13.5.10

Pai natal coxo


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Não que a personagem ande manca ou com artroses que tolham o andar. É a crise que deixa o seu restolho nos vestígios que não cessam. Atrás da crise vem a austeridade. É quando a ferida dói, como se, ainda aberta e purulenta, lhe atirássemos sal para cima. Por todo o lado sopram os ventos catastróficos dos cortes nisto e naquilo e noutras coisas que se possam imaginar. O enxoval das medidas que, por ora, ainda se especulam é abundante. Entre elas, um subsídio de natal emagrecido.
De repente, temos que refazer os planos para o natal que ainda demora. Um pai natal menos generoso, por imperativos de solidariedade. As prendas e prendinhas podem esperar. Ou podem ser mais frugais. A santa igreja católica e o seus aliados que não se cansam de atribuir todos os males do mundo ao mal-afortunado capitalismo bendizem a crise e a austeridade que se segue. Ao menos, vamos ser obrigados a pôr um ferrolho no alucinante consumismo. Os comerciantes, esses, com um apertado nó na garganta só de pensarem que as bolsas vão perder “liquidez” (para falar em economês).
Não há grande mal que não tenha remédio – rezam os optimistas encartados. Temos que dar uma volta de cento e oitenta graus aos padecimentos que são consumição. Entremos, pois, na pedagogia da austeridade que é imposta pelos outros (os da União Europeia), pois os de cá, relapsos e medrosos, eram disso incapazes. A sangria de proventos que há-de cá chegar não será catastrófica. Ontem, o governo do lado de lá da fronteira decidiu cortar 5% nos salários dos funcionários públicos. Preparemo-nos. Temos que reaprender a viver. Com menos. É nos desafios que se salienta a têmpera dos venturosos.
Já nos podemos ir preparando para um natal modesto. Prevejo (mas sem oráculo) que o pai natal vá de férias mais cedo. O barbudo Nicolau não vai chegar extenuado ao cabo das festividades natalícias. Menos arqueado sobre as cansadas costas, já que os embrulhos mais leves são fardo menos pesado de suportar, não resistirá a um suspiro de nostalgia.
Se eu fosse uma daquelas personagens muito folclóricas que descobrem elos de ligação entre as coisas mais improváveis, apetecia-me outro presságio: a crer nos geólogos islandeses, o vulcão de nome impronunciável vai continuar a vomitar lava e cinzas por tempo indeterminado. Por alturas do natal, quando os ventos sopram do Árctico e vêm por aí a baixo, abraçando todo o continente europeu ao frio glaciar, o espaço aéreo há-de estar intransitável. Se calhar, nem vamos precisar de subsídio de natal. À míngua de pai natal, retido na base operacional da Lapónia de onde não avistará os céus claros, então obscurecidos pela densa nuvem de cinzas vulcânicas, o melhor é nem recebermos o décimo terceiro mês. Os gurus que se atiram que nem mastins à doença do consumismo louvam aos céus que estes permaneçam empestados pela nuvem vulcânica.
Íamos pela mais fantasiosa das conspirações. Deus (existisse ele) tinha um pacto com a ganga que se atira furiosamente ao capitalismo e às empresas e aos enfeitiçados pela excrescência do consumismo. Moço de recados dos mastins do costume, deus encomendara demorada expelição de lava e cinzas do vulcão de nome que não se consegue dizer. Só para termos um natal recatado, dir-se-ia, um natal monástico. O pai natal, afinal, metera sabática forçada.
Pelo caminho, os governos, açoitados pela crise e pela austeridade que se segue, viam-se livres dos trabalhos desagradáveis. Até nos podiam convencer que o natal tinha sido desconvocado. Sem natal, não precisaríamos do subsídio respectivo. E depressa a bonança estaria de regresso às economias deprimidas. Às escondidas, governos, santa igreja e ganga anticapitalista reunidos em conciliábulo onde entoam preces ao vulcão islandês. O coxo pai natal pode-se curar da perna gangrenada.