14.10.09

Quando é que os guerreiros tombam em combate?



Li há bocado: foi publicada uma lei que proíbe macacos, tigres, leões e elefantes em circos. Uma medida ecológica, diria, civilizacional. E um esvaziamento para a actividade circense. Aplaudo. A desumanidade dos circos, com os maus-tratos necessários para "treinar" os bichos e a bestialidade de os manter enjaulados nas traseiras do acampamento para que os mirones obtusos se deliciassem com a bicharada exótica, não pertence a este tempo. Que se siga a medida analógica: a proibição de touradas. E, já agora, que o Prof. Anacleto Louçã meça os pergaminhos da sua incomparável coerência e sensibilize a camarada autarca de Salvaterra de Magos para decretar a proibição de rodeos (essa coisa tão tipicamente lusitana).

De repente, o negócio circense leva-me a essa ave rara da política caseira, aquele que garbosa e epicamente se auto-intitulou "menino guerreiro". Santana Lopes, o homem das declarações mais improváveis, especializou-se nos últimos anos em derrotas eleitorais. Os socialistas deviam erguer um altar em seu nome: como poderia de outra forma o primeiro-ministro ter obtido maioria absoluta há quatro anos? Como poderia o seu delfim conquistar há dias a maioria absoluta na câmara de Lisboa?

A resposta está neste nome: Santana Lopes. Ele tem aquele efeito mágico de repulsa, o que um amigo de longa data chama, com uma certa dose de piedade, "espanta caça". Sejamos rigorosos com as palavras: Santana não tem o dom de espantar a caça, antes pelo contrário. O efeito Santana foi, há quatro anos como no domingo passado, o de reunir à volta dos socialistas gente que de outro modo nunca os escolheria. Santana consegue fazer mais pelos adversários do que as campanhas eleitorais e todas as manobras que estes possam congeminar. Por estes tempos em que estamos, concorrer a umas eleições em que Santana seja adversário é como o código postal – mais de meio caminho andado, neste caso para a vitória.

Apetecia-me dizer isto: a sobrevivência do "menino guerreiro" é um caso tão inexplicável que um exército de investigadores (politólogos, sociólogos, psicólogos) devia assentar arraiais por cá. Talvez conseguíssemos entender o inadiável prazo de validade de um político de plástico que, se esta fosse uma terra normal, já tinha caído no esquecimento, sem sequer figurar nos compêndios como nota de rodapé. Apetecia-me dizê-lo, não fosse dar-se o acidente desta não ser uma terra normal. (Ou então é o partido que teima em ressuscitá-lo que anda longe de ser uma normalidade.)

Tenho uma teoria: estes também são tempos em que a comunicação social fabrica políticos de plástico. Recordemos como arribaram os dois últimos primeiros-ministros da nação. A relação da comunicação social com Santana é esquizofrénica. Os jornalistas parecem uma corte sedenta atrás do "menino guerreiro", contando os passos que ele dá, metendo-lhe o microfone pelas goelas abaixo, cultivando aquela forma de ser tão blasé que – não consigo entender – cativa largas franjas de mulherio e outra gente que parece enfeitiçada por um domador de cobras enquanto toca a sua flauta. Os jornalistas são instruídos pelas chefias: Santana, o apatetado Santana, arrebita as audiências, por incrível que pareça. Os mesmos jornalistas que lhe dão palco são depois impiedosos na altura de examinar o desempenho do "menino guerreiro". Isto faz-me lembrar quando era miúdo: tínhamos a necessidade de encontrar um palhaço de serviço. Só para apimentar a nossa existência com a improbabilidade daquele ser que alimentava as gargalhadas sonoras de todos nós. Tirando esse atributo, era uma criatura dispensável.

Neste cortejo de coisas sórdidas, até a natureza das palavras escolhidas pelo próprio Santana se corrompe diante das evidências. Quando um guerreiro tomba em combate, ferido de morte, não se levanta. Mas Santana teima e teima em levantar-se. Parece-se com os gatos, de quem se diz terem sete vidas (um mito). Eu tenho outra teoria para a inverosímil sobrevivência do "menino guerreiro": os adversários sabem que se entrarem numa compita com ele, são favas contadas. Infiltram-se no partido do "menino guerreiro" e mexem os cordelinhos, só para garantirem que numa importante eleição o partido o escolhe para ser o provável perdedor.

Não sei se este estado de coisas vai perdurar. Assim como assim, os circos vão passar a ter a sua actividade muito condicionada.

2 comentários:

Milu disse...

Ontem li algures qualquer coisa como tendo sido Sócrates a consultar o CDS para formar coligação, se não me seguro tão depressa, ainda caía da cadeira onde me encontrava sentada. Se Sócrates me fizer essa afronta vou considerá-lo um traidor. Depois, noutro sítio qualquer, li que Paulo Portas estava a considerar fazer 10 exigências, suponho, que no caso se vir a fazer parte do governo, aí, de imediato o reconheci, já que me lembrei dos submarinos, ao menos, se ainda nos servissem para a pesca da sardinha...

Quanto ao fenómeno Santana Lopes, penso que ele tem muito a agradecer aos jornalistas, tal como o Alberto Jardim da Madeira, se os jornalistas desistissem de lhe darem cobertura, todas as bocas sujas e ordinárias que gosta de proferir contra os seus adversários nunca teriam efeito, já que ninguém delas tomaria conhecimento.

PVM disse...

O que eu li foi um pouco diferente: o líder do CDS-PP não queria ouvir falar de coligações ou de acordos parlamentares com os socialistas. E, para minha surpresa (que também não tenho o Dr. Portas em boa conta), sugeriu que não fossem apresentadas moções de censura ou de confiança.
Concordo consigo, Milu, mas por um ângulo contrário. Não votei CDS-PP - devo dizê-lo à partida. Ponho-me na posição de um votante deste partido e também me considerava atraiçoado se Portas equacionasse um entendimento com a seita socialista.
PVM