28.11.08

Vilões sedutores


Pela cidade estão espalhados outdoors que anunciam a "Villain Collection" – uma nova série de relógios de uma conhecida marca. A emprestar a aura de sedutora criminalidade, a imagem de um rufia em pose ameaçadora. Como estou em crer que os publicitários não dão ponto sem nó, pondo cuidado nos estudos de mercado que antecedem uma campanha publicitária, isto sinaliza a predisposição de potenciais consumidores para se deixar levar pelas cantilenas de sofisticados meliantes.


Não é de agora, a atracção por uma casta de vilões sedutores. Não se trata de rufias comuns. Esses, imersos na indiferenciada ralé, merecem o desprezo da populaça. Os adorados são os ladrões sofisticados, que usam a inteligência acima da média para golpes brilhantes. Muitas vezes, trata-se de gente que engana até profissionais polícias habituados a lidar com todo o tipo de criminalidade. Gente que congemina pacientemente os golpes que arrombam o baú que se julgava protegido a sete chaves. O género é pródigo em páginas e páginas de livros, em filmologia abundante.


Ao contrário do convencionado na lírica cinematografia, em que os "bons" levam sempre de vencida os "maus" – numa ingénua visão que não condiz com o mundo que existe –, os sedutores vilões são os heróis do enredo. Têm uma aura de romantismo que arrebata um numeroso exército de seguidores. O que leva a interrogar se não há por aí um também numeroso grupo de potenciais criminosos, que só o não é porque os dotes intelectuais não chegam para arquitectar os fabulosos e infalíveis (ou quase) planos que gizam o golpe. O que também leva a interrogar por onde andam os valores, desmentindo aqueles que ainda insistem na pedagógica a acertada moral, sem sentido a missão evangelizadora que teimam em aspergir sobre incautos e espertalhões.


A imagética do rufia sedutor vem de braço dado com o esplendor dos meios sociais onde repousam os holofotes. Esses rufias têm uma vida passada por luxos diversos, que a sucessão de conseguidos golpes alimenta o ócio e o ninho de luxos. É o que passa diante dos olhos do leitor, diante dos olhos do cinéfilo, quando lê um livro do género, quando assiste a um filme que torna ainda mais reais as sensações da vilania na sua quintessência. São os sonhos de muita gente a falar através das páginas dos livros, das telas dos cinemas: a vida faustosa e, se possível, obtida por meios fáceis. O romantismo dos vilões de primeira água interioriza esses sonhos.


Também conquistam as simpatias de muita gente os vilões que fazem justiça pelas suas próprias mãos. Aqueles que roubam aos ricos e distribuem aos pobres, a versão moderna do Robin dos Bosques, ou do Zé do Telhado, permanecem vivos no imaginário popular. O povo gosta dos justiceiros que, ao arrepio da justiça instituída, heroicamente são fautores da justiça pretendida pelo povo. Se cometem crimes, isso não interessa. Há fins que justificam os meios. É o mesmo povo que faz esperas ruidosas à porta do tribunal onde é julgado alguém acusado de hediondos crimes. O mesmo bravo povo que gostava de fazer linchamentos populares, caucionando a justiça na sua forma pura – já educados para o dogma que ensina que a soberania reside no povo, estranhando que os juízes não sejam eleitos. A coragem, diria a bravura, de muitos a baterem num indefeso: a imagem fiel do cretinismo popular, ou a prova de que não somos tão civilização como é apregoado.


Não tenho a certeza se as duas coisas estão relacionadas – a sedução pelos vilões que são heróis, dos bons vilões, e a tendência para defender a justiça popular. Lá no fundo, há cada vez mais gente a condoer-se pelas injustiças de que é testemunha. As fortunas que nascem de um buraco negro. A corrupção galopante que distorce méritos e leva os fracos e incompetentes a vingarem na fétida espuma de onde emergem. Negócios esconsos, ganância cega, atropelos a quem apareça pela frente, sumiços ditados a obstinados adversários. Quase sempre sem o braço da justiça lá chegar. Uma doença que se espalha, imparável, acometendo sobre mais e mais gente. A adoração de vilões sedutores é muito a atracção por justiceiros. Ou o olho por olho, dente por dente tão querido da populaça.


Admito que a "Villain Collection" daquela marca de relógios vai ter um sucesso estrondoso.

27.11.08

Ontem, o tempo e o modo


Não eram sonhos – que esses cavalgam um tempo ausente. As asas batiam sempre no sentido do tempo de outrora. No demorado voo pelo ontem que se eternizava pelos dias presentes. O ontem entaramelado com os dias vindouros. Era como só interessassem as recordações. A revisitação dos lugares, das pessoas, dos momentos vindos de um ontem, remoto. Os passos atravessavam esta dimensão invisível do tempo. Parecia que os ponteiros do universal relógio tinham aderido à inércia. Hoje, era apenas um teatro com uma larga tela onde desfilavam, ininterruptas, as memórias avivadas pela demissão do tempo corrente.


Talvez sem dar conta, a demissão do tempo desmentia a inércia do relógio. O tempo era voraz, o carrasco da infernal sensação de já ser mais o tempo vivido do que o tempo por viver. Demissão, contudo. Era como se já não contassem, ou tivessem escasso significado, os dias e meses e anos estendidos diante do tapete da vida. Um desperdício, da vida. A adoração compulsiva do ontem, como uma qualquer droga que traz viciação. Entretanto, o torpor instalado. Diria: a interminável contemplação do ontem como hibernação de si. O tempo e o modo eram cultores do ontem, de todos os ontem que se sucediam – dispersos, fragmentos – diante dos olhos ora semi-cerrados ora em pleno sonho acordado.


Já não havia forças para o, agora considerado, inexpugnável terreno. O outrora admirável desconhecido era um hoje um temerário abismo de que não arriscava sequer chegar próximo. Uma resignação malsã. A acomodação aos dias idos, penhora da existência que se resumia a todos os ontem emoldurados na gaveta das memórias. O regresso aos lugares e às pessoas e aos acontecimentos, uma e outra vez – ou a redescoberta de fragmentos de um qualquer ontem ainda não resgatado aos sombrios arquivos da memória. Era a maneira mais expedita de envelhecer. Ou a maneira de deixar a vida mirrar-se diante da sua insignificância actual.


Neste altar só a nostalgia tinha lugar. Era como se o corpo inerte ganhasse raízes no lugar de onde se recusava a sair, por temor dos dias vindouros. Só havia endeusamento de todos os ontem apetecíveis e dos outros ontem que saciavam o apetite pela melancolia. E mesmo que teimasse em admitir o culto do tempo irrepetível, ainda que argumentasse em sua defesa dizendo que traz os olhos abertos ao tempo presente, o desgaste dos pés que teimavam em percorrer os trilhos de outrora era sintomático. Em todos os demorados momentos de contemplação de um ontem metia a existência entre parêntesis.


A adoração do ontem, seria um refúgio? A confortável cápsula que tornava possível enganar o tempo universal que teimava em correr à cadência habitual. Ou os livros, os filmes, a música, os quadros dantes visitados, por vezes à exaustão, e que se o tempo corresse na sua feição não deixava espaço à revisitação. Talvez doesse saber que não regressaria a certos lugares, nem teria a repetição de momentos com algumas pessoas. Nem, decerto, as gratificantes sensações teriam o mesmo sabor se forçadas a repetir-se. Ou que, não fosse forçar a espontaneidade das escolhas, o regresso a livros, filmes, músicas, pinturas só servia como nutriente da demanda por outro tipo de recordações associadas. Era aí que o obstáculo do tempo irrepetível se esmagava, com fragor, no seu peito. Mesmo que rompesse o espelho da espontaneidade, magoava a decepção maior: na revisitação de todos esses ontem, sobravam as sensações diferentes das que o ontem tingira com os seus dedos. Os lugares e as pessoas mudam, expostos ao indomável tempo. É aí que grita tão alto, num rumorejo insuportável, a definitiva sentença: o passado já está feito e não volta a acontecer. Por muito que as memórias se exercitem no simulacro do ontem que não pode voltar.


