12.6.08

No melhor pano cai a nódoa


Abomino adágios populares. Pretendem ser a consagração de algo que é uma contradição de termos – a sabedoria popular. O problema é que, volta e meia, dou comigo embrulhado na conveniência de ditados que veneram a pretensa sabedoria popular. É o povo que costuma dizer que é no melhor pano que a nódoa repousa. A cínica nódoa, manchando fazenda de tão boa qualidade. É o que acontece aos que tanto se esforçam por fugir das malhas do povo e depois são oportunistas necrófagos de provérbios populares.

Eu digo que uma das coisas mais belas que a existência tem é darmos conta das armadilhas em que caímos. Custa, sobretudo aos que se acham infalíveis – ou aos que, não se considerando dotados de tanta infalibilidade, se recusam a admitir que erraram. Acontece amiúde. Comigo, com o domínio da língua. Procuro ser purista, apesar de não dominar as regras da gramática para além do que o senso comum me sussurra ao ouvido. Irrito-me com os atropelos da língua que os outros cometem. Sobretudo nos jornais, mais ainda quando os atentados partem de luminárias.

O corrector ortográfico e gramatical alojado no computador é um auxiliar que não tem preço. Evita o desmascarar de erros de palmatória. O convencimento de que uma palavra tem uma certa grafia, quando é necessário afiná-la para expurgar o erro. É verdade que erros menores podem passar em branco num texto, erros que nem sequer um bom corrector gramatical consegue assinalar: um singular onde devia estar um plural, e a vista distraída que nem à terceira leitura consegue detectar o lapso. Não contam, esses erros menores. O pior acontece com erros de sintaxe que passam incólumes à lupa dos olhos que revêem o texto. O sinal da incapacidade para tornar exemplar o texto. É então que se abre o alçapão por onde mergulha num precipício tão fundo o pretenso purista da língua. Lá está o pano, o putativo melhor pano, já não imaculado pela nódoa que o tinge.

Por dever de humildade intelectual, urge admitir os lapsos. Agora entreabriam-se as portas a novos adágios populares, ou a frases que levitam um qualquer lugar-comum. A sua negação, todavia. O que conta é ter desprendimento de si, da aura infalível que possa ter sido edificada, para perceber que foi pisada a linha do erro. Admiti-lo não é dar o flanco. Até porque ao dar a mão à palmatória não há competição onde se perfilem ameaçadores adversários. O maior adversário é o eu teimoso que se recusa a rever no seu erro. Perceber onde está o erro é a oportunidade para não voltar a cometê-lo. E se o pano aparece de início com uma nódoa que podia ter um significado aviltante, a admissão do erro é o tira-nódoas que recupera a alvura do tecido. Só perde qualidades, e deixa de ser bom tecido, caso a obstinação seja a intransponível barreira ao consentimento do erro praticado.

Regresso à casa da partida para formular uma interrogação: faz sentido comparar o jaez das fazendas? Algum pensamento emproado na condição politicamente correcta apressa-se a responder que não. Só que depois são os sacerdotes desse pensamento que traçam a rota por onde deve a populaça obediente passar, caso não queira ver o dedo reprovador apontar em seu sentido. Pela prática desmentem o que consagram no pensamento arquitectado. Como não estou preocupado com a amansada filiação no politicamente correcto, tenho a impressão que os ventos do igualitarismo são o produto de acossadas mentes que se recusam a confessar em público aquilo que praticam. Por imperativos de retórica, para agradar às massas que arregimentam em seu redor, titulam os ventos da igualdade. Não haverá tecidos de primeira e tecidos da ralé. O pretexto para recusar o lugar-comum do bom tecido manchado por nódoas. Dirão, porque não há bom tecido a distinguir-se do mau tecido. Contraponho: porque assim não têm que reconhecer-se como a boa fazenda, nem ser confrontados com a maior das dificuldades – o humilde acto de admitir um erro, de ver em sua própria fazenda uma nódoa que embacia a sua fantástica aura.

Como navego por outras águas, convencido de que a igualdade é uma miragem, há as boas e as más fazendas. E quando as nódoas se estatelam nos bons panos, eles não deixam de o ser. Desde que a humildade intelectual fale mais alto e ensaie a depuração do tecido, diluindo a nódoa em nada. Sob pena de a ausente humildade intelectual despromover o tecido, num curto passo até à fronteira do mau pano.

1 comentário:

Luís Pontes disse...

Tenha cuidado com essa confiança cega nos correctores ortográficos, que por vezes arranjam uns belos vexames.
Ainda a semana passada o do Word teimava que a 3ª sing Pres. Ind. de Comprazer-se era ... "compraze-se".

Lpontes