29.1.10

Errante, como se não houvesse um destino


A exposição prolongada a aeroportos tem efeitos adversos. Se for um aeroporto onde desagua uma amostra dos povos de todo o mundo, uma torrente de sensações contraditórias toma o seu rumo.

Pode ser da falta de paciência para os minuciosos controlos de segurança (desde que desembarquei em Frankfurt passei por mais dois controlos com funcionários mal encarados). Ou das muitas horas que estive no frenético, gigantesco aeroporto à espera do voo de ligação. Ao mesmo tempo que a impaciência e o enfado se amontoavam, uma pouco sóbria vontade de ser utente de aeroportos, muitos aeroportos, aleatórios aeroportos que se sucedessem à medida que desse na gana mudar de poiso. Era como se de dentro viesse um impulso para uma sabática de (quase) tudo. Com estas palavras de ordem: sem destino.

Talvez fosse por ter ido parar a um canto do aeroporto pejado de asiáticos. Nas imediações, as portas de embarque anunciavam voos para Japão, China, Coreia do Sul, Tailândia. A certa altura, sem precisar de fechar os olhos, ia jurar que estava num qualquer aeroporto numa agitada cidade asiática. Terá sido para combater o estado de espírito amofinado, ou por sentir arrebatamento com lugares cosmopolitas; dei comigo, ainda de olhos abertos, a imaginar uma demorada romagem em que partisse da minha cidade e a ela retornasse, indeterminado tempo depois, vindo do lado contrário. Uma volta ao mundo, sem prazo nem etapas nem destinos.

Não haveria planos. A não ser a primeira viagem de avião. Rússia – Moscovo ou S. Petersburgo. Para a frente, viagens intermináveis de comboio. Ancorando em cidades sem saber onde dormir. O mais difícil: comungar dos costumes locais, submergir na cultura, aprender a gastronomia, beber na história de cada local o desejo de uma fugaz cumplicidade. O mais difícil, contudo. Pelas barreiras da língua, pela timidez que não sei derrotar. No imaginário que preenchia aquelas horas de espera no aeroporto, tirei a limpo as certezas. A viagem (também) para liquidar a imperdoável timidez. Senão, como podia aproveitar a oportunidade de mergulhar no mundo inteiro?

Haveria de chegar à China. Descer à Índia. Perder-me numa longa temporada nas muitas Índias dentro da Índia. Nem que sobre a cabeça pendesse o temor da espiritualidade que se insinua (há tanta gente que renasceu depois de conhecer a Índia). Haveria de percorrer as profundezas do Tibete, alcançar o enigmático Nepal. E olhar, nem que fosse ao longe, para o majestoso Everest. Dar um salto ao Japão que esconde tanto bucolismo em sítios recônditos. Descer à Austrália, pegar num carro e palmilhar as estradas desertas, recusando sempre um mapa por companhia. Experimentar a Nova Zelândia, nem que fosse pelo menor de todos os atractivos – a fútil exibição de ter estado no lado contrário do mundo.

Por opção pessoal, contornava a África. Não por preconceito, nem temor pela miséria que rima com subdesenvolvimento, ou receio do choque térmico do tribalismo. Sem espúrios racismos. Atravessava o enorme oceano Pacífico até às Américas. Queria percorrer o Canadá, atravessar os Estados Unidos de uma costa à outra, com alguns laivos de civilização para enjoar outra vez. Com saudades do exotismo do hemisfério sul, tragava o equador outra vez. Quando desse conta, um avião teria aterrado no elegante Chile (por ser longilíneo e esguio). Haveria de o descer, outra vez de carro, desde o norte até aos contrafortes dos glaciares que espreitam o corno sul do continente, dizendo adeus, a muita distância, à Antárctida de todos os gelos. Depois a agulha afinava a norte, subindo a Argentina – ora em autocarros imundos e lentos, ora em comboios atravancados em carris novecentistas.

Buenos Aires seria a porta de embarque para casa. Não sei quanto tempo depois; se meses ou anos, barbudo e esquálido, desgrenhado e cansado. Houvesse coragem de alinhavar a aventura, sem compasso que esboçasse a esquadria do caminho, com alguma abastança necessária (pois não me propunha a eremita) e sem o importante porém de haver família, pessoas queridas a deixar para trás.

Não sei: se este impulso para partir em errância foi o sumo da fastidiosa espera no aeroporto (e daí um paradoxo), ou a vontade de experimentar muitos lugares desconhecidos num movimento espontâneo e circular. Como circular é a terra-mãe que nos alberga. E circular parece ser a existência, negando a pulmões cheios o trajecto linear apalavrado pelas teimosias.

(Em Sófia, Bulgária)

28.1.10

O homem sem beiças



Mesmo descontando a congénita desconfiança dos políticos, fico atónito com o entusiasmo de alguns militantes do PSD (e não só) com o homem que quer fazer a vida negra ao actual timoneiro da nação. O mal pode ser meu, concedo. Estou de pé atrás em relação a políticos inanes, só imagem e um punhado de slogans ocos como o vento fez ninho em suas cabeças. Passos Coelho, o ex-jovem (entenda-se: o antigo líder da "Jota" social-democrata, essa coisa pouco recomendável).

Fez uma sabática da política. Desertou das luzes da ribalta. Quase nos esquecêramos dele. Entretanto fez-se homem. A pulso, concluiu os estudos e trabalhou numa empresa a sério, sem procurar o beneplácito público que os medíocres carreiristas dos aparelhos partidários ambicionam. Como convém a um aspirante a aspirante a tomar o leme da pátria em mãos próprias, já não desfila em pose juvenil, aquelas camisas desportivas de marca com as mangas arregaçadas a três quartos. Agora, fato e gravata, sóbrios. Até porque o rival que aspira derrotar tem um séquito que construiu o mito do saloio com fatos Armani que, só por isso, passou a ser um dos mais elegantes do mundo (dizem).

Podia andar para aqui a perorar sobre o livro que Passos Coelho escreveu, "Mudar" de seu título. Podia sublinhar a vacuidade que dele tranquilamente transpira. Podia interrogar o que leva ao êxtase com a personagem se ela tem um discurso sem sumo, empertigado no recalcamento do complexo "yin e yang" dos partidos do bloco central, tão irmãos em tantas coisas. Até nisto: há tanto tempo arredados da labiríntica mansão do poder, a sofreguidão de prebendas públicas parece coalhar o entendimento. Nem conseguem perceber, os meus amigos do PSD, que a personagem é uma espécie de Sócrates alaranjado. Convenhamos: com menos pesporrência e, para já, sem tiques de autoritarismo; falta saber se manteria a pose se o poder lhe caísse no regaço.

Quero lá saber que os partidos da alternância sejam ainda mais parecidos se Passos Coelho, o homem sem beiças, subir ao trono. Fala de viva voz o irrecusável, patológico pessimismo: como isto vai de mal a pior, piorar mais só em dantescos pesadelos. Assim como assim, é-me indiferente o que se passa e o que se segue ao que se passa.

O que quero saber é daquele traço fisionómico que distingue o candidato a candidato a primeiro-ministro: a falta de lábios. Os homens sem beiças inquietam-me. Eu vejo lábios carnudos como o paredão de uma barragem que protege contra a logorreia. Um homem de lábios finos, de lábios imperceptíveis, é desprovido de filtro contra o frívolo palanfrório. Os homens sem beiças deviam ser motivo de todas as desconfianças. Se eu fosse militante do PSD e estivesse aturdido com o futuro do partido (o que parece acontecer a poucos dos ditos), ia ao congresso elaborar a teoria da perigosidade do homem sem beiças. O homem sem beiças é de uma inexpressividade macilenta. Não sei se é augúrio (ou oráculo) dos passos perdidos que esperam este partido. Quem ainda acredita que saem coelhos da cartola?

Tenho uma leve suspeita que o querido líder, ansioso para evitar a arenga política com um quase clone, meteu agentes infiltrados na confusão reinante que é o PSD. A arenga com uma alma gémea afigura-se explosiva, com resultado incerto. Até agora, o timoneiro ganhou as pugnas eleitorais contra fracotes. Temendo que o homem sem beiças consiga debitar promessas eleitorais por minuto a uma cadência insuperável e que consiga cativar muitos desiludidos com a cansativa e já muito demorada governação dos que lá estão, o querido líder gostaria que outro fosse o líder daquele espatifado partido.

Não tenham pena do homem sem beiças se voltar a perder a liderança do partido laranja. Honra lhe seja feita: pode um imenso deserto de lugares-comuns povoar aquele cérebro, mas não fica no desemprego nem de mão estendida à espera de ser premiado com uma sinecura qualquer num organismo público. Exemplos? Há tantos. Alguns coitados socialistas candidatos a autarcas que foram derrotados e que, como prémio pela derrota, foram promovidos a secretários de Estado ou a governadores civis. Temos que aplaudir a generosidade. Em vez de caírem em depressão por carpirem as mágoas da derrota eleitoral, ensaboaram-nos nas delícias do poder governamental. Os amigos são para as ocasiões.

E o homem sem beiças, também tem na sua roda de contactos muitos amigos destes?

27.1.10

(Os novos) Vendedores de banha da cobra



Uma das maravilhas da modernidade: as estratégias agressivas de marketing. Os especialistas tratam de nos convencer que esta agressividade é saudável. Pode ser, quando os papalvos caem no engodo (ia escrever "conto do vigário", mas achei excessivo) e a empresa que contratou o marketing agressivo engrossa a conta bancária. Para os papalvos por genético defeito, ou para os que acabam derrotados pelo cansaço, a agressividade é tão agressiva como ensina o dicionário.

Já recebi um telefonema (com número anónimo) que tinha, do lado de lá, uma voz simpática e radiante a anunciar que fui o "feliz contemplado" com uma semana de férias numa estância na costa andaluza, com tudo pago, tudo. Para começo de conversa, intriga-me o alarido da voz desconhecida: não me conhece de lado nenhum e exibe um contentamento transbordante por um prémio que eu, tão desconhecido como ele era para mim, ganhei. Dou trela. Talvez por comiseração. As vozes anónimas dos call centre ganham à comissão. Os tais da geração "quinhentos euros", da eterna dependência do recibo verde e da espada da insegurança no trabalho a pender, ameaçadora.