Essa era a sua consumição mais dolorosa, a impenitente mortificação interior que se esforçava por turvar. Ao dilema, uma de duas respostas. Ou prescindia da nostalgia imberbe, fazendo-se regressar à existência que tinha, deliciando-se, embriagando-se até, nos dias que nasciam todos os dias e ofereciam um banquete singular – o da degustação diária da vida. Ou ensimesmar-se nos muitos ontem que gabava possuir em armazém, fautor de uma vida tão preenchida.


Era comboio que já passara, sem retorno. O inútil devaneio dos adoradores do ontem. A ausência de si, navegando nas águas etéreas do ontem que, contudo, se escapa entre os dedos como acontece a quem insiste em agarrar o vento.


26.11.08

Fogo amigável


Os gangsters, encurralados pela polícia, ensaiam desesperada tentativa de fuga. As suas pistolas disparam contra os polícias, que ripostam. No caótico tiroteio, as balas aleatórias tropeçam nas esquinas do edifício onde estão sitiados. Gangsters e polícias à mercê da lotaria dos projécteis. Quando as balas se esgotaram e o cheio a pólvora testemunhava os corpos que jaziam no chão, uns feridos e outros já sem vida, a contabilidade das baixas. Havia mais baixas entre os criminosos. Mais tarde, dois polícias vão ao hospital visitar um dos gangsters a quem foi retirada uma bala do braço. Pelo calibre, a conclusão simpática da boca de um dos polícias: "fogo amigável".


Só a formidável lógica castrense é que podia inventar a expressão "fogo amigável". Supõe-se que as balas disparadas pelo revólver de um dos companheiros do gangster ferido eram balas doces, balas que ao perfurarem a carne do criminoso não lhe causavam dor. Assim como assim, tratava-se de uma bala amiga. E, acredita-se, os amigos não existem para causar dor.


Já sei: fogo amigável é uma metáfora. Quando o polícia recolheu a bala extraída do braço do patife notou-se a expressão de alívio. Ele não tinha sido atingido por bala disparada por um polícia – como se caíssem os parentes à lama quando um polícia atinge alguém a tiro. Mas o polícia exprimia o sossego interior ao saber que o gangster não fora alvejado por um dos seus. Fora de hipótese ser processado pelo gangster. Aquela bala, que já era prova policial, cuidadosamente enfrascada para o efeito, ganhava uma plácida condição só ao alcance do "fogo amigável". Não era bala; era supositório com os mágicos predicados anestésicos. Uma bala para curar as dores.


Há muitos fogos amigáveis. Há os disparados por balas lancinantes. E há o fogo amigável servido na bandeja das palavras cortantes, das palavras implacáveis, as palavras que são devastadoras. Num assomo de frontalidade, elas destroem a auto-estima de quem as escuta. Diz-se: balsâmica honestidade, que de muito se querer alguém essa pessoa merece escutar as palavras desassombradas, nem que elas sejam um forte abalo telúrico aos alicerces enraizados. Não deixam essas palavras de ser sucedâneo de fogo amigável. As palavras impiedosas estalam no corpo da pessoa a quem se destinam, como se fossem uma granada que a estilhaça em pedaços.


A reacção espontânea do atingido pelo fogo amigável das palavras destemidas é um grito de dor, o protesto contra aquelas palavras julgadas desabridas. Jamais se esperaria que as balas viessem disparadas com o rótulo amigável. Diz-se: que da amizade irrompem os alicerces da confiança e que se exige recíproca compreensão. Respeito é a rima necessária. Quem tudo isto argumenta não está à procura de amigos; apenas de comiseração. Pela piedosa convivência exige-se a caução de todos os actos. As janelas encerram-se aos reparos, até à construtiva crítica, que chegam entoados pela boca de quem se julga pessoa querida. Todas as balas têm o mesmo amargo sabor, na esguia dor que provocam quando se alojam na carne. Venham de onde vierem – sejam fogo amigável, ou troem por mão inimiga.


Fico convencido: faz sentido o fogo amigável. Não na patética troca de balas entre gangsters e polícias, que às balas transviadas não colhe a distinção entre fogo amigável e fogo inimigo. Essas balas, amigas ou não, ferem e matam, ensanguentam tanto umas como outras. As balas que vêm embrulhadas nas palavras que doem ao serem escutadas são, às vezes, a terapêutica necessária. Que só os infatigáveis militantes da frontalidade têm capacidade, e muitas vezes a coragem, de proferir.


Essas balas podem chegar com o fétido odor da pólvora, podem causar feridas que ficam abertas por muito tempo. É na máscara do tempo que as feridas cicatrizam, que o pessoal sofrimento se suaviza. Só então, com o distanciamento do tempo, sobra o discernimento. É então que se percebe que aquelas balas tinham o doce travo amigável. Por vezes, é tarde para reparar os danos do fogo que se julgou pessoal aleivosia quando eram, afinal, amigáveis balas.

25.11.08

A realidade, somos nós que a fabricamos


Revejo Fátima Felgueiras, à saída do tribunal que ditou a sentença na maratona que foi o julgamento por uma mão cheia de crimes de que era acusada. Revejo-a, exultante, triunfante até, a protestar a paradoxal ilibação de quem acabava de ser condenada a pena de prisão suspensa de três anos e três meses. Percebo o contentamento: a senhora livrou-se do crime maior que pesava sobre si, as suspeitas de corrupção. A serem provadas, seria quase insólito no panorama pátrio – que isto de levar ao fim julgamentos de gente acusada de corrupção é uma odisseia que termina com a exculpação do acusado, que ainda sai triunfante, nos ombros dos apaniguados, e muito ofendido pela acusação infundada.


Revejo a autarca de Felgueiras e orar com pujança. Soltou-se-lhe a língua, por fim, ela que se reservara a um monástico silêncio durante o julgamento. Ali estava, de peito feito, um orgulho ímpar, a mostrar a quem a quis escutar – detractores e fiéis seguidores – que a honra estava intacta e assim tinha sido sancionado pelo tribunal. Não reprimiu a habitual pesporrência dos que não foram instruídos para degustar olimpicamente as pessoais vitórias. Havia raiva incontida naquelas palavras. Dirão os mais condescendentes: pudera, provada em tribunal a sua inocência, sobrava o travo amargo de todos estes anos que a senhora carregou o opróbrio dos crimes de que era acusada.


O problema é que a senhora de Felgueiras destilava a bazófia diante das câmaras sendo arquitecta da sua própria realidade. As notícias acabavam de reproduzir a sentença do tribunal: ilibada de quase todos os crimes, excepto um punhado deles, crimes menos graves, é certo (abuso de poder e peculato de uso) – mas a senhora não era ilibada de todos os crimes. O tribunal sentenciou: pena de prisão de três anos e três meses. Contudo, pena suspensa. Por artes das habituais e soturnas "manobras processuais", de braço dado com um novo código não-sei-de-quê mais generoso para gente condenada a pena de prisão, a senhora teve a sorte de ver a condenação remetida à condição de "pena suspensa".


No conto de fadas que a dona Felgueiras contava, de permeio com a raiva que espumava, esqueceu-se de dizer aos néscios que não tinha sido totalmente ilibada. Aquele "totalmente" faz a diferença. A diferença de quem distorce a realidade à medida das suas conveniências. Estará habituada, treinada na escola dos medíocres políticos que são a nota dominante do regime. Só que nem à força de tanto forjar a realidade a senhora consegue transtorná-la. A sentença do tribunal, quando se converter em sentença definitiva (depois de julgados os recursos para os tribunais superiores), há-de deixar uma desagradável impressão digital no registo criminal da senhora. Da sentença de prisão, apesar de suspensa, não se há-de livrar. Cadastrada ficará, a donzela.


