a viver todos os instantes como se fossem os últimos. Sim, havia possessão. Os olhos eram um mar de chamas onde se deitava a intensidade dos sentimentos. Nunca percebias que a seriedade da entrega era conselheira da desfortuna. Só depois de impiedosas desilusões, o amadurecimento aterrou. Sem surpresa, o desassossego da alma trouxe um turbilhão de sensações, um amplexo torturante de reacções perante desditas e venturas. Da entrega ao desinteresse, um largo passo no limiar do precipício. Parece que houve em ti um esfriamento brutal, uma luz que se apagou para o que outrora luziu tão intenso. Do alto de ti, convencido que era coisa alternativa: nem desinteresse, nem domado fulgor; só a madura idade que vinga no fôlego do discernimento.

Desdém pelo passado, não que haja tentativa para o turvar. Nem fuga em frente, despojado de projectos, somente sequioso dos dias que ainda restam conhecer: a cortante curiosidade de ver o que eles trazem. Continuas a querer saltar dos eléctricos em andamento. Disse o progresso que o não farias: escasseiam os eléctricos e vês-te prisioneiro do carro. Das pessoas, dizes que te desenganaste. Cultivas a distância como método. E ainda que te recuses a desconfiar, ergues um alto muro que te traz uma arrogante aura inacessível. Há em ti as ondas do oceano que te apraz. Elas ecoam melodias que não ouves na praia, aquelas que imaginas nos sonhos que se entretecem nos sonos vagos.

Deitas-te a filosofar: como acreditas no pessimismo antropológico. Em momentos de diferente lucidez, interrogas-te se acaso essas convenções não são um artifício que edificas, um refúgio onde te sentes protegido. Mas não o lugar onde vives, nem as pessoas que te rodeiam. Serão as convenções que o conforto das ideias alimenta? A meio do exercício, a desorientação apodera-se. Partes em demanda dos montes e vales, da solidão da natureza agreste escondida em serranias alcantiladas. Lá buscarás, na solidão protectora vizinha dos penedos, matéria-prima para o apaziguamento das ideias que trovejam dentro da cabeça, que espalham uma feérica tempestade cerebral que te consome o sono. O sono atormentado.

Agora são outros os eléctricos que ousas saltar. Eléctricos mais altos, mais ruidosos, tentaculares nos desafios, eléctricos que às vezes viajam sem passageiros. E sem condutor. De resto, um vagão singular que sabes ser tu o timoneiro. As rosáceas perfumadas, segue-as entre o caminho incerto ao errares entre as veredas deslumbrantes onde se mistura o verde da vegetação com a bruma da manhã que tarda em levantar. É nessa luz baça que vagueias sem destino, apenas recolhendo as pétalas zurzidas pelo varapau dos pastores distraídos. Jazem entre as pedras espalhadas pelo caminho, as pétalas que ainda exalam o seu perfume inconfundível. Dirás que conseguias prosseguir de olhos fechados, imprimir o rumo do teu vagão no rasto das pétalas estendidas. Elas são o chão que desembacia o lugar incerto onde hás-de, por fim, desaguar. Lá onde, esperas, nidifique um vasto campo de flores, muitas as espécies de flores, na policromia que incensa os olhos. A luz deixará de ser baça – e mesmo que teime, a luz baça há-de emoldurar a clareza dos teus dedos que se passeiam diante dos olhos, ondeando os fragmentos esparsos que as páginas dobradas trazem à memória. Perceberás: o tempo perpetuado não cauciona arrependimentos. Nem há que viver depois o que não houve mister de levar no tempo devido.

À tua maneira, com a fluência diferente dos ponteiros do relógio que se apressam, hás-de teimar em saltar dos eléctricos em andamento, sem pesar os riscos que abraças. E aí descobres que queres eternizar a adolescente condição.

7.5.07

Ri de quê?


Há instantes que entram na intemporalidade. Momentos breves, mas com uma espessa intensidade, que dão corpo a imagens que ficam gravadas no que a memória nunca consegue apagar. Ontem tive um desses momentos. A declaração de derrota de Ségolène Royal.

