30.4.08

Desarranjo ortográfico


Vai grande a tempestade por causa do novo ortográfico que vai uniformizar a norma da escrita em português. Uma divisão em duas metades: os que são favoráveis ao acordo, os que são seus detractores. Mesmo entre os especialistas da língua se esgrimem argumentos favoráveis e contrários. É salutar que haja assim tanta divisão na sociedade. Pelo menos, aplaca o doentio “consenso” que nos convida a um acrítico consentimento de soluções pensadas por iluminados.

Os que investem furiosamente contra o acordo ortográfico escudam-se em dois argumentos. O argumento conservador: estamos habituados a uma determinada grafia, não faz sentido reaprendermos uma nova grafia que exige libertar amarras mentais tão enraizadas. Este argumento anda de braço dado com o segundo: ao que consta, as soluções do novo acordo ortográfico selam a capitulação do “português de Portugal” face ao “português do Brasil”. O que é inadmissível, no fervor nacionalista que recusa a capitulação diante dos bárbaros que colonizámos e que tiveram a ousadia de reinventar uma nova grafia, uma maneira alterada de escrever e falar a língua. (Desconto aqui o implausível argumento de oposição ao acordo baseado na patética necessidade de atirarmos os livros todos para o lixo, pois estarão desactualizados quando o acordo entrar em vigor. Não o considero por destoar de uma discussão lúcida e intelectualmente honesta.)

Não me revejo no argumento conservador. A língua evolui com as necessidades, a entrada de novas palavras no léxico, a aceitação de estrangeirismos, novos maneirismos que remetem palavras para o anacronismo. A língua é viva e, como tal, aberta a reconfigurações de norma. Pode-se discutir se cabe ao legislador - aos legisladores dos países de língua oficial portuguesa - impor por decreto uma norma única, ou se seria mais razoável acolher a diversidade de usos e costumes que consagram diferentes formas de escrever e falar nos países de língua oficial portuguesa. Se a uniformização não será um colete de forças que aniquila as especificidades da língua naqueles países, com a agravante de mexer com sensibilidades, pois há-de sempre haver (como se vê por cá) quem veja no acordo uma cedência ao Brasil. Apenas ao que interessa: a língua viva, que carece de adaptações à medida que o tempo passa. Nenhuma geração pode ter a pretensão de emoldurar a língua e fechá-la à evolução natural, ou adiar a evolução para gerações vindouras. Este argumento conservador - “estou habituado a escrever assim e assado e não é agora que vou mudar” - esgota-se no seu conservadorismo sem sentido. Se assim fosse, ainda hoje escreveríamos determinadas palavras com “ph” em vez de “f”.

Quanto à suposta capitulação face aos interesses do Brasil, soa-me a preconceito xenófobo. E mesmo que seja ausente a simpatia em relação ao arquétipo do brasileiro - aquela bazófia inconsequente, o gozo em fazer anedotas em que o português é achincalhado, uma certa sobranceria que revela um chauvinismo em forma terceiro-mundista - não custa reconhecer que os brasileiros souberam reinventar a língua, dar-lhe vestes mais imaginativas, desprendê-la de um hermetismo que o português nativo tem dificuldade em se libertar. Haverá algum mal em alterar a língua e pô-la de acordo com uma norma que seja mais eficaz? Haverá algum problema em chegar à humildade intelectual e reconhecer que os brasileiros sabem tratar melhor a língua, apesar de todos os preconceitos que teimam em considerar que no Brasil a língua portuguesa é destratada?

Ao que vejo, um acordo ortográfico tem nenhuma importância. Estes são tempos em que vingam as elaboradas teorias dos pedagogos, teorias que só eles têm capacidade para perceber. Ora, se agora se defende, entre os cultores das ciências da educação, que ao ensinar a língua não se deve penalizar as criancinhas se derem erros ortográficos, nem sequer corrigir esses erros, que sentido faz um acordo ortográfico? Os especialistas da pedagogia são os grandes inimigos dos linguistas. Os esforços destes em revelarem uma norma límpida esboroam-se nas avançadas teorias dos pedagogos. E se há uma ministra da educação que grita de pulmões abertos que os alunos não devem, não podem, reprovar, para quê exigir tanto de um acordo ortográfico?

Se calhar, o que tem lógica é haver uma norma ortográfica por cada falante de português. Até porque se vê, na literatura, como a língua é reinventada (Saramago e a ausência de pontuação, por exemplo). Até porque os mais jovens, a geração SMS, só sabe escrever por sinais - quase como se fossem sinais de fumo, numa linguagem codificada que parece finlandês para quem não esteja habituado a ela. Até porque há educadoras de infância que, ao ensinarem os rudimentos da leitura e da escrita às criancinhas, ensinam-nas logo a escorregar para os pontapés na gramática (o que dizer quando na sala de aula do infantário está exposto o cartaz assim escrito: “iniciação á leitura”?).

29.4.08

Quem depura as ideias do incrível senhor ministro das agricultura?


Entre a brigada de cromos que pertence ao governo, o ministro da agricultura não é dos piores. Nestes anos todos, destacou-se quando disparou contra o líder do CDS numa pugna provocada por contundentes acusações contra o ministério da agricultura por não pagar atempadamente um dos inúmeros subsídios com que os agricultores são agraciados. O ministro Jaime Silva defendeu-se com as armas que encontrou a jeito: em vez de responder às acusações, enredou-se num chiste de putativo bom gosto acerca do milagroso caiar da dentadura do político que o havia criticado.

De resto, passara discreto entre os colegas mais habituados a coincidir palavras com disparates. Até que lhe calhou em sorte pertencer ao grupo, ao alargado grupo, dos membros do governo com declarações estrambóticas. Tudo por causa de uma daquelas acções de fiscalização deveras apertada que descobre um alimento, uma substância ou outra coisa que ameaça a saúde pública. Os vigilantes da saúde alheia não se cansam de levar para laboratório mil e um produtos, testando a compatibilidade com o organismo humano. À mínima desconfiança de alergias e intoxicações, não se repetem os testes: suspende-se a venda do produto. A enorme cautela confunde-se com um arremedo de autoritarismo. Faz parte do património genético deste governo, a sua têmpera autoritária. Em vez de provas irrefutáveis, chegam suspeitas aligeiradas para tomar decisões bombásticas. Tão bombásticas são as proibições que são o amor de perdição destes socialistas curadores da nossa saúde e da nossa segurança.

Alguém desconfiou de uma substância chamada depuralina. Ao que fomos informados, um suplemento alimentar tomado por obesos em tentativa de controlo de peso. Meia dúzia de pessoas foram parar ao hospital. Suspeitava-se de efeitos secundários da depuralina. A amostra tão restrita foi tomada como ameaça à saúde pública. Acontece amiúde: confundir a árvore com a floresta. O que nem sequer chega a ser perturbante, entre a seita que agora manda, é como há decisões que sancionam a falta de rigor científico que é confundir a árvore com a floresta. Também há pessoas que são alérgicas aos lacticínios - e devem o leite e seus derivados ser proibidos?

Quase um mês depois de ter sido espalhado o alarme entre os habituais consumidores da substância, os cérebros do ministério da agricultura deram conta que o alarmismo era infundado. Levantaram a suspensão da venda da depuralina. Os súbditos assistiram da poltrona aos dois pesos, duas medidas em que os engenheiros sociais são pródigos. O ruído ensurdecedor invadiu o espaço público quando a proibição, a tão adorada proibição, foi comunicada. Assertivamente comunicada, para todos sabermos quem manda e quem obedece. Em contraste com a saída de sendeiro, silenciosa e pela porta dos fundos, no anúncio de que afinal a depuralina não faz mal a ninguém. A depuralina, tal como qualquer outro alimento, pode provocar reacções alérgicas. Mas quem admite, no seu juízo, suspender a comercialização de todos os alimentos?

Quase trinta dias depois da mão de ferro do ministro da agricultura, tudo regressa à forma original. Sem humildade do ministério, que não admite o erro de apreciação. Pedidos de desculpa - às empresas que vendem o produto, às farmácias e ervanárias que o comercializam, às pessoas que estavam habituadas a tomá-lo, entretanto remetidas a dias de alarme, a todos os demais que foram testemunhas da leviandade de um organismo que devia ser mais rigoroso na exibição da sacrossanta autoridade - pedidos de desculpa, nenhuns. As empresas que vendem a depuralina estão a pensar em sentar o Estado no banco dos réus, reclamando uma indemnização. Só me espanta como ainda estejam a reflectir sobre a hipótese. Estão à espera de quê?

O incrível ministro da agricultura foi confrontado por um batalhão de jornalistas de microfone em punho. Queriam uma reacção de sua excelência. Palavra alguma acerca do erro de análise dos serviços que ele tutela. Os súbditos hão-de compreender: assim como assim, nos serviços trabalham comuns mortais, tão falíveis como qualquer humano. As autoridades nunca podem apresentar pedidos de desculpa. Não só lhes caem os parentes à lama, como esse exercício de humildade intelectual haveria de ser visto como uma diminuição da sua imarcescível autoridade. Sua excelência o ministro ainda teve tempo de enviar um recado a quem o quis ouvir: não faz sentido pensar-se em indemnizações, ó tola ideia.

Ontem aprendi. Que afinal há governantes que estão a leste do paraíso. Governantes, mas desconhecedores de uma matriz do Estado de direito que governam. Alguém devia ensinar ao senhor ministro da agricultura o princípio segundo o qual a cada macaco o seu galho: o poder político não interfere com os tribunais e vice versa. Ainda nem sequer o pedido de indemnização entrou em tribunal, mas sua alteza o ministro já se substituiu aos juízes que hão-de julgar o pedido, sentenciando a sua improcedência.

Talvez o ministro devesse tomar depuralina. Para o seu toldado discernimento se depurar.

28.4.08

O indispensável


Patologias sem remissão. Uma estranha forma de olhar para o mundo, uma estranha maneira de se olhar para si mesmo que não é ajudada pelo espelho traiçoeiro que teima em enviar sinais da predestinada condição. Um caso de doentio protagonismo. Uma doentia sede de protagonismo, mesmo depois de revés atrás de revés, mesmo depois de só ele não perceber que não está fadado para o papel em que se julga investido por um improvável segredo divino.