Continuam a passar na memória as imagens da oratória inflamada e triunfante da senhora à saída do tribunal lá da terra. Uma mentira contada à exaustão transforma-se em verdade. A senhora de Felgueiras parecia começar a pré-campanha eleitoral para as eleições autárquicas daqui a um ano, ali à porta do tribunal, um exotismo latino-americano que terá trazido de outras andanças. A pose pomposa à porta do tribunal servia para o chamamento dos fiéis seguidores que a reelegeram mesmo depois da vergonhosa fuga que empreendera para o Brasil. Na altura, já no doce exílio onde continuava a receber o salário pago por quem paga impostos, a turista de luxo justificou-se com o incrível argumento de que não lhe passava pela cabeça ter que partilhar cela com criminosas de delito comum. Glosando Orwell, confirma-se que uns são mais iguais que os demais.


Esta santa terrinha dos doces e suaves costumes tem este encanto. As lentes trocadas caucionam como naturais as coisas vistas de pernas para o ar. Gente sem vergonha que se ufana dos feitos e ainda se condói pela injustiça de que é vítima ao dar com os ossos em tribunal. É um ar de terceiro-mundismo latino-americano que nos dá, com frequência. Só nos faltam as praias paradisíacas, o clima exótico, ou o exotismo dos indígenas bolivarismos. No fim de contas, esta terra é uma gargalhada pegada. Um programa de humor incessante. Quem disse que viver aqui é desagradável?


24.11.08

(Tratar da) vidinha


O "bloco central" é muito isto: gente arrivista que sobe a pulso a escadaria do aparelho dos partidos e desagua na grande capital. Vinda de uma parvónia qualquer e, num belo dia, sai a taluda da supina grandeza de funções: chefiar um ministério; se o pessoal apagamento não cauciona tão elevada sinecura, uma secretaria de Estado já é o zénite aceitável para o pessoal garbo. Depois vem a maré que os leva do Terreiro do Paço. Não ficam a perder. Invariavelmente, passam a gravitar no hermético universo da alta finança, senhores de importantes, e bem remunerados, cargos em empresas de renome.


Sem falsos moralismos: não defendo que se devesse pôr um garrote no circuito sanguíneo entre ministérios e empresas e bancos. As pessoas são livres de transitarem por onde quiserem. Às empresas e aos bancos, quem pode censurar o oportunismo de deitar mão a gente que acaba de deixar públicos cargos, sobretudo a gente que se soube abastecer de invejável rede de contactos enquanto servidores da causa pública? Porventura um pouco mais de decoro não fosse mau conselheiro. Para as empresas e bancos, que não se conseguem desprender da imagem de pedintes do poder público. E dos que, mal lavam as lágrimas pela partida da sinecura onde faziam autoridade, logo vão carpir as mágoas para os braços de empresas e bancos que os acolhem contra generosa retribuição.


Outros furam mais longe. Fazem-se banqueiros. Inebriados: com o poder que amealharam enquanto lhes coube em sorte serem governantes; com a densa rede de cumplicidades que souberam tecer, sementeira do nepotismo que cultivam; com os salões da alta finança que passam a pisar, a oligarquia banqueira em embaraçado convívio com os neófitos banqueiros que trazem bênção política. Extasiados com o néon da grande capital, que sempre fora sonho saírem da província beirã que era pequena para a grandeza que, notavam, exalava das suas pessoas.


Um chegou a ser secretário de Estado dos impostos. Depois embarcou para Londres, onde se abarbatou com uma vice-presidência de um banco que gere financiamentos da União Europeia. Terminado o exílio londrino, fundou um banco. Sabe-se agora: o banco deve ter sido um sucesso estrondoso. Nestes anos, amealhou um pecúlio interessante para quem vem do nada: seis milhões e meio de euros de património, é o que consta. As curvas do destino pregaram-lhe uma partida: os próximos tempos serão de cativeiro, tantos os crimes de que é suspeito.


O outro é personagem querida de uma certa corte jornalística e de algumas revistas cor-de-rosa – na expressão do arrivismo social destas criaturas que desaguam vindas da província e se deslumbram com o crepitar da imagem pública exposta diante de uma audiência ávida de voyeurismo. Fez uma pausa na carreira política – dizem muitos, mais situados "à direita", uma promissora carreira política. Nesta sabática da política vai tratando da vidinha, acumulando importantes cargos à frente de empresas. Tão prolífico é no abichar de presidências de conselhos de administração que, julgar-se-ia, é guru da gestão. Só que esta não é uma terra normal, há que o lembrar.


A provar o que se suspeitava, a carreira política deste arremedo de Aznar luso (a colagem era mais evidente quando usava ridículo bigode) está apenas em banho-maria. É que, chamuscado pelo descalabro do banco há dias nacionalizado, e temendo ir na mesma enxurrada que levou o seu companheiro a ver a alvorada através da quadriculada janela dos calabouços, solicitou os bons serviços da televisão pública para pública operação de auto-branqueamento. (E o canal não podia negar o favor a quem fez a pública apresentação da biografia do chefe supremo – o livro docemente intitulado "o menino de ouro do PS". Há cumplicidades que dizem tudo.) Aquela pose de virgem pudica, a pose condoída, as culpas algures mas jamais sobre a sua pessoa, o perfeito sacudir a água do capote. É curioso: parecia um julgamento antes do tempo. Ironia do destino, a pessoa que envolveu como seu pessoal álibi já o desmentiu. Terá o povo razão quando adverte que é mais fácil apanhar um mentiroso que um coxo?


Dias Loureiro, é o nome que muitos "à direita" pronunciam como a noiva prometida para trazer o PSD de volta ao poder. Haveria muito a discutir, a começar por aqueles que deitam estas noivas prometidas algures na "direita", como na "direita" acomodam o PSD. Não é nisto que revejo "direita". E se a "direita" ultrapassa o meu discernimento e é mesmo isto, antevejo longa travessia no deserto a julgar pela qualidade das noivas prometidas que aparecem a cada novo horizonte, e o "Aznar luso" não é excepção. Com Oliveira e Costa, algo em comum: a fronteira entre política e negócios deixou de existir, numa intimidade perversa com os resultados conhecidos. Protótipos da casta cheia de ganância que usa os partidos e o aconchego do poder para fazer pela vidinha, pela sua privada vidinha. No sentido literal da palavra: comezinha vida, mesquinha vida, a destes meirinhos que poluem o serviço da "causa pública" com a pessoal avidez.


Derradeira perplexidade: foi Oliveira e Costa secretário de Estado dos impostos, fazendo-se passar por génio da matéria. Deve ser terrivelmente incompetente: se não, como podia ser acusado do crime de fraude fiscal?



21.11.08

Juiz ou justiceiro?


Há uma categoria de gente que se acha penhora da consciência dos demais. Lá no seu íntimo, acreditam na sua predestinada condição, nascidos que foram para denunciar as injustiças flagrantes que acossam este mundo. E para as combater com as armas que caíram no seu regaço. Não escapam, contudo, à mácula do protagonismo que cresce numa espiral descontrolada. Parecem gostar de ver a luz dos holofotes a recair sobre a sua pessoa. Se, às vezes, o protagonismo se esfuma na cortina do tempo, tratam de inventar maneira de fazer regressar as atenções sobre a sua pessoa.


Há um famoso juiz em Espanha que encaixa no perfil: Baltazar Garzón. Convenceu-se que tem uma missão: a salvação da memória da humanidade. Ocasionalmente anuncia mais uma cruzada pessoal, possivelmente convencido que a humanidade, a silenciada mas contudo conscienciosa humanidade, lhe encomendou a tarefa. Vasculha no passado preenchido por tenebrosos actos, o passado onde os facínoras imperaram cometendo torcionários actos. Chegou ao ponto de romper com teorias estabelecidas que não aceitam a caça aos malfeitores em lugares onde ele, juiz espanhol, não tem jurisdição. Reinventou o princípio da extraterritorialidade dos crimes: desde que houvesse vítimas de nacionalidade espanhola que morreram às mãos de torcionários em terras estrangeiras, os algozes ainda vivos não teriam descanso diante da impiedosa perseguição do juiz justiceiro.