Começo por não perceber como fui "agraciado" num sorteio quando nem sequer meti os papéis da candidatura. É a primeira reacção quando dão a "excelente notícia" de ter sido "feliz contemplado". A história começa torta. Entro no jogo com uma perna atrás. Desconfio da condição de "feliz contemplado". Eu nunca tive sorte ao jogo! A pessoa do outro lado da linha explica-me, paciente, que fui escolhido na tômbola por ter respondido, em tempos, a um inquérito sobre hábitos de consumo. Não me recordo do inquérito. Mas dou de barato: às vezes a memória ressente-se, ela que é cada vez mais selectiva.

A voz desembainha a cassete. Estas vozes estão treinadas, muito bem treinadas, pelos modernos gurus do marketing agressivo. A maneira como colocam a voz, as frases que se demoram longos minutos, como se tudo fosse feito para anestesiar o potencial cliente. O discurso sai mecânico, com ênfase nas palavras que despertam os sentidos no outro lado do telefone. "Prémio" é a palavra mais repetida.

Quando, por fim, a cassete foi toda desbobinada, descubro que ainda sobram uns detalhes por revelar – uns muito importantes detalhes. A páginas tantas, sei que posso escolher, na data que for conveniente e entre uma imensidão de descaracterizadas estâncias de férias na costa andaluza, uma semana "totalmente gratuita" para quatro – quatro! – pessoas. E depois a voz, inebriada com a generosidade do prémio ali à mão de semear, enfatiza três vezes seguidas: "com tudo pago. Com tudo pago. Com tudo pago!"

Eu juro que não sou desconfiado. Metem-me espécie os campeões das desconfianças (aqueles que desconfiam da própria sombra). Quem tanto desconfia não merece um pingo de confiança. Mas não evito um lugar-comum: quando a esmola é muita, o pobre desconfia. É quando se invertem os papéis. Começo a disparar perguntas. De cada vez que a resposta não é convincente, repito a pergunta. Do lado de lá, começo a notar alguma exasperação na voz que envia as respostas às perguntas incómodas – é como se conseguisse ver, através do telefone, o suar a escorrer pelo rosto do homem. Quando me informa que devo ir a uma determinada morada para levantar o prémio, faz-se luz: é uma empresa de time sharing.

Lembro-me da primeira e única vez que fui pescado em plena rua (na Rua Augusta) por uma deveras simpática menina que suplicou por "quinze minutos da minha atenção". Como a companhia era agradável (nessa altura era solteiro e, talvez, pior rapaz), fiz-lhe a vontade. Só consegui sair uma hora depois. Vacinado. Para nunca ser cliente de time sharing. Lembro aquela entediante experiência (e até a sensual menina perdera os seus encantos) para terminar a conversa telefónica. Declino o prémio. Perante a voz atónita, ofendida até, que do outro lado não compreende como tenho o atrevimento de abdicar (um prémio não se recusa). É quando a agressividade se contagia do marketing para a voz do seu intérprete. Mal-educadamente, desligo o telefone.

Ficaram sequelas. Deixei de atender chamadas telefónicas anónimas.

26.1.10

Underdog?


Não. Ainda não sou membro do PETA (People for the Ethical Treatment of Animals). Já estive mais longe de o ser, de cada vez que dou de caras com estúpidos maus-tratos a animais (de companhia e não só). Só o não sou por causa do irremediável individualismo que me afasta convincentemente de qualquer associativismo.

(E convém abrir um parêntesis para aflorar algumas excentricidades do PETA que têm um sabor ambíguo. Por um lado, uma campanha publicitária que chocou as mentes católicas: uma modelo desfilava com asas de anjo contra a utilização de peles de animal nas roupas das madames. Os dogmas não se reinventam. Asas felpudas, só mesmo os anjos consagrados na iconografia católica. Vá-se lá admitir que uma lasciva, desnudada rapariga desfile na tela empunhando umas angelicais asas.

Por outro lado, outra conhecida rapariga apetecível avisava que o sexo em excesso faz mal, ao mesmo tempo que atirava um olhar paradoxalmente lúbrico. Sossegamos logo a seguir; a menina dirigia a advertência aos animais de companhia – por assim dizer, aos donos dos animais. Para evitar que as ninhadas proliferem exponencialmente, aumentando as probabilidades de animais que caem abandonados nas ruas, ou de animais que mal passam da infância, ou de animais que acabam atropelados à primeira aventura nas ruas. Só que esta campanha de emasculação e esterilização animal contraria a bioética que combate as emboscadas antropocêntricas. Com que autoridade impomos o totalitarismo humano sobre a natureza animal, castrando os animais de companhia e retirando-lhes um prazer que não gostamos que nos seja negado? Isto põe-me a pensar: os gatos e a cadela cá de casa são todos castrados.)

Tudo isto a propósito de uma expressão idiomática – outra – que faz interrogar o seu sentido. É aquele hábito de dizermos que alguém tem uma vida "abaixo de cão", ou que o raciocínio de um oponente é tão absurdo que escorrega a um nível "abaixo de cão". À primeira vista, os militantes do PETA deviam-se insurgir contra a expressão – que, é importante que se diga, não é idiossincrática da língua materna: na língua inglesa, por exemplo, usa-se "underdog". Assim como assim, o estalão escolhido para dar alvitres sobre a miséria alheia, ou a indigência mental de quem se situar no outro lado da barricada, é o cão. Quando se sugere que um pensamento está "abaixo de cão", estamos a situar o canídeo no limiar. Sem que o canídeo seja culpado do que quer que seja para ser convocado à comparação. Os militantes do PETA protestariam que a comparação é ofensiva para o cão. Uma degenerescência social que continua a poluir argumentos com uma metáfora aviltante para o cão.

Reflectindo na expressão idiomática, ela pode não apoucar o cão como se pensa. Quando dizemos que alguém tem uma vida infausta, de tal modo que está "abaixo de cão", essa pessoa vale menos do que um cão. E estão errados os fanáticos da causa animal quando se ofendem com a comparação, argumentando que ela já coloca o cão num patamar rasteiro. Enganam-se: o desgraçado a que aludimos está ainda mais abaixo e tem o "privilégio" de ser humano.

Confirma-se o que os olhos consomem. Há cães maltratados, indignamente maltratados, uma vergonhosa manifestação de bestialidade humana. Como há gente que está abaixo de cão. Vivem pior do que cães com dono. (Excluo aqueles cães que dormem ao relento, numa casota sem condições, com a liberdade acorrentada.) Há gente a passar fome e cães que se alambazam com manjares opíparos. Há gente a dormir ao relento, as carnes enregeladas pelo frio invernal, e cães que dormem no calor de uma casa aquecida, cães que vêm à rua ridiculamente encasacados.

Como muitas, esta expressão idiomática é falsária. Primeiro, remete os cães (sem distinguir entre cães com vida principesca e cães vira lata) a um patamar pouco digno de padrões civilizacionais que já retiraram o humano da bestialidade. E, segundo, usar a expressão "abaixo de cão" é motivo de ofensa para os fanáticos do humanismo. Eles apressar-se-ão a lembrar que há pessoas que vivem pior do que cães, o que, a seu ver, é intolerável. Dizer que estão "abaixo de cão" reforça o intolerável.

25.1.10

Broken Social Scene (feat. Feist), "Lover's Spit"

Corpos entrelaçados

Uma coreografia intensa. Uma alquimia dos sentidos. Os corpos depõem-se na sua nudez, reduzem-se à simplicidade dos gestos espontâneos conduzidos pelo desejo. Arfando, suando, mostrando a temível beleza que apoquenta os sábios de todas as moralidades. Nesses instantes em que os corpos descem do pedestal da superioridade da espécie, tão parecidos com os animais que arqueiam a sua irracionalidade.


As mãos que se tocam, os olhares furtivos, os lábios marejados que derramam arrepios. Debatem-se, os corpos. Trocam-se, os corpos, nos irreflectidos gestos que emprestam animalidade. Dos gestos perfumados pela beleza da espontaneidade. Os fogos que se incendeiam, nem que a paisagem seja toda composta pelo branco árctico. A cumplicidade dos corpos entrelaçados, num hino sublime aos sentidos expostos em toda a sua nudez.


Os dedos tacteiam as curvas, repousam nas saliências mais apetecíveis. É lá que bebem o seu nutriente maior. E, enquanto a fogueira crepita, os corpos acompanham o ruído da lenha que se consome. Não se reduzem a cinzas, os corpos, na combustão a que se entregam. Sobrepõem-se ao ruído da fogueira. Escalam a ladeira onde os prazeres se renovam, abafam-se eles mesmos numa fogueira ainda mais intensa. Os corpos ferventes, trémulos, no compasso da coreografia perfeita.


No alto momento em que a cumplicidade dos corpos se desvela em uníssono, é como se o tempo ficasse parado por algum tempo. A noite que se confunde com a manhã, ou a maresia que invade a montanha tão longínqua do mar. Os corpos encontrados no néctar mais precioso. Os corpos que perderam a pluralidade, entronizados como o singular. Entrelaçados, entoando uma melodia que só aos corpos é audível. E irrepetível, nem quando uma vaga sensação de ritual percorre as paredes do quarto.


Há gotas de suor que se soltam entre a fusão dos corpos. Há uma furiosa, suave peregrinação que cavalga na singularidade dos corpos. Dos corpos que outrora se intimidaram quando ainda eram desconhecidos. Desses mesmos corpos que são um mapa imenso, um mapa onde ainda sobram enigmas, mas o altar que já não guarda segredos. É quando os corpos se despojam de tudo o resto: ficam ali, um diante um do outro, só os dois corpos entregues aos seus próprios imperativos. Consomem-se enquanto se alimentam.


