16.5.08

A terapêutica Boaventura, Pureza & Cia.


Por higiene mental, reservo algum tempo à leitura dos gurus que se situam nos meus antípodas. Refrescante leitura. Através dela há um aleitamento de ideias, só que às avessas. Costuma-se dizer que necessitamos de referências que funcionam como bússolas do pensamento. Ninguém consegue escapar às influências que estruturam o pensamento. Essas influências tanto podem ter um sinal positivo como negativo. Neste caso, os aplausos não devem ser negados aos ícones que têm o condão de recentrar o pensamento no oposto do que preconizam. Numa certa medida, não deixam de ser referências: só para perceber que os terrenos que eles pisam, as ideias que defendem, os argumentos que esgrimem, são a matéria-prima que colocam nos seus antípodas.

Boaventura Sousa Santos, José Manuel Pureza e acólitos são exemplos maiores. Habituei-me a ler Boaventura para ter a noção de onde o meu pensamento não se pode situar. Pureza, também da escola da sociologia ideologicamente engajada de Coimbra, discípulo do primeiro, segue-lhe as pisadas. Reputados académicos, o primeiro senhor de uma carreira notável construída além fronteiras, e talvez por isso mesmo colocando o seu saber académico (que se supõe incontestável) ao serviço de compromissos ideológicos e de militâncias por causas. Não me incomoda que defendam as ideias que defendem, por mais que estejam num universo que recuso a frequentar. O que me inquieta é a confusão entre o papel do académico e a militância que os ocupa, a forma como trazem a suposta aura de académicos como esteio da razão das ideias. Até que ponto esta estratégia não pertence ao domínio da desonestidade intelectual, é a interrogação que deixo.

Desta vez o papa e o bispo da sociologia ideologicamente engajada decidiram perorar sobre a crise alimentar que tantas preocupações motiva, mais pela fome que está a trazer aos países pobres do que pela alta dos preços que os países ricos têm que suportar. Aproveitaram para repetir a retórica do costume, composta de um irreprimível preconceito contra o capitalismo. Um e outro tentam explicar os malefícios do capitalismo pela enésima vez, agora a pretexto da crise alimentar. Boaventura descobriu que os culpados pela alta dos preços dos alimentos são os nefandos capitalistas que, afectados pelo destempero dos mercados financeiros, se voltaram para os mercados onde os alimentos são transaccionados.

Sobre estes capitalistas recai a acusação de especulação: com a sua súbita procura de alimentos, os preços subiram. Tremenda insensibilidade dos capitalistas, egoísmo insuportável que os leva a apostar num mercado tão específico como o dos alimentos, sem terem em consideração as sequelas para os povos já famintos, que o hão-de ser mais ainda. Lemos Boaventura e se todos pertencêssemos à seita que o segue, daríamos por incontestável a teoria que oferece. Se o estratagema não fosse tão insidioso, diria que a teoria – para além da efabulação conspirativa – seria risível. Um académico, tão reputado, atira palavras que se pretendem reprodução da realidade e nada oferece como prova do que pretende demonstrar. Onde está o rigor científico que exige dos que avalia enquanto académico? Onde estão as provas de que os nefandos capitalistas passaram a comprar especulativamente alimentos e que isso ditou o aumento dos preços dos bens alimentares? Em lugar algum. O séquito que devora acriticamente as palavras de Boaventura dá como verdade aquilo que o guru escreve. A isto chamo o poder transfigurativo da realidade através da palavra escrita pelo papa das causas fracturantes.

O bispo discípulo da entidade papal também lavrou sentença sobre a crise alimentar. Sem surpresa, também para levantar o dedo acusador ao grande capital, que tomou conta da agricultura e dela fez um grande negócio. E, onde o capitalismo toca com a sua mão envenenada, a inevitabilidade dos desastres que acabam por punir severamente os desvalidos. Pureza conclui: tudo seria melhor se a agricultura se libertasse do estigma do grande capital e se apenas houvesse pequenas propriedades sem a atracção pela especulação, que não engordassem de lucros à custa da satisfação de uma necessidade humana básica – a alimentação. Num acesso de lirismo – só assim o posso conceber – Pureza clama pela paradisíaca “hortinha de cidade”. Já se está a ver onde quer chegar: de uma assentada, matava a especulação imobiliária que faz das cidades labirínticas selvas de betão. Só se esqueceu de preconizar a medida adicional para que as hortas de cidade pudessem oferecer bens alimentares consumíveis: os carros fora das cidades, ou esses alimentos teriam o condimento da poluição.

É gratificante saciar-me nas palavras escritas por estes gurus do meu contrário. Tão gratificante ser testemunha da sanha preconceituosa contra o capitalismo e os capitalistas, que acabo por me enamorar até daqueles egoístas capitalistas que são o retrato do “porco capitalista”.

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