Este é o problema fundamental: a demarcação entre o juiz e o justiceiro. O que levanta outras interrogações: pode um juiz arvorar-se em justiceiro? A partir do momento em que passa a fronteira e se desdobra em actos justicialistas, o juiz não deixa de o ser – juiz, imparcial como por definição devem ser os juízes? O percurso de Baltazar Garzón é sintomático. O exibicionismo do justiceiro sacrificou a imparcialidade e a discrição que se exige a um magistrado. Garzón empenhou-se nas causas que julga servir. Devassou o reduto da imparcialidade, passando a ser actor empenhado em condenar quem escolhia para as suas purgas. Essas purgas arrastam o estigma de pessoais purgas. Ora, um magistrado que se comporta desta maneira não tem condições para ser imparcial. Deixa de ser juiz e aparece como justiceiro.


Tenho uma desconfiança congénita de justiceiros. Não acredito em gente predestinada, como se houvesse uma unção divina que os coloca num pedestal inacessível ao comum dos mortais. Julgam que vogam sobre os demais e que podem ajuizar a consciência alheia, ditar os cânones acertados e censurar reprováveis comportamentos. Tenho um problema com a semi-deificação dos sábios das consciências: ficamos à mercê da estultícia encapotada, da arbitrariedade que se acoberta na pretensa superioridade intelectual e moral destes meirinhos do pensamento acertado. É quando mais me apetece desalinhar o passo, nem que seja por infatigável espírito de contradição, nem que seja por metódica dissidência que rejeita qualquer esboço de superioridade moral.


Com o protagonismo pessoal em maré baixa, Garzón quis inverter a tendência. Desta vez lembrou-se de desenterrar, das valas comuns e dos túmulos individuais, as vítimas do franquismo. As exumações necessárias para abrir caça aos carrascos da ditadura franquista, pois a impunidade de outrora não pode ficar sem punição com a bênção de uma democracia tingida pela presciência socialista. O contexto vem de trás: há um ano o governo espanhol socialista teve a peregrina ideia de aprovar a lei da "memória histórica". Para mudar a toponímia que ainda tresandasse a vestígios do franquismo, para refazer a história, se necessário fosse, e extinguir as pistas da ditadura que já foi derrotada mas ainda parece envergonhar algumas consciências mal amanhadas. Garzón, um ano mais tarde, prolongou a deriva estalinista. Não percebeu, ele que será dotado de uma inteligência tão brilhante, que a abria uma caixa de Pandora. Se a Espanha está pacificada com o passado franquista, qual o interesse em abrir essa caixa de Pandora?


A deriva estalinista dos socialistas do momento é de uma inutilidade confrangedora, mas em si reveladora. O "pensamento correcto" já há muito convencionou quem eram os "bons" e os "maus" na guerra civil espanhola. Já julgou, sem tribunal, todos os facínoras ao serviço da ditadura franquista. O que Garzón queria fazer – remexer nos restos mortais de gente barbaramente assassinada, remoer o sofrimento dos familiares das vítimas – é ultrajante. Os sonhos que alimentam o protagonismo pessoal esbarraram na realidade que conspirou contra o juiz justiceiro. Os familiares das vítimas recusaram as exumações. E juízes comuns, porventura com o discernimento de quem consegue ser desapaixonado, travaram a ambição justicialista de Garzón.


Quantos anos faltam para a reforma de Garzón?


20.11.08

O festim da existência


Os minutos escassos. O pretexto para a sagração da existência. A cada um, o pessoal muro das lamentações onde se expia o tempo desperdiçado em inúteis padecimentos, os padecimentos que levam a lugar algum. O muro onde se despedaça a intensidade do ser, reduzido a uma expressão risível, lamentável, de si. Às voltas com dores ficcionadas, ou às voltas com as enfermidades que se exageram nos seus efeitos, o tempo escapa-se entre os dedos. Volátil, como a poderosa necedade que deixamos que seja apoquentação pessoal. A expressão de uma comatosa existência. Como se passássemos ao de leve, apenas ao de leve, pela existência que nos é dádiva.


E, no fundo, é tudo tão fácil. A celebração da existência – que por o ser, existência, merece que se erga um cálice diário com o néctar que festeja a passagem pela vida. Nesse cálice há-de repousar o mágico néctar, um dia atrás do outro, num prodigioso louvor ao que somos. Sem agradecimentos embrulhados em enigmática metafísica, que a cada um cabe arrepiar o seu caminho. Chegar ao fim do dia, ou acordar pela fresca alvorada, é o festim maior. Pela cabeça passam imagens do hedonismo na sua máxima expressão. Povoadas por intermináveis festanças onde a música é credora de sublime exaltação.


Um exercício terapêutico: olhar em redor e contemplar todos os fragmentos da beleza, mesmo nas coisas mais banais, mesmo nas coisas mais improvavelmente belas. Uma árvore nua no pináculo do Outono. As pessoas que se cruzam na rua na indiferença recíproca. Os carros que passam e emprestam o ruído e a cor sem os quais as cidades não seriam cidades. Os rostos, uns irradiando alegria contagiante, outros cerrados sobre as próprias sobrancelhas, sorumbáticos ou apenas desconfiados. O par de namorados, decerto de há poucos dias, que faz juras de amor enquanto se entrega à volúpia do afecto. A água que corre, langorosa, pelo ribeiro que desce a serrania até se confiar na embocadura do grande rio, já as águas no seu remanso leito. Ou a assombrosa coreografia do mar em dias de avassaladora tempestade, nem que seja nos dias calmos onde o vento se aquieta e semeia o mar chão onde apenas o sol resplandece. Uma criança que cresce todos os dias, como se sentisse o pulsar das veias, como se houvesse mister de observar os membros a crescer centímetro a centímetro, os traços faciais a mudarem com a sucessão dos dias. A magia maior: a mulher grávida, arrastando a custo a barriga proeminente que dentro de dias há-de gerar nova vida.


O metódico niilismo é cansativo ao cabo de uma larga temporada. Nem os alicerces do pessimismo antropológico aguentam as sucessivas, intermináveis folhas do calendário que vão sendo arrancadas. As coisas têm o seu lado belo, as pessoas encerram em si, bem debaixo da espuma fétida, uma pureza decantada. Apetece subir ao palco onde está em cena a magistral partitura que é o festim da vida. O palco onde todas as coisas e pessoas são actores de um festim em uníssono. Onde as diferenças apenas unem. As pessoais desavenças banidas do dicionário, elas sim o veneno maior que liquida a adocicada existência. O palco onde palavras vãs, palavras desesperançadas – "utopia", "ilusório", "ingenuidade" – deixariam de possuir o sentido corrente. Ao som da música, com vozes de poetas a lerem poemas de outros poetas. Até o tempo seria todo "bom tempo". Até a chuva impiedosa, outrora melancólica, sinal do "mau tempo" que nunca se percebeu porque carregou com o adjectivo que desqualifica. E as feras seriam criaturas amansadas. Da maldade, apenas um vestígio arqueológico.


O festim em exaltação do milagre da existência. Pois ela é tão frágil, sempre um fio ténue a separá-la da sua negação. Eis a razão maior para o festim contínuo. Não sei onde encontrar aquele palco prodigioso onde tudo se consome na sua interminável beleza. Desconfio que esse palco habita encerrado algures numa catacumba interior, algures aprisionado sem se conseguir deliciar com a luz do sol ou a apatia de um céu carregado de plúmbeas nuvens.


Mas sei: que quero descobrir o mapa que segreda a rota até a esse remoto lugar.


19.11.08

Cores desmaiadas


Naquele lugar as cores eram baças. Na sua triste tonalidade desmaiada, parecia que todas as coisas se esvaiam na sua fragilidade, tão perto de serem levadas pela fúria dos elementos a contracenarem com as desprotegidas coisas. Os vendavais eram o agreste elemento que semeava a lividez das cores. As pessoas, todas as pessoas, caminhavam lentas pelas ruas, de rosto fechado, embebidas numa palidez confrangedora. Pareciam autómatos, inertes de sensações.