Os corpos falam a sua linguagem. Uma semântica de devassidão. As palavras ecoam através dos gestos, das mãos que se apertam, fortes; das mãos que ungem o deleite, aveludadas. Do amplexo dos corpos num diálogo sem palavras – só gestos, só tremores alicerçados – esvoaçam os pássaros numa coreografia que empresta alegria aos céus intensamente azuis. Falam-se, os corpos, um através do outro. Como se houvesse neles uma alquimia de sons e sentidos e afagos – e todas as mágoas se consumissem na purificação dos corpos. Como se um corpo se sentisse através do outro. E dele regressasse ao mais alto da sua essência. 


Um corpo olha o outro como o seu campo de flores. Como são as flores: um santuário de perfumes. Diante de um campo de flores, resta ao corpo dedilhar as estrofes de um poema. Enlaçados, os corpos depõem-se num poema que se aviva no sussurro da carne com a carne. Como se não houvesse o dia seguinte. Como se não houvesse o dia seguinte.

22.1.10

Circularidades


"No círculo da sua acção, todo o verbo cria o que afirma", Mário de Cesariny, A Intervenção Surrealista

Não era a planura assegurada pelos cânones do pensamento tranquilo. Havia um desafio, impenitente, a pender sobre os telhados mentais. Quando se atirava a corda ao ar, a gravidade impedia que se estendesse no horizonte. A corda subia bem alto, impelida pela força dos braços que desejavam por ela tocar no firmamento. Derrotada pelas leis da gravidade, a corda afocinhava no ponto de onde partira. Primeira manifestação de circularidade.

Era como as palavras que se tecem nos estreitos corredores onde se encavalitam. Diz o poeta, inebriado pela fase surrealista, que o verbo tem o predicado fantástico de criar a sua própria acção. Não há ideias que não se entronizem pela palavra. Não há acção que não venha à espuma dos dias através do fio da palavra. E os verbos são o autêntico manancial afirmativo. Com uma inigualável capacidade, dir-se-ia, de prestidigitação: só eles podem ora depor, ora atestar, as imagens que se oferecem diante dos olhos.

No fundo, é como se houvesse aqui uma nova metafísica. Tratamos os verbos como crenças. Ora afirmativos, ora o embelezamento das negações que compõem novas construções. Os verbos todos, os mais vulgares e os que só a muito erudita gente transporta no albornoz dos pessoais dicionários. Uma constelação infindável de verbos que se tecem numa circularidade impenetrável. Jogamos com os verbos como se tratássemos de congeminar evasivas manobras, os verbos todos alinhados numa caótica ordem, ordenados em inesperadas combinações que desarmam os que tentam adivinhar a sequência que vem a seguir. Uma caixa de Pandora. À medida que o novelo de verbos se desenreda, embrenhamo-nos numa circularidade ainda mais densa. As pontas descobertas só caucionam mais nós por desatar. Que os verbos virão desatar. E mais outros, à espera do necessário uso para os desafios que hão-de vir algum dia.

Os verbos cáusticos, os verbos adocicados; os verbos ensolarados, os verbos plúmbeos; os verbos distintos, os verbos vulgares; os verbos apresentáveis, os verbos de antanho; os verbos com letras simples, os verbos encimados por complexas construções imagéticas. Todos os verbos, todos sem excepção, a larga avenida por onde escorrem as ideias. São o sangue que corre na ossatura dos substantivos. Aqui e ali pontuados pela musculatura, ora mirrada, ora passada pelo trato do culturismo, dos adjectivos. Mas são os verbos que tudo avivam. Como o sangue que percorre as veias, nutrientes de tudo em redor. Acção e significante. O trote que marca a cadência.

Por fora das convenções: em vez de afirmação criativa, o verbo inverte-se na sequência estabelecida. O verbo, de uma vez por todas, cria aquilo que afirma. Como se fosse a entidade divina responsável por todas as criações que se oferecem aos sentidos. Há um lapso de tempo, um breve instante, a entrecortar a acção e a criação. Ao ser entoado, o verbo acabara, uns milésimos de segundos antes, de criar a sua própria afirmação. Sem ser a caução de claustrofóbicos vestígios. A circularidade que se espraia por todas as dimensões não reduz o horizonte a um espaço fechado, ao círculo onde todas as coisas se debatem – como se tudo terminasse no eco de onde partira. As ondas circulares são de uma amplitude notável. Expandem-se a cada desdobramento verbal, camadas que se desmultiplicam à medida que as palavras se compõem em estrofes perfumadas pelos frutos que pendem das árvores alindadas pela luz da primavera.

Como o sangue que traz vida ao corpo das ideias que se empunham na constelação de palavras, os verbos rimam com liberdade. São o nutriente que traz sentido à constelação de palavras. Desfazem as empalidecidas palavras compostas numa linha recta, as palavras carentes da acção tingida pela magia dos verbos.

21.1.10

Segunda pele, segunda juventude



Folgazão, o cinquentão sai do carro acompanhado por uma jovem e voluptuosa mulher – lábios carnudos sublinhados a vermelho carmim, enjaulada num vestido apertado que aviva as formas corporais, um decote libidinoso, a respiração inteira de luxúria. O homem olha em redor. Só para se certificar que os mirones tratam de radiografar as formas esculturais da longilínea mulher aloirada que se abraça a ele num demorado enamoramento.

O sorriso, dir-se-ia perene, transforma-se em sonora gargalhada que dá a mostrar a dentição perfeita, imaculadamente esbranquiçada. Enquanto a namorada com idade para ser sua filha sussurrou uma – talvez – obscenidade ao ouvido. O homem veste-se como se tivesse acabado de sair da adolescência. Mostra os tiques pueris de um enamoramento tardio. Mostra-se num assomo de juventude que não lhe cai em fatiota. Quem o visse ao perto notava as rugas ocultadas por cremes odorosos que adulteravam a cor da pele, suavemente tisnada. Deixa para trás o bólide desportivo, dois lugares e descapotável. Dirige um olhar de orgulho ao disparar o comando que fecha as portas do automóvel. O homem irradiava uma juventude tardia – ou uma juventude rejuvenescida na meia-idade.

Sentado à mesa do restaurante, petrifica o olhar na namorada enquanto ela desfila em passo de manequim a caminho da casa de banho, em provocante menear dos glúteos entalados no vestido escuro. Retém os olhares masculinos que percorrem a passada da mulher. Sem se incomodar ou enciumar. Enche o peito de orgulho à medida que homens sozinhos e mesmo homens da família ali acompanhados das consortes desviam o olhar para a monumental mulher enamorada de um indivíduo de meia-idade. A inveja dos mirones que se alambazam com o olhar quando a namorada regressa, ainda mais lasciva, da casa de banho: é alimento sublime, essa inveja.

Na mesa, o intenso e juvenil flirt fez com que ignorassem a presença do empregado de mesa. Que, por sinal, não fez questão de interromper o momento idílico por alguma razão. Quando o cinquentão de cabelos grisalhos negligentemente desgrenhados desviou o olhar e reparou no empregado de mesa, fez de conta que não estava ninguém nas imediações. Só para prolongar o prazer do desgraçado rapaz; só para enfatuar o orgulho másculo milagrosamente rejuvenescido de um cinquentenário em revivalismo juvenil.

A jovem mulher, imersa numa beleza estonteante, desfaz-se em derretimentos que acendam a luz vermelha dos invejosos em redor. O homem não cabe em si. Esbraceja, fala alto, ri-se com fartura em audíveis gargalhadas – como se já não chegasse o chamariz que era a acompanhante. Recebe uma chamada no telemóvel que atende em voz que ecoa por todo o restaurante. Repete, uma e outra vez, que não pode tratar do assunto, por mais urgente que seja, porque nenhuma urgência quadra com o avivar da juventude na companhia da "sua namorada" – e sobe o tom de voz de cada vez que entoa a expressão "minha namorada".

E, contudo, houve um instante, um só instante que se eternizou numa tela mental, em que o olhar do homem pintou uma tremenda angústia. Nesse instante, o homem retomou contacto com o planeta, com a insondável, milimétrica progressão do tempo. A ostentação de sinais era só isso: uma ostentação oca, um devaneio saudosista. Um túnel que se estreita a cada ano que o homem dobra. E uma interrogação atroz: sabia lá se muitas das coisas que lhe são dadas a fazer as faz pela derradeira vez.

Adiava sempre a última vez, reinventando uma juventude que as marcas do corpo desmentiam, com a ajuda da abastança amealhada. Não podia perder tempo. Nem ignorar oportunidades que lhe caíssem no colo e outras que fossem da sua lavra. Mascarou a idade física com um caleidoscópio de sinais que avivavam uma juventude que parecia inesgotável. Não fosse o jogo de sombras em que se escondia a pose vaidosa o pináculo da sua amargura.

20.1.10

Ciência ou poder


Deve um académico manchar-se com a gula do poder? Para quem está por dentro de um dos lados da barricada (se me é permitido delimitar as duas barricadas), é isto que interessa saber. Sobretudo se olhar para trás e verificar que muitos académicos que passaram pelo cadeirão do poder (arrisco este palpite: quase todos) ficaram com a reputação beliscada depois da experiência. Regresso ao texto de anteontem: António Mendonça ficará mais conhecido por ter anunciado que o TGV vai transformar Lisboa na praia de Madrid do que pelas façanhas de académico.

A minha parcialidade não é garantia para apreciar o assunto. Nem é tanto por estar de um dos lados da barricada, o que imediatamente me faz parte interessada. A ausente imparcialidade tem origem nas ideias que me andam pelas veias. Um anarquista não vê com bons olhos qualquer exercício de autoridade personificado em funções públicas. Um anarquista renega qualquer manifestação de poder. Esta advertência serve para registar não só a pessoal indiferença pelo exercício do poder público mas, sobretudo, a estranheza que reputados académicos saltem de um lado para o outro da barricada.