E, contudo, Santana Lopes é de uma persistência admirável. Não se cansa de sentir o lombo vergastado pela crítica impiedosa. Eu olho em redor e só vejo um deserto de admiradores. Diria que ele é o seu único, e portanto maior, admirador. O que não percebe, ou ninguém alguma vez terá tido a franqueza de lho notar, é a tremenda falta de jeito para a arte em que, uma vez e outra mais, insiste em aparecer como personagem principal. E aparece. Sem perceber que por vezes as personagens distinguem-se pelo que de mau emprestam à arte.

A patogenia de Santana deve trazer psicólogos e psiquiatras embrulhados em dilemas que nesta altura paralisam a ciência. Haverá dia em que a ciência desatará os seus nós, quando os cientistas por fim tiverem solução para o enigmático caso Santana. Num sítio normal, com personagens cientes do que é o decoro, Santana já tinha encerrado a carreira política. Talvez seja o único a não perceber que o seu enorme feito foi ter entregue em bandeja de ouro uma maioria absoluta nas mãos do PS. Talvez ainda não tenha percebido, passados estes anos após a retumbante derrota, que foi o involuntário abono de família da subida ao poder do medíocre que lá se encontra. Não é brilhante desempenho ser o fautor da vitória de um medíocre seu adversário.

Santana avisara, quando se despediu da liderança do seu partido: ele ia andar por aí. A assombrar, digo eu, as hostes do PSD com a possibilidade de algum dia ressuscitar da tumba onde, fosse este um país decente, já estaria definitivamente enterrado. Pelo contrário. Com uma incrível visão - aliás uma visão que só ele consegue alcançar, na infinita presciência de diagnosticar o improvável - Santana leu uma vez mais nas estrelas: a vitória de Berlusconi em Itália, o sinal inequívoco de que a sua carreira tinha que ser resgatada. Só não explicou por onde se tecem as pontes que autorizam a comparação entre a sua pessoa e a do populista que foi eleito primeiro-ministro italiano. Uma daquelas conclusões que só o fantástico Santana consegue alcançar.

Agora (re)candidata-se à liderança do PSD, numa reincarnação de si mesmo. Já não bastava o PSD ser o sucedâneo de um programa televisivo de humor; Santana dá o golpe de misericórdia, reduzindo os Monty Python ao amadorismo do humor. Nem sequer carece de elaborada explicação para se perceber o inusitado da candidatura. Os socialistas, e Sócrates em particular, estarão em campo a manobrar muito na sombra para que Santana recupere a liderança do PSD. Na repetição das últimas eleições legislativas, com os mesmos actores, quem arriscaria apostar um resultado diferente?

O caso patogénico mergulha nas águas da patetice ao observar a relação tumultuosa entre Santana e a comunicação social. Santana queixa-se da má imprensa que tem. Mas a imprensa, a impiedosa imprensa, não se cansa de lhe fazer a corte. Acerca-se dele a toda a hora, de microfone estendido, ansiosa pelas palavras que Santana tem a dizer sobre tudo e mais alguma coisa. É uma relação de amor-ódio. Santana e a imprensa não passam um sem o outro. Apesar de Santana tanto se queixar de ser maltratado; e apesar da imprensa não se cansar de satirizar a personagem. Só que sem a imprensa, mesmo a má imprensa (ou apesar da má imprensa), Santana cai no esquecimento, deixa de existir como actor político. Aposta na comiseração típica do portuguesinho, que se alia aos coitadinhos - e por isso Santana gosta de fazer o beicinho do injustiçado pela imprensa. E a imprensa deleita-se com os disparates usuais de Santana, ciente que o dislate vende.

Esta relação de amor-ódio reproduz a faceta que mais distingue Santana. A imprensa sempre em redor de Santana, como na adolescência procurávamos o palhaço da companhia para efeitos lúdicos. É o efeito circense. Para chegar ao Santana palhaço. O indispensável palhaço.

25.4.08

E o que é a liberdade?


Liberdade é quando eu posso fazer o que quero”, criança anónima, num infantário no Porto.

O cartaz afixado à entrada do infantário reproduzia as respostas das crianças quando lhes foi perguntado: “o que é a liberdade?”. Descontando as respostas que prenunciam os adultos de amanhã - os lugares comuns a que estamos habituados quando a correcção da moda impõe os seus parâmetros - e descontando uma resposta que rompia com a normalidade fixada (“liberdade é quando sou expulso”!), foi aquela resposta que ficou na retina.

Na sua inocência, a criança não entendeu que há uma diferença abissal entre o que formulamos no terreno idílico dos desejos e o que se torna possível. Há-de provar o amargo sabor da liberdade possível, de uma liberdade que se mascara de si mesma. Há-de crescer, perder a ingenuidade e, ao crescer, serão numerosas as oportunidades para perceber que a liberdade é uma outra coisa qualquer. Não o que ela agora julga ser. Terá muitas decepções enquanto aflorarem os vestígios desta ingenuidade desarmante. A menos que cresça depressa, à medida que for suportando as dores trazidas pela desilusão da liberdade condicionada, da liberdade travestida, da liberdade em distorção de si mesma. Será juiz supremo das gerações anteriores que destruíram a sua tão elevada ilusão de liberdade. Sentá-las-á no banco dos réus, acusadas da perversão dos padrões, da liberdade enfim pervertida - aquela que desfila diante dos seus olhos, a decepcionante liberdade que tolhe os movimentos.

Haverá quem discorde da candura da criança que postulou liberdade daquela maneira. Dirão que nunca a liberdade pode ter a latitude formulada pela criança. Que só o desconhecimento do mundo, e da vida, acalenta tanta ingenuidade. Uma liberdade assim é uma liberdade impossível. Porque seria um labirinto de liberdades sobrepostas, um emaranhado de conflitos, as liberdades de muitos atropelando-se nas liberdades de outros tantos na expressão de interesses de sinal contrário. Contraponho, em defesa da criança: a liberdade vem precedida da responsabilidade. É seu pressuposto. Aos que estranharem a extensa liberdade definida pela criança, porventura o sinal dos tempos: a exaltação de uma liberdade que se fica pela metade, uma embriaguez de direitos deixando os deveres sempre endossados a outrem. A pesada factura da responsabilidade, que os costumes instituídos convidam a abdicar.

A interiorização da responsabilidade individual revela o sentido da liberdade redescoberta pela criança. De cada vez que somos estorvos à responsabilidade que nos cabe, à responsabilidade pelos actos que cometemos, pisamos o alarme da liberdade. Somos fautores da enviesada liberdade. E entregamo-nos numa imprudente avenida: os que exercem o poder ficam com um pretexto para cercear liberdades individuais, no paradoxal objectivo de preservar as liberdades de todos. A retórica compensa, a julgar pela adesão das pessoas ao jogo eleitoral que sanciona a mão pesada das autoridades que não hesitam em esmagar as liberdades individuais com o pretexto de salvar a liberdade de todos. Uma espada que corta a eito, esboroando a teia de liberdades que os antepassados foram deixando como património genético de uma cidadania de emancipação.

Cedemos à vontade dos sacerdotes das liberdades reprimidas. Porventura, essa é uma ingenuidade maior que a ingenuidade de que viria acusada a criança que postulou a liberdade como o acto de fazer o que quiser fazer, quando quiser fazer, sem peias que não sejam as ditadas pela sua consciência. A cedência em nome de uma miragem: ao prescindirmos de um quinhão da liberdade individual, convencidos que as liberdades de todos se saldam reforçadas, nem damos conta que é na esfera individual que as liberdades se sentem. E não damos conta que uma liberdade condicionada é a sua negação.

Diante das fétidas liberdades que nos são agraciadas - como se as liberdades não fossem inatas à pessoa - rejubilei ao ler aquela frase no cartaz alusivo à data que hoje se celebra. Não é a liberdade torcionária de uns, ou a liberdade com muitas redes e espelhos de outros. Apetecia obrigar os fautores do comportamento desviante das liberdades a uma visita forçada ao infantário, só para se deterem, por alguns minutos, diante do cartaz onde estava vertida, a letras que soam a ouro, a genuína definição de liberdade. Podia ser que aprendessem.

24.4.08

Peixe fora da água (um portuense desidentificado)


Nasci no Porto. Tirando um interregno de dois anos, sempre foi a minha cidade. A cidade que, como cidade, como coisa física, me enternece. Há aquelas imagens que a celebrizam pelo mundo fora, o casario amontoado numa vertiginosa descida rumo às águas do Douro, que embevecem turistas e acalentam o orgulho dos nativos ao serem testemunhas daquele embevecimento. E o rio, outrora furioso, mas agora domado pelas barragens que selam o progresso, como a obra humana consegue domesticar a poderosa natureza.

E, contudo, há vezes em que me sinto forasteiro na minha cidade. Há vezes em que a bazófia dos nativos traz até a mim os sedimentos de um forasteiro que não se revê na idiossincrasia que vinga. Dizem que o Porto é a cidade invicta. Com garbo. Diria, até: com soberba. A condição invicta, o burgo que jamais foi franqueado por hordas de invasores, semeia altivez entre os portuenses.

Valeria a pena deitar o olhar sobre esta soberba, a atracção pelo abismo que é viver agarrado aos vestígios legados pelas narrativas da História. Dir-me-ão: a têmpera de um povo é feita da espessura dos tempos imemoriais, das sucessivas gerações que construíram, destruíram e reedificaram uma cidade. Os traços de uma personalidade colectiva que são transmitidos de geração em geração, de pessoa em pessoa. Ser-me-á permitida a discordância, a metódica discordância: as generalizações são um escorregadio terreno onde as falsificações se entretecem. Sou incapaz de compreender os diagnósticos tão assertivos sobre o “sentir colectivo”, como se todos os indivíduos fossem reconduzidos a um arquétipo de onde não há mercê de escapar, nem dissidência admissível. Faz-me lembrar os tonitruantes astrólogos e similares que desfiam uma sabedoria implacável que acantona todas as pessoas a uma dúzia de grupos - os signos -, numa cristalização que arremete contra a rica diversidade que são as pessoas.