Contudo, havia nas cores desmaiadas uma beleza indizível, apenas uma beleza que se sentia a gotejar. Havia ali rejeição das cores garridas. Um metódico hino à discreta forma de ser. É que as garridas cores feriam a vista. Era como se fossem um farol incandescente, que de tanta e intensa luz irradiar, só conseguia anestesiar as pessoas. Logo, um farol incendiário. Parecia que naquele lugar as pessoas há muito tinham aprendido a lição: as cores cintilantes, na sua embriaguez, são um terrível engodo que distrai as gentes para as supérfluas coisas da existência. A coreografia que é viver dispensa o folclore das cores engalanadas.


Até à noite só havia meia-luz. A suave iluminação misturava-se com a mal disfarçada penumbra que encobria o horizonte. À distância, tudo o que a vista alcançava eram vultos – vultos das pessoas em redor, vultos das coisas nas suas formas distorcidas. Pela noite, as cores embaciadas retiravam mais nitidez às coisas, as cores ainda mais desmaiadas que à luz do dia. Era como se estivesse por dentro de um filme a preto e branco, tão discretas as cores entarameladas na escuridão nocturna. E, no entanto, havia um encantamento que dispensava explicação. Apenas a constatação do encantamento em redor. Pelo insólito das cores a que os olhos estavam desabituados.


Os escassos dias naquele lugar foram consumidos com a coreografia das cores desmaiadas na sua inusitada expressão. Nos escassos dias, os sentidos pareciam anestesiados pelas mortiças cores que tomavam conta das coisas e das pessoas. O corpo entregava-se ao exercício balsâmico, como se as cores desfalecidas fossem terapia para domar os sentidos dantes desenfreados. Até a atmosfera se compunha a preceito, a névoa matinal que descia numa fina camada até repousar no rio que fazia do vale o seu leito. A névoa que lentamente se acamava nas águas mansas do rio, demorando-se nelas enquanto não se esbatia no sol que trepava pelos contrafortes da manhã.


As ruas estreitas, as casas feitas com o granito secular, as pedras da desconfortável calçada; o cenário que recebia as cores discretas que dominavam aquele lugar. Dir-se-ia, uma labareda de melancolia vertida nas desmaiadas cores que aquele lugar escolhera como divisa. Porém, a apreciação demorada desfazia a errada percepção. Sobrepunha-se a placidez daquele lugar, onde até o tempo parecia fluir com uma lentidão que desmentia a marcha dos ponteiros dos relógios. Às vezes, parecia que o tempo se havia eclipsado detrás das pálidas cores que compunham a paisagem. Essa era a sua beleza, imersa na sensação da intemporalidade.


Ao fim dos escassos dias, o corpo sentia uma irreprimível pulsão para abandonar aquele lugar. Uma paradoxal sensação: acertado o passo com o sortilégio do lugar e das suas mortiças cores, o apelo para partir em demanda de outros sítios, dos desconhecidos sítios por desbravar. Não fosse a beleza das desmaiadas cores consumir-se no cansaço da acomodação. Não fosse a habituação a elas sinalizar o fim do encantamento daquele lugar e das suas cores desfalecidas.


Já errava o corpo, sem destino marcado, e ainda vogavam as memórias daquele lugar que entronizava as cores desmaiadas. Por momentos, sentia o chamamento para regressar às ruas labirínticas onde todas as pessoas trajavam o rosto fechado. Por momentos, todos os lugares entretanto visitados pareciam um trono de aridez, mesmo aqueles sagrados pelos roteiros do turismo, notabilizados pelo desaguar diário de hordas de turistas em demanda dos encantos oficializados. Sentia ser aquele o ser idílico lugar. Resistiu ao chamamento, porém. Temia que no retorno se diluísse a indizível beleza que o extasiara da outra vez.


Há lugares que só se visitam uma vez. Por mais que as memórias convoquem o regresso, a resistência ao retorno é a terapêutica decisão que impede a banalização do encantamento.


18.11.08

A valsa dos vesgos



Aprende-se muito com o sociólogo Boaventura Sousa Santos. Sobretudo quando produz doutrina nos jornais – pois não acredito que o Boaventura Sousa Santos académico, que se gaba de ser referência para um exército de seguidores aqui e além fronteiras, escorregue para a ciência ideologicamente engajada como o faz quando produz opinião militantemente enviesada nas páginas dos jornais. Não estou a sugerir que o eminente sociólogo não tenha o direito de calcorrear as veredas de uma qualquer ideologia. O que me causa estranheza é servir-se da aura de reputado académico internacional para doutrinar o lastro ideológico que carrega consigo.


Boaventura Sousa Santos, que vem das franjas da extrema-esquerda que seduz tanta burguesia urbana, ofereceu prosa no Público que escorre mais um fragmento da esperança mundial no novo presidente dos Estados Unidos. É surpreendente como alguém que milita na extrema-esquerda caviar consegue dar à estampa um naco de prosa tão encomiástico do novo messias. Outro guru da extrema-esquerda caviar, o fradesco Louçã, retorquiu, exasperado, a quem lhe perguntou se Obama era de esquerda, que naquela terra hedionda não há nada que se assemelhe a "esquerda" (àquilo que Louçã considera "esquerda"). Em abono de Boaventura Sousa Santos, a flexibilidade intelectual de admitir que Obama representa uma qualquer esperança que rima com mudança.


O pior está na argumentação que "Boa" – assim é carinhosamente tratado pelo séquito que o admira no estrangeiro – desfila na peça de doutrinação das massas nas páginas do Público. Começa por asseverar que a eleição de Obama "é um acontecimento de global e transcendente importância para todos os que acreditam na possibilidade de um mundo melhor", o que só tem par nos últimos quinze anos em dois outros acontecimentos: "a eleição de Nelson Mandela como Presidente da África do Sul em 1994 e os quinze milhões de cidadãos que, por todo o mundo, saíram à rua em 15 de Fevereiro de 2003 para protestar contra a invasão do Iraque."


Não é inocente ter fixado os últimos quinze anos como prazo de análise. Se recuasse mais quatro anos teria que identificar outro acontecimento transcendente para muitos que acreditavam na possibilidade de um mundo melhor: a queda do muro de Berlim. Percebe-se a delimitação temporal: a queda do muro de Berlim não foi conveniente para as convicções ideológicas de Boaventura Sousa Santos. Não será por acaso: durante o fim-de-semana decorreu em Lisboa um congresso sobre Marx, uma celebração quase religiosa de crentes que aproveitam a profunda crise financeira, que crêem ser um sinal da falência do capitalismo, para resgatar Marx do túmulo. Se "Boa" incluísse a queda do muro de Berlim nos tais acontecimentos com transcendência global cometia uma traição ao seu companheiro de lutas, Fernando Rosas, um dos principais organizadores daquele congresso. E assim fica provado como há quem precise de colocar mais dioptrias nas lentes, para conseguir alcançar além dos limitados horizontes que a desonestidade intelectual fixa.


Mais à frente, Boaventura Sousa Santos aproveita a cor de pele do vencedor das eleições nos Estados Unidos para repisar uma tecla que lhe é muito querida: "(n)os últimos quinze anos, a África mostra-se ao mundo nos ombros destes dois gigantes e assim responde Basta! aos insultos do Banco Mundial e do FMI, para quem a África é o continente infeliz onde o capitalismo global decidiu depositar multidões de seres humanos considerados descartáveis". Um cliché que excita os seguidores do guru Boaventura, pois a repulsa do nefando capitalismo obriga a destilar argumentos de reprovação que misturam irracionalidade com o mais puro ódio. Não vale a pena, nesta ocasião, discutir os malévolos efeitos do FMI e do Banco Mundial, entendidos como factos consumados pelos que acreditam, acriticamente, nas prédicas de "Boa". Limito-me a apreciar a parte final da certeza assertiva: a África é o caixote do lixo escolhido pelos malfeitores do capitalismo. Sem provas, a não ser a sua autoridade intelectual, estas verdades irrefutáveis cobrem-se com um manto religioso – o mesmo manto que explica a crença em dogmas que de racional nada possuem.


