8.8.07

Moda, últimas tendências


As reviravoltas da moda não cessam de me surpreender. Há sempre mais um adereço, uma conjugação impensável de vestuário, ou o regresso a modismos datados (no que poderá ser a confissão, pelo silêncio, da ausente imaginação momentânea dos “estilistas”) que fazem a derradeira cambalhota do sector. Como dizem, o “último grito da moda”.

Diante destes gritos, confesso a minha surdez. No máximo, sou infectado quando os olhos, distraidamente, escorregam para fotografias publicadas numa revista de segunda ordem que a intrepidez estival atraiçoa. É só ver como as “figuras públicas” ousam na fatiota envergada, arrojando para além do crível. Trajam combinações obtusas que, em pessoas normais – e por isto quero significar qualquer anónimo – logo fariam soltar um farto sorriso aos demais, de permeio com a sentença irreprimível que diagnostica algum ensandecimento. Mas, nas “figuras públicas”, qualquer roupa fica bem. Ainda que seja o derradeiro exercício da moda impensável. Por estar acamada no corpo de tão mediática personagem, logo se entroniza na condição de vanguarda da moda.

Eu, que renego manifestações de conservadorismo, encontro aqui o refúgio que alberga a excepção à regra. Não que o imobilismo deva vingar nas roupas que vestimos. Há ocasiões em que o refrescamento do vestuário exige mudanças, daquelas que não entram no catálogo das mudanças radicais, fautoras de vistosas passagens de modelos que mostram o lado obscuro da moda – aquele lado das vestimentas que desfilam em passerelles e que jamais voltam a ser presenciadas no corpo dos comuns mortais. O que me perturba é o estalão diferenciado quando os apreciadores da coisa deitam os olhos ao vestuário que engalana personagens sobre as quais recaem os holofotes do mediatismo. Quando esboçam roupa arrojada, ou para me aproximar da linguagem comum, estranha, ninguém sentencia a reprovação que seria célere se a mesma roupa viesse cobrir o corpo de um anónimo qualquer.

Dá para divertir, ao menos. Dedilhar aquelas páginas onde desfilam os ícones que encantam o imaginário dos adeptos do mundo cor-de-rosa, é um sucedâneo de uma bem-disposta banda desenhada que tem o condão de atirar o humor para os píncaros. É lá que dou de caras com um jovem que arribou ao estrelato social acompanhado por calças esburacadas, camisola de alças e uma despropositada gravata de um vermelho viçoso, nó descaído até ao nível dos mamilos. Rio-me, mesmo sem especial atracção por palhaços. Umas páginas adiante, entra em cena um futebolista retirado que agora campeia pelo universo cor-de-rosa. Fotografado numa festa muito “in” (que convém usar o linguajar específico da seita). Numa fotografia a três quartos, dir-se-ia que a festa era solene, a atestar pela fatiota de ocasião: fato e gravata, colete incluído, gravata a preceito. A fotografia seguinte retoma o contacto com a moda de fusão: o calçado que coroa a fatiota consta de umas sapatilhas Nike que ofuscariam o automobilista desprevenido em plena noite no meio de uma estrada sem iluminação, a atestar pela intensa cor prateada que delas irradia.

Ainda bem que lhes é dado o ensejo de entreterem assim as massas. Alguns, aspirantes ao mesmo papel desempenhado pelas figuras que atingiram os píncaros do estrelato, aplaudem com entusiasmo o arrojo da moda mostrado pelos seus ícones. O meu conselho é que não desistam dos sonhos, que o mercado cor-de-rosa do mediatismo social está agora democratizado, perdeu os laivos plutocráticos de outrora. Aos que não se revêem na coisa, a especialidade tem predicados lúdicos. Nos tempos mortos, quando a leitura à mão se esgotou de fio a pavio e apenas sobram as páginas que ornamentam o reservadíssimo universo cor-de-rosa, ou quando demoramos num consultório médico e só restam as revistas daquela cor para matar o tempo que separa do atendimento pelo afamado clínico. A higiene mental não me aconselha visitas frequentes a esta espécie de “imprensa”. Duas vezes por ano, não mais, para que as sonoras gargalhadas que as páginas alimentam não se confundam com um patológico viciar no registo.

Ontem confessei frustração por não conseguir simpatizar com o PS. Hoje confesso outra frustração: nunca ter entrado para o mundo da moda – em qualquer das suas variantes. Quanto mais não fosse para fazer parte das trupes que vagueiam de festa em festa, exalando todo o seu glamour. E depois fazer uma paragem na padaria que abre as portas dos fundos aos que saciam a fome com o pão quente acabado de sair do forno, onde continuam a exibir os traços de glamour com as roupas que só os predestinados da moda ousam envergar e com os tiques que só eles sabem gorjear. Tratando os “amigos” por “você”, enquanto se dirigem displicentemente ao padeiro por “tu”, entre mais um trago no flute de Moet et Chandon, esbofeteando os presentes – os vulgares – com a pulseira azul-bebé gritando as palavras “Moet et Chandon” a ouro gravadas. Para todos os vulgares saberem que as criaturas regressavam de uma deslumbrante festa patrocinada pela afamada marca de champanhe.

Ou: sobre o vómito em andas humanas.

1 comentário:

ana vidal disse...

Muito, muito bom.
Este texto é o all in one do nosso pretenso jet set, que nem a cinco chega. Parabéns.