Admito, contudo, que haja académicos que sentem o chamamento do exercício cívico. E como têm uma imagem muito elevada das suas capacidades intelectuais, tudo se conjuga para que ponham os seus inestimáveis préstimos ao serviço da comunidade. É aqui que se encaixa o comportamento típico de muitos políticos emigrados das universidades: consideram o poder um sacerdócio, com uma dose de sacrifício pessoal pelo meio só para dramatizar o cenário e convocar a já de si elevada estima que o povo sente por eles. Admito, e respeito, que estes professores queiram dar o seu contributo para a pátria.

Mas também temos que admitir que há muitas personagens ansiosas por dar o salto da universidade para a governação só pela vertigem do poder. Alguns, pela gratuita vertigem do poder. Outros por acharem que assim se coroa um trajecto com a chancela do reconhecimento público. Em ambos os casos, quem pode questionar a legitimidade da opção? É isto que me traz perplexidade, todavia: por esta ordem de ideias, a aspiração suprema de quem faz carreira académica seria o exercício do poder. Seria a ocasião dos académicos provarem os dotes para a gestão das coisas públicas, como alguns são visionários que andam à frente do tempo. O salto para os palcos da governação seria a outra dimensão, uma prometida dimensão, que se segue à carreira académica.

Não compreendo os riscos que estes professores inebriados pelo poder correm – seja na modalidade de "genuínos servidores da causa pública", seja na modalidade dos que são oportunistas da causa pública. Trocam o sossego da cátedra pelas luzes da ribalta onde são constantemente escrutinados por um público esquizofrénico. Não me equivoquei, esta audiência dos políticos é esquizofrénica. São os mesmos que se inclinam deferentemente perante os senhores professores doutores carregadinhos de autoridade académica e intelectual (não necessariamente por esta ordem). Quando estes saltam para o palco da governação, não demora muito a caírem em desgraça junto do povaréu. Não há autoridade intelectual que lhes valha. E já nem a autoridade académica resgata a credibilidade do "professor-político". A imagem que eles passam é a de quem está à espera da primeira oportunidade para deixar suspenso outro sacerdócio – o do ensino, o fértil nutriente da sociedade. Perpassa uma imagem de desautorização das universidades. Como se a carreira nas universidades fosse apenas um preâmbulo do ambicionado fim: servir a causa pública, com os cordelinhos do poder nas mãos.

Confesso um sonho – daqueles porventura ridículos: num dia soalheiro e primaveril, alguém chegava ao pé de mim com um (diria o conviva) irrecusável convite para amesendar no poder. Só para ter o prazer de dizer não. Sem sequer pedir tempo para pensar duas vezes. É que para mim só existe um lado da barricada, que é este em que me encontro.

19.1.10

Esgares e indecências



Clara Pinto Correia fotografada enquanto "tinha sexo" (que estranha expressão!). O fotógrafo de serviço é o namorado da cientista figura pública. O produto conceptual deu origem a uma exposição de fotografia do namorado da fotografada. A ver numa galeria de arte perto de si.

A receita não é inovadora. Tropeçamos constantemente em arte contemporânea que se notabiliza pela provocação dos costumes, pela provocação de olhares sensíveis, pela provocação do que quer que seja. Não é que esteja contra o género artístico; limito-me a constatar que muitas vezes a criatividade se refugia na capacidade de chocar a audiência. Como se criatividade e provocação fossem produto de uma simbiose. A arte não escolhe a sua audiência, tão democrática é; a audiência é que tem autonomia para ir ao encontro da arte que deseja consumir. Somos livres para esconder a vista do que nos desagrada, concentrando o olhar na arte que nos enche de prazer. Neste exercício lúdico há um senão. Para esconder a arte desagradável num biombo, impõe-se espreitar em vestígios dessa mesma arte. De outro modo, como podemos colocar essa arte dentro de um armário escuro se dela não oferecemos uma amostra aos sentidos?

Nas páginas dos jornais andaram excertos do rosto de Clara Pinto Correia durante o acto sexual. Fragmentos das fotografias espalhadas pelas paredes da galeria de arte. Pela amostra, fiquei vacinado. Dispenso os esgares de prazer lúbrico da cientista. Posso parecer bota-de-elástico, mas ao ver os fragmentos de prazer orgástico em forma de retrato partilhados com a audiência interessada, o que me invadiu foi uma sensação de voyeurismo. Mas quem era o maior voyeur? Se aquela arte vinha em forma de convite a sermos voyeurs dos esgares de uma figura pública enquanto se entregava à lascívia com o namorado, a D. Clara e o namorado é que levam a palma do exibicionismo. Adivinho a indignação que tomou de assalto as mentes mais conservadoras, atrapalhadas por tamanha exibição de impudicícia.

Cada um faz da sua intimidade o que bem lhe apetece – note-se. Mesmo quando a intimidade o deixa de ser, quebrada a derradeira fronteira entre a esfera íntima e a praça pública. É nesta altura que o livre arbítrio convoca a decisão. A minha é a de dispensação do desprazer de ser testemunha dos grotescos orgasmos da D. Clara enquanto é penetrada pelo namorado. Para isso, prefiro um filme pornográfico. Outra vez: posso ser bota-de-elástico, mas isto soa-me a partilha do leito (onde os prazeres carnais desabrocham) com a comunidade inteira. E se nem os esgares de prazer de uma mulher deslumbrante seriam interessantes, o que dizer disto? Faz lembrar a provocação do escritor Saramago aos católicos: pura manobra de marketing artístico. Saiu a sorte grande ao namorado da D. Clara: agora já é um artista conhecido.

Nisto não consigo deixar de pensar: a elevada proficiência do namorado da D. Clara. O indivíduo é capaz de desempenhar judiciosamente a função, de tal forma que a D. Clara foi apanhada em inúmeros instantes de orgasmo (supõe-se que não eram fingidos…). Ao mesmo tempo, ainda tinha concentração para empunhar a câmara fotográfica e fazer arte enquanto o membro intumescido cobria a D. Clara de prazeres carnais. Diria que o rapaz é um grande artista. Quem se pode gabar de desembainhar a espada e fazer arte ao mesmo tempo? A isto chamo perícia em estéreo.

Se o género pega de estaca, amedronto-me só de imaginar que outros exibicionismos da intimidade possam ser traduzidos em arte. Pelo andar da carruagem, hei-de ver estampadas em páginas de jornais outras controversas figuras públicas a serem-no mais ainda pelas poses provocatórias capturadas em forma de arte. Uma figura pública a tomar banho, mostrando, orgulhosa, a fealdade do seu corpo. E outra a partilhar o quotidiano, cada minuto do quotidiano, com um público sedento de entrar na intimidade alheia. Até o tempo de recolhimento no WC, quando a fisiologia dita momentos escatológicos.

Já não digo que algo seja impossível. Se a D. Clara teve o desassombro de partilhar connosco as particularidades dos esgares faciais enquanto se desmultiplicava em prazeres lúbricos, algum dia seremos confrontados com os esgares (de esforço, em alguns; de prazer, noutros) que traduzem escatológicos momentos em que as excrescências interiores são evacuadas. A cada um fica a liberdade de imaginar as personalidades em correspondência com os esgares retratados.

18.1.10

Lisboa, a praia de Madrid



Cartoon do Público, 17.01.10


Era capaz de apostar que o ar do ministério das obras públicas está contaminado por um vírus desconhecido. Um vírus que provoca estranhas reacções retóricas aos titulares da pasta. Escorregadelas semânticas, todos temos. Quando passa das marcas – de tal modo que o desbragamento verbal não se justifica por uma distracção, ou por o raciocínio do ministro se toldar ao desfilar diante dos olhos uma escultural mulher, ou por sua excelência ter abusado do vinho ao almoço – é sinal de uma momentânea demência a tomar conta do sistema nervoso do ministro. As tiradas do ministro Lino tinham entrado para o anedotário. Não vale a pena chorarmos saudade do ministro Lino: o sucessor, o ministro Mendonça, promete!


Há dias, o ministro Mendonça quis-nos convencer da bondade do investimento no TGV, anunciando pomposamente que o comboio de alta velocidade ia transformar Lisboa na praia de Madrid. Estamos mesmo a ver que é isto que vai acontecer. Ao fim-de-semana, hordas de famílias madrilenas acotovelando-se na estação em Madrid, ainda madrugada, à espera que o sofisticado TGV as leve até às retemperadoras praias de Lisboa. De repente, porém, uma interrogação começou a adejar: onde é a praia em Lisboa? Os acérrimos defensores de tudo e mais alguma coisa dita pelos excelsos membros do governo, de baioneta em punho, logo preparados para ripostar: o senhor ministro referia-se às praias na zona de Lisboa.


Estamos mesmo a ver que é isso que vai acontecer. A família Muñoz a apanhar o TGV e, duas horas depois, ele, ela e as duas crianças saem na gare do Oriente, ou em Santa Apolónia – ou no prometido aeroporto de Alcochete. E, ó surpresa das surpresas, espera-os outro transporte público até às praias da linha de Cascais, ou até às praias da Costa da Caparica – ou até às praias mais apetecíveis que se escondem detrás da Serra da Arrábida. Lamentavelmente, o TGV fica-se por ali. Da maneira como tudo isto anda, não ficava surpreendido se o projecto fosse redesenhado para contemplar um ramal de acesso às praias. Só para fazer a vontade ao oráculo do ministro Mendonça.


Vamos supor que a megalomania se fica pelo inútil TGV até Lisboa. As ruidosas, numerosas famílias madrilenas já (ou só; depende da perspectiva) gastaram duas horas e uns minutos de viagem até Lisboa. Pela frente, têm prometida mais uma hora de viagem numa combinação que meta metro, autocarro e comboio lento até verem a cor do mar. Quando chegarem à praia, é quase hora do almoço. Pior ainda: quando a família Muñoz estender as toalhas no areal e os petizes, muito ruidosamente, começarem a fazer o estardalhaço habitual, o sol está na sua hora perigosa. Se a família Muñoz não se quiser alistar na fila de espera de um carcinoma de pele, quando o sol já não for perigoso está na hora de arrumar as tralhas, pegar na descendência e apanhar o autocarro ou o comboio de regresso à estação onde o TGV os espera de regresso a Madrid. Estamos mesmo a ver que é isso que vai acontecer.


