6.7.09

Devora a tua tristeza


De um trago só. Ou aos pedaços, devagar que seja. Mas come-a. Não deixes um só vestígio, nem no armário onde arrumas as memórias. Que a tua tristeza é um punhal que se crava, fundo, sem que vejas a dor. É como se alguém te envenenasse com arsénico. Uma gota de cada vez, sem notares o sabor. E cada gota a corroer-te as veias, até que um dia a dor aterra de uma só vez. Insuportável e irremediável.


Por isso, tens que derrotar a melancolia que te adormece. Para que ela não te apanhe traiçoeiramente a meio do sono e tome conta do que és, transformando-te num inerme ser domado pela tristeza. Insensível à vontade de sorver a embriaguez da existência. De que servem as litanias onde desfilam as amarguras, os sobressaltos que espalharam a intensa dor que te consome por dentro, essa interminável peregrinação por onde desaprendes a sorrir? É para envelheceres antes do tempo?


Haja sol, haja mar e vento que o despenteie, a sucessão descomposta de montes e vales por onde correm os rios, haja quem te alimente com a sua existência, e a tristeza é só um estado de negação de tudo o que merece sagração pelo ânimo que confere. Dirás: há causas para a profunda melancolia que de ti tomou conta. Profundas, as causas. Mais dirás: que não te entregaste aos braços da tristeza sem resistência. Não interessa saber se deste luta aos tenebrosos tentáculos da plangência; apenas que lá moras, numa letargia que te retira a vontade para não seres, como és nos lençóis das mágoas, ser sem autonomia.


Irremissível, a atracção pelos precipícios. Não sei se darás conta da estridente queda e dos ossos fracturados quando aterras ao fim do precipício. E, contudo, insistes em frequentar os alcantilados terrenos que empinam bem alto até sentires que o chão foge debaixo dos pés. Dirás que te ensinam, os precipícios. A experimentar a sofreguidão da doentia mágoa. Em busca de pretextos, argumentas: que a tristeza te ensina a apreciar, e mais ainda, o seu contrário. Elaboras: que sem os acordes tisnados da melancolia jamais saberias saborear os sentimentos que são seu contrário. Em jeito de conclusão, manténs a ideia: a tristeza é um santuário de pedagogia.


Mas duvidas que toda esta argumentação não passe de um estado de negação. Que alimente a recusa da ventura – ela sim, paradoxalmente mais dolorosa do que a mágoa que deixou de fermentar dor. De resto, dás conta que desaprendeste a apreciar o sabor da fortuna. Recusas que a fortuna te visite. Deliberadamente, pareces escapar das ágeis veredas onde reside a felicidade. No teimoso erro de diagnóstico, tudo parece entrar em negação – ou, ao menos, numa tremenda confusão onde os conceitos são confundidos com o seu antagónico sentido. Tamanha a desorientação que sentes que nem mil afinadas bússolas teriam o condão de trazer de volta um caminho lúcido.


Aliás, inúteis as mil bússolas se o reencontro não partir de ti mesmo. É por isso que tens que tragar avidamente a tristeza que te agonia. Ser autófago da melancolia que julgas ser teu alimento, quando ela é a cicuta que lentamente te corrói. Por mais voltas que dês, por mais custoso que seja o exercício, o fácil é o contrário do complexo e as coisas mantêm o seu sentido tal como vem no dicionário. De que serve a entrega nos insidiosos braços da melancolia, se esses braços são como uma serpente que hipnotiza antes de te dobrar com a força do seu corpo? Olha que a certa altura não há arrependimento que retroceda a maré imparável de tristeza que se esmaga contra a tua pequenez. Ainda irás a tempo?


Enquanto o tempo continua a sua marcha, e enquanto houver tempo a caucionar a vontade, vais a tempo de devorar a tristeza. Antes que a tristeza tome a dianteira e te devore.

2 comentários:

Fênix da Escuridão disse...

Você não tem idéia da ajuda que este texto acaba de me dar... Uma boa noite e que seu dia amanheça lindo!
Obrigada!

Isa Garrido disse...

Muito fixe a tua escrita, gostei do estilo, o texto esta perfeito. É um texto de sentidos, pode-se sentir, gustar, ouvir e ate cheirar as palavras...