A derradeira pérola fica guardada para uma inominável comparação que se julgava enterrada no tempo passado. Boaventura Sousa Santos é mais um a comparar os atentados às torres gémeas com o sofrimento que os pobres deste mundo padecem, mergulhados numa obscena miséria. O sociólogo de referência assegura que "outras populações do mundo sofrem anualmente ataques tão injustos, tão criminosos e muitas vezes mais devastadores do que o ataque às Torres Gémeas, sem que isso mereça mais do que uma pequena referência noticiosa." Porventura Boaventura regressou a esta patética retórica depois do laureado Saramago ter dito, há umas semanas, que a crise financeira tem um efeito devastador nos mais desprotegidos e que, por esse motivo, os capitalistas são acusados de genocídio. Vale a pena comentar o dislate? Não.


Retomo o início deste texto: aprendo muito com o guru Boaventura Sousa Santos. De cada vez que o leio, fico enternecido com a retórica que distorce factos para os colocar a jeito das conclusões convenientes à afirmação das crenças ideológicas. Aprendo: a acreditar, e cada vez mais, no contrário do que é doutrinado por Boaventura Sousa Santos. Nisto, "Boa" é um pedagogo por excelência.


17.11.08

Ocaso épico


Entregar o corpo às balas, dizem com indisfarçável orgulho. A vaidade de serem carne para canhão em causas de que são peões. Todas as causas com os seus idiotas úteis.


É pueril o entusiasmo dos que concebem morrer por algo, ou por outros, ou por uma causa bem identificada. Acreditam na desmaterialização do ser. Em delirantes exercícios prospectivos em que ensaiam o próprio epitáfio, imaginam-se heróis de muitos, a morte a levar essa heroicidade que se consome num instante. O heroísmo lacrado com eles, na pedra tumular. A cada um o direito inalienável de fazer com a vida o que bem entender, que fique registado. Contra isso, apenas a pessoal incapacidade para ser entregue em sacrifício num altar onde os outros se deleitam.


Dirão os projectados auto-heróis: o consolo maior de se saber elogiado na despedida da vida, com a elegia prolongada por tempos imemoriais, a cada dia que alguém vier recordar o acto de desapego individual de quem se sacrificou em nome de muitos. O desassombro da generosidade atinge aí o seu auge. Há maneira maior de provar o desprendimento de si?


Lirismo inconsequente, apenas, diria. A antecipação do epitáfio debruado em homéricos poemas não passa de um sonâmbulo narcisismo. Não acredito em tanto desprendimento. A generosidade em nome dos outros, mesmo quando vem selada com a definitiva morte, mergulha nas masmorras do ensimesmamento. É a sede da glória futura, eterna até. O acto tresloucado de quem se atira de peito feito abraçando a granada que se despedaça no estilhaçado corpo é ainda motivo para glorificação. De todos os sacerdotes que, pelo seu punho, poetizam o feito. À sua maneira arregimentam o potencial exército de heróis vindouros. Daqueles que ficam inebriados pela detalhada descrição da fátua glória, de permeio com pormenores fantasiados que exageram a proeza.


E, no entanto, olho para as exaltadas descrições das façanhas debruadas pelo ouro da bravura e não consigo extrair uma gota de entusiasmo sequer. Todos os peões que aceitam, impassíveis, a condição de heróis em salvação alheia são figurantes que aspiram a um papel maior. Querem deixar de ser figurantes, apenas um a mais na anónima massa que pastoreia os indiferenciados campos da existência. A prova do turvado narcisismo, ficarem conhecidos na morte pelo acto derradeiro que lhes decepou a vida. Tão épicos e, contudo, imersos uma aviltante ofensa ao louvor maior que é a vida.


O ocaso, como o que todos os dias leva o sol para além do horizonte, é inspiração de arrebatadas composições poéticas. Embriagante a beleza das cores que se transfiguram com os minutos no seu esvaimento, o ingrediente das odes que empunham a veia épica do sol que se esconde. Mas do sol nunca derrotado, logo umas horas depois revigorado na rotineira sucessão dos dias. Os que concebem entregar o peito às balas usam a metáfora do ocaso do sol como inspiração. Ficam à espera que escrevinhadores tomem o seu heroísmo como fonte onde a poética inspiração encontra nutriente. Babam-se, antes do tempo, a imaginar o epitáfio que os letrados oferecem em sagração da epopeia pessoal.


Esta é uma pérfida indústria. Fazer arte com a celebração da morte, nem que seja da morte enfeitada em épicas vestes, é indecoroso. Só deveria haver arte na celebração da entusiasmante existência. E nem que um persistente eco trine uma razão insondável, nas loas ao desapego do herói que, com a sua morte, salvou tantas vidas, não entendo como disso se faz celebração. Sobra apenas um herói que prefere ficar recordado nos livros das memórias pelo desvairado acto. Deixou de ser figurante logo quando se despedia da vida. Porventura, uma existência monótona. E uma existência sem qualquer laivo de orgulho. Estes heróis entram para a eternidade não pelo que souberam fazer em vida, apenas pelo derradeiro acto que terminou com a sua existência.


Todos os fins são tristes. Mesmo os ocasos que se julgam épicos.


14.11.08

A notícia que gostaria de ler


Há dias, alguém se lembrou de passar os sonhos particulares para uma versão forjada do New York Times. Fizeram uma tiragem de mais de um milhão de exemplares e distribuíram o jornal gratuitamente nas ruas. As pessoas, desprevenidas porque à primeira vista parecia a versão verdadeira do jornal, ficavam boquiabertas com as notícias, todas belas notícias (para certos sectores, bem entendido). Eu também gostava de ler notícias idílicas num qualquer jornal. Mesmo que se tratasse da extensão dos sonhos, ou de pessoais desejos, para as páginas de um imaginado jornal. Como esta notícia, com o seguinte bombástico título: "Sócrates não se recandidata a primeiro-ministro". O corpo da notícia seria o que segue.


"Ninguém o esperava. A conferência de imprensa foi marcada de surpresa, à última da hora, sem indicação do assunto que trazia apenas o rótulo de urgência. Nem sequer houve tempo para as habituais especulações entre comentadores e jornalistas. No meio da azáfama, só houve tempo para meter ao caminho em direcção do Largo do Rato.


Sentia-se o ar tenso na sede dos socialistas. Os funcionários, misturados com figuras gradas do PS, mostravam um semblante carregado. Nos instantes em que foi possível abordar alguns funcionários e figuras gradas do PS, a tarefa de extorquir informação sobre o tema da conferência de imprensa esbarrava no mutismo. Ao longe, uma secretária já idosa deixou escapar uma lágrima furtiva. O mistério adensava-se na exacta medida daquela lágrima, como se ela fosse uma inconfidência sem segredo algum revelar.


Com cinco minutos de atraso, o primeiro-ministro – ou seria o secretário-geral do PS? – entrou na sala. Pose grave e corpo tenso, situou-se no palanque e esperou que os jornalistas se acomodassem. Notava-se algum cansaço, tristeza até. Ao lado, uma jornalista que costuma acompanhar as visitas oficiais notou algo que não era usual: as mãos trémulas contrastavam com a habitual dose de confiança que lhe permitia abordar qualquer acontecimento, mesmo os mais solenes, com uma serenidade impressionante. Começou a discursar. Disse que ia fazer uma curta declaração e que depois se punha à disposição das perguntas dos jornalistas.


Não demorou a revelar o segredo. À segunda frase, informou que tinha tomado uma difícil, mas contudo irrecusável, decisão: não se ia recandidatar a primeiro-ministro. Andava a ponderar no assunto há alguns meses. Tinha acumulado muito cansaço. Soltou uma inusitada confissão pessoal: olhava-se ao espelho, todas as manhãs, e os abundantes cabelos brancos eram o sinal da extenuação de governar um país. Um ingrato país. Protestou a sua indignação por haver tanta gente incapaz de lhe devolver o mérito que ele julgava ser a recompensa merecida pelos prestimosos serviços à pátria. Sentia-se fatigado da useira ingratidão indígena.