Há que fazer um registo de interesses: nada me movia nas eleições presidenciais francesas, a não ser uma reacção destrutiva. Por um lado, como não sou eleitor em França nem o escolhido me governa, não me considero legitimado para esvair uma devotada militância como muitos sectores do politicamente correcto por cá fizeram. Por outro lado, o candidato escolhido não conseguiria motivar o meu voto, acaso fosse eleitor em França. Em terceiro lugar, estas eleições captaram alguma atenção apenas pelo gosto de ver a cândida pretendente socialista passar pelo crivo da humilhante derrota. Os seus compagnons de route lusitanos, na necessária solidariedade que a internacional socialista entoa, teceram infindáveis loas à senhora. Uma lufada de ar fresco, diziam. Não pelas ideias, apenas pela cosmética da senhora, o sorriso perene, a simpatia inesgotável; até, para alguns que se acercam da crise da meia-idade, havia em Ségolène Royal o charme discreto que, imagino, nutria sonhos eróticos. Eis toda a essência de uma candidatura que esgotou o manancial da artificialidade. Que me lembre, a senhora Royal foi a coisa mais postiça que a política conheceu.

Não consegui reprimir um gosto malévolo quando vi a declaração de derrota da senhora. Primeiro, porque perdeu (não porque o outro ganhou, que me é indiferente). E depois porque nem na hora da derrota “Ségo” (como era carinhosamente apelidada) se desprendeu daquele sorriso plástico. Ela lia as banalidades do costume e o sorriso permanecia, estóico, ofuscando a decepção que não posso deixar de acreditar que a consumia pelo interior. Disfarçava bem, ou a plasticidade do sorriso estava tão entranhada que, aposto, o sorriso seria o mesmo na improvável hipótese de sair vitoriosa. Continuava intacta aquela simpatia para arrebatar as emoções dos que acham que a política é mais imagem que ideias. Tinha sido tão bem treinada que nem à hora da derrota o chip se sintonizou para a frequência da desilusão.

Também podia acontecer que ela e os excitados apoiantes estivessem contentes com a derrota. Na engenharia eleitoral, há especialistas em transformar derrotas em vitórias. Ao bom estilo das vitórias morais que enchem as vitrinas do futebol nacional. Gosto particularmente da retórica do “perdemos, mas saímos de cabeça erguida”. Ontem, pela sede de campanha dos socialistas franceses, à hora em que a candidata assumia placidamente a derrota, apaniguados exultavam e urravam não sei bem porquê. Talvez ninguém lhes tivesse explicado que nestas eleições o segundo classificado é o grande perdedor, porque não há ninguém que fique atrás dele.

Porventura o enamoramento entre Ségolène e os seus dedicados apoiantes continuava. O idílio que anestesiou tanta gente continuava ao rubro, pois a senhora irradiava felicidade na hora da derrota. As suas palavras soltavam-se, misturadas com aquela simpatia contagiante que se pensava ser suficiente para mascarar a vacuidade da candidata. Ela tecia-se nas suas palavras, radiante, e os apoiantes gritavam um entusiasmo que é conhecido aos vitoriosos. Dirão alguns, mas condescendentes: aquilo era prova de um fair play que distingue a esquerda da direita. Até na derrota – continuarão esses tontos – Ségolène manteve a postura e encarou a derrota com normalidade, sem dramatismo. Lamentavelmente, alguns prosélitos socialistas (e outras excrescências situadas à extrema-esquerda) não deram prova dos mesmos bons fígados. Em algumas cidades perturbaram as comemorações dos que tinham algo para festejar. Eis como a imagem de plasticina, uma vez esboroada, deixa tudo à mostra: pode o sorriso fabricado da candidata disfarçar a decepção da derrota; podem os apoiantes que assistiam ao seu discurso mostrar um aparente fair play; que tudo se denuncia na rua, com os energúmenos que não aceitaram a derrota e ofenderam os que tinham o direito de celebrar a vitória. Assim se vê a cultura democrática dos socialistas.

Por mim, confesso o prazer malévolo em assistir da plateia a derrotas de socialistas que se passeiam com a sua superioridade inevitável. Como li em alguns vultos culturais da nossa praça que afirmam a sua pertença esquerdista, Ségolène “tinha que ganhar”. Era a vitória, ou a vitória. É perante esta pesporrência que me encho de contentamento quando os vejo a carpir as lágrimas da derrota. O mal é meu, do mau feitio que não me larga. É isso e uma das grandes frustrações da minha vida: por mais que me esforce, não consigo ser socialista.

4.5.07

Modismos (e os que rejeitam as modas não fazem uma moda?)


A entropia definhante: há por aí muita gente que sublima os sinais da derradeira moda. Há a roupa da moda, com os devaneios circulares que trazem os estilistas de regresso às modas passadas – parece-me, um laivo de imaginação esgotada. Há os autores e os pintores da moda, que podem escrever ou pintar banalidades merecedoras de aplauso unânime e valorização inflacionada. Há os músicos da moda, tantas vezes efémeros produtos da indústria musical, que depressa aparecem na ribalta e tão depressa vêm engavetar os alvores do esquecimento.