A sobranceria portuense apresenta-se na sua inanidade. O Porto é a invicta cidade; e depois? Que nos diz isso sobre a cidade, sobre os seus habitantes? Traz-lhes especiais predicados, uma aura invencível herdada pela genética, só porque os antepassados que por cá viveram tiveram a arte de manter a cidade inexpugnável a todos os invasores? E, ainda que o seja, o que ganha a cidade em incessantemente enfatizar o atributo? Eis a soberba que se esfrega na face dos outros, dos que não tiveram a honra de nascer portuenses, ou daqueles que entretanto adquiriram a condição de portuense pelos laços afectivos que se foram assimilando. Na invocação da invicta condição há uma afirmação para o exterior, uma vaidosa agressão aos inditosos que escaparam ao privilégio portuense. Como quem esfrega no rosto dos demais (e sabe-se quem são os visados: os inimigos que dão alento à capital tão centralista) que há quem se gabe de nunca ter sido dominado por gente estranha, feito de que aos outros, pela sua franqueza inata, é coisa estranha.

E, porém, as pessoas não se dão conta da contradição em que se encerram ao elogiar a invicta condição da cidade. Será a recusa dos tempos modernos, dos tempos em que vinga o hedonismo que remete os prazeres do espírito para o reduto da arqueologia. É uma cidade invicta que tece loas ao seu virginal estatuto. Uma cidade frígida. Surpreendentemente nórdica, uma ilha no meio da mediterrânica natureza das terras semeadas no sul da Europa. Será o frio granítico que empresta esta frigidez. E um rumo sem sintonia com os tempos de agora, quando tanto se gaba o que as pessoas aprendem com se abrem aos outros, os que vêm de fora. A constante invocação do Porto invicto é um alçapão onde se deitam os nativos convencidos da sua distinta natureza, como se a invicta condição trouxesse algo de nobre, um traço que os outros teriam necessariamente que invejar. Este ensimesmamento traz ao Porto a letargia de uma cidade fechada sobre si.

Com sequelas: é esta sobranceria portuense (diria, “portista”, no seu fundamentalismo irreprimível) mentora de uma violência verbal que só tem fátua grandeza. Alimenta rivalidades espúrias. O que sobra da invicta condição enaltecida à exaustão é um ódio visceral contra a centralista Lisboa. Um contra-senso na pequenez da portugalidade e no seu contexto histórico - há que o lembrar, o país europeu com as fronteiras inalteráveis há mais tempo, um país pacífico, sem tensões étnicas ou regionais, excepto as artificialmente alimentadas por ostentações gratuitas de regionalismo sem significado.

É nestas alturas que descubro em mim o portuense desidentificado.

23.4.08

O que têm em comum Danica Patrick e Carme Chacón (e, já agora, Manuela Ferreira Leite…)?

Danica Patrick venceu uma prova da IRL - o equivalente à Fórmula 1 nos Estados Unidos. Foi a primeira dama a conseguir o feito. Na Europa não temos nenhuma senhora a ombrear com os loucos cavaleiros do asfalto. Nisto, os Estados Unidos estão na vanguarda e devem merecer das ásperas feministas os maiores encómios, o exemplo para o outro lado do Atlântico. A prova que não são as menores capacidades físicas que impedem o sexo feminino de chegar aos triunfos numa competição que se julga feita à medida dos homens.

Serve também para destruir o mito de que as mulheres são aselhas ao volante. Faz parte da mitologia urbana contemporânea: vamos nas ruas e vemos, lá à frente, um automóvel a fazer asneira da grossa. E intuímos: deve ser uma senhora. Segundos mais tarde, quando passamos ao lado do aselha que entretanto passa o vexame da reprovação mediada por um coro de buzinadelas, a confirmação: “só podia ser uma mulher…”. Danica Patrick, uma franzina menina, é o estandarte do sexo feminino capaz de rivalizar com os coriáceos pilotos na arte de domar infernais máquinas com mais de oitocentos cavalos. Não é para o comum dos mortais. Só para os que têm um dom especial. Ela é a prova cabal que também há mulheres investidas neste dom. Por confirmar ficam as teorias que asseveram que só os homens sabem da poda. E as teorias que se socorrem da fisiologia para demonstrar que as mulheres têm apetência para a desconcentração quando são visitadas pela menstruação mensal. Se isso fosse verdade, Danica Patrick não poderia correr algumas vezes.

Carme Chacón é a nova ministra de defesa espanhola. Primeira exaltação dos enamorados pela esquerda modernaça cujo papado é pertença de Zapatero, e das feministas sem remissão: um demorado aplauso pela coragem de nomear uma mulher para tutelar a tropa. Os generais passam a dever respeito a uma mulher. Sinal dos tempos. Seria imaginável que a vetusta instituição castrense fosse obrigada a ficar em sentido perante uma mulher? E ver as tropas hirtas e solenes em parada, prestando vassalagem a uma mulher que, com o ar grave da ocasião, passa revista às tropas? Para adensar a ousada decisão, a senhora ministra está grávida de sete meses. Combinem-se os dois aspectos - uma ministra da tropa e as fotografias da ministra pançuda passando revista às tropas - e compreende-se a exaltação dos sectores que se deixam levar pela aragem modernaça que a coisa transpira.

Que adianta protestar contra a política que tudo empenha nos sinais exteriores que são o refúgio da inanidade? Os aplausos demoram-se, sem que a audiência extasiada dê um passo atrás e pergunte se a pessoa tem perfil para ser ministra da defesa. Pelo que me informei, não terá. Também, nos dias que correm, os ministros disto ou daquilo nem têm que perceber da poda. Basta rodearem-se de competentes assessores que lhes fazem a política. O ministro limita-se a dar a cara, a ser o porta-voz qualificado pelo dom da retórica que anestesia as massas. É enternecedor ver como uma decisão ousada, potencialmente chocante (para os costumes), recebe tantos encómios e é logo sinalizada como prova do arejamento dos tempos. Eu diria que esta é a prova acabada de que hoje governar é só uma encenação. E, pela encenação, a demissão da democracia servida na bandeja da ilusão em que o eleitorado é convidado a embarcar.

Terceiro acto: a democracia indígena terá por fim o seu acto de maioridade (na perspectiva da igualdade de género) se Manuela Ferreira Leite conseguir ganhar a corrida para a liderança do maior partido da oposição. Depois de amanhã a democracia celebra o trigésimo quarto aniversário. Chega à maioridade com dezasseis anos de atraso - e isto no pressuposto dos militantes daquele partido se convencerem dos méritos da candidata. Os ventos da vanguarda da igualdade de sexos sopram na direcção do Portugal dos conservadores costumes, e logo num partido tão abraçado ao conservadorismo. Socialistas com inveja? Sócrates que se acautele.

E anda meio mundo excitado com a emergência de tantas mulheres (faltaria falar da senadora Clinton, mas não me apetece). Vangloria-se o feito de Danica Patrick, esquecendo que nos distantes anos oitenta Michelle Mouton venceu o campeonato do mundo de ralis (certo: tinha melhor carro que a concorrência). E que na mesma altura houve uma mulher que conseguiu ser primeira-ministra no Reino Unido (certo: uma “mulher de calças” que provoca incómodo na causa feminista por ter sido responsável pelo regresso ao conservadorismo que não é do agrado das vanguardas feministas). Nada do que se proclama como sinal do arejamento dos tempos é inédito.

Porventura por uma incapacidade de compreensão que me corrói, não percebo este discurso que teima em manter acesa uma guerra dos sexos. Como se os sexos resumissem características exclusivas, como se todas as mulheres fossem iguais e todos os homens fossem iguais. Este hermetismo incomoda-me. Posso, por exemplo, confessar que tenho o que se convencionou chamar “sexto sentido feminino” sem ter que suportar comentários jocosos (dos marialvas) ou a incredulidade militante (das militantes feministas)?

Tempos modernos. Vingam as mulheres. Vinguem as mulheres. Assim como assim, os cépticos eternamente insatisfeitos com o andar do mundo não terão hesitação em apontar o dedo ao sexo masculino que tem tido os cordelinhos do mundo desde tempos imemoriais. Como dizia o escritor, gosto tanto de mulheres que se reencarnasse mulher, seria lésbica. Ou - e só então - feminista.
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22.4.08

Caridade socializada?


Chego, através do blogue Ladrões de bicicletas, ao manual da recusa da filantropia dos ricos. É que está na moda a caridade dos ricaços, que decidem constituir fundações milionárias para onde vertem uma percentagem - decerto ínfima - das suas imensas fortunas. Do blogue Ladrões de bicicletas chegam cinco razões para que a esquerda seja contra esta caridade. Destaco as que me parecem mais incompreensíveis no plano da argumentação.

Em primeiro lugar, argumenta-se que a filantropia “corrói a democracia. Por que devem ser os mais ricos a definir as prioridades sociais? Devem ser os governos eleitos, impondo sistemas fiscais realmente progressivos, a decidir”. Para quem milita na esquerda radical, decidir sobre o património dos outros pertence ao registo da normalidade. A fortuna que uma pessoa acumula ficaria exposta às decisões dos políticos eleitos. Em vez da iniciativa privada - que tanto lesa as sensibilidades da esquerda radical - a caridade seria um exclusivo das políticas sociais postas em marcha pelo Estado. O instrumento? Impostos progressivos, muito progressivos, para que as grandes fortunas fossem compelidas a pagar impostos muito elevados. Dispensava-se a generosidade dos capitalistas cercados de abastança. Os impostos que eles teriam que pagar substituíam a sua generosidade.