E estamos ainda a ver o que o ministro Mendonça não que ver: o TGV não vai ser uma pechincha. A menos que se confirme a pueril versão da "classe média" popularizada pela namorada do primeiro-ministro, estamos mesmo a ver que a família Muñoz vai pagar mais de quatrocentos euros só para ir um dia à praia de Madrid (que é, recorde-se, só para fazer a vontade ao ministro Mendonça, Lisboa). Uma bagatela. Ou um luxo caro, que só nos sonhos – mas daqueles muito fantasiosos – do ministro Mendonça é que acontecerá.


Se é para nos convencer que cada euro investido no TGV é útil (e retiremos daqui o pretexto dos empregos criados, porque depois de terminada a obra esses empregos extinguem-se), eu envio daqui uma sugestão ao ministro Mendonça: diga que o TGV é bom porque sim. Só porque sim. Ao menos no cai na ridicularia. Assim como assim, já estamos habituados à pesporrência socialista que acha que pode impor o que quer e como quer.

15.1.10

Os salários elevados não são contra-producentes?


Ainda a indignação do "simples cidadão" Salgueiro contra a prodigalidade salarial dos sindicatos: de acordo com a extrema-esquerda, um dos males contemporâneos, nesta hedionda sociedade enamorada pelo capitalismo, é a entrega nos braços do consumismo. Ora, se se fizesse a vontade à extrema-esquerda, teríamos todos os anos generosos aumentos dos salários. Para sermos ainda mais dependentes do consumismo – pois que alguém acredita que com tanta massa na mão um quinhão fosse destinado à poupança?

E se, de repente, a extrema-esquerda alinhasse no jogo do consumo desenfreado e, portanto, sem dar conta, fosse aliada do abominável capitalismo? Só pode ser uma inadvertida coincidência. Alguém acredita que o ódio destilado ao capitalismo pelos senhores da extrema-esquerda seja apenas uma encenação? Que a coincidência não deixa de ser deliciosa, essa é que é essa.

Os meirinhos da extrema-esquerda, tão habituados à inevitabilidade das suas certezas, logo diriam que os aumentos dos salários serviam apenas para tirar muita gente do limiar da miséria. Esses dinheiros não seriam para alimentar necessidades supérfluas. Até entendo que reproduzissem este argumento. Do seu breviário faz parte a formatação da sociedade, a bem (pela educação como deve ser) ou a mal (sabemos como). Não havia lugar a devaneios individuais, logo reprimidos com o pretexto de que seriam desvios intoleráveis que podiam contaminar outros elementos da sociedade asséptica e manietada (que ainda congeminam nos seus sonhos). Se eles mandassem, ou se pudessem mandar só um bocado, o mundo passava a estar muito próximo da perfeição.
Desta perfeição: os donos das empresas, obrigados a partilharem uma fatia considerável dos lucros com os trabalhadores, alimentando aumentos de salários que se vissem com olhos de ver. Logo a seguir, os trabalhadores teriam o dever legal de não se alienarem com as tentações do consumismo. Teríamos, talvez, poupança forçada (no banco estatal, como é óbvio; ou em qualquer banco, desde quer todos tivessem sido nacionalizados). Ou uma polícia de costumes, que vasculhava o destino dos salários generosos que o governo em prol dos trabalhadores tivesse garantido. A serem identificados desvios de comportamento, com uma perigosa deriva para o consumismo imódico, os pecadores seriam tomados pela polícia de costumes e forçados a um maravilhoso programa de reeducação. Para pensarem e actuarem "como deve ser".

Lamentavelmente, as pessoas ainda não conseguiram perceber a bondade dos partidos da extrema-esquerda. Teimam, nas mesas de voto, em escolher partidos que alimentam uma forma de estar que depende do capitalismo. Desconfio que a imoderação salarial (pedra de toque da extrema-esquerda) está relacionada com a íntima convicção dos seus intérpretes de que nunca serão governo. Os adeptos da extrema-esquerda podem continuar a dar azo ao ódio aos lucros do "grande capital", conquistando a malta que detesta empresários que cometem a infâmia do lucro e exploram os trabalhadores pagando-lhes salários miseráveis.

Da incoerência as extremas-esquerdas não se livram. Sabem que o mundo é muito diferente do que idealizam. Se, por milagre, desenfreados aumentos dos salários deixassem de ser uma impossibilidade, comunistas e esquerda caviar prestavam um contributo inestimável ao aumento dos lucros das empresas onde os proventos mais gordos seriam espatifados. Quem imaginaria que a extrema-esquerda fosse tão amiga dos capitalistas?

Os donos das empresas é que têm vistas curtas. Fuinhas, teimam em cortar as unhas muito rente quando toca a distribuir remunerações por quem têm na folha de salários. Se os empresários percebessem a bondade de comunistas e de esquerdistas do caviar, do charuto cubano e das camisas Ralph Lauren, seriam os primeiros a abrir os cordões à bolsa. Se o não fazem é porque são avarentos e egoístas, querem-se alambazar com quase todo o bolo para si. Ou é porque são frugais na inteligência.

14.1.10

Pescadinha de rabo na boca



O "simples cidadão" João Salgueiro foi ao beija-mão presidencial. De lá saiu – como diria uma qualquer socialista boca amestrada – blasfemando: num arrazoado pessimista, destapou negras nuvens para a economia caseira. Um exercício de prospectiva económica que terá deixado o governo e acólitos à beira da apoplexia. Ou nem tanto: que crédito merece um "simples cidadão" que vai carpir mágoas para a porta do presidente, esse ícone da oposição?

Antes de ir ao assunto, duas observações. Primeira: eu, que também sou um "simples cidadão" e, modéstia à parte, não me parece que tenha capacidades cognitivas inferiores às do Dr. Salgueiro, tinha a mesma deferência acaso quisesse ser recebido por sua excelência o presidente da centenária república? Segunda: é impressionante que estas figuras gradas do bloco central, que em alguns casos foram ministros das finanças e que não podem sacudir responsabilidades de cima dos ombros, ainda se ofereçam ao despautério de julgarem os comparsas do outro lado do bloco central. Parece o maneta a zombar do perneta. Ou a memória selectivamente curta.

Entre protestos contra a inépcia do governo (outra intolerável blasfémia), o "simples cidadão" atirou-se aos trabalhadores gananciosos que só querem muitos e generosos aumentos dos salários. Salgueiro interrogou-se, em pergunta retórica, se merecemos salários europeus se não temos produtividade europeia. Foi quando me deparei com o esplendor de uma pescadinha de rabo na boca. Segundo o raciocínio retorcido do "simples cidadão" Salgueiro, não merecemos salários europeus porque somos de uma produtividade preguiçosa. Mas este raciocínio retorcido pode ser virado às avessas. Sem querer roubar lugar aos sindicalistas encartados, pode-se inverter o sentido da retórica interrogação de Salgueiro: não seremos mais produtivos por não recebermos salários europeus?

Discutir o sexo dos anjos é de uma irritante incapacidade conclusiva. Tudo depende do lado da lente que queiramos escolher. De um lado da lente, há uma certa causalidade. Do lado contrário encontramos a causalidade revertida. E em que ficamos? Talvez fosse aconselhável evitar estes imperativos categóricos, ainda por cima proclamados com assertividade catedrática, quando alguém tenta rematar uma indiscutível conclusão depois de tropeçar num assunto escorregadio. Senão, quando pensamos que a pescadinha dobrou a espinha e conseguiu morder a cauda, alguém do lado contrário dirá, cheio de certezas, que foi a cauda que se dobrou em direcção da boca do peixe.

Trata-se de uma questão de método e de rigor (e de rigor do método). Sem desvalorizar a casta, tenho a impressão que os economistas profissionais, aqueles que apenas vêem economia à frente dos olhos, são pouco dados a estes rigores. Depois apanham com ásperas críticas de outros economistas que militam em sectores heterodoxos. É caso para dizer que se põem a jeito da crítica implacável. Deixavam de se pôr a jeito se abrissem horizontes e aprendessem um pouco de outras ciências sociais que são tão nobres como a economia. Sem esta iliteracia, Salgueiro não tinha afirmado, de maneira tão categórica, que recebemos salários pouco europeus porque é a paga que merecemos pela envergonhada produtividade.

Não se pense que comecei a renegar ideais declarados. Continuo tão liberal (ou "ultra-liberal", se o rótulo aprouver aos desavindos) como dantes. Alguns, embebidos em perplexidade, interrogam-se: como pode um ultra-liberal admitir que a produtividade seja reduzida por causa dos salários pouco europeus? No fim de contas, os liberais não estão sempre preparados para defender os interesses – parafraseando a retórica K7 comunista – "do grande capital"? Não me pronuncio pelos outros "liberais", "neo-liberais", "ultra-liberais", ou o que queiram em alternativa chamar-lhes. Só sei dizer que o abaixo-assinado liberal tem abertura intelectual para admitir que o raciocínio do "simples cidadão" Salgueiro é de uma miopia castradora.

Ao Dr. Salgueiro: recomenda-se que deixe a alegoria da pescadinha a morder a sua própria cauda e dirija o olhar para a fábula do burro e da cenoura (sem ofensas para ninguém). Talvez então perceba que o seu imperativo categórico é de uma miopia sem quartel.

13.1.10

Chamam-lhe uma “história de amor”; eu chamo-lhe outra coisa



É o escândalo do momento: a consorte do primeiro-ministro da Irlanda do Norte andava metida com um jovem. Para acrescentar lenha ao ignóbil, o escolhido era filho de um talhante. O escândalo não fica por aqui, pois sobre a senhora concentram-se os holofotes destinados aos deputados, condição que adiciona à de consorte do primeiro-ministro. E, para coroar o alarido, a D. Iris Robertson terá usado dinheiros públicos para ajudar o – imagina-se – pujante amante a montar um negócio.