Em todos os registos, há curadores oficiais dos modismos. Falam e escrevem e influenciam comportamentos. Pessoas, aos magotes, são os carneiros do guru. Assim se giza a moda do momento. Passamos por elas com a levitação do tempo. Quando há tempo para resgatar as memórias emolduradas em fotografia, esboça-se um sorriso de desdém pelas figuras tolas de outrora. Eram modas de arromba, artefactos obrigatórios, um ritual que era sinal de socialização entre a tribo a que pertencíamos. E que ninguém venha dizer que nunca fez parte de uma tribo que tecia o cimento da identificação através destes pequenos sinais de socialização.

O mesmo vale para a música, os livros, os filmes que foram ícones no momento da estreia. Foram penhores do imaginário de tantos. Vinte anos depois, a sua revisitação traz perplexidade: como pude ouvir aquela música, ler aquele livro, ver aquele filme? Que identificação houve com estas performances que hoje, à distância do tempo e com a voragem dos padrões estéticos que se sucedem, soam a patético? É o momento em que a revisitação de tempos idos cauciona o gosto duvidoso de antanho. Sem sinal de arrependimento. Todas as coisas tiveram o seu tempo. A estética, para além de voraz, é volátil. Os modismos arremetem uns contra os outros, denunciam a trivialidade dos antecessores assim que um novo modismo ganha o seu espaço.

Os modismos são democracia em acção. São uma questão de maiorias. Se não há maiorias a prestar tributos aos ícones sagrados de um certo modismo, pelo menos há grupos numerosos que arregimentam à militância dedicada. Os sociólogos estão no seu altar preferido: os comportamentos de massas, o indivíduo que se desprende da sua individualidade quando sente a obrigação de engrossar a maré que o faz pertencer a um grupo. Os modismos são a proficiência do combate à solidão. Penhoram a identificação do ser com um colectivo. Não só são democráticos, são socializadores.

Há modismos que renego. Daqui confesso preconceito: contra modismos onde gravitam as massas, na cómoda massificação do saber, dos sabores, dos sons e das palavras, de qualquer estética que impõe sinais identitários. E, contudo, não consigo escapar ao alçapão dos modismos: há, em todo o movimento de recusa de um modismo, um modismo em potência. Um modismo diferente, que até pode não intuir um código de conduta ou de pertença, com os pequenos tiques que rotulam, as roupas que separam filiações, a música que define paradigmas. Pode haver entrega apaixonada a um modismo, fermentando a crítica dos que neles não se revêem: logo dirão, em tom reprovador de quem se alcunha moralista acima da média, que os desapossados de si em nome de um modismo retratam o esvaziamento de personalidade. É fácil esgrimir a crítica. E confortável, para os sacerdotes da mais elevada moralidade, aqueles que ungem com os seus dedos iluminados a benfazeja moral de que os tacanhos carecem.

Vivemos presos a modismos. Sejam os modismos das maiorias, os consumos culturais ou não que se instalam como padrão dominante. Sejam os movimentos alternativos, tantas vezes aparelhados pela fobia da dissidência, pela afirmação de um direito à diferença que nasce pela desidentificação dos modismos dominantes, ousando exibir trejeitos de superioridade; vejo-me neste grupo e não me repugna admitir que há sinais de identificação que assim se edificam, por antinomia aos modismos das massas. Não deixam de ser modismos, à sua maneira. Não deixam de aglutinar um rebanho de fiéis, que também sacralizam vasos de comunicação pelo código que constroem. Dependentes dos modismos, nem percebemos como se alastram entre nós, por dentro de nós, como insidiosamente se enraízam, correntes que aprisionam o livre arbítrio. Sobra a resignação. Mesmo para o individualista convicto, que pode desconfiar de todos os modismos, mas debica num deles aqui, noutro ali, fermentando o lastro de cada modismo tributado.

Estamos à mercê dos modismos. Uma das cicatrizes da socialização inevitável.

3.5.07

E o que é a felicidade?


Donde respingam as doces gotas vindas das nuvens suaves que se acastelam no céu. Donde há sorrisos fartos, não forçados, uma diferente natureza humana antitética da animalidade que campeia. Donde a racionalidade não tem peias nem se esconde em jogos florais, em simulacro. Donde as flores não morrem, o vento agreste não aleija, a chuva não é praguejada, os passos corridos no chão plano fazem deslizar os pés que não se cansam.