Primeiro: a aversão à iniciativa privada explica muito desta posição. Não há vacinas que consigam impedir a reacção alérgica. Segundo: a desconfiança metódica do lucro - esse mal tão hediondo. Há uma alergia, diria religiosamente consistente, contra o lucro. Pelo menos contra os lucros que alimentam grandes fortunas. O problema não será tanto a obscenidade do lucro - obscenidade considerada pelos adversários do capitalismo. O mal está na acumulação de lucros imensos. Sobra uma pergunta: a partir de quando o lucro acumulado entra no limiar da imensidão, passando a pertencer às abjecções que só podem ser corrigidas pela milagrosa mão dos políticos dotados de uma sapiência infindável? Quando é o lucro tolerado e a partir de que dimensão ganha contornos pornográficos?

Terceira observação: o que me deixa desnorteado é a defesa de uma posição que aceita com naturalidade que os ricos sejam proibidos de fazer caridade com parte dos lucros que conseguem gerar. As proibições denotam a espessura de quem as defende. Quando os motivos vêm com a âncora da desconfiança do lucro, dos capitalistas eternos opressores dos trabalhadores e da restante retórica conspirativa, entra-se no terreno onde a discussão é entre surdos. Eis a perplexidade maior: acusam-se os detentores do capital de só quererem acumular riqueza, do alto da sua insensibilidade social. Quando um deles quer ser generoso - e, para já, não discuto se a generosidade é espontânea ou ditada por uma qualquer estratégia - cai sobre ele o opróbrio de querer ditar as preferências sociais através das opções que escolhe para a sua generosidade. Lá diz o adágio: “preso por ter cão e preso por não ter”.

Quarta observação: então se for uma cidadão não abastado a decidir fazer caridade, aí já deixam de funcionar as motivações para a socialização da filantropia? É que o anónimo cidadão não tem segundas intenções com o acto caritativo. Assim se depreende de outra das razões perfiladas contra a filantropia dos ricos: “na forma como é muitas vezes condicionada (p.e. obrigação de compra de determinados produtos e serviços), a filantropia não passa de marketing”. Não sei se as fundações dos abastados são assim tão nocivas ao ponto de fazerem depender a generosidade da aquisição daquilo que eles produzem. O que me provoca confusão é pensar-se que um rico não possa destinar o dinheiro que alimenta a filantropia. Duas perguntas: censura-se Champalimaud por ter deixado em testamento a vontade de constituir uma fundação vocacionada para a investigação médica avançada? Onde está a perfídia da Fundação Gulbenkian, que faz mais pela cultura e pela investigação científica que os ministérios que tutelam os sectores?

Registo que desta esquerda vêm à superfície manifestações que são a negação da sacrossanta igualdade que tanto apregoa. Se todos temos direito a uma religiosa igualdade, como se pode negar o direito à caridade aos “nefandos” capitalistas? Afinal, a caridade não é um direito ao acesso de todos. A desconfiança metódica que a militante teoria da conspiração alimenta é o portão vedado à filantropia dos ricos. E a armadilha onde, afinal, se descobre que nem todos são iguais.

Quanto ao resto, sobra o preconceito - e, conceda-se, todos temos direito ao preconceito. É o que resulta de argumentos como o que considera que a generosidade dos ricos “impõe atitudes pró-mercado, com consequências não esperadas”, sem se explicar porquê; ou de um lapidar “legitima e cristaliza a crescente desigualdade na distribuição do rendimento” - a insinuação de que quando se sanciona a filantropia dos ricos, essa generosidade vem contaminada com o dinheiro sujo que o é sempre o dinheiro com as cores sombrias do lucro. Por fim, a suspeita de que “ao ocuparem o espaço público e mediático, estas fundações enfraquecem os movimentos sociais de base”. As mentes atormentadas que acreditam num mundo binário, os bons e os maus em toda a simplicidade da representação, contemplam a filantropia dos ricos como necessária inimiga dos tais movimentos sociais de base. Não interessa que da filantropia dos ricos possam sobrar efeitos tangíveis. Desde que ela enfraqueça a amplitude dos movimentos sociais de base, deve ser combatida. Ainda que, no final, fique mais pobreza à mostra.

A esquerda radical será assim tão favorável ao combate às iniquidades sociais como se autoproclama? Apesar de odiar adágios populares, não consigo reprimir o seu uso pela segunda vez, socorrendo-me daquele que adverte que “a cavalo dado não se olha o dente”.

21.4.08

Mendigo por um dia


(Prolegómeno do texto de amanhã)

Quando a madrugada se anuncia na sua despedida, ainda as ruas se demoram, desertas, na ausência das pessoas. É quando se revelam os segredos da cidade. Há um segredo pungente: os mendigos e os sem abrigo, como tanta gente, ainda recolhidos no sono. Com uma diferença: o frio do inverno, sentem-no no corpo, os ossos tolhidos pela humidade que se espalha até ao tutano. Não têm tecto, nem sequer uma companhia para partilharem o sono e a vida com a face bela e a face triste. São as soleiras que os acolhem, mais uma amontoado de cartões e cobertores envelhecidos, fétidos, o ninho onde enganam o sono.

Os felizardos banqueteiam-se no seu sono repousado. Num leito aquecido, limpo. Sem escutarem o silvo do vento que esbarra nos cobertores dos que têm o céu como abrigo, os cobertores que se encharcam com a chuva que chega até aos locais que se pensaria serem protegidos. Nem as soleiras mais recuadas servem para amansar a furiosa tempestade que tira uma noite de sono. Nas casas, mesmo nas casas mais antigas, nas casas ainda sem os privilégios do conforto moderno, a tempestade só soa lá fora. Apenas o incómodo do vento que sopra furiosamente, esbarrando nas persianas, abanando as janelas, entrando pelas reentrâncias descuidadas das casas. Ainda assim, um privilégio ao ter em conta os corpos enregelados que nem o amontoado de cobertores aquece.

Um súbito impulso para simular a condição de mendigo. Por um dia que fosse. Houvesse a coragem para abdicar do conforto. Porventura para perceber que os queixumes que se sucedem pelos dias fora, a vida sombria que julgamos levar, são vestígios, uma irrelevância diante da experiência do mendigo.

Adivinho: não seria apenas a ausência de conforto, a ausência de um tecto, o corpo e os sentidos expostos ao céu ora luminoso, ora plúmbeo. Por si capazes de traduzirem o sacrifício supremo de dormir ao relento. As noites seguidas em demanda de uma soleira ainda não habitada por outro sem abrigo. E segredar aos deuses que a noite não tivesse visitas indesejáveis, meliantes noctívagos com o indizível deleite de atormentarem quem já de si leva vida sacrificada. O que mais difícil será? A noite ao relento? Ou a luz diurna recolhendo o discernimento dos sentidos, um longo bocejo enquanto dura o dia, na espera cansada pela noite incerta? Os dias sem rumo, uma longa errância pelas ruas, gastando os pés calejados pelo calçado roto. As refeições incertas. A fome a consumir-se a si mesmo. Os ossos tão cansados da indolência indesejada. Até que a fragilidade dos dias consecutivos trouxesse a doença e uma cama de hospital fosse, por fim, um tecto e um leito limpo. Porventura, residência final.

Pior seria a solidão a que se entregam os passos quotidianos de um mendigo. Os dias seguidos sem proferir palavra, a não ser as que fossem ditas no diálogo consigo mesmo, só para a voz não se desabituar da função. Os afectos desaprendidos. Sem lugar a partilhar o que fosse - alegrias ou angústias. Uma angústia virada para dentro, uma angústia a desdobrar-se em lancinante apelo para a vida sem significado. A certa altura, já nem interessava que fosse Inverno, com as noites tempestuosas ou o frio glacial, ou Verão, ou Primavera. Deixaria de haver estações. E até as palavras seriam um simulacro, desprovidas de sentido. E tudo seria uma longa anestesia de si mesmo. Talvez um espelho necessário para iludir inditoso destino.

Não há coragem que fale tão alto para abdicar do conforto e entregar o corpo, por um dia que fosse, à condição de mendigo. Seria sempre uma simulação, um curto dia para perceber as dores lancinantes da vida sacrificial, da solidão indeclinável. Não faz sentido ser actor neste papel. Não seria para aquietar as dores de consciência pela miséria alheia. Nem servia para semear bem-estar e felicidade por um punhado de mendigos. Perceberia, então, o egoísmo da encenação: pelo contraste a que me ofereceria, só para atingir a vacuidade de todos os momentos em que vem ao de cima uma inexplicável insatisfação que teima em vaguear.

18.4.08

O Menezes é um injustiçado


Por conveniência (deste texto), vou por um momento acreditar nessa coisa dos karmas. Há quem nasça com o rabo virado para o lado errado da lua. São os eternos patinhos feios. Ninguém – ou muito poucos, e pouco sonantes no mercado das palavras que ecoam no palco público – gosta deles. E ainda que vejam que são pouco amados, que há um enorme exército de críticos que já nem sequer critica e se limita a escarnecer, teimam em pôr a cabeça à superfície. Teimam em chamar protagonismo a si. Têm um espelho lá em casa, um espelho adulterado, ou amestrado, que lhes diz todos os dias ao acordar que sim, que estão entre o escol dos predestinados. E porfiam, querem ser personagens principais de um filme que não foi feito à sua medida.

As circunstâncias da vida por vezes conjugam-se de tal forma que são as terceiras, quartas, quintas e por aí fora escolhas que sobem ao palco para receber os aplausos pouco entusiasmados dos confrades que caucionam a escolha. Os meus amigos que são do PSD nunca mo confessaram, mas eu pressentia no seu silêncio que a arrebatadora eleição de Menezes para líder do seu partido era um acto de depuração. Talvez se acreditasse que tinham batido no fundo com Santana Lopes, esse erro de casting que só o próprio teima em não o admitir. Só que nisto da profundidade dos poços as conclusões só se tiram depois de feita uma prospecção. Não são as intuições que contam, antes as impressões reveladas pela experiência. Depois de um poço tão fundo, seguir-se-ia outro com o impressionante desempenho de conseguir sondar ainda mais abaixo.