Atacou a comunicação social, acusando-a de fazer o jogo das muitas e desgarradas oposições. Os passos desacertados tinham prova nas sondagens que colocavam o PS na senda da maioria absoluta ou muito perto de lá chegar. Se as sondagens o continuavam a premiar, como entender que na comunicação social destilasse tanta crítica, algum ódio até, à sua governação? Teve o desassombro de admitir que tolera mal a crítica. Defeito pessoal, disse, num tardio assomo de político com rosto humano. E mais disse: que tem o direito de se sentir magoado pelas críticas, pois elas revelam má-fé, incompreensão das políticas postas em marcha, alguma distorção que enviesa a análise. Atirou-se à conjuntura internacional, que com a passagem do tempo se foi afundando numa crise ímpar que dificultava a vida ao leme da nação. Nas entrelinhas pôde-se entender a amargura de um primeiro-ministro que sentia a conjuntura internacional virada contra si, como se fosse uma terrível conspiração de forças invisíveis no palco internacional.


Rematou a comunicação: com modéstia – ou seria imodéstia? – percebeu que o povo não o merece. Largos sectores da sociedade confundiam crítica pessoal com incapacidade para ajuizar com frieza as medidas do governo que liderava. Era um homem doído que ali se expunha diante de uma plateia de jornalistas inerte, lívida, sem reacção. Não guardou segredo do que ia fazer no futuro. Ainda era novo para se reformar, tantas as energias e a percepção das inigualáveis capacidades intelectuais que não mereciam ser desperdiçadas numa retirada de cena.


Das andanças dos últimos tempos, conseguira discernir a sua vocação: passaria a ser embaixador da empresa J. P. Sá Couto. Andaria pelas sete partidas do mundo a divulgar as incontáveis virtudes do computador portátil Magalhães, a aspergir a literacia informática entre as criancinhas e os menos jovens. O ensejo para conhecer o mundo inteiro sem carregar atrás de si uma comitiva de voyeurs jornalistas. A oportunidade para deixar a sua impressão digital no futuro ainda por fazer, ele que tantas vezes havia proclamado que andava a fazer história.


Dobrou o papel onde tinha escrevinhado o discurso e, fazendo tábua rasa da promessa do início da conferência de imprensa, abandonou a sala deixando os boquiabertos jornalistas sem hipótese de lhe dirigirem perguntas."


Exultaria se me fosse dado o privilégio de ler esta notícia. Mas não me iludia. Na retaguarda do amargurado primeiro-ministro que ali se despedia, o delfim (António Costa) era o rosto de mais do mesmo.


13.11.08

E se os padres e as freiras pudessem procriar?


Um bispo a perorar: se caminhamos para uma crise demográfica, por que se aceita o aborto e todo um relativismo ético que faz soçobrar a família como "célula nuclear"?


Não digo que os senhores padres e bispos e por aí acima na hierarquia eclesiástica se calem perante os problemas da sociedade contemporânea. A liberdade de expressão merece todas as homenagens, até o tempo de antena aos dislates que os representantes da igreja repetem sem cessar sempre que oferecem oratória sobre assuntos que a sua forma de vida desaconselha opinião, por desconhecimento de causa. Mete-me confusão que se armem em cavaleiros que vigiam os bons costumes, como se neles houvesse uma aura especial que permite sentenciar se os caminhos pisados pelo rebanho são certeiros ou um equívoco. É por isso que lhes causa transtorno o odioso "relativismo ético" – ou qualquer espécie de relativismo: é nele que esbarram as certezas milimétricas que são património genético da doutrina católica.


Há associações de ideias convenientes para os dogmas da igreja católica, mas que soam a pérfida inteligência a quem está de fora. Quando o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que é também arcebispo de Braga, protesta a sua perplexidade pela abertura da lei ao aborto logo agora que se anunciam nuvens negras no plano demográfico, sinto-me diante de uma manifestação de terrorismo mental. A igreja tem o direito de se opor ao aborto. O que já passa das marcas é aproveitar a diminuição de nascimentos, que ameaça a consistência demográfica, para a enésima exibição contra o aborto. Apetece perguntar pela honestidade intelectual do arcebispo: indague, junto das estatísticas, se é pelo aumento dos abortos (dos que agora têm cobertura da lei e dos que sempre se fizeram às escondidas da lei) que se explica o recuo na taxa de natalidade. Nisto, nada o diferencia de um político demagógico: também na igreja há quem tenha tirado doutoramento em soundbytes cheios de inanidade.


A visão da sexualidade com a chancela da igreja é por demais conhecida. Se fôssemos todos obrigados a ser católicos, e devotos, daqueles que seguem acriticamente os mandamentos da hierarquia eclesiástica, pecaríamos menos ao sermos menos dependentes de sexo. É a visão de um mundo asséptico, que tanto agrada aos sacerdotes que teimam em mandar palpites sobre a vida íntima de cada crente (e dos não crentes também). Se o mundo fosse perfeito – um lugar exposto ao totalitarismo da igreja – seria pecado mortal desperdiçar um espermatozóide que fosse.


O catolicismo, metido no seu arcaísmo, continua a conviver mal com o livre arbítrio de cada indivíduo. A igreja gostaria de todos arrepanhar na coutada de ovelhas não tresmalhadas, e muito obedientes, que seguem os mandamentos porque eles são ditados pelos intocáveis arquitectos da doutrina católica. Aquilo que o catolicismo teima em não entender é a liberdade individual. Para um ateu, este é indubitavelmente o bem maior, maior do que a fé numa qualquer entidade divina. Por isso é que a igreja católica fica no limiar da apoplexia quando dá de caras com visões de vida que se distanciam das que são por ela preconizadas (a que chama, por conveniência, "relativismo moral"). Ou quando esbarra no, a seu ver, censurável hedonismo.


Tudo isto se articula num documentário de cariz idêntico que me chegou ao conhecimento por mão amiga: "Inverno Demográfico". Num caso como noutro, o mesmo dantesco diagnóstico é pretexto para soluções que liquidam o livre arbítrio de cada um. Todos devemos constituir família. Todos devemos sagrá-la. Cada um se deve mentalizar do imperativo que é o contributo pessoal para derrotar o inverno demográfico que uns e outros anunciam, procriando e de forma abundante. Ao que consta, é um dever inerente à participação de cada um na sociedade global. Às malvas a sensibilidade de cada um (pois há quem não queira constituir família). E às malvas a ausente predisposição para deixar numerosa prole (pois há quem esteja no seu direito de não deixar descendência).


Como sempre me causaram espécie os "imperativos categóricos" destilados por gente muito senhora das suas certezas serem as certezas de toda a gente, digo: que os padres e freiras (em idade pré-andropausa e pré-menopausa) se alistem no rol dos que contribuem para revigorar uma ambicionada primavera demográfica. Que sejam eles a dar o exemplo. Com uma vantagem adicional: passariam a falar com conhecimento de causa sempre que perorassem sobre a sexualidade dos outros. Se o mal é tanto, deve justificar um desvio aos arcaicos dogmas católicos.


12.11.08

Moço de recados


Há aqueles personagens servis, de uma dedicação ímpar ao amo, educados para demoradas genuflexões que homenageiam o endeusado amo. São a carne para canhão, a tropa fandanga que vai para a linha da frente oferecer o peito às balas. A gratidão obriga a entregarem-se cegamente a uma causa, a uma causa qualquer que explica a militância. A lembrança de quem lhes ofereceu a sinecura traz a gratidão à tona. E a gratidão torna imperativa a dedicação extrema, afinal a doce factura que têm que pagar. Nem que sejam os idiotas úteis quando fazem tristes figuras.


Assim anda, por estes dias, o governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio. Desde que entrámos para a união económica e monetária tivemos que ajustar o sistema político para destruir as bases da obscura cumplicidade entre o banco central e as autoridades políticas. Até então, o banco central era mais um instrumento de mão para os desejos do momento de cada governo. Muitas vezes, apenas outro ingrediente para a gestão do ciclo eleitoral, outro artefacto usado com precisão cirúrgica para a reeleição do governo do momento.


