30.6.08

Cheira a trabalho encomendado


Outra vez as memórias de infância, laboratório de experiências emolduradas para todo o sempre, que se resgatam anos mais tarde: havia sempre o menino mimado, o menino que se julgava injustiçado, sem todavia ter razões para se colocar nesse estatuto. Carente de atenções, de um narcisismo que roçava já o doentio. O menino fazia beicinho de cada vez que as coisas corriam só um bocadinho mal. Queria, à força, ser adorado por todos. Não admitia excepções. Aliás, houvesse uma única cabeça pensante dissidente da necessária adoração colectiva, ou um menino rezingão com aguçado espírito de contradição que ousasse dizer que não gostava dele, e logo o beicinho mimado esbofeteava os demais.

Aplicação da imagem a episódio recente? O queixume lamechas do primeiro-ministro, em declarações ao Expresso: “não é justo não gostarem de mim”. (Por honestidade intelectual, o dever de contextualizar a lamentação: a personagem queixava-se das confederações patronais que, na sua superior maneira de ver, não prestam justiça à governação impecável. Semelhante azedume podia ser destilado em relação a todos os sectores que têm sido antipáticos para a governação de sua excelência. Os que protestam contra medidas do seu governo, imediatamente para o poço dos ingratos que, ainda por cima, cometem a “injustiça” de não gostarem dele.). Eu diria: devia ser lavrada em letra de lei a obrigatoriedade de todos os cidadãos da república gostarem do seu primeiro-ministro – e, com particular deferência, deste.

O rescaldo do fim-de-semana: já que a “selecção de todos nós” frustrou expectativas e deixou a vitória do campeonato para os vizinhos, a tremenda angústia de sabermos que o sítio onde sua excelência o primeiro-ministro foi orar, em Portimão, foi alvejado por atirador furtivo. Para nosso sossego – e para o bem maior da nação – o timoneiro já tinha saído há vinte minutos. A agência de comunicação que engendra a imaculada imagem da personagem cuidou de encomendar a notícia à obediente comunicação social. E não nos livrámos de dramatização de pacotilha. Entre a garantia de uma governadora civil servil de que o incidente não passaria de “brincadeira de mau gosto”, logo a seguir a não menos servil polícia judiciária assegurando, para sossego das gentes, que a investigação irá até ao fim para se descobrir quem ousou cometer este atentado virtual contra o timoneiro da pátria.

Sim, virtual: lá se soube que o infalível timoneiro já tinha abandonado o pavilhão há vinte minutos. E nunca se saberá – a menos que se descubra o malfeitor – se a intenção era apenas assustar as hostes socialistas ali reunidas, ou era um ganapo possuído pelo demo entretido a alvejar objectos metálicos por enlevo da sonoridade que ecoa das balas a esbarrarem na superfície metálica, ou se o abjecto terrorista se atrasou vinte minutos. O que se sabe é que esta foi a notícia do fim-de-semana. Tem lógica: para retirar o protagonismo à Espanha ou a Alemanha que iriam ganhar o campeonato europeu de futebol, as equipas que tiveram o atrevimento de furtar o título à “selecção de todos nós”. Mais uma conspiração contra sua excelência o primeiro-ministro, que contava com os dotes dos artistas da bola lusitanos (outra vez com direito a epíteto patético: desta vez, viriatos) para o anestesiamento colectivo. Mais uma conspiração, a juntar-se à crise internacional que teima em demorar-se em vésperas de eleições.

O remédio: desviar as atenções. Desviar o protagonismo do futebol. A agência de comunicação do governo inventou um não acontecimento. Insignificantes as palavras do autarca de Portimão: por ali tem andado um doidivanas que se entretém a praticar tiro ao alvo a sinais de trânsito. Naquela noite terá decidido fazer pontaria à cobertura metálica do pavilhão onde, vinte minutos antes, a pessoa mais imprescindível do país tinha acabado de proferir uma das suas maravilhosas prédicas. O que surpreende é a ambiguidade a pairar no ar: não se deve dar importância ao incidente, mas ao mesmo tempo deve-se dar importância. Já viram o que teríamos perdido se os tiros tivessem acontecido vinte minutos antes? Por vinte minutos, evitou-se um doloroso luto nacional.

Como as coisas andam mal para sua excelência – os muitos tiros no pé de ministros com incontinência verbal; a teimosa crise internacional que aterrou no tempo errado; a derrota pessoal com a reprovação irlandesa do Tratado de Lisboa –, sente que a rifa da maioria absoluta não lhe vai calhar outra vez. Daí que convenha dramatizar. E pergunto-me: aqueles tiros não teriam sido encomendados? Assim como assim, algum incompetente conselheiro terá lido que um seu colega nos Estados Unidos defendeu que uma espécie de onze de Setembro seria favorável a John McCain. É só juntar as peças: descontando as diferenças (a modéstia lusitana ao lado da enormidade norte-americana), uma encenação perfeita para recuperar a turba ingénua para o lado do providencial primeiro-ministro. A insinuação de que sua excelência podia ter sido vítima de um atentado é o pretexto. Um diligente militante terá feito o trabalhinho. Quem acredita que a investigação policial vai sequer acontecer? Ainda corriam o risco de serem competentes e descobrirem o rasto do tal “boy”. E depois, como se explicava a coincidência?

Que me lembre, isto nunca esteve tão a jeito do culto de personalidade. Quem faz beicinho da forma que foi revelada ao Expresso, é capaz de tudo. Da minha parte, uma preocupante constatação: alguém conseguiu ultrapassar Francisco Louçã na escala dos odiozinhos pessoais de estimação.

1 comentário:

Rui Miguel Ribeiro disse...

É realmente anedótico/deprimente! Se foi conspiração, foi mal feita: para gerar simpatia, TINHA de levar mesmo um tiro (no ombro, na perna, na orelha); só o sangue e a chaga teriam esse efeito redentor perante o povo.
Se foi atentado, só pode ter sido o Raúl Solnado, reeditando versão revista e actualizada da sua pré-histórica blague (não blog) sobre a guerra.