26.3.10

Plebeus e elites


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Ah, a adorável superioridade de casta, dos que lambem o caixão da razão perfumado pela sua incontestável sapiência! Não se juntam à ralé. Por temerem o contágio das incautas almas que povoam a ralé?
Oh, incoerência fatal, dissertam sobre a democracia. Deificam-na. Peroram sobre igualdade – a alma mater da democracia. Inadmissíveis, as diferenças de estatuto. Cabemos todos no mesmo caldeirão. O filho do senhor doutor e o bisneto do operário metalúrgico. O senhor engenheiro e a mulher-a-dias. A teoria manda ensinar assim. E ai de quem apostrofar a igualdade, acusando-a de ser uma louca encenação de gente que faz de conta que o mundo é diferente. Levam logo com rótulos desagradáveis, esses desmancha-prazeres que profanarem o lugar sagrado da igualdade.
O mal está quando tropeçamos na incoerência que aparece pela frente, essa enorme estátua imóvel que, por imóvel ser, teimosamente não sai da frente. Os patuscos que tudo isto ensinam esquecem a aplicação da teoria. A teoria fica-se pelas almofadas do discurso, não se liberta das suas fronhas. E não é que às vezes o povo ignaro tem razão nos adágios que constrói? Lá vai um, a esbarrar de frente contra a sobranceira dos vaidosos da erudição: olhemos para o que eles dizem, mas esqueçamos o que fazem. Branqueemos o divórcio entre palavras e gestos. Senão, a sua tremenda aura intelectual, o manto de erudição que adoram esbofetear nos rostos uns dos outros (como se andassem entretidos num torneio particular para ver quem exibe mais cultura, ou para ver quem chega mais alto num espúrio campeonato de Q.I.), o manto de erudição dissolve-se na onanista inanidade de tanta erudição.
Caem os parentes à lama se alguém sussurra a possibilidade de se juntarem à ralé. Mas que ninguém faça notar que se untam na incoerência das suas próprias teorias por se recusarem habitar debaixo do mesmo tecto, por temporário que seja, com os plebeus. A igualdade é para os outros. Eles assim o determinam, os gurus da grotesca (auto) iluminação do intelecto. Devem ter um espelho muito grande lá em casa. Um espelho mágico que faz a densitometria do intelecto. Mas, afinal, quem os condena na sublimação das tão elevadas capacidades intelectuais, nas carradas de cultura que absorveram à medida que cresceram (para cima e para os lados)? Existe força mais impenetrável do que a força da razão?
Até se pode dar o caso de terem de si mesmos uma imagem que ultrapassa a sua dimensão. O que interessa não é o pulsar dos outros; é o juízo do mirífico espelho de onde se fitam sem cansar. Quem lhes atribui o estatuto de sumidade? Ajuízam em causa própria. Desse modo, somos todos luminárias. Mas então que saibam: já não há fronteiras entre os plebeus e as elites do intelecto. Sem darem conta, caem na trapaça da democracia. Da democratização dos saberes que permitiu cavalgarem ao púlpito a que jamais chegariam se fosse como dantes, quando só as oligarquias ditavam lei e fixavam conhecimento.
Mas se tudo é assim, como se ensaboam na arrogante elevação ao palco nunca pisado pelos (por eles catalogados) plebeus? Ah, como são obscenas as armadilhas da soberba. É tanta a gula da erudição, tamanha a sede de se fazerem notar como protagonistas dos saberes, eminentes e respeitadas personalidades das ciências, que estão à espera de ver estendida diante dos seus pés uma aveludada passadeira vermelha que massaja os pés à medida que por ela avançam. Os pés e, acima de tudo, o ego dez mil vezes maior que toda aquela erudição que carregam, ostensivamente, às costas.
E eu, em permanente contramão com o povaréu, vejo estes eremitas do conhecimento a destilar a sua fanfarrona erudição, e só me apetece ser, e sempre, plebeu.

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