Há quem diga que é do caos que renascem as instituições. Que é preciso destruir tudo para repensar, reordenar, burilar coordenadas, reerguer os alicerces. Uma renovação de cima a baixo. A tal diálise que refresca um sangue que estava carregado de veneno. É por isso que suspeito que os silêncios dos meus amigos do PSD eram tão reveladores: perante o diário chorrilho de disparates de Menezes, só um vendaval avassalador poderá ser a luz ao fim do túnel para este partido. Menezes foi esse furacão. Um furacão autofágico. São frescas as notícias acerca da sua demissão, estando ainda muito por descobrir. Menezes terá dito que não se candidata. Mas enviou sinais que esperar por uma “vaga de fundo”. Lá está: a obstinação da aura tão iluminada que alimenta uma luz esperançosa de que seja ele o salvador para resgatar o partido do féretro em que o colocou.

Serei cínico se confessar comiseração por Menezes? Contra mim perfila-se o gesto habitual de quem faz o elogio fúnebre onde as palavras contemplativas desvelam todos os predicados que só à hora do funeral são, por fim, enunciados. Menezes tem aquele ar de pessoa contristada sobre quem se descarregam todas as críticas, todas as chacotas. Aquele olhar de incompreendido, a face macilenta, o aspecto pungente que se põe a jeito da piedade alheia. Não sei se era pose estudada, considerando a atracção congénita de tanta gente para se pôr ao lado dos desvalidos que aparecem em público com ar contristado como se fossem pedintes mendigando a nossa piedade.

Talvez fosse esta intuição que punha Menezes a sentenciar que os opinadores encartados – uma horda militantemente crítica de si mesmo – não retratavam o “povo real”. E que o “povo real”, as pessoas comuns, as tais que têm coração de manteiga e que se apiedam dos desvalidos (como ele) lhe dariam a vitória nas eleições. Só que logo a seguir entregava-se nos braços de um tremendo paradoxo: o ar de coitadinho sugeria que o mundo acordava todos os dias contra Menezes. O mundo, incapaz de perceber os dotes de Menezes. O conspirativo mundo.

Pergunto-me: e mesmo Menezes acreditava, naqueles momentos de recolhimento consigo mesmo, na metafórica almofada celebrizada pelo seu antecessor, que havia probabilidades de ganhar as eleições legislativas do próximo ano? Na lógica cata-vento que o distinguiu nestes curtos mas intensos (de disparates) meses de liderança, quem o levava a sério? Eis a génese da minha comiseração por Menezes: de cada vez que aparecia a comentar, a criticar, a propor medidas, a abrir a boca que fosse, só se esperava por mais uma tolice. Era tão inata a propensão para a asneira, que mesmo que houvesse algum fundo de seriedade nas palavras que se soltavam da sua boca eram logo engavetadas na categoria da comédia.

Ontem terá sido o dia mais sombrio para o actual primeiro-ministro que nos calhou em fava. Com Menezes, ele nem precisava de mostrar serviço: Menezes arrepiava-lhe o caminho a nova vitória tranquila, como se fosse a segunda taluda que lhe saiu depois da sorte grande que foi ir a eleições contra Santana Lopes. E ainda que seja válida a ideia de que há sempre poços ainda mais fundos por explorar (por lá andam Mendes Bota, Marco António, o grandioso Ribau Esteves – só para citar alguns nomes que o seriam, poços mais fundos), aposto que o primeiro-ministro terá tido uma noite de insónias temendo que as eleições não vão ser as favas contadas que ele esperava, com a ajuda de Menezes.

17.4.08

Não somos todos actores?


Sarkozy de visita oficial a Londres. Mas o que estava na ordem do dia era a companhia de Carla Bruni primeira-dama. Ofuscou o consorte, na pose de primeira-dama – já não no papel de artista do mundo da música emprestada do mundo da moda. Já não alguém que pertence a um palco cuja frivolidade não se compadece com a gravidade, a elevada seriedade da política. Assim como assim, foi trocar palco por palco. O palco dos espectáculos pelo paço do protocolo de Estado. Num como noutro, um imenso oceano em que tudo se faz de conta.

A imprensa, até a imprensa séria, a que se dedica a noticiar a política e as relações internacionais, deixou-se cegar pelo protagonismo da primeira-dama francesa. Ou a imprensa contaminada pelo vírus que habita no género cor-de-rosa da imprensa? Dizem os entendidos que Sarkozy não dá ponto sem nó. Neste idílio há uma pergunta sem resposta: aquilo foi uma paixão assolapada, que rematou em boda célere, ou foi uma manobra bem congeminada para distrair as atenções de políticas impopulares que Sarkozy quer aplicar, pois a populaça e a comunicação social estariam mais interessados nos detalhes do romance? A interrogação traduz-se na seguinte dúvida (aplicando o respectivamente da praxe): espontaneidade ou manipulação?

Sarkozy representa um papel? Como Bruni passou a representar um papel diferente daquele a que estava habituada? Como actores, com papéis bem delimitados, sabem o que lhes cumpre fazer. O roteiro é-lhes oferecido pelos fazedores de imagem, tudo bem encenado, tudo muito bem ensaiado, sem haver lugar a deslizes para além das marcações que delimitam os palcos que pisam. A mim parece-me que há em tudo isto a despersonalização da política: os actores aparecem nesse papel – actores, em sentido literal. Actores como simulacros oportunos, treinados para serem imagens do que se entende que o público gosta de neles ver. Uma miríade de espelhos onde se reproduzem as imagens que distorcem a essência de que são feitos a cada filtro que se ensaia num espelho mais que desfila diante da audiência.

A entrega à teatralização despe os actores da sua genuinidade. Dir-se-á que a necessidade de espectáculo, de mão dada com a fobia da comunicação social pela passerelle das aparências, fornece a formatação da imagem dos políticos contemporâneos. Só que nalguns casos a arte peca por excesso. Nalguns casos, tudo se resume à encenação cuidadamente estudada, à pose dos actores que se entregam a um papel – ou aos sucessivos papéis que vão desempenhando, consoante as exigências das circunstâncias. No restolho da visita oficial do casal presidencial francês a Londres, era só passar a vista pela imprensa séria (por decoro higiénico, a vista não se demora na imprensa cor-de-rosa): Carla Bruni tomou o protagonismo que a seriedade do momento aconselharia que repousasse no consorte. Era o vestuário de Bruni, a rainha que simpatizou com Bruni, o que estaria dentro da carteira de Bruni entreaberta fotografada numa cerimónia oficial, o retrato que captava um pormenor tão importante como a pose senhoril dos pés da primeira-dama. A tradução de tudo isto: de toda a fruta espremida, só umas pingas de sumo. Sobra uma polpa vistosa que não alimenta estômago algum.

Sarkozy desempenha um papel insólito: é o presidente de uma França anacronicamente republicana, da França teimosamente convencida do seu grandeur. Insólito, ainda, porque vem da direita que em França sinaliza um conservadorismo de costumes, o que não parece condizer com os holofotes todos vertidos sobre a mediática primeira-dama, na diluição do protagonismo do presidente da república. Como Bruni desempenha um papel. Suspeito que faz as vezes da actriz que empresta um inusitado grandeur ao inquilino do palácio presidencial: o grandeur que interessa ao mundano, o fogo-de-artifício permanente que embevece uma imprensa anestesiada, um público anestesiado. Talvez por isso mesmo: enquanto caem no engodo, passam ao lado das medidas tomadas por Sarkozy. E depois, quando chegar o momento de escrutinar nas urnas o mandato de Sarkozy, vão avaliar o quê? O ror de páginas que o idílio consumiu? A pose enigmática da primeira-dama, o vestuário e os costureiros que a vestem, o suposto “toque de classe” que Bruni empresta ao consorte?

Pausa para interiorizar: e não somos todos, de alguma forma, chamados a desempenhar um papel, vários papéis? Contrariando a nossa essência, despindo-nos de genuinidade? Por aí passam os elefantes que temos que engolir, as tantas vezes que somos obrigados a fazer de conta. É quando a vida real se confunde com um perene teatro, um teatro que nunca sai de cena. De tal forma que é o teatro que acaba por perder o rasto da sua fantasia cénica.

16.4.08

A tese do “povo burro” é um pau de dois bicos


Pior que os americanos elegerem George W. Bush duas vezes, só os italianos entregarem pela terceira vez o Governo a Berlusconi!...”, Vital Moreira, no blogue Causa Nossa

Maus fígados, ou mau perder que revela uma espessura pouco democrática? Como se pode afiançar que um povo subitamente se deixou tomar por uma cegueira que o levou a escolher quem não “devia” escolher? Quando tecemos juízos tão assertivos sobre as escolhas eleitorais dos outros povos, a ingerência eleitoral pode ter um imponderável: mais tarde, os outros podem tecer o mesmo tipo de comentários acerca das escolhas ditadas pelas nossas eleições. E não gostamos, decerto, da intrusão.

O povo italiano terá embrutecido (pela terceira vez) porque não teve a sensatez de escolher Veltroni. Eu fico admirado com a elevada capacidade de um cérebro só se sobrepor à escolha de dezenas de milhões de eleitores. Há quem não aprenda nada com o passado. Incapazes de se convencerem de um dos predicados da democracia que tanto apregoam: afinal o igualitarismo não passa de retórica quando o mau perder eleitoral vem ao de cima. As coisas deviam ser desta forma: haveria resultados eleitorais admissíveis, onde a legitimidade da escolha seria sancionada pelos sumos-sacerdotes que estariam, lá do alto do seu pedestal, a certificar a escolha. E haveria os resultados eleitorais impensáveis, que não passariam na apertada malha dos sacerdotes.

Suponho que, nesta hipótese, os escrutinadores da aceitabilidade das eleições gostariam de ditar a repetição do sufrágio. Porventura até que os resultados fossem em consonância com os seus gostos pessoais. É curioso, isto faz-me lembrar um episódio recente, a recusa de Mugabe em aceitar os resultados das eleições que, segundo consta, teriam tirado o malfeitor do poder. Podia-se congeminar uma solução alternativa, para impedir o incómodo dos resultados eleitorais que pressagiam um povo ignaro: tal como vinga a moda que prescinde do sigilo bancário quando há dúvidas acerca da situação fiscal de uma pessoa, por que não terminar com o secretismo do voto? Talvez instituir um centralizado Big Brother informático, com a garantia – a falsa garantia – de que seria uma máquina a vigiar a forma como cada pessoa vota. Os que contribuíssem para uma escolha eleitoral menos apropriada (eufemismo para eleitores burros) seriam penalizados no seu direito de voto futuro. Teríamos então uma brecha no sagrado princípio do voto uninominal. Os meios justificariam os fins.

