27.5.08

Epístola de João César das Neves aos néscios


Recusar Deus é uma crença como as outras. No fundo trata-se de ter fé na ausência divina”, Diário de Notícias, 26 de Maio de 2008.

Já há muito tempo que uma prédica de João César das Neves não me perturbava tanto. Talvez por ser ateu e aquela frase tocar num ponto que me é sensível. Afinal, ela não se destinava a ser consumida pelos que se saciam na catequização que, às segundas-feiras, César das Neves faz nas páginas do Diário de Notícias. O destinatário é quem não se revê na fé de que César das Neves é embaixador na comunicação social, quando se despe da sua fatiota de consagrado economista.

O ateu, o ateu que não escorrega para o fundamentalismo laico, até é capaz de concordar com César das Neves quando reclama que se lê e escuta “(…) muito criticar a tolice e o delírio das religiões, mas raramente se refere a fragilidade intelectual da própria atitude ateísta que, com todo o respeito, é muito inconsistente”. É preciso decompor aquela oração. Não custa, até ao ateu não doentiamente anti-religioso, concordar que as religiões são um bombo da festa. Interessava perguntar por que razão isso sucede. É então que o passado vem à tona. O passado de enfeudamento da pessoa às religiões, a viciante dependência de credos, as tantas guerras feitas em nome de um deus, da superioridade de uma religião. No campeonato das religiões, apesar dos esparsos esforços de ecumenismo, são elas que se envolvem a si mesmas em “tolice”. Os dogmas são um vasto terreno onde apenas conta a descomprometida adesão motivada pela fé, aniquilando qualquer vestígio de racionalidade. Regista-se o ecumenismo involuntário de César das Neves, promovido a advogado de defesa de todas as religiões, e não apenas da que a cúria romana o investiu como embaixador na imprensa.

A segunda parte da oração é um libelo de auto-defesa contra os sistemáticos ataques de sectores ateístas contra religiões. Percebe-se a retórica: há ateus que passam o tempo a tentar demonstrar o indemonstrável – que deus não existe. A negação ateísta é tão indemonstrável como a comprovação que compõe a fé a qualquer religião. E também se entende que os crentes de qualquer religião se sintam incomodados ao verem a pesporrência com que se passeiam ateus no atrevimento da afirmação da inexistência divina. Da mesma forma que os ateus sentem urticária de cada vez que sacerdotes e seguidores asseguram o potencial de deus. Se bem percebi a parte final da oração de César das Neves, há muito de retórico, uma autêntica petição de princípio: dar aos detractores o mesmo veneno que eles tantas vezes oferecem aos crentes.

Se o diálogo entre as religiões é tão problemático, o diálogo entre crentes e ateus é um diálogo de surdos. Diria, uma impossibilidade lógica, ou uma ilogicidade. São linguagens que não se percebem mutuamente. Como ateu, não me preocupa demonstrar a inexistência de deus. Pertence ao domínio da intimidade de cada um. Porventura este seja um dos lapsos maiores das religiões: a intromissão na esfera individual, o apascentar das consciências, dando o roteiro necessário do pensamento que asfixia o pensamento individual, obrigado a ceder o passo perante o pensamento colectivo. À minha consciência não incomoda a fé dos outros. Da mesma forma que não me esforço – não posso – em convencer os outros que o deus em que acreditam não existe. Chega-me a convicção íntima da sua ausência. E a impossibilidade de impor o meu pensamento aos outros, por metódico respeito pelas convicções deles.

É aqui que César das Neves comete uma imprudência, um pecadilho que acaba por se voltar contra si mesmo. Ao tentar usar a mesma cicuta que os exacerbados laicistas destilam contra os católicos, César das Neves não se consegue distinguir deles. Desce ao seu nível e demite-se da putativa superioridade que aos católicos é devida (“dar a outra face”, não faz parte dos evangelhos em César das Neves lê?). Quando assevera que “recusar deus é uma crença como as outras, no fim da linha haveria religiosidade para todos os seres humanos, sem excepção – até para os ateus tão convencidos da sua não religiosidade. Só que isto não passa de um truque de retórica, um ilusionismo de palavras, uma ilusão tão conveniente a César das Neves. Recusar deus é o contrário do que afirma: é a afirmação de uma recusa de fé. Insistir no contrário é deslizar para a desonestidade intelectual. Por este caminho, até o ateísmo seria uma religião, quando é, por definição, a negação de deus. E, por aí, a recusa de qualquer religião.

Às vezes inventamos a verdade que mais nos convém. Nem que seja para afugentar os fantasmas que mais incomodam a verdade que sagramos.

1 comentário:

Maria João disse...

A fé propõe-se, não se impõe, é verdade. E a cada um cabe decidir abrir ou não a sua razão (e o seu coração, porque nem só de razão é feita a nossa felicidade, como até um ateu sabe) ao facto de que Deus existe e nos ama. Quem quer que aprofunde a sério e com verdadeira abertura e ausência de rancor as suas convicções ateístas (coisa que muito poucos ateístas fazem) chega a bem diferentes conclusões das que explicita o autor deste artigo. Os argumentos de César das Neves talvez não tenham sido os melhores para o convencer, mas estou certa de que isso se ficou a dever, entre outros aspectos, a muito preconceito da sua parte...
Acredito que Deus existe apesar de todas as nossas convicções e que todos temos a oportunidade de o descobrir, cada qual pelo seu caminho. Basta estarmos dispostos a isso. O seu caminho não tem de passar por César das Neves, mas oxalá o descubra. Rezo por isso.