25.9.09

A política é esquizofrénica (e outras considerações sobre o voto)



Os socialistas, com uma avantajada dose de oportunismo pelo meio, colam o PSD ao execrável "neo-liberalismo". O maior humorista nacional – o Prof. Dr. Anacleto Louçã, pelas razões que a seguir vou expor – afiança que o quase engenheiro primeiro-ministro é (e cito) um "radical do mercado". E um liberal, um daqueles liberais dos sete costados, como se sente ao ver-se de repente na companhia de gente que não considera liberal?

(Aqui vai a explicação prometida: o Prof. Dr. Anacleto Louçã deve ter ficado inebriado com o humor contagiante ao ser entrevistado na SIC por um dos ícones do humor nacional. Tão contagiado que, depois dessa entrevista, desatou a espalhar pilhéria pela sua campanha eleitoral. Entre duas arruadas – mas que raio de termo que entrou no património semântico da política em vésperas de eleições – o Prof. Anacleto admitiu que estava preparado para ser primeiro-ministro. E depois anunciou, com aquela pose grave de seminarista frustrado, que a competição eleitoral será entre o PS e a federação partidária que ele lidera. Não me arrependi de ter falhado a pessoal promessa dos últimos anos, quando fechava os olhos e os ouvidos à zoeira das campanhas eleitorais. Ao menos, desta vez, compensou pela boa disposição semeada pelo inexcedível sentido de humor do Prof. Anacleto. E lá me lembrei da infância, quando havia um palhaço chamado Anacleto.)

De regresso à esquizofrénica política caseira. Sabemos que em campanha eleitoral os concorrentes usam todas as estratégias à mão de semear. Vale tudo: desde a indigência mental, aos atentados à inteligência do eleitorado (pode ser que grande parte esteja distraído e o atropelo acabe por pegar), à perfídia de atacar o adversário da forma mais indigna que se possa imaginar, às palavras excitadas e impensadas, imagem do desespero que toma conta dos candidatos. O que daqui sobra é uma tremenda falta de transparência, a confusão instalada na cabeça do eleitor médio.

O que se há-de pensar quando nos dizem, com tanta certeza, que o PSD se encostou ao liberalismo? O Avô Cantigas do PS destaca-se na diatribe. Quando se julgava que o exílio bruxelense trouxesse algum juízo ao lente coimbrão, parece que a mudança de ares não trouxe nada de novo. Do lado contrário, o Prof. Anacleto encomendou a alma do querido líder do PS aos sacerdotes do mercado. Quando o ouvi a asseverar que o quase engenheiro é um "radical do mercado", fiquei assustado: se isso fosse verdade, eu e o quase engenheiro seríamos "irmãos de armas", homessa!

O Avô Cantigas e o Prof. Anacleto não deviam antes perguntar aos genuínos liberais se aceitam as companhias que lhes colam? Pois o que tem sentido é que sejam os próprios a abrir ou a fechar a porta às companhias que os de fora lhes tentam impingir. O que diz o liberal perante este repto? Fecha a porta ao PSD e ao PS, excomunga-os na suposta filiação liberal. O liberal, com alguma condescendência, percebe o desvario dos socialistas que querem urgentemente empurrar o PSD para a odiosa direita liberal: Dupont e Dupont, de tão iguais que são, na recusa em o admitirem, refugiam-se em argumentações patéticas.

Para culminar a esquizofrenia da política caseira em véspera de eleições, podia-se pensar que a direita liberal estivesse abrigada no CDS-PP. Pelo menos é o que julgam os analistas viciados na arrumação de toda a gente em gavetas herméticas. Quantas vezes me disseram que eu era do CDS-PP, ou que pelo menos andava lá por perto. Ora um liberal, um liberal dos sete costados, não pode votar num partido que é, ao mesmo tempo, dependente das sacristias, cultor de uma política de segurança interna de pulso forte e que apregoa o retorno da economia à anacrónica agricultura. O liberal não pode votar num partido que tem tantas semelhanças com a intervencionista direita sarkozyana.

Para este liberal, a prioridade é impedir que o PS repita a maioria absoluta (que seria uma catástrofe). Como a sanidade mental o impede de votar no PSD e no CDS-PP (por definição, tudo o que esteja à esquerda está excluído), e como não vai na patranha do voto útil, sobra a possibilidade de votar num dos pequenos partidos. Daqueles partidos que existem só para chatear. Ao menos, ao engrossar o número de votos que contam, diminuem as probabilidades dos socialistas repetirem a trágica maioria absoluta. Podem-lhe chamar voto niilista que não me importo.