Haveria eleitores qualificados e os desqualificados. Meio caminho andado para os Veltronis, os Zapateros, os Sócrates, as Clinton, toda a seita da Internacional Socialista se perpetuar no poder. Às malvas a tolerância que julgamos ser património genético da democracia. E às malvas a alternância democrática, que também julgamos fazer parte do jogo. Se o povo exibe ignorância, compete aos iluminados indicarem o caminho certo. E se por acaso o povo teimar em ostentar a sua burrice, insensível aos apelos das mentes iluminadas em campanhas eleitorais, aparições televisivas cirurgicamente preparadas para que o sistema não sofra desvios, ou artigos de opinião em jornais de referência, o que fazer? Plano B: qualificar os eleitores consoante a orientação do seu voto?

Já em 2000, quando a ominosa extrema-direita de Jörg Haider chegou ao poder em coligação com o partido liberal de Schüssel, esteve quase para cair o Carmo e a Trindade. Muitas virgens ofendidas, sobretudo na sempre atenta Internacional Socialista, ao que parece auto convencida dos seus superiores parâmetros morais. A Áustria esteve sob o ponto de mira da União Europeia, vigilante para que não houvesse desvios à democracia. Na altura, a Internacional Socialista sentenciou o mau gosto dos eleitores austríacos (certamente daquela maioria que permitiu à coligação herética chegar ao poder). Agora há quem tenha o despudor de ajuizar as escolhas livres feitas pelos eleitores italianos. O que me incomoda é como podemos julgar as escolhas dos outros quando elas não afinam pelo nosso diapasão pessoal? Não corremos o risco dos outros fazerem o mesmo com as nossas preferências? E ficamos confortáveis ao saber que os outros decidiram ajuizar as nossas escolhas? Nessa altura, não exibimos a nossa indignação? Logo, não é legítimo que os tais eleitores supostamente ignorantes se sintam lesados pelo juízo tão iluminado, e protestem?

Acho Berlusconi detestável. Seria incapaz de votar no seu partido. Só que ao dar de caras com estes juízos tão assertivos, tenho uma pulsão para ser italiano e para ter sido votante de Berlusconi.

15.4.08

E estes capitalistas comunistas?


Ponto de ordem: sou entusiasta das virtudes do capitalismo. Estaria entre o que se convencionou, por estes tempos de facilitismo dos rótulos, chamar “neoliberal” (não se desse o caso de não saber o que é o “neoliberalismo” e, pelos sinais enviados pelos seus ferozes críticos, não me rever nesse modelo). O meu liberalismo é de uma casta diferente, todavia. Repugnam-me tanto as intervenções do Estado na economia, como a mania do empresariado estender a mão ao Estado, numa valsa insidiosa com os poderes públicos.

Novo ponto de ordem: acho reprovável o oportunismo que muitos empresários exibem à primeira oportunidade. São os responsáveis pelo estigma do capitalismo selvagem, a grande tábua de salvação dos vestígios de marxismo que ainda vegetam. Um exemplo na ordem do dia: na espuma da muito antecipada pré-campanha eleitoral em que este governo já entrou, a guloseima para eleitor se deliciar – a descida de um ponto percentual no IVA. Encantados com a pose magnífica do primeiro-ministro, e muitos aderindo à realidade ilusória contada pelas palavras encantatórias do primeiro-ministro e seu séquito, acreditamos na bondade da medida. E nem percebemos que ela apenas beneficia as empresas. Pois alguém acredita que uma descida tão insignificante do IVA vá levar os empresários a diminuírem os preços, para gáudio dos consumidores? Não, decerto os empresários vão repercutir a descida do IVA nos seus lucros.

Alguém se lembra de outra fantástica medida – a descida do IVA de 21% para 5% nos ginásios, para incentivar as gentes a perderem adiposidades e a serem tão cultoras do físico como o timoneiro primeiro-ministro? Ao fim de algum tempo, percebeu-se que os ginásios (com algumas excepções) mantiveram os preços, desdobrando-se em justificações de retórica para apenas açambarcarem a seu favor a diferença percentual que resultou da descida do IVA. Eis um exemplo de “chico-espertismo” capitalista. E, dou a mão à palmatória, adepto militante do capitalismo, que este exemplo se reproduz com frequência, de pequenas a médias e a grandes empresas.

É a mania de ir como toda a sede ao pote, sem perceber que a imprudência esboroa o pote em cacos. Com um preço inevitável: sindicatos, partidos da extrema-esquerda, arautos da “alter-globalização” lavrando palavras de protesto contra a fobia do lucro e a insensibilidade dos capitalistas, desapiedadas almas, diabretes possuídos por um atroz egoísmo, que não hesitam em atropelar os direitos dos trabalhadores para se embriagarem em lucros. Aliás, na visão dantesca destes sectores tão amantes de fabulosas teorias da conspiração, os capitalistas são uma infernal maquinação para oprimir os trabalhadores. Será o seu desporto favorito. E, ao mesmo tempo, o fértil terreno onde estas atormentadas almas descobrem motivos para se emproarem na condição de justiceiros. E, contudo, diante de alguns excessos de capitalistas cegados pela sede do lucro, até entendo que estes justiceiros venham à praça pública.

Porém, é irreprimível a perplexidade quando dou conta do silêncio destes justiceiros perante as barbaridades cometidas por alguns comunistas entretanto seduzidos pelas delícias do vil metal. Assobiam para o alto e não admitem que alguns entre eles são tão pérfidos como os capitalistas contra os quais erguem a sua militância. Isto vem a propósito de um artigo de opinião de António Barreto no Público de anteontem, que reflectia nas revelações do livro de Américo Cardoso Botelho, “Holocausto em Angola – memórias de entre o cárcere e o cemitério”. Retenho uma passagem do livro que resulta de um fac simile de uma carta enviada por Rosa Coutinho ao líder do MPLA, Agostinho Neto, em plena guerra civil:

Após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP, resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à segunda fase do plano. Não dizia Fanon que o complexo de inferioridade só se vence matando o colonizador? Camarada Agostinho Neto, dá, por isso, instruções secretas aos militantes do MPLA para aterrorizarem por todos os meios os brancos, matando, pilhando e incendiando, a fim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos. Tão arreigados estão à terra esses cães exploradores brancos que só o terror os fará fugir. A FNLA e a UNITA deixarão assim de contar com o apoio dos brancos, de seus capitais e da sua experiência militar. Desenraízem-nos de tal maneira que com a queda dos brancos se arruíne toda a estrutura capitalista e se possa instaurar a nova sociedade socialista ou pelo menos se dificulte a reconstrução daquela”.

Este Rosa Coutinho fez-se homem de negócios em Angola. Enriqueceu à custa das negociatas que conseguiu depois de ter, enquanto representante de Portugal no processo de descolonização, arrepiado o caminho à subida ao poder dos comunistas. Cumplicidades convenientes, com o selo da solidariedade ideológica. Depois dos massacres de que foi conivente, dos julgamentos sumários que terminavam em inapeláveis sentenças de morte diante de uma turba extasiada, do sofrimento de um povo incapaz de ter um nível de vida condigno. Não estou a sugerir que Rosa Coutinho não tenha direito ao seu enamoramento com as delícias do capitalismo – nem menos a insinuar que há aqui incoerência ideológica, que nesse domínio fala apenas a consciência de cada um, domínio impenetrável, portanto. Só me faz espécie o silêncio – o silêncio comprometedor – das esquerdas (e de certas direitas que se banqueteiam no festim dos negócios que é hoje Angola) perante estes facínoras.

Ah, só se afinal os capitalistas bons forem aqueles que apregoam “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”. Porventura, já nem são comunistas, nem capitalistas. Apenas oportunistas. E facínoras.

14.4.08

9-8, o triunfo das mulheres, por fim (ou o encantador senhor Zapatero)


Nós somos criaturas de tal modo volúveis que até acabamos por sentir os sentimentos que fingimos”, Benjamin Constant.

Anunciado com pompa: o novo governo do Sr. Zapatero (ou, parafraseando o douto Dr. Soares, como de costume descaindo para o chinelo, “Sapateiro”) terá nove ministras e oito ministros. Mas note-se o ardil: só depois se informa que, descontando o líder do governo, as mulheres passam a ser a maioria no elenco ministerial. Note-se bem: descontando o próprio Sr. Zapatero. Uma manigância, portanto. Pois o Sr. Zapatero também conta para estas contas. Logo, mantém-se o empate que já vinha do anterior governo espanhol. Desenganem-se as fervorosas feministas e os apaixonados pela esquerda modernaça. O resultado não é 9-8 para as mulheres. É um empate a nove.

Apetece perder-me de amores por esta esquerda modernaça, de que agora Zapatero é expoente máximo (para notória inveja do timoneiro nacional, que decerto aspiraria assumir esse papel dentro da soberba internacional socialista). O enamoramento é irresistível. A exacta medida de como hoje somos levados no engodo do acessório, perdendo de vista o essencial. O que foi mais noticiado acerca do novo governo espanhol? A absurda aritmética do género ministerial. E a estrondosa notícia, outra com laivos de género, de que pela primeira vez a tropa terá uma mulher como superiora hierárquica – uma ministra da defesa, caramba!

Como é que há gente que consegue recusar o inapelável beijo da esquerda modernaça em que a internacional socialista se está a transformar? Eles são os arquitectos dos ventos que moldam a sociedade certa, os caminhos correctos por onde o rebanho ordeiro deve prosseguir. A voz que ecoa o sentir colectivo – ou será o contrário, a sua voz é a centelha que alumia os passos necessários da turba cada vez mais acéfala, ou apenas encandeada pela espectacular vacuidade da retórica socialista. Eu confesso a minha incapacidade: por mais que me esforce, por mais que torça o braço para me enamorar por estes predestinados, não consigo.

