28.12.07

O altruísmo do senhor cardeal


O maior problema da humanidade é a negação de Deus”, cardeal patriarca de Lisboa, na homilia da missa de natal.

É tocante saber que o dignitário maior da igreja de Roma se preocupa tanto com os extravios dos ateus. Comovente sabê-lo atormentado com os desvalidos da fé. Este altruísmo quase seria o convite decisivo para que um ateu volte a abraçar a fé. Falta perguntar ao senhor cardeal se o seu altruísmo não é interessado: abraçar de novo uma fé, mas de preferência a religião de que ele é sacerdote maior? É que, nesse caso, cai a máscara do altruísmo.

Ao início fiquei intrigado com as palavras ditas na homilia da missa natalícia. Porque estaria o cardeal, em plena missa, a assegurar que o maior problema da humanidade está na negação de deus se, diante dele, a audiência comunga a crença em deus? Depois aterrei da minha ingenuidade: as sábias palavras proferidas pelo cardeal ecoam na comunicação social. Elas extravasam as paredes do templo onde foram ditas. Não tinham como destinatários os membros do rebanho que se deslocaram ao templo para se alimentarem na sapiência das palavras do cardeal. O senhor cardeal dirigia-se àqueles que estavam fora do templo, àqueles que estão sempre fora de qualquer templo. Uma seta dirigida à consciência deste rebanho de ovelhas tresmalhadas. Convocando-as a deixarem de ser tresmalhadas, pois enquanto o são andam aos trambolhões por entre a negação da evidência metafísica.

Apetece-me dizer que o cardeal devia arregimentar os fiéis para outros combates. É a própria igreja que o reconhece: os tempos modernos são pouco favoráveis ao alistamento das almas no catolicismo. O que deve causar preocupação nas cúpulas da igreja é a debandada de fiéis, que o deixam de ser e engrossam o numeroso rebanho das ovelhas tresmalhadas. Afinal, o discurso do cardeal talvez não se dirigisse aos ateus; os destinatários seriam os que se deixam possuir pelas dúvidas metafísicas, interrogando-se sobre os dogmas que alicerçam a fé, equacionando a possibilidade de abdicar da sua fé. As palavras do cardeal são um apelo desesperado à contenção da cerca onde se acantona o rebanho dos fiéis. Um grito lancinante: lá fora, onde erram os perigosos lobos do ateísmo, ausenta-se a bonomia que só a admissão de deus cauciona, ausenta-se a paz de espírito dos que entregam o destino nas mãos do omnipresente e bondoso deus.

Novo retrocesso na hermenêutica da homilia do senhor cardeal: ao de leve que seja, as sábias palavras batem na face dos ateus. Quando assevera que a negação de deus é o maior problema da humanidade, não hão-de os ateus sentir-se atingidos? Foi nesta interrogação que me encerrei. Havia duas hipóteses de reacção. Podia fazer ouvidos de mercador, deixar ecoar o provérbio popular que relembra que “palavras de louco não chegam ao céu” (descontando a óbvia conotação religiosa, adejando a pouco confortável leveza do adágio). Ou podia condoer-me com o discurso da eminência eclesiástica, protestar a indignação ao sentir-me ofendido com a desqualificação.

A primeira hipótese é a mais lógica. Um ateu não reconhece a autoridade do cardeal. As suas palavras são uma espuma que se dilui na sua opacidade. Mas, logo de seguida, o espírito debate-se na sua contradição: como pode um ateu ignorar aquelas palavras? Ponto de ordem: elas não são ofensivas. Adivinho que muitos ateus hão-de rotular a ousadia do cardeal como delito de opinião. Eu acho que se trata do direito de opinião que não pode ser negado ao senhor cardeal. Despidas do lado ofensivo, aquelas palavras não podem deixar de motivar uma reflexão em alguém que afirma o seu ateísmo. Têm o condão de reforçar o ateísmo, de alongar mais ainda a distância que separa um ateu de qualquer religião. Mostram como a igreja não aprende com os erros do passado e cai na vertigem de os repetir. O que está em causa é o respeito devido às convicções (melhor dizendo: à ausência delas) dos ateus. E a teimosia em invadir a consciência das pessoas – mas deste vício não consegue escapar a igreja, faz parte da sua natureza.

Percebo a confusão mental que o ateísmo provoca nas labirínticas mentes do cardeal e dos seus subordinados. Só que um ateu – e aqui falo por mim; não subscrevo a perseguição anticlerical de muitos profetas do ateísmo – respeita as crenças e todas as religiões. Não acreditando em deus, aceita quem acredite. E mesmo que tente provar a inexistência de deus – metodologicamente, tarefa mais fácil que a prova da existência de deus – não está a escrever o roteiro obrigatório para todas as pessoas se sentirem obrigadas a renegarem deus. Está a opinar. Tal como o senhor cardeal decidir fazer no meio da homilia.

Pela parte que me toca, fiquei sensibilizado com o altruísmo do senhor cardeal. Reconfortado ao saber que o padre-mor faz as suas rezas diárias que me poderão levar à reconversão, finalmente ao lugar onde todas as amarguras são diluídas na fortaleza da fé, da fé que dá resposta a tudo. Porém: a teimosia na intrusão nos meandros da consciência individual continua – para além da negação de deus – a colocar-me nos antípodas de quem é o seu embaixador na terra. Pela parte que me toca, as palavras do senhor cardeal produzem um efeito contrário ao que ele quis.

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