Confesso a admiração por estas historietas de cordel que envolvem a classe política. Quando os actores são gente de conservadora estirpe (o casal de políticos pertence ao partido católico), a história ganha um apetite suplementar. Aos que se lembrarem de invocar os costumes conservadores dos católicos da Irlanda do Norte para estranharem o comportamento da D. Iris, recordo que nas ilhas britânicas vai uma distância enorme entre os costumes proclamados e os pecadilhos em que até os sacerdotes da moralidade caem com uma estrondosa frequência. De uma vez por todas, não é por aí.

Não sei se diga, puxando a brasa à sardinha dos adágios populares, que "no melhor pano cai a nódoa". Mas quem está livre de ser atraiçoado pelas demoníacas hormonas aos saltos? Dá-se o caso de o casal ser tão mediático, duplamente mediático pelas sinecuras que ambos ocupam (verbo no passado: o primeiro-ministro já o deixou de ser). Uma infidelidade é mais imperdoável porque foi a senhora deputada a praticá-la? A infidelidade dá direito a lapidação pública à adúltera só porque cresceram adereços pontiagudos na cabeça de uma figura de proa das instituições locais? Descontem-se os exageros próprios da comunicação social sedenta de histórias escandalosas; que diferença existe entre esta novela mexicana e o adultério cometido por qualquer anónima mulher?

Mas que a história é deliciosa, lá isso é. Uma mulher já entrada na quinta década de vida caída de "amores" (já explico as aspas) por um fogoso rapaz que acabava de sair das fraldas da adolescência. As especulações são devidas: seria o primeiro-ministro incapaz da função (não, como é óbvio, da função política para a qual tinha sido escolhido…)? Terá a D. Iris, insatisfeita com os pouco diligentes dotes do consorte, procurado alguém que lhe satisfizesse a libido? Podíamos ir mais longe e especular se a senhora deputada não é ninfomaníaca, mas não convém formular a pergunta sob pena de escorregar para a brejeirice.

Com frontalidade: eu acho bem que a D. Iris se tenha refugiado nas delícias do possante amante. Se o primeiro-ministro estava pouco disponível para os "deveres conjugais", quem a censura por não conseguir resistir aos lascivos apelos interiores? Nota-se alguma perplexidade geral com a notícia, contudo. Talvez porque quem foi apanhado nos lençóis do adultério foi uma mulher, e ainda por cima figura pública. Sempre me meteu espécie aquela folgazona retórica do marialva macho latino que se ufana da colecção de mulheres em que foi debicando, sem admitir que a consorte possa retribuir a delicadeza. Por uma vez que fosse, teria que ir de braço dado com as feministas…

Justifiquem-se as aspas que enfeitavam a palavra "amores" lá atrás: acho enternecedor – ou então irónico, ou então apenas ingénuo, depende da lente que se ponha – que um jornalista qualquer tenha escrito que esta era uma história de amor. Aposto que foi uma jornalista, pois as mulheres são mais atreitas a histórias românticas (e lá me separei das feministas outra vez…). A também fogosa (continuo a especular) D. Iris já mostrou tudo, quando escolheu para amante um rapaz trinta e nove anos mais novo.

Há quem lhe chame amor. Os outros, mais terra a terra, preferimos chamar outra coisa: hormonas aos saltos. Legitimamente, que fique uma vez mais registado. Entendo que a jornalista, com uma lágrima ao canto do olho, tenha confundido os conceitos. A generosidade da senhora deputada prestava-se a essa confusão. Ela ajudou o amante a montar um negócio. No fundo, uma contrapartida directa dos serviços prestados pelo diligente amante. E até o verbo – montar – não é de todo inocente.

12.1.10

O bardo do regime e as maravilhas da “ética republicana”



Há dias, ouvia excertos de um discurso do possível candidato presidencial, o poeta Alegre. Como é habitual, um discurso inflamado com umas pinceladas de emotividade que cativam simpatias. (Como se sabe – até da iconografia religiosa – a razão sucumbe às emoções que semeiam pele de galinha.) Fiquei pasmado quando o bardo do regime articulou umas frases onde sobressaía a palavra "patriotismo". Acentuou a declinação: um patriotismo republicano, a necessária caução de credibilidade e prestígio. Nem de propósito, em ano de celebração do centenário da república, com tantos festejos que sintomaticamente trarão ao de cima a hagiografia de uma república que se acha ainda jovem. Esforço-me, mas não encontro diferenças entre a iconografia republicana, jacobina, o endeusamento acrítico dos seus seguidores e os que veneram divindades gurus de qualquer religião. A sorte da república é a sua alternativa, a monarquia, ser ainda mais vetusta. Só vence por falta de comparência. Uma vitória pouco convincente.

Ouvia, deliciado (mas não encantado) o poeta Alegre a casar patriotismo com republicanismo e a virtuosa, irrecusável esquerda. Foi quando me apercebi que as ideias, os valores, certas palavras só são viscosas quando são exortadas pelas pessoas menos qualificadas. Estamos habituados a que a extrema-direita tacanha chame a si o púlpito do nacionalismo. Renegamos a extrema-direita quando emprega as virtudes pátrias, pois tudo na extrema-direita exala desconfiança. Mas o bardo do regime, que se está a fazer a candidato presidencial de um quase insólito frentismo de esquerda, pode arregimentar as tropas à volta de um "patriotismo" (tão insólito como o frentismo de esquerda) que ninguém se incomoda.

Nesse dia, aprendi que o patriotismo só é nefasto se for aclamado pela intolerante extrema-direita; e se for a direita também não é recomendável, pois logo se cola a direita è extrema-direita, como convém para delimitação de terrenos nesta lógica movediça de desonestidade intelectual. Se forem os socialistas a enfeitar arrebatadores discursos com o patriotismo, uma ideia malévola transforma-se, por toque de Midas, num benévolo catecismo para recrutar as massas. Também aprendi isto: que os socialistas rivalizam em intolerância com a extrema-direita. Diagnóstico nada convencional, admito. Insultuosa comparação – dirão socialistas mais ofendidos. Insisto no diagnóstico: quando vedamos aos outros o uso de um valor e depois o convocamos a nós mesmos, não é só a incoerência que fica pelos calcanhares; é de intolerância que temos que falar.

A maior intolerância de todas é a que vem de braço dado com uma insuportável, sobranceira pesporrência: negamos nos outros o que só a nós permitimos. Por fim percebo que os tiques de autoritarismo de quem manda, agora na mó de baixo mercê das circunstâncias eleitorais, não são autoritários. Só se denuncia o autoritarismo dos outros. O mau autoritarismo. Ao bom autoritarismo tecem-se loas e inclina-se o corpo em sinal de respeito. Contudo, disto não podemos escapar: um autoritarismo é um autoritarismo. Ponto final.

Volto à sacrossanta república prestes a ser demoradamente vangloriada neste interminável ano de centenário da dita. Quando o bardo empastela o discurso com o valor do patriotismo, é por acção milagrosa da deificada "ética republicana" que a mutação hermenêutica ocorre sem que ninguém se possa ofender. (Ai de quem se ofender, que leva com a destilação intolerante da seita socialista). E retomo a república porque este cenário é sintomático da sua decadência: quem se perfila para suceder ao actual inquilino é, para além do próprio, outro jarreta. E dizem que a república está viva e recomenda-se, ainda tão jovem e actual? Como é possível se é uma república geriátrica? Uma sugestão, pois: os presumíveis candidatos à presidência deviam ter pelo menos cinquenta e cinco anos. Para garantir o necessário bafio à república.

Eu, que ando pelos antípodas de qualquer coisa que ressoe a esquerdas, acho muito bem que o bardo com esta semântica seja o seu candidato. Quando me falam em patriotismo ou nacionalismo não deixo de pespegar um adjectivo implacável: saloiice. Que as esquerdas (as extremas-esquerdas e alguns socialistas "modernaços") queiram engolir sapos, é lá com elas – já estão treinadas na modalidade. E como o jarreta que é de "direita" (insistem os adversários) não é de melhor têmpera, a abstenção recomenda-se, tão profiláctica.

11.1.10

Negro



Era da adolescência – acreditamos agora, imersos na bruma das memórias que adoçam o distanciamento, o discernido julgamento do que fomos. Era daquela idade onde se consomem rebeldias inconsequentes. Ou era da música que entrava pelos ouvidos, da música que compunha as paisagens negras que povoavam insistentemente os dias, a música erguida a farol por onde nos guiávamos.

Naqueles dias, o filme diante dos nossos olhos era uma sucessão de imagens negras. Ora vertiginosas. Ora uns planos inertes, demorados, com a luz baça rendida à ausência de cores que prosperam no arco-íris. Dir-se-ia não haver anti-ciclones que conseguissem vingar, tamanha a teimosia das plúmbeas nuvens que pintavam o céu todos os dias. Desafiávamos as convenções que ensinavam, do alto mirante escolar, que as cores são as que se encantam nos miríficos arco-íris. Para nós, o preto era a essência de todas as cores. Ou a única cor que contava.

A rebeldia latejava em labaredas eléctricas que amalgamavam a fantástica lente do mundo. Estávamos nas tintas para os lugares-comuns que insistiam na ausência de cor quando depreciavam o negrume. Ao contrário: nos negros tons achávamos os mistérios por decifrar, os segredos que importava esquadrinhar, outros apenas conservá-los assim, segredos. As sucessivas camadas do desconhecido iam dando lugar a mais espessos mantos onde o negror se anovelava. Era no preto que a existência avivava. O preto não era o sarcófago das cores todas. Dele irradiavam os vestígios que haveriam de consubstanciar todas as cores.