O incrível é a armadilha em que o Sr. Zapatero caiu, talvez sem dar conta disso: fez gala, no seu primeiro governo, de ter forjado a igualdade de sexos na composição dos ministérios. Em nome da sacrossanta igualdade de sexos, foi além das quotas que, Europa fora, anseiam garantir uma participação mínima do sexo feminino da vida política dos países. Em Espanha, pedrada no charco: igualdade absoluta! Foi só aplausos, das feministas aos sectores vanguardistas. Só que agora a igualdade foi destruída: 9-8 a favor das mulheres, é a prova. E nem adianta virem os curadores do zapaterismo em sua defesa, argumentando que estou a fazer mal as contas, pois com o primeiro-ministro a igualdade é restabelecida. Quem se ufana da mesquinha contabilidade e a apregoa aos quatro ventos são os próprios socialistas. Ora um governo com mais mulheres do que homens é a violação da sagrada condição da igualdade dos sexos. O Sr. Zapatero, incapaz de cumprir uma das suas bandeiras programáticas.

Tudo isto é uma inutilidade. Andamos entretidos a verificar (salvo seja) o sexo dos ministros, como se ter nascido com ou sem pénis seja requisito de competência. O problema está em quem emproa a respectiva dotação genital como critério para ser ministro de um governo. As coisas são-nos apresentadas dessa forma: não interessa saber quem são os melhores para ocupar o cargo de ministro disto ou daquilo, antes que x número de ministérios devem ter ministras e y ministros.

Dou comigo a discernir mais uma razão para a inexistência de deus. Se deus fosse a entidade isenta de defeitos como os crentes propalam, teria criado uma humanidade assexuada. Não haveria pénis e vaginas a diferenciar os humanos, para não andarmos nesta modernidade atarantados com as diferenças de género. Deus, existisse, seria responsável por este acidente genético. Como o acidente existe, uma prova irrefutável de que deus não existe.

Lamento a incapacidade de enamoramento com a seita da internacional socialista. Aliás, a cada passo que somos invadidos pelos ares modernaços desta esquerda apetece-me ser algo a que sou geneticamente adverso: conservador bafiento. Como me apetece resvalar para as franjas de uma qualquer esquerda radical de cada vez que vejo a blasé figura de Berlusconi, de cada vez que abre a boca e invariavelmente disparata. É a propósito de Berlusconi (nome tão a jeito por quase reproduzir a palavra “burlesco”, um retrato fiel do que é) que me surge uma perplexidade que traz de novo a questão do género à colação: na recente campanha eleitoral em Itália, na sua enésima manifestação boçal, o candidato da direita afiançou que as mulheres de direita são mais belas. Há uns tempos, lá dos lados da esquerda caviar, Joana Amaral Dias certificou que os homens de esquerda eram melhores na cama.

Ora aqui temos uma terrível desordem da natureza (e das ideias). Ou apenas a sublime harmonia da tolerância…

11.4.08

A ASAE rectifica


Até os petizes são vítimas da diligente ASAE. A felicidade das crianças está sob o ponto de mira dos fiscais da segurança alimentar e económica (seja lá o que isso for, a segurança alimentar e económica). É que o Nunes e descendência descobriram que as máquinas que oferecem brinquedos diversos num invólucro a pretexto de uma guloseima, contra a deposição de uma moeda, equivalem à aleatória actividade do jogo. Como aquelas caixas que perfurávamos para saber que chocolate é que íamos levar, dependendo da cor da bolinha que saísse depois da perfuração. Também é jogo. E como as criancinhas não têm ainda idade legal para os jogos de azar, a ASAE vai dar luta sem tréguas aos ovos Kinder e quejandos.

Eu continuo a dizer que a ASAE é a nossa vanguarda. É através dela que os parceiros europeus deitam o olho a este cantinho que repousa na West Coast of Europe. Afinal, não somos um infindável rosário que nos coloca na cauda de todas as tabelas quando somos comparados aos outros países europeus. Também somos motivo de garbo, exemplo que se oferece aos parceiros europeus. E como se vulgariza a mania das “boas práticas” – os países reconhecem aquele que se distingue e copiam-no – a ASAE vai deixar legado. Por cá e, sobretudo, pelo retumbante êxito que será pela Europa fora.

Depuralina: decerto substância desconhecida para a maioria, antes dos sacerdotes da saúde pública terem decretado a sua proibição, com a inestimável ajuda dos fiscais da ASAE que andam a passar as farmácias a pente fino para saberem se o “suplemento alimentar” desapareceu das prateleiras. Cá está como somos exemplo para os outros. Como estamos na dianteira da segurança alimentar e económica, na preservação da saúde pública. Dias depois, os espanhóis copiaram o nosso exemplo e proibiram a depuralina. Eu digo que isto é um enorme motivo de orgulho. Finalmente somos capazes de ser a locomotiva a que os outros países se atrelam.

Devemos estar todos muito orgulhosos. E triplamente agradecidos à ASAE: primeiro, porque a entidade existe. Segundo, ela anda muito atenta aos atropelos à nossa segurança alimentar e económica – que coisa tão abrangente…Terceiro, é a ASAE que dá o exemplo aos outros países, excitando a pertença nacional que tão necessitada anda destes louvores por interposto reconhecimento público dos outros que nos copiam.

Não há semana que a ASAE não deixe a sua pegada de higienismo que nos defende da inconsciência em que vegetamos, ou da inconsciência dos operadores económicos que ignoram os padrões mínimos de higiene e segurança alimentar. A maré vai enchendo, cada vez menos coisas a ficarem de fora da alçada vigilante da ASAE do Nunes. Exercitando a espantosa imaginação, como neste caso em que se descobriu – e como ninguém foi capaz de ter semelhante rasgo antes? – que os ovos Kinder e quejandos escondem jogo dissimulado nos brinquedos aleatórios que os petizes ganham na guloseima. A ASAE soube desmontar a conspiração capitalista dos ovos Kinder, chocolates Regina e outros que tais. Essas empresas fertilizam nas criancinhas o vício do jogo. Está-se mesmo a ver: cada criancinha ansiosa por saber que brinquedo vai sair na próxima guloseima, jogador potencial que há-de gastar rios de dinheiro nos malfadados casinos quando chegar à idade da admissão nos antros de jogo.

Junta-se uma quarta razão de penhorado agradecimento à ASAE: ela abre-nos os olhos para as conspirações que passam debaixo do nariz e que, não fora a entidade, continuariam a levar-nos no engodo. Sem a ASAE seríamos uma massa inerte de ignaros. A ASAE devia merecer condecoração presidencial no próximo 10 de Junho.

O desporto nacional preferido vai deixar de ser o futebol. A Santa Casa de Misericórdia de Lisboa está a preparar um novo jogo que vai rivalizar com o Euromilhões: o povo passará a apostar na próxima fiscalização da ASAE, na próxima proibição da ASAE. Aos que acertarem o prémio poderia ser, por exemplo, descontos nos impostos. Deixo aqui a minha aposta: a ASAE vai começar a vasculhar a cópula alheia. Assim como assim, a entidade foi concebida para zelar pela segurança alimentar…

A ASAE, de tanto cuidar da nossa segurança alimentar e económica, é a nossa pior inimiga. Quando começa a época de caça ao Nunes?

10.4.08

Uma das almas, tisnada


Triste embevecimento. As ruelas da amargura acolhem o sentir pesado dos açoites que se abatem sobre a alma sensível. Uma das almas. Aquela que teima em subir à açoteia e oferecer o rosto a todos os ventos, as arestas pontiagudas que deviam calejar aquela alma contra os sobressaltos contínuos. E, contudo, aquela alma, a alma tão ingénua, teima em acordar na sua imensa bondade, como se todos os dias não fossem império do seu contrário.

Essa alma esbarra na sua incompreensão do mundo. E não aprende. São altas as quedas a cada vez que o desapontamento estala na boca, nutriente de um olhar tristonho que não a desencoraja para a militante bondade. É a alma que acomete contra as outras que vagueiam, rebeldes e suas inversas, na seiva que circula nas veias. A alma boa recusa munir-se das armas que a atraiçoam. Teima numa irrecusável inocência, que se mistura com uma incongruente incapacidade para aprender com as desilusões.

Por vezes, essas desilusões ostentam a melífica peregrinação dos outros. A alma caridosa punge-se por eles, incapaz de os julgar, incapaz de falsos moralismos que sejam juízo do comportamento alheio. Limita-se a observar, na sua incapacidade para compreender tais peregrinações malévolas. E a sofrer com os desvarios que afastam as outras almas do idílico lugar onde, fossem todas como ela, só haveria uma imensa bondade. Outras vezes, as decepções semeiam-se no seu interior, quando vingam as almas turbulentas que actuam como demónios que se insinuam na asfixia da alma branda. E esta, tão ingénua, não combate as malignas erupções impetuosas, aleatórias e sem morada certa, de nenhures.

É por isso que a alma tão bondosa tem calo de tantas vezes se estatelar do alto do seu mirante que revela os ares plúmbeos que a entristecem. De todas as vezes que se escaqueira ao chegar ao solo, regenera-se como se ali houvesse um acto divino em sua ajuda. Ela não se esgota, nem muito menos encomenda a sua alma interior, no doloroso impacto com o chão duro. E nem os cacos em que se desfaz chegam para não reavivar a matéria de que é feita. Volta ao promontório onde se oferece às contingências, preparada para ser empurrada ladeira abaixo. Diria que é para isso que ela existe. Um inesgotável arcaboiço que a presta aos embates, por mais estridentes que sejam, dos ventos agrestes que silvam na sua fúria.

A bondosa alma que se debate contra os diabretes que são as almas contrapostas é um vaso pleno, como se ali houvesse fértil húmus, uma densidade indescritível onde se tece a teia imune ao revés. Um vaso tão preenchido onde se renovam as forças que se colocam à mercê das almas contraditórias que planam vindas do nada. Aterram no terraço onde amesenda a alma bondosa, para nela pousarem e a carcomerem. Não se debate, a alma boa: caridosa até para a sua antítese, abre os braços e acolhe as maquinações que a querem diluir na sua inexistência. Para isso foi concebida, a alma bondosa. Ou nem haveria lugar ao entendimento dos sentimentos que lhe são contrários.

