27.6.07

“Fazer sexo”?!


A inspiração vem daqui: “apanhada a fazer sexo com menor dentro de carro”. Aconteceu, como sempre acontecem estas coisas bizarras, nos Estados Unidos. São uma espécie de Entroncamento em ponto grande, o país onde os fenómenos mais insólitos ocorrem com uma frequência estonteante. E aconteceu, também, haver um jornalista que leu a notícia redigida em inglês e tratou de cair no alçapão da tradução literal.

Aposto que no original devia constar a expressão “make sex”. Não sendo especialista em filologia da língua inglesa, desconheço se “make sex” reproduz com rigor o que a expressão que significar. O que sei é que traduzir para “fazer sexo” resulta em algo estranho. O problema não é apenas do jornalista que pegou na notícia e cortou a eito, pondo uma tradução à letra. “Fazer sexo” é expressão que se lê e ouve com frequência. Por vezes, convém determo-nos nas palavras, nas fórmulas que resultam da sua articulação. Acho inusitado que alguém considere que “faz sexo”. Quando leio esta expressão, imediatamente assoma à superfície uma imagem pouco condizente com o que é o sexo. Quando alguém diz “faço sexo”, é como se o sexo fosse tratado como um processo produtivo, com matérias-primas e a frieza das coisas que se fabricam numa linha de montagem. O sexo fabricado.

“Fazer sexo” arrasta a impessoalidade do acto. Implica um processo mecânico. Ora o sexo não é um processo mecânico, é um acto humano. Quando somos bombardeados com o “fazer sexo”, é como se houvesse um manual de instruções – eu sei que os há, Kamasutra e quejandos – que ensine a juntar todos os ingredientes num cozinhado bem amanhado. E tudo seria treinado, maquinal, algo que uma engenharia qualquer teria o condão de dissecar em ciência exacta. Tive a tentação de asseverar: “fazer sexo” atira o acto para uma dimensão animal. Repensei a tese: há algo de animalesco no acto sexual; e mesmo os animais não fazem sexo, como se o “sexo” pudesse ser retratado como um martelo pneumático que avança, cadenciado, transformando as matérias-primas no produto final.

E depois há uma camada mais profunda: a etimologia de “sexo”. Tanto pode valer para o acto sexual como para o órgão sexual. Se for retido o significado de órgão sexual, empregar a expressão “fazer sexo” é um equívoco. Até parece que duas pessoas (ou mais…) que estejam a “fazer sexo” são operários de uma fábrica que produz os órgãos sexuais dos seres humanos. A ideia é bizarra, bem o sei. Tão bizarra quanto o é acalentado pela idiotia da expressão “fazer sexo”.

Curiosamente, terá sido uma distracção momentânea do fazedor da notícia (ou da sua tradução para a língua portuguesa). Logo a seguir, na narração do facto, nunca mais aparece a expressão “fazer sexo”. Primeiro está escrito que a senhora terá “sido apanhada em flagrante a ter relações sexuais com um rapaz de 14 anos, num carro”. Depois informa-se que uma patrulha da polícia que fazia a ronda “viu duas pessoas em pleno acto sexual”. Fiquei sossegado. Afinal não fazemos sexo; temos relações sexuais, praticamos o acto sexual. Ou, para sermos mais eloquentes, praticamos o coito. Também podemos ser prosaicos e descambar para a brejeirice popular, usando as imensas expressões que reproduzem o acto, desde as que fazem corar senhoras decentes e militantes da Opus Dei até às mais imaginativas, que se socorrem da riqueza metafórica da língua.

Os líricos do costume, que denunciam a impiedosa materialização das pessoas causada pelo incomodativo capitalismo e o seu braço contemporâneo (a globalização), estarão preparados para diagnosticar os sintomas do frequente uso da expressão “fazer sexo”. Dirão que o sexo se vulgarizou, em mais um sintoma do terrível hedonismo que anda de braço dado com a deriva individualista (que confundem com egoísmo). Dirão que a promiscuidade alimenta a transformação do sexo nisso mesmo, em “sexo” impessoal que quase se confunde com a satisfação de uma necessidade fisiológica. Esses puristas terão nos guardiães da moral religiosa aliados preciosos. Estes hão-de continuar a batalhar pela associação necessária entre “sexo” e “amor”, apontando o dedo ao “fazer sexo” como mais um sinal de como a prática do dito se banalizou. Não haverá quem falte para denunciar a pornografia, a prostituição, o tráfico de “carne branca” como sinais de como andamos por aí a “fazer sexo”.

Por mim, deixo os impetuosos censores entregues à árdua tarefa de vigiarem a consciência alheia. Mais mundano, apenas considero que quem diz ou escreve “fazer sexo” está dominado pelo facilitismo da tradução de “make sex”. Sem elaboradas interpretações bem ao jeito dos profissionais que se afadigam em mostrar que há chifres na cabeça do cavalo.

1 comentário:

AV disse...

Aterrorizam-me estes donos da moral que pululam nos States (não só, mas sobretudo lá), quase tanto como o fenómeno da pedofilia galopante. Não conheço os pormenores do caso nem as pessoas envolvidas - teria que saber muito mais sobre eles para formar uma opinião - mas, em linhas gerais, acho que dificilmente se pode considerar o sexo entre dois seres de 14 e 22 anos como um acto pedófilo. Até em Portugal, este país de brandos costumes, aos 14 anos já se sabe muito, hoje em dia. É pena, sim, eu também acho que é muito cedo, mas é mesmo assim. Além disso, a iniciação sexual de um rapazinho de 14 anos (se é que era o caso, e quando não foi feita antes) pode ser mais saudável e menos traumatizante com uma rapariga de 22 anos do que com uma da mesma idade, que também não está preparada para isso.
Estejamos atentos aos predadores sexuais de crianças e adolescentes, sem dúvida, mas não confundamos as coisas. Nem tudo é o que pode parecer.

AV
www.portadovento.blogspot.com