Negávamos as aspirações arrebatadoras de mesquinhos que, assertivos, apoucavam o preto. Eram tão certeiros no diagnóstico que só apetecia pegar em remos e rumar para o lado contrário. Na sua implacável erudição, éramos sorumbáticos, aprisionados pela estultícia de uma cor doentia. Alguns cortavam a eito na sentença: o preto não era cor, era a negação das cores. Quem percorresse corredores de paredes negras, onde até as lâmpadas emanassem uma luz enegrecida, carecia tratamento ao entendimento adoentado. Como podíamos descobrir encantos na luz negra, nos olhares tingidos de preto, nas palavras que ecoavam a frieza do negrume em que vinham embrulhadas?

Havia um mistério indecifrável no preto, porventura o seu maior predicado. Sim, seria metafísico – no sentido de que as divindades não se explicam, ou contêm em si a sua própria explicação através dos dedos indeléveis da fé. Foi quando descobrimos, já a caminho do desmoronamento das febris ilusões juvenis, que o altar em que havíamos endeusado a cor preta era só um estado de espírito. Tão efémero como os estados de espírito. Havia um ponto a nosso favor: os estados de espírito, na sua intensa volatilidade, dispensam explicações. Tecem-se em seus leitos, ora aveludados, ora cheios de espinhos que cravejam a carne quando o corpo nele se deita. Tecem-se em seus leitos: soam à maresia veemente que se insinua quando o nevoeiro vindo do mar cavalga todas as trincheiras.

Hoje, quando já não sobra lugar algum para as ilusões de nada (nem sequer uma remota arrecadação perdida algures), o preto tem ainda o seu enlevo. Resguarda a antítese de si mesmo. Ora santuário de uma calmaria onde as ferventes mágoas se perfumam até se esvaírem os vestígios de dor. Ora o tórrido lugar onde as chamas excessivas conferem sentido ao ininteligível. Às vezes, apetecia migrar para árcticas latitudes. Só para apreciar a invernal, demorada noite, aqueles dias em que a luz do dia se curva perante a intensidade da noite que se prolonga dias a fio.

A noite, tão negra, encerra os segredos todos. Que a luz matinal, irritantemente translúcida, trata de descerrar. O que mantém a vivacidade do lugar em que estamos é sabermos que conserva largos pedaços inexplorados, entregues ao regaço dos segredos que serão o frontispício de tonificantes revelações. O preto, esplêndido, conserva a virgindade desses segredos.

8.1.10

Mixed feelings


É curioso: um numeroso coro protesta contra a prioridade dos políticos ao casamento entre homossexuais. Muita gente, supostamente lúcida e emproada na sua auto-sensatez, reclama contra esta mania de desviar as atenções do essencial para o acessório. Todavia, o tema convoca mesmo as atenções. A avaliar pelo interesse dos meus alunos pelo assunto. Também é curioso que gente tão  nova seja tão preconceituosa em relação à possibilidade de dois homossexuais se casarem. (Descontadas algumas pontuais excepções – ou então há mais gente silenciada por vergonha de se manifestar contra a bazófia homofóbica dominante.)

A maré caudalosa de sensações contraditórias prossegue. Alguns aceitam a extensão do direito ao matrimónio aos homossexuais. Mas proclamam-no com um ar de desdém, com alguma contrariedade à mistura. Como se percebessem que está dobrada a página do conservadorismo de antanho, agora que as janelas se abriram aos novos ventos soprados de outras latitudes e que por fim chegaram à extremidade da Europa. Apenas cavalgam na maré, sem ser uma adesão espontânea. Aproveitam para fixar os limites da sua generosidade: os homossexuais podem-se casar ("é lá com eles" – o tal desdém em mal disfarçada sobranceria), mas nem pensar em adoptarem crianças. Ouvi o argumento mais improvável (e improvável por sair da boca de alguém acabado de deixar a adolescente idade): "imagino uma criança destas na escola a dizer que o pai se chama Joaquim e a mãe se chama António. Imagino a chacota dos outros meninos".

Surpresa seria se o PS – o tal partido dos compromissos, tão dividido ao centro que se atropela na sua esquizofrenia – tivesse juízo para propor uma legislação coerente. Acham que são muito vanguardistas porque, num acto generoso, estendem o matrimónio aos homossexuais. Mas impedem-nos de adoptarem crianças. De uma assentada, os socialistas conseguem dar uma no cravo e outra na ferradura. Um dos propósitos do casamento não é constituição de família? Se os homossexuais se podem casar, uma das consequências lógicas é admiti-los nas listas de espera dos candidatos à adopção. A seita socialista, na habitual covardia das meias-tintas, eliminou uma discriminação (casamento), mas manteve outra (possibilidade de adopção). É que nisto, quando damos um salto no vazio já não podemos recuar. Ninguém consegue tomar banho sem se molhar.

Já o disse antes: totalmente a favor da legalização do casamento de homossexuais. No entanto, descobri algumas contradições deliciosas. Os conservadores, que gostam de adicionar um substantivo que empresta ao casamento um lastro de respeitabilidade – "a instituição" do casamento – choram pelos cantos acusando a crise da instituição. Indignam-se contra a enxurrada de divórcios, a seu ver um espelho da leviandade com que as pessoas encaram a "instituição". Não lhes agrada que haja cada vez mais gente que junta os trapinhos sem passar pela bênção de um padre ou pelo crivo da conservatória do registo civil. Os apóstolos das vanguardas insistem que o casamento é demodé. Logo agora que outra vanguarda – os homossexuais – querem que lhes seja legalmente reconhecido o direito ao matrimónio. Será que o casamento vai voltar a estar na moda?

Outro exemplo de sensações contraditórias: é compreensível que a ideia esteja a ser mal digerida pelos sectores mais conservadores. Como já perceberam que a paisagem parlamentar é favorável à aprovação da lei que estende o matrimónio aos homossexuais, os conservadores encontraram uma tábua de salvação: um referendo. Não aprenderam nada com o passado. Não aprendem, acima de tudo, que opções individuais de vida nunca deviam ir a referendo. Deviam aprender com o insólito enamoramento da extrema-esquerda caviar pelo liberalismo (outra sensação contraditória muito deliciosa). Os conservadores mantêm uma secreta esperança que o povo – aqui, por oportunismo, sábio – tire o tapete aos partidos da esquerda e da extrema-esquerda que teimam em legalizar o que é (também o ouvi da boca de um aluno) "anormal".

A surpresa está na rapidez com que se juntaram noventa mil assinaturas que levaram o abaixo-assinado ao parlamento, obrigando à discussão do assunto pelos deputados. Há pequenos partidos que não conseguem reunir sete mil assinaturas exigidas para a sua legalização. Em poucas semanas, este movimento conseguiu juntar noventa mil assinaturas. Ontem percebi tudo. Um aluno disse que na aldeia minhota onde vive o padre sensibilizou os fiéis para tomarem atenção a umas pessoas que, à saída da missa, iam recolher assinaturas para uma "causa nobre". De uma vez por todas, a igreja devia formar um partido.

7.1.10

Nus, em nome da segurança



Sempre a empinar. Um monte inclinado que, todavia, não é obstáculo para a exibição de poder. É um paradoxo: quando mais empina a subida, mais firme é o pulso das polícias. Um atentado abortado (dirão os condescendentes: por sorte, ou por causa da inépcia do fracassado terrorista) e já somos esmagados pelo trote avassalador das medidas de segurança. Eu cá desconfio que a segurança é um pretexto. Só um pretexto para a ostentação de autoridade que já não se distingue do arbitrário autoritarismo.

A tecnologia de despistagem dos fanáticos terroristas aéreos voa mais depressa do que os aviões. Agora vão ser instalados scanners corporais em muitos aeroportos. Não há melhor convite ao voyeurismo dos funcionários. A imagem filtrada pelo scanner é um nu integral do passageiro que cometeu a ousadia de querer viajar de um lado para o outro. Aparecemos nus aos olhos dos zelosos e decerto não castrados quimicamente funcionários que controlam a entrada de passageiros na zona reservada do aeroporto. Nem que me garantissem que eles eram eunucos e elas frígidas era capaz de dar de barato o assalto à nossa intimidade quando desaguamos num aeroporto. Nisto da minha nudez, sou muito selectivo na escolha dos espectadores.

Mais um avanço da histeria securitária. Progride, atropelando direitos que se julgavam fundamentais. Direitos que – julgávamos, tão inocentes somos – seriam a marca de água da "civilização" de que nos ufanamos. Houve passageiros que, interpelados pelos jornalistas, anuíram no seu desnudamento através do scanner. Trocam intimidade por segurança aérea; pela lente utilitarista, quem os pode censurar? Todavia, estranho o conceito: da última vez que dei conta, quem mostrava o corpo desnudado a troco de uma compensação engrossava as estatísticas da "profissão mais velha do mundo".

Admito que falta um ingrediente ao conceito. Quem se desnuda em troca de segurança não recebe dinheiro em troca. Mas recebe – ou admite estar a contribuir para que lhe garantam – segurança. Pois nenhum terrorista conseguirá escapar à cirúrgica inspecção das entranhas corporais, ali todas expostas no scanner multicolorido controlado pelo zeloso funcionário. Aceitam ficar nus porque que lhes garantem que não têm a companhia de um fanático disposto a estoirar o avião. A malta do direito, com a habitual mania de se expressar através de uma língua de trapos, chama a isto um "sinalagma". A prostituição também é sinalagmática…

Quando vemos as autoridades a treparem o monte, parece que a montanha é infinita. Há sempre mais um degrau que ainda não tinha sido derrotado, mesmo quando parecia que o sopé da montanha havia sido conquistado. Qual é o passo seguinte? Qual é a próxima invenção que embeleza outro atropelamento dos direitos fundamentais? Obrigarem-nos a despir à frente dos demais passageiros se desconfiarem que transportamos qualquer substância suspeita agarrada ao corpo?