E ainda que não sejam exangues as suas forças, entristece-se. Ela também se cansa, em momentos em que lhe apetece entregar as chaves da bondade nas mãos de um deus que seja seu penhor. A toque de rebate pelos sinos que dobram a mentira, a infâmia, a hipocrisia, a crueldade gratuita. Ainda que tisnada pela sombria luz que embacia a sensatez dos mortais, não se demite: insiste, entre as teias que dobram a sua ingenuidade, em depurar o coalho na espuma dos dias que se sucedem num interminável cortejo das coisas e sentimentos e palavras e actos que a deixam melancólica.

A luta interior, entre as inversas almas, é a maior das guerras. Não são as guerras em que os homens, estupidamente, se guerreiam. Porque essas selam uma vitória anterior, uma vitória em cada um dos homens que se guerreiam, e onde foi derrotada a alma boa.

9.4.08

Vertigem


Medo das alturas. Prédios que trepam, íngremes, pelas alturas. Lá do alto, os arranha-céus desafiam a sanidade mental dos que se atrevem a espreitar o abismo. Os estudiosos dos fenómenos da mente hão-de ter explicações para a atracção mórbida quando, lá do alto, não conseguimos reprimir o olhar que se escapa para as profundezas, em direcção do solo tão distante. Há naquele instante uma súbita náusea, como se o corpo tendesse a desequilibrar-se e o centro de gravidade no solo fosse o íman que atrai o corpo desde as alturas do arranha-céus. Há pesadelos que terminam assim: quando não houve força para travar a queda no abismo, interrompida apenas quando o pesadelo é despertado pelo sobressalto.

Uma experiência curiosa há anos, no alto da torre panorâmica de Toronto. Quando o elevador finda a sua ascensão chega-se ao piso onde a torre alarga a sua baia numa protuberância panorâmica. Alberga um espaço que faz furor entre turistas. A certa altura, vê-se um ajuntamento de pessoas. Quando se consegue chegar à frente, percebe-se a razão do ajuntamento. As pessoas avançam, receosas, pé ante pé. Quando derrotam o medo, nota-se-lhes o ar triunfante. Afinal era tão fácil. Não havia motivo para as resistências iniciais que as impediam de dar os passos que faltavam para saírem com a coroa triunfante, como se fosse um feito só ao alcance de heróis (contudo, de pacotilha).

Lá no cimo da torre, há um lugar reservado às experiências mentais. Subitamente, o solo perde a sua opacidade. O chão é feito de uma vidraça que deixa a nu o abismo que separa as alturas do solo lá tão em baixo. O passo em frente, da segurança do chão de madeira para o envidraçado solo que deixa debaixo dos pés a sensação de queda no abismo, é um acto de coragem. Exige derrotar a resistência mental que tolhe os movimentos.

O passo em frente não é inseguro – os engenheiros terão sabido calcular a resistência dos materiais que acautela a segurança dos que afrontam o abismo. Só que há um travão mental que atemoriza os movimentos e abranda o passo. Que segue, muito relutante, deslocando com lentidão os pés desde o cómodo solo baço até ao solo transparente que dá a sensação de uma queda livre até ao chão letal. Há resistências mentais que são difíceis de derrotar. É certo que há doidivanas que ali chegam e, emproando-se na condição de heróis do momento, ensaiam um estridente pulo para cima do chão envidraçado, quase levando à síncope os receosos que tentam derrotar as resistências vindas dentro de si. Logo se percebe que esses corajosos são uma falácia. E que terão estado ali uns minutos antes, uns dias antes, noutra ocasião qualquer. Que não são virgens no falso salto no abismo.

Quando o medo é derrotado e a mente por fim compreende que o abismo debaixo dos pés tem a rede de segurança do chão envidraçado, sobra a inexplicável sensação: afinal um acto tão fácil e, contudo, o passo inicial tão difícil de dar. Como as coisas ao início tão difíceis se esbatem na sua própria facilidade. A mente, um labirinto que nos aprisiona tantas vezes a sensações que se esfumam numa ilusão. As vertigens são um engodo da mente atraiçoada pelos seus abismos propositados. Quando, no alto de um arranha-céus, ou nas alturas que chegam para alimentar as vertigens, o corpo se empresta a um estranho cambalear que o parece empurrar contra o vazio, a contradição das sensações que queremos evitar mas parecem irrecusáveis.

Nas vertigens, a atracção inata pelas contradições interiores. O desafio à coerência que ostentamos, sinal de um caminho sem desvios, nunca erros nas encruzilhadas que se semeiam. Pelas vertigens, uma indeclinável embriaguez que nos deixa gagos perante os alicerces da coerência apregoada. As vertigens desnudam as incongruências que contaminam o castelo que resguarda a coerência. Para além das alturas, há uma vertigem que teimo em recusar: a vertigem do poder, a ostentação faustosa do poder, com as solenidades que o engalanam, o complexo de farda dos que são incapazes de discernir autoridade de autoritarismo.

Esta vertigem pessoal consuma-se num efeito: o anarquismo militante esmerado com o correr do tempo.

8.4.08

Os peões bem comportados


Há terras onde a ética da lei é indeclinável. Sem desvios, nem quando o pragmatismo arremete, tentador convite a fechar os olhos ao escrupuloso respeito das leis. O princípio será um higiénico roteiro para a maioridade cívica. Se não houver deslizes, pequenos atropelos à lei, ausentes os pretextos para brechas na legalidade – nem as pequenas brechas, nem as grandes que dão origem a estrondosos rombos. O que fará a diferença entre terras retrógradas e terras mais avançadas.

Memória do dedo acusador que tombou sobre em mim, numa avenida de Bruxelas, quando a ousei atravessar estava ainda vermelho o semáforo para peões. O dedo acusador, erguido por uma velhinha cumpridora que aguardava, pacientemente, que o semáforo lhe desse autorização para cruzar a avenida. Podia o trânsito ser escasso e nem haver veículos no que a vista alcançava do horizonte. Que perigo havia em atravessar a avenida, mesmo que o semáforo vedasse a passagem, se não se avistavam automóveis em velocíssima marcha numa ameaça de atropelo? Ainda balbuciei os meus argumentos. Resoluta, a velinha interrompeu-me, sentenciando: se o semáforo estava vermelho para os peões, e se o vermelho significa impedimento de avançar, só me restava aguardar pelo sinal verde.

Como não aprendi com a vergonha diante da velhinha carregada de ética legal, dias mais tarde repeti a infracção. Continuava sem entender por que não podiam os transeuntes arrepiar caminho ainda antes do sinal para peões mudar para verde se não havia automóveis nas imediações. Não sei se dando expressão ao latino berço, ou se fazendo vingar um espírito pragmático, ou se apenas o passo desarticulado que o então ainda e contrariado estudante em direito exibia em relação às regras, ou até o anarquismo latente que se começava a esboçar – qualquer que fosse o sintoma, a vergonha passada às mãos da velhinha não tinha servido de lição.

Diria: uma pecaminosa vontade de infringir, ou somente o espírito prático que me lançava no asfalto ali ausente de automóveis que fossem perigo para a integridade física. A suprema afronta: do outro lado à minha espera, com um ar sisudo e grave, dois polícias. Fardados e tudo, para não haver sequer distracções que pudessem atenuar a ousadia. A verdade é que estava mesmo distraído. Ou, por outra, apenas atento ao trânsito, à ausência momentânea de automóveis que fosse caução para avançar na passadeira mesmo com o semáforo para peões a brilhar no vermelho. Só dei conta dos polícias quando os pés já se acercavam do outro lado da rua, onde eles estavam à minha espera e, soube-o logo a seguir, com uma tremenda vontade de multarem o peão infractor que era eu.

Por uma vez a nacionalidade lusitana haveria de ter serventia. Foi ao responder à arisca intimação para me identificar que os agentes da autoridade perceberam que diante deles não estava um nativo. Foi a minha salvação. Mudaram de atitude assim que viram que nacionalidade era a minha. A multa ficou para segundas núpcias – do aviso não me livrei, ensaboado com a ameaça de que a reincidência não seria tolerada com a invocação da nacionalidade terceiro-mundista. Foi curiosa a mudança de atitude dos jovens polícias. De um momento para o outro, através da mágica verificação da nacionalidade, perderam o ar grave e ameaçador e vestiram pedagogia. Lá foram dizendo que desta vez perdoavam a multa, mas ensinaram o cidadão distraído vindo lá dos fundilhos da Europa que se que os automóveis têm que respeitar os semáforos, os peões não podem fugir a essa obrigação. Ainda esbocei o argumento pragmático: “mas, tive o cuidado de ver que não vinham lá carros…”. E como tinha acontecido com a velhinha, também não deixaram terminar o raciocínio: “não interessa: lei é lei, sempre para ser respeitada”.

Aprendi. Quando vou de viagem a sítios onde os peões foram educados a cumprir meticulosamente a informação enviada pelos semáforos, fico à espera do sinal verde mesmo que não aviste um só automóvel no horizonte. E nem que esteja sozinho à espera de atravessar a rua, pois nunca se sabe se não vai surgir do nada um zeloso cidadão ou um polícia escondido para dar o puxão de orelhas sempre desconfortável. Sou um como eles, ordeiramente de passo estacado enquanto o sinal permanece vermelho.

Às vezes apetece desafiar o conformismo, esbofetear aquele imenso sentido ético de legalidade, ousar atravessar a larga avenida, sobretudo se de ambos os lados estiver uma multidão. Só para ver o ar contrariado, alguns acenos de cabeça em tom reprovador, enquanto a turba espera que o vazio não a atropele e que o verde venha substituir o impeditivo vermelho no semáforo. Uma insanável contradição que me assalta: o cepticismo militante perante a pequenez indígena (ou a portugalidade incorrigível) cede o passo quando vejo a bulimia dos “europeus civilizados” em acatarem as regras, suplantando o pragmatismo que traz o aroma mais humano às regras que se desumanizam quando são cegas.