Os dias dessa perversa cumplicidade terminaram com a entrada para a união económica e monetária. Os bancos centrais passaram a gozar de total independência em relação aos políticos. Foi a sua carta de alforria, para que pudessem olhar às questões técnicas (política monetária) sem fazerem fretes aos políticos. Frequentemente, esses fretes eram convenientes ao governo do momento mas aziagos para os interesses dos países. Os especialistas do assunto destacam a solidariedade entre os membros dos bancos centrais, como se fossem uma corporação que soube cimentar laços internos para se defender das intrusões a que os políticos estavam habituados. Todos estes anos de euro e de independência da política monetária provam como os bancos centrais – com o Banco Central Europeu à cabeça – souberam resistir às insinuações em jeito de pressão que os governos foram exercendo. Conseguiram manter-se num plano diferente dos políticos, a certidão de independência que ostentam com orgulho.


Lá na extremidade ocidental da Europa mora a lamentável excepção. O governador do banco central desse pequeno país tem feito aparições públicas de onde escorre uma pestilenta cumplicidade com o governo instalado. Como está convencionado que não se questiona a competência técnica da figura, ai de quem insinuar que ele anda a fazer favores aos correligionários que estão no governo. Já tinha ficado mal no retrato quando lhe encomendaram um relatório sobre as finanças públicas, era o incauto Santana Lopes primeiro-ministro. Aproveitando a desorientação geral desse governo de triste memória, o governador do Banco de Portugal ofereceu um panorama desastroso. Houve quem visse nesse exercício um trabalho encomendado: o devastador diagnóstico caucionava o funeral do governo de então, abrindo de par em par as portas ao outro partido do bloco central, por coincidência o partido em que o governador do Banco de Portugal milita e de que foi líder há anos.


De um momento para o outro, quase como se fosse por um efeito de magia, a economia livrou-se de todas as maleitas e passou a exibir uma surpreendente saúde. Foi o governador do banco central que o assegurou quando o actual timoneiro tomou as rédeas do poder e os podres anteriores foram extirpados. Ocasionalmente, lá vinha Constâncio a público prestar contas do desempenho das finanças públicas, surgindo como penhor do notável desempenho do governo dos seus correligionários de facção. Sempre que o fazia, ficava mal na fotografia. Os seus colegas de outros bancos centrais não se prestavam a essa triste figura. Os outros levavam a sério a independência em relação aos políticos. Constâncio preferia consagrar as fidelidades partidárias.


No recente episódio da nacionalização do BPN, o Banco de Portugal sai chamuscado, ainda que o seu governador diga uma e outra vez – como quem repete à exaustão uma mentira na esperança que ela se transforme em verdade – que os malfeitores que geriam aquele banco conseguiram enganar o banco central. O pior é Constâncio surgir como o homem de mão do governo na lamentável nacionalização do BPN. Ele comparece em conferências de imprensa ao lado do ministro das finanças, dando razão a quem o acusa de se prestar a uma cumplicidade que não é compatível com o estatuto de independência que dele se esperava. Ele vai ao parlamento e, perante as interrogações dos deputados, só se nota total sintonia com o partido do governo (que é também o seu).


Triste figura a de um governador de um banco central que se esquece que está obrigado a ser independente dos políticos. O que é mais lamentável é a imagem que transpira deste episódio: é o próprio Constâncio que se oferece aos correligionários do governo, num servilismo que inverte o sentido da dependência política entre governos e bancos centrais. Neste caso, é o governador do banco central que se põe de cócoras diante das conveniências do governo. A solidariedade partidária fala mais alto que as responsabilidades institucionais. Depois estranha que haja um coro que protesta a sua demissão.


11.11.08

O engenheiro da duvidosa estética louva Benidorm



Outro engenheiro. Este é engenheiro sem aspas. Há dias informou a comunidade onde estou que um determinado software técnico "nasceu da necessidade de projectar os inúmeros e grandiosos edifícios da fabulosa estância balnear Espanhola que tem por nome Benidorm".


Começo a entender certos abcessos arquitectónicos que enxameiam as cidades. Quem conhece Benidorm e outras estâncias balneares de estilo idêntico sabe que se trata de localidades onde o caos urbanístico é a nota dominante. Só conheço Benidorm de passagem. Num certo ano passava férias a cerca de duzentos quilómetros dessa "fabulosa estância balnear Espanhola (sic) que tem por nome (sic) Benidorm". A pessoa com quem passava férias quis satisfazer a curiosidade: afinal havia tanta gente que passava férias em Benidorm. Lá fomos. Não estivemos lá mais que um par de horas, tal a péssima impressão, posso afirmar sem exagerar, a claustrofobia que senti. Por coincidência ou não, até o almoço foi a pior experiência gastronómica que guardo na memória.


Benidorm é um pesadelo urbanístico. Os "grandiosos edifícios", só se o forem pela altura. O tal engenheiro deve ter um problema com a etimologia das palavras, só pode ser. É que uma coisa grande nem sempre é grandiosa. O que abunda em Benidorm são torres enormes que irrompem pelas alturas. Encavalitam-se umas nas outras, ocupando as vistas. Anda-se nas ruas e tudo o que a vista alcança é a tralha de prédios que trepam pelo céu acima. Tem uma vantagem: naquelas ruas faz sempre sombra, o que no tórrido Verão mediterrânico é muito agradável.


Já sei, já aqui o preconizei, a estética é terreno por excelência da subjectividade. Ainda assim, ao ler aquela assombrosa informação do engenheiro que sempre tive por penhor da duvidosa estética fiquei a entender melhor os abortos urbanísticos que por aí há. O mau gosto da engenharia civil não é exclusivo nacional. Do outro lado da fronteira também fez escola nos ateliers. Deste lado, há quem fique embevecido com os horrores urbanísticos em que se transformaram algumas estâncias de férias mais conhecidas de Espanha. Devem ser os mesmos que têm postais de Armação de Pêra pendurados nas paredes de casa, ajoelhando-se todas as noites, antes de se deitarem, em contemplação da beleza que se salienta daquele medonho emaranhado de edifícios. Ou então confundem os planos e misturam as idílicas memórias de uma, adivinho, lua-de-mel passada em Benidorm, para concluírem que se trata de uma "fabulosa estância balnear".


Será defeito profissional, ou defeito de formação: estes engenheiros cultores da duvidosa estética em loas ao betão armado. No seu sincretismo, os adoradores do betão armado concebem o labirinto de prédios em altura como expoente máximo da sua intervenção na sociedade. Deixam uma marca indelével: assim como assim, as implosões de prédios não acontecem todos os dias. Quando nasce mais uma aberração destas, costuma ficar para todo o sempre. É mais um ingrediente a juntar-se ao tremendo abcesso que são algumas das cidades, sobretudo quando a pressão demográfica e o êxodo dos campos empurra as cidades para fora dos seus limites ancestrais. É então que germinam os arrabaldes que são abjecções urbanísticas, agressões visuais, poluição arquitectónica.


Os engenheiros que as conceberam deixam escola. Engenheiros mais novos são os cultores desta escola que é penhora de uma relapsa anti-estética. É lamentável: os mais novos não são capazes de interiorizar os erros dos antecessores. Em vez disso, insistem no erro. Amplificam-no. São os sabotadores do bem viver nas cidades. Adoram cidades caóticas, caixotes onde se acantonam as pessoas, arrumadas em alcantilados edifícios que se atropelam uns aos outros ao irromperem céu acima. É a orgia do betão armado. A gente que ali vive sitiada só vê betão armado à sua volta. Tenho para mim que os engenheiros que assim conceberam as cidades são potenciais voyeurs da vizinhança. E querem que todos os habitantes do emaranhado de prédios das cidades babilónicas e desordenadas que saem dos seus estiradores alegremente partilhem os interiores das suas casas, das suas vidas, com os vizinhos em redor. Não há melhor expressão de vida em comunidade. Se calhar, estes engenheiros, para além do estigma da estética duvidosa, são cultores do comunitarismo.


Deve ser um diálogo de surdos, este entre os engenheiros penhores da duvidosa estética e os arquitectos.