18.11.08

A valsa dos vesgos



Aprende-se muito com o sociólogo Boaventura Sousa Santos. Sobretudo quando produz doutrina nos jornais – pois não acredito que o Boaventura Sousa Santos académico, que se gaba de ser referência para um exército de seguidores aqui e além fronteiras, escorregue para a ciência ideologicamente engajada como o faz quando produz opinião militantemente enviesada nas páginas dos jornais. Não estou a sugerir que o eminente sociólogo não tenha o direito de calcorrear as veredas de uma qualquer ideologia. O que me causa estranheza é servir-se da aura de reputado académico internacional para doutrinar o lastro ideológico que carrega consigo.


Boaventura Sousa Santos, que vem das franjas da extrema-esquerda que seduz tanta burguesia urbana, ofereceu prosa no Público que escorre mais um fragmento da esperança mundial no novo presidente dos Estados Unidos. É surpreendente como alguém que milita na extrema-esquerda caviar consegue dar à estampa um naco de prosa tão encomiástico do novo messias. Outro guru da extrema-esquerda caviar, o fradesco Louçã, retorquiu, exasperado, a quem lhe perguntou se Obama era de esquerda, que naquela terra hedionda não há nada que se assemelhe a "esquerda" (àquilo que Louçã considera "esquerda"). Em abono de Boaventura Sousa Santos, a flexibilidade intelectual de admitir que Obama representa uma qualquer esperança que rima com mudança.


O pior está na argumentação que "Boa" – assim é carinhosamente tratado pelo séquito que o admira no estrangeiro – desfila na peça de doutrinação das massas nas páginas do Público. Começa por asseverar que a eleição de Obama "é um acontecimento de global e transcendente importância para todos os que acreditam na possibilidade de um mundo melhor", o que só tem par nos últimos quinze anos em dois outros acontecimentos: "a eleição de Nelson Mandela como Presidente da África do Sul em 1994 e os quinze milhões de cidadãos que, por todo o mundo, saíram à rua em 15 de Fevereiro de 2003 para protestar contra a invasão do Iraque."


Não é inocente ter fixado os últimos quinze anos como prazo de análise. Se recuasse mais quatro anos teria que identificar outro acontecimento transcendente para muitos que acreditavam na possibilidade de um mundo melhor: a queda do muro de Berlim. Percebe-se a delimitação temporal: a queda do muro de Berlim não foi conveniente para as convicções ideológicas de Boaventura Sousa Santos. Não será por acaso: durante o fim-de-semana decorreu em Lisboa um congresso sobre Marx, uma celebração quase religiosa de crentes que aproveitam a profunda crise financeira, que crêem ser um sinal da falência do capitalismo, para resgatar Marx do túmulo. Se "Boa" incluísse a queda do muro de Berlim nos tais acontecimentos com transcendência global cometia uma traição ao seu companheiro de lutas, Fernando Rosas, um dos principais organizadores daquele congresso. E assim fica provado como há quem precise de colocar mais dioptrias nas lentes, para conseguir alcançar além dos limitados horizontes que a desonestidade intelectual fixa.


Mais à frente, Boaventura Sousa Santos aproveita a cor de pele do vencedor das eleições nos Estados Unidos para repisar uma tecla que lhe é muito querida: "(n)os últimos quinze anos, a África mostra-se ao mundo nos ombros destes dois gigantes e assim responde Basta! aos insultos do Banco Mundial e do FMI, para quem a África é o continente infeliz onde o capitalismo global decidiu depositar multidões de seres humanos considerados descartáveis". Um cliché que excita os seguidores do guru Boaventura, pois a repulsa do nefando capitalismo obriga a destilar argumentos de reprovação que misturam irracionalidade com o mais puro ódio. Não vale a pena, nesta ocasião, discutir os malévolos efeitos do FMI e do Banco Mundial, entendidos como factos consumados pelos que acreditam, acriticamente, nas prédicas de "Boa". Limito-me a apreciar a parte final da certeza assertiva: a África é o caixote do lixo escolhido pelos malfeitores do capitalismo. Sem provas, a não ser a sua autoridade intelectual, estas verdades irrefutáveis cobrem-se com um manto religioso – o mesmo manto que explica a crença em dogmas que de racional nada possuem.


A derradeira pérola fica guardada para uma inominável comparação que se julgava enterrada no tempo passado. Boaventura Sousa Santos é mais um a comparar os atentados às torres gémeas com o sofrimento que os pobres deste mundo padecem, mergulhados numa obscena miséria. O sociólogo de referência assegura que "outras populações do mundo sofrem anualmente ataques tão injustos, tão criminosos e muitas vezes mais devastadores do que o ataque às Torres Gémeas, sem que isso mereça mais do que uma pequena referência noticiosa." Porventura Boaventura regressou a esta patética retórica depois do laureado Saramago ter dito, há umas semanas, que a crise financeira tem um efeito devastador nos mais desprotegidos e que, por esse motivo, os capitalistas são acusados de genocídio. Vale a pena comentar o dislate? Não.


Retomo o início deste texto: aprendo muito com o guru Boaventura Sousa Santos. De cada vez que o leio, fico enternecido com a retórica que distorce factos para os colocar a jeito das conclusões convenientes à afirmação das crenças ideológicas. Aprendo: a acreditar, e cada vez mais, no contrário do que é doutrinado por Boaventura Sousa Santos. Nisto, "Boa" é um pedagogo por excelência.


Sem comentários: