3.2.09

2049


Terá mais de noventa anos nessa altura: o ditador potencial da Venezuela prometeu eternizar-se no poder até 2049. Terá encomendado ao seu oráculo: um elixir da eterna juventude; uma unção qualquer, porventura benzida pelo exotismo indígena do aliado da Bolívia, que lhe afiance passar ao de leve por breves e benignas maleitas; e a inesgotável fonte de boçal jovialidade.


A promessa de Chávez fez a habitual mossa nos seus adversários – e há-os, e muitos, deste lado, por onde campeiam os inimputáveis que não percebem a excelsa têmpera do poder do proto-ditador de Caracas. Eu, que venho da direita, permito-me desalinhar do coro de gente ofendida perante mais uma aleivosia do provocador nato da política internacional. É que a política internacional é muito cinzenta, impregnada de cinzentas figuras que não excitam vivalma. Se me prometem a eternização de um personagem circense nos altos corredores da política internacional, agradeço.


Pão e circo, é disso que a política internacional precisa. Assim como assim, um dos palhaços de serviço abandonou funções há dias, substituído por um messias adulado pelo mundo inteiro. Seria uma injustiça que as esquerdas fossem privadas de um bobo da corte que, afinal, tanto as deve incomodar. A atestar pela paróquia local, Chávez só é adorado pelo tiranete primeiro-ministro. Dir-se-á, amizade de conveniência. Duplamente conveniente. O timoneiro lusitano quer que as empresas nativas tenham um lugar privilegiado no mercado da Venezuela. O ansioso ditador de Caracas quer amigos recomendáveis para ser visto no ocidente como gente recomendável. Une-os o desvelo pelo autoritarismo e a irritação e a arrogância quando são desafiados por quem deles discorda. Separa-os a incontinência verbal do herdeiro de Bolívar (é assim que ele se intitula – mas nisso, presunção e água benta e os leitores que terminem o adágio). A próxima exportação lusitana para a Venezuela pode ser a experimentada equipa de spin doctors do indígena timoneiro. Para cuidar da imagem do proto-ditador.


Uns dizem que esta amizade é ungida pelos imperativos da diplomacia económica. Que o magnífico timoneiro da pátria não se revê nos métodos e na verborreia desbragada do amigo de Caracas. Outros, que desconfiam das intenções do timoneiro, acham-nos almas gémeas. Para o que interessa, é irrelevante quem está coberto de razão. Tirando este amigo lusitano, Chávez não parece entusiasmar as esquerdas nativas. Nem a sua adoração por Cuba e pelo moribundo Fidel enchem as medidas aos comunistas de cá. A extrema-esquerda caviar já percebeu que o ditador venezuelano não é personagem com recomendáveis credenciais democráticas. Não os vemos excitados com o particularismo chavista. Nem a esquerda dos socialistas se alegra com os impropérios que Chávez profere com abundância. Sobra Boaventura Sousa Santos.


O encantador "Boa" deve ensinar vesga democracia aos alunos. Daquela democracia que admite que os governantes de uma terra se perpetuem no poder. Dirá, com cândida expressão: Chávez foi eleito, logo, é um democrata. Gostava de saber se acaso o eminente sociólogo andou de mãos dadas com aqueles que cozinharam a mudança das leis que impedem a eternização de autarcas no poder. Aposto que sim, que por lá andou. Onde fica a coerência do sociólogo coimbrão? Explico através do seguinte desenho: quando uma alma se prolonga muito tempo no poder, crescem as probabilidades de os alicerces da democracia serem minados por dentro. A democracia não se mede só pela realização periódica de eleições. A fatia mais importante da democracia está entre as eleições, como aliás "Boa" defende quando advoga as virtudes da "democracia participativa". A democracia é saudável quando são reais as possibilidades de alternância no poder. Nem que seja só para desenjoar das mesmas caras, das mesmas clientelas, dos mesmos interesses favorecidos. É por estas e por outras que não tenho Boaventura Sousa Santos em boa consideração democrática.


O dilema da meta Chávez 2049 é este: daqui, ao longe, até era capaz de dar para o peditório. A política internacional sem alguns personagens circenses é uma prostração. Por outro lado, como posso ser insensível ao martírio de uma parte dos venezuelanos? Sobretudo dos opositores, a quem fazem a vida negra só por dançarem uma valsa diferente da preferida pelo homem da constante camisa vermelha.


Em 2049, eu andarei pelos oitenta e um anos. Se me for permitida a mesma ousadia geriátrica de Chávez, prometo erguer um cálice no dia do seu funeral.


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