E há felicidade nos rostos das crianças. Será lugar-comum dizer que há, na alvura da sua pele, o repositório de toda a inocência. Será lugar-comum; e, porém, nunca as palavras assim repetidas chegam à exaustão dos sentidos. Porque são a imagem fidedigna de uma natureza humana que se adultera com os anos que passam. Neste contraste inspira-se a essência da felicidade, através da inocência pueril. O envelhecimento enrijece as carnes, dobra as ilusões tecidas num horizonte plácido. E assim que os vestígios de ingenuidade se despedem na perenidade do que já não regressa, entra a animalidade de supetão. Desconfiamos, rangemos os dentes, franzimos o sobrolho, vomitamos o intenso fel que nos corrói as veias. O divórcio da felicidade.

É nas pequenas coisas, nos pequenos gestos, que se insinua a lhaneza de ser feliz. Volta e meia, tropeçamos nas sinuosas curvas que teimamos em semear no meio da lânguida recta diante dos olhos. Cansamo-nos do bem-estar. A felicidade dói. Parece perder o sentido; e uma pulsão trágica acomete sobre nós, num mergulho pelo vertiginoso precipício. Ao tombar, um feixe de luzes traz o arrependimento. Tardio.

Afinal, simples é encontrar a senda da felicidade. Só há que olhar defronte, evitar derivas que desviam a atenção aos cadeados que agrilhoam à doentia câmara escura onde apenas as mãos conseguem tactear rugosas paredes. A felicidade é tudo o contrário do que teimamos em fazer, dia atrás dia, os meses todos do ano, até se consumir uma vida esbulhada. A felicidade é viver. É ter alguém ao nosso lado com têmpera para amparar mágoas quando elas teimam em gritar com estridência. E saber que a pessoa escolhida sabe que há em mim o seu esteio.

Nos pequenos gestos, grandes significados. Um beijo pode ser demiúrgico. Recriar o fôlego que renova a intensidade da vida. Andar por vales e montes, cruzar os ribeiros que trazem das alturas a frescura da água que bate nas rochas e retempera os enamorados de mão dada. Há no bucólico momento a singeleza das viagens compassadas, a intimidade que oxigena uma ternura indizível, que só se sente, não se descreve. Às vezes, o refúgio na solidão de uma divisão da casa não chega a ser solidão. Mesmo quando o espaço constrói uma longínqua parede, toda essa distância é uma ficção. Não vem acantonar a fortuna dos amantes que a lua irradia.

Interessa dissecar a felicidade, como se fosse possível detê-la entre os dedos? Há um elo com o vento: também se escapa entre as mãos, por mais férreas se encerrem ensaiando capturá-lo. A felicidade não é um roteiro, com mapa e tudo, nem há dádiva de uma bússola avisar os caminhos armadilhados pelos espinhos que sangram ou as avenidas deslumbrantes onde ela se sagra, triunfante. Nem é um projecto. É um estado de alma, no púlpito da subjectividade do que é sentido, e diferente, por cada mortal. Às vezes, contento-me com um dia luminoso. Ou com uma ave exótica que esvoaça bem alto, desenhando elipses na coreografia ao siar. Ou com meia dúzia de páginas de um livro, não importa se retemperador ou indiferente. Ou a música, que vagueia entre os antípodas ao sabor do espírito do momento. Às vezes, chega olhar-te ao longe e saber que estarás ao meu lado pela alvorada, no mágico instante em que o simples “bom dia” é a renovação de tudo. Há surpresas, as desagradáveis e as revelações. O canto onde estão guardadas as pessoas que são o país que habito, por elas habitarem, bem aconchegadas, nesse canto reservado. Em cada dia que passa, saber convocar o discernimento das coisas belas que importam. E varrer para o lado as outras, que entristecem, que angustiam, que enegrecem os dias que se querem claros.

Paradoxalmente, há carência de tristeza e lamentos e lágrimas. Mas só em contados episódios da vida, para não serem punhais lancinantes espetados na carne, que sangra. Paradoxalmente, precisamos da felicidade no seu contrário. Para não esquecer o que é a felicidade. E perceber que o dissídio é uma estúpida lança cravada, e bem fundo, no âmago que mais dói dentro de nós. A felicidade é o campo de flores que se estende, infinito, diante dos olhos. Lá, onde as colhemos e semeamos, para que o porvir não venha exaurido destas perfumadas flores que recriam a existência.