Já nem sei o mais que isto custa: se a privação de mais uma liberdade por imperativos de segurança (que começa a atingir foros de histeria); ou a capitulação diante dos fanáticos terroristas, pois de cada vez que se limitam direitos fundamentais caímos na armadilha que os fanáticos nos prepararam. Os outrora solenemente proclamados direitos fundamentais não hão-de passar de uma formalidade, fogo-fátuo para inglês ver. Nessa altura, já pouco nos distinguirá dos terroristas que trapacearam as autoridades deste lado, que caíram, ingénuas, no logro montado pelos fanáticos.

Sem espalharem muito terror (esta é a reacção a um atentado fracassado), os terroristas já ganharam esta guerra cega, surda e absurda. E nem nos apercebemos da derrota, tão entretidos a acenar com a cabeça em tom de aprovação quando as autoridades anunciam que vamos ser passados a pente fino à entrada dos aeroportos, a nossa nudez sordidamente espiolhada. Tudo com a maior das naturalidades, embrulhando a medida num pretenso estado de emergência só para calar os mais rebeldes.

Um dia destes, será tão natural como o oxigénio que respiramos ter câmaras espiãs até nas casas de banho públicas, mesmo nas zonas onde a intimidade se esconde do público. E o mais que os doentiamente criativos servos da segurança pública tirarem da cartola. Onde ficam os direitos fundamentais no meio desta trapalhada? Em vias de extinção.

6.1.10

Robert Wyatt, "Just as You Are"

Anti-aniversário

Hoje: seis anos a escrever (todos os dias da semana). Resisti à voragem de mergulhar em textos idos. Resisti até a reler o manifesto inicial que prometia um fio-de-prumo. Se o relesse, se calhar cosia-o com outras bissectrizes. Às vezes prometo-me, em intenções, que deixarei de lado o exercício diário. Retrocedo. E teimo. Este é um lugar de higiene mental. De sanidade mental. Venha de lá a implacável acusação: sim, é um lugar umbiguista.

Vertigem de um momento



Os momentos que se consomem no seu próprio precipício são gratificantes. Ou apenas uma armadilha que condensa vivências irrepetíveis. Desamparado no meio da encruzilhada – ora querendo revivescer instantes intensos, ora recusando olhar por detrás do ombro – fico preso nas malhas de um momento. É num momento que se tecem resoluções. Atados a um impulso irreprimível, desconfiamos que a opção escanhoada agiganta uma maré tempestuosa, as ondas furiosas esmagando-se contra o peito em nudez. E, ainda assim, empurrados por um fugaz instante que parece incendiar o discernimento, é por aquela vereda que metemos os pés ao caminho. Inseguros.

São vertigens, esses instantes. Sensações embriagantes que se passeiam interiormente numa ordenação caótica. Tempestuosas reacções químicas que tornam as entranhas um lugar febril. Descompensados, pensamentos contraditórios atropelam-se no pensamento exíguo diante da fervilhante dança de contraditórios que se coalham num instante. E, contudo, esse instante aterra numa aparente, ilusória impressão de eternização. Nesses instantes, a física é desmentida pelo prolongamento do momento. Quase se diria que há um toque sublime que emoldura o tempo durante algum tempo.

Quando o corpo desperta da intensa letargia consumida, os sentidos acordam para os segundos voláteis. Os segundos que continuaram a passar, sem darmos conta do rumor dos seus passos. Desmentindo a anestesia temporal insinuada pelo precipício do instante falsamente demorado. O corpo e o pensamento são apoderados por um estranho entorpecimento, como se aquele hiato imoderadamente inerte fosse apenas um buraco negro onde tudo caíra, mas onde tudo faria sentido – um diferente sentido. Tudo: o corpo e o pensamento mergulhados no seu próprio torpor, os outros em redor e as coisas todas, todas as páginas algumas vez lidas. E nesses breves e, contudo, aparentemente demorados momentos, tudo parecia estar em reeducação. Às vezes, sobrava a ideia de mundos paralelos. Os mundos escrutinados pela vagamente onírica sensação experimentada enquanto o instante, na sua intensidade refulgente, punha tudo entre parêntesis. Hipotecava-se o conhecimento.

Os braços moventes, a pele gretada, os joelhos em dor, e os olhos marejados – como se tivessem esbarrado de frente com um vento glaciar – traziam tudo ao seu lugar. Logo nos momentos após o hipnótico instante, confundiam-se as coordenadas como se a bússola interior estivesse danificada. Podia ser do denso mergulho nas águas edaces do entorpecente instante, provada então a acidez dissolvente dessas águas. Ou apenas a tragicomédia da existência, todos nós imersos em tantos mundos paralelos quantos os estados de espírito, os tão voláteis estados de espírito. Saíamos à rua; ou apenas desvendávamos o interior abrindo de par em par todas as janelas, só para deixar entrar o ar frio. Só para testar a sensação do real e tirar as teimas sobre as ilusões, ali em frente dos olhos embebidas num manto congelado.

Nas estepes acobreadas que passam num ecrã mental, havia pedras pontiagudas escondidas debaixo do mato hirsuto. Não as víamos. Só quando os pés sangravam ao serem escalavrados pelas pedras é que dávamos conta da sua existência. Dos punhais ocultos que, traiçoeiros, cortavam a carne e deixavam o abundante sangue à mostra. Era a coreografia demencial dos momentos cruciais que mais tarde aclaravam as veias excruciantes por onde navega o sangue fervente. Ou a sua coloração gratificante. E, todavia, nessa recompensa morava outra invisível armadilha: o resgate das memórias douradas. Como se fosse possível teletransportar esses instantes desde o tempo remoto, lá onde os instantes se consumaram na sua definitividade. Ao contrário: um momento desmaia na sua finitude.

Às voltas com os habituais dilemas, constantemente dilacerado pelos dois hemisférios que dividem o pensamento quando o corpo estaca a meio da categórica ponte. Sem saber se é profícuo retroceder ou avançar. Lá atrás, o lugar cansativo do conhecimento, onde já tudo foi sentido. Mas não sabemos se adiante mora um precipício medonho, ou apenas um aluvião onde se demoram as gratificantes lembranças. Onde, por fim, os instantes de outrora serão uma aterradora eternidade.

5.1.10

Por isso é que gosto dos gatos




"O sonho da maioria dos portugueses é, há décadas, há séculos, acolher-se no regaço protector do Estado. De preferência como seu servidor, se necessário como seu subsidiado." José Manuel Fernandes, Público de 03.01.10.

Não sei como é noutros países com os quais nos possamos comparar. Serão tão dependentes das alcavalas do Estado, tão servis perante ele? Será que também quase endeusam o Estado, pouco faltando para que as alusões que a ele se façam exijam a substituição da letra inicial da palavra "ele" por maiúscula? Por cá, é um cortejo infindável de sinecuras, tachos, prebendas avulsas, avenças para amigos e familiares (mais os familiares dos amigos e os amigos dos familiares). Negócios em que é preciso prestar vassalagem a quem tem o poder público nas mãos, não vá o negócio ficar-se pelas águas de bacalhau. Uma imensa roda dentada tentacular. Um bicho tremendo que se alimenta de si mesmo e dos que lhe dão alimento – quando estes mal reparam que não se alimentam do bicho; ao invés, são seu alimento. Uma bola de neve que cresce à medida que desce a ladeira.

Não tenho ilusões: este padecimento vem de trás, de muito longe. Está tão enraizado que estas palavras insubmissas não fazem sentido para muita gente. Haverá estado mais natural do que a generosa protecção do Estado em que carradas de gente se encavalita? Não foi esse o préstimo do Estado, deste moderno (e, porém, vetusto) Estado do bem-estar social que levas de gente garantem ser um traço irrecusável da civilização? É como se todos (ou quase) fôssemos trapezistas embalsamados, a inércia motivada pela tranquila rede de protecção assegurada pelo omnipresente Estado. Com encordoamento tão fino que ninguém a perfura caso caia das alturas. Se, como dizem os manuais, o Estado somos todos nós (uma falácia pegada), todos nos protegemos a todos. Encantadora solidariedade! Não tenho ilusões: padecimento incurável.

Há um porém semeado no caminho, uma pedra no sapato que só a cegueira dos apóstolos do Estado impede de notar: o endeusamento é um ardil. Comprometido, esse endeusamento, pelo utilitarismo de quem se refugia na aba do Estado. Uma terrível lógica cumulativa: muitos a servirem-se das suas alcavalas ou da sua protecção atraem outros mais à candidatura a semelhante estatuto. Numa lógica imparável que faz medrar um monstro. O pior é quando os que arremetem corajosamente sem o colo protector do Estado, os dinamizadores que consumam a iniciativa privada, resvalam para a bebedeira colectiva em que muitos se enfrascam. Já quase ninguém sobra fora desta tutela asfixiante.

Até admito que a estabilidade é um bem que poucos enjeitam. E que nos ensinam, sem direito a contraditório, que não há quem a assegure tanto e tão bem como o salvífico Estado. Pode ser que sejamos congenitamente alérgicos ao risco. Ou pode ser que, ao contrário do que recolhemos dos manuais encomiásticos da história, esta gesta de portugalidade seja covarde. Ao ponto de se acobertar nos lençóis lânguidos do Estado, onde as águas são sempre remansosas e a responsabilidade nunca é individual. A factura deste gigantismo imparável? Irrelevante. Alguém, muito mais tarde, há-de pagar a conta. Porventura quando os que hoje estamos acordados já tivermos fenecido.

Esta dependência intrínseca, que cava uma cova funda onde estão os nutrientes da subserviência, faz-me às vezes quase sucumbir na resignação. É quando recolho a lição de vida dos gatos. A sua poderosa independência: só fazem o que querem, declinando o amestramento humano. São oportunistas, como todos somos. Procuram-nos para o alimento. Procuram-nos para os afagos. Mas são eles que comandam, eles que tomam a iniciativa e recusam a nossa vontade quando a deles não coincide.

Os gatos são diferentes dos cães, mais obedientes, serviçais quando estupidamente criados como criaturas circenses em vez de serem animais de companhia. Os cães são campeões pavlovianos. Que é o que somos – pavlovianos – quando interessadamente nos entregamos no colo tentador do Estado.