9.9.09

A extrema-esquerda caviar é liberal?


Nem os que andam distraídos dessa coisa aborrecida que é a política caseira teriam hesitações em responder àquela pergunta. Já conhecemos a esquerda chique de ginjeira. Convém esclarecer: uso "liberalismo" no sentido tradicional, não no abastardamento do termo que, nos Estados Unidos, transforma esquerdistas em liberais. Se alguém dissesse à malta da esquerda caviar que têm uma costela liberal logo se soltaria um audível protesto em forma de indignação, tamanha a aleivosia que se insinua naquela interrogação.


Se dúvidas houvesse – que as não há – podíamos tirá-las nas palavras do Dr. Anacleto Louçã, em entrevista ao Público de ontem: ele é um revolucionário assumido, pensa agora da mesma forma que pensava quando tinha quinze anos (disputando o papel de paquiderme intelectual ao defunto Cunhal) e é visceralmente anti-capitalista. E pergunta quem me leia: com estas credenciais, como posso perguntar se a extrema-esquerda caviar é liberal? Pois eles querem nacionalizações em catadupa, atiram-se ferozmente a qualquer indivíduo que leve com o rótulo de "rico", são sacerdotes da engenharia social que o Estado, com imenso sacrifício de quem nele serve, presta aos súbditos. Outra vez: como se conciliam estas credenciais com um liberal? Eu respondo à pergunta: impossibilidade total.


Só que, às vezes, até os mais brilhantes intelectos da nossa praça (e o Dr. Anacleto Louçã é-o – sem ponta de ironia) caem na alegoria da bebedeira de ideias. Tão assertivas e proclamadas com uma exactidão à prova de dúvida, que nem percebem o alçapão em que caem. Não sou espectador dos debates televisivos entre os líderes dos partidos com lugar no parlamento, nestas vésperas de campanha eleitoral. Prefiro o entretenimento ao bocejo, à artimanha, à indigência intelectual. Mas como continuo a ver e ouvir noticiários (uma auto-punição sem fuga), vou tomando conhecimento das frases que fazem o resumo dos debates.


Há dias, o líder do BE e a líder do PSD tiveram, ao que dizem, um ameno e cavalheiresco debate. O que confirma os pergaminhos do Dr. Anacleto Louçã: por mais que traga a causa dos desfavorecidos à lapela, por mais entranhado que seja o ódio aos ricos e ao capitalismo em geral, as origens familiares cultivam a boa educação diante de um oponente. E se o oponente for uma senhora septuagenária, alguém que, de antemão, se sentia que podia ser esmagada pela aura brilhante e pela retórica inultrapassável do Dr. Anacleto Louçã, melhor se compreende uma certa condescendência com que o líder da extrema-esquerda caviar tratou a líder do PSD.


Vou-me à interrogação que dá corpo a este texto. A certa altura, atiraram para cima da mesa a equivalência entre casamentos e uniões de facto. A líder do PSD, agarrada às saias da sacristia que a inspira, mantinha que o casamento é o casamento e a união de facto é a união de facto, que quem se prefere "amantizar" (termo que seria usado pelos seguidores do catolicismo parado no tempo) escolhe uma modalidade menos formal que o casamento, que é um contrato. O Dr. Anacleto Louçã afirmava uma posição oposta: por imperativos de igualdade, as pessoas em união de facto deviam ser equiparadas às que contraíram casamento. Curiosa sensação: ao renegar o bafiento conservadorismo da líder do PSD, não me consegui aproximar da posição do Dr. Anacleto (pelos maus argumentos que apresentou).


Depois veio a pérola do Dr. Anacleto: o Estado não se deve meter nas preferências das pessoas. Cá está a origem da minha dúvida existencial. Os que defendem que o Estado deve estar fora da vida das pessoas são liberais (liberais puros, ou os agora execráveis "neo-liberais"). Fiquei boquiaberto. O Dr. Anacleto, sempre a reclamar por mais e mais Estado e cada vez menos mercado (sinónimo do diabolizado capitalismo) a escorregar para a negação do catecismo que ensina aos seguidores. Ainda por cima, cai numa dupla contradição de termos. Pois acha que o Estado não deve interferir nas escolhas que dizem respeito à intimidade das pessoas, mas argumenta que a igualdade entre casados e os que estão em união de facto deve ser garantida por lei – logo, através da força que o Estado usa quando legisla. Afinal, o Estado fica fora ou mete-se dentro?


De repente ia ficando seduzido pelo BE, tão liberal parecia o seu líder. Faltava o quase, um muito grande quase, quando depressa percebemos que o Dr. Anacleto Louçã também não é infalível, para desgosto dos apaniguados que o endeusam. É com estas surpresas que o mundo é um lugar tão aprazível.

1 comentário:

Milu disse...

Também não vejo debates, porque assim, ao menos, não me enervo... e ainda por cima em vão. Fiquei admirada com o que li aqui, acerca do discurso do Louçã. Na verdade é quase inacreditável como conseguiu cair numa contradição tão ridícula, tão própria de gente que não sabe o que diz! Logo ele, que se distingue pela habilidade nas palavras e rapidez no raciocínio. Também penso que a união de facto deve de ser uma forma de duas pessoas viverem juntas, mas na mais perfeita independência, se isto é possível. Leis, apenas e só as leis da consciência de cada um. Por conseguinte não deverá ser equiparada ao casamento que estabelece direitos e deveres. É viver com uma pessoa porque se quer e não para "arrumar" a vida ou garantir seja do que for. No fundo, é assim que se aprende a ser livre e a bastar-se a si próprio, antes de tudo. Visto assim, quem quiser "fazer negócio", que se case.