27.10.08

A lógica do jumento (obras públicas faraónicas durante uma crise)


Ainda a crise, mas a tão incerta crise que ainda só se anuncia. Ouvimos, e lemos, pessoas responsáveis, conhecedoras, descomprometidas politicamente, aconselhar: diante da tanta incerteza, poupemos, cortemos em despesas, sejamos inventivos para poupar ao consumir. Não é tempo para devaneios com o dinheiro que não temos. Poupança, é a palavra de ordem. Por causa da contracção da economia. Mas, sobretudo, por causa de uma crise tão incerta que se assemelha a um quarto escuro para onde somos empurrados e onde não há maneira de o alumiar.


Algures num espaço virtual, vive um governo convencido que a terapêutica para sair da doença é injectar mais matéria viral. É um aborrecimento do tamanho do mundo, esta crise ter aterrado logo quando era mais conveniente abrir os cordões ao orçamento em vésperas de ano eleitoral (em tripla dose). O que fazem os que tomaram o leme em mão? Ignoram os sinais. Ignoram os apelos à prudência feitos por quem sabe da poda. Teimosos, só lhes interessa manter o calendário das obras, das muitas obras quase todas faraónicas. É a gestão do calendário eleitoral a sobrepor-se à lógica. Os catrapázios que ensinam o orçamento cheio de prodigalidades na véspera de eleições levam de vencida análises mais finas, análises mais frias, que sugerem prudência e aperto nas contas.


O que fazem os amadores do governo? Emparedados diante de um dilema, nem hesitam: prossigam as obras públicas, abra-se a torneira do betão. Recuar, nunca: podia roubar votos tão preciosos ao ambicionado triunfo nas eleições. Escondem-se em pretextos. Às vezes, dizem que é diante da crise que abala os alicerces da confiança e que ameaça paralisar a economia que se torna imperativo um orçamento gastador. Outras vezes, tocam na ferida sensível para largas fatias da população: se não for assim, vem aí a maré cheia do desemprego.


Ao primeiro argumento: por que artes de magia são consentidos ao Estado gastos virtuosos, gastos que são especialmente profilácticos em tempo de crise? Por acaso o dinheiro que o Estado gasta é diferente do dinheiro que anda nos nossos bolsos? Existe essa convicção: financia-se com os impostos que pagamos, o tal dinheiro que é fácil de gerir porque é de todos nós e, por isso, é anónimo. Um porém: as agendadas obras deslumbrantes terão que ir buscar financiamento ao estrangeiro, à míngua de rendimentos dos contribuintes indígenas (a fonte está a secar). Eis o paradoxo: nem com os balões de oxigénio que os providenciais frouxos políticos atiram para os mercados há sinais consistentes de mudança na maré da confiança. O que nos espera nesta absurda teimosia? Uma factura muito elevada há-de chegar no futuro. É a lógica de empurrar com a barriga os problemas de hoje, a maneira mais cómoda de convencer as gentes que a crise está domada. Só que depois a bolha há-de estourar. Nessa altura, outros terão as rédeas do poder. O problema já será deles.


Ao outro argumento que ampara os milagres da mão visível: vem aí desemprego e as obras públicas são o dique que o evita. Assim estes amadores assinam com o seu punho a confissão de como só sabem governar à bolina, só com o amanhã como ponto de mira. O depois de amanhã já não interessa. Por mais tempo que as obras se demorem nos estaleiros (é usual: os prazos ficam para as calendas), não se eternizam na fase da construção. Num certo dia, terminam e inauguram-se com pompa. E depois, o que fazer com o exército que teve trabalho temporário nas obras que deixam a impressão digital de um regime? Se isto não fosse suficiente, quem acredita que uma enxurrada de obras públicas, o cartão-de-visita da ostentação de um regime, consegue estancar o desemprego que se adivinha?


A teimosia em prosseguir com as obras públicas deixa à mostra como se comportam os amadores que andam pelo Terreiro do Paço. Agem como comissários partidários. O interesse geral, esse, para as catacumbas do esquecimento. No flagrante contraste entre a necessária contenção que se abate sobre pessoas e empresas, sem folga para o circo do consumo sem dinheiro e para os investimentos, e a abastança do orçamento. Da ilusória abastança que um dia destes vai trazer pesada factura. Cada vez mais me convenço: somos uma terra que se mostra rica, mas feita de gente pobre.


É esse contraste que torna as obras públicas no prelo, altar de sumptuosidade contumaz, uma obscenidade. Contudo, sugerem sondagens, estes ditirâmbicos socialistas levam a água ao seu moinho. A lição: compensa governar através de uma cortina de embustes.

2 comentários:

fazendo manha disse...

obrigada já está linkado...~
fico sem palavras pra te elogiar tão belo texto!!
suave seja!
bjos ..na alma
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Sandrinha

fazendo manha disse...

linkei vc no meus dois blogs ok
bjos
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Sandrinha