23.7.10

Descobrir a pólvora


In http://www.saberweb.com.br/wp-content/uploads/2008/02/polvora.jpg
Devemos tudo aos iluminados que vêm a público dar conta que descobriram a pólvora. Contribuem para o avanço da civilização. Estão três passos à frente de toda a gente. São líderes naturais, gurus de todos nós. Merecem genuflexão demorada e respeito inquestionável. Não se pode questionar tamanhas autoridades intelectuais quando a sua brilhante aura nos revela o segredo da pólvora.
Dois exemplos do fradesco Louçã que se encaixam na magnífica descoberta da pólvora. Ambos vêm no restolho da historieta entre a PT e a Telefónica, metendo de permeio uma apetitosa operadora de telemóveis no Brasil que os espanhóis queriam só para si. Primeiro, Louçã insurgiu-se, naquele seu jeito tão circense, contra os accionistas da PT que se deixaram seduzir pela proposta de compra dos espanhóis. Ele atirou-se com ferocidade contra o banqueiro do regime, o Salgado do BES, porque ele seria um vendilhão a soldo do sacrílego capital. Ele há ironias do destino – explicava o frade da extrema-esquerda burguesa – o Salgado que andara de braço dado com o Estado, em ricas negociatas por este proporcionadas, e agora o vendilhão, embeiçado por um maço de notas, queria tirar o tapete ao que fora o seu tão generoso pretérito aliado. A aliança de conveniência, como notara. Só faltou chamar traidor ao Salgado do BES e limpar a lágrima ao traído, o timoneiro da nação.
A rematar o episódio, o fradesco explicou aos apaniguados: vejam lá que descaramento, “esta gente” só pensa em ganhar dinheiro. O infame lucro, outra e outra vez mais. E ninguém disse ao líder da extrema-esquerda caviar que tinha descoberto a pólvora – mas uma pólvora seca. Admita-se que no mundo idealizado pela sua cabeça, os mesquinhos capitalistas já tinham sido banidos do planeta e a sua abastança distribuída pelo povo (depois de nacionalizada). Mas enquanto o mundo andar em descompasso com as concepções do Louçã, as sórdidas maquinações dos capitalistas que ambicionam o lucro são próprias de um menino que acabou de tirar as fraldas.
A segunda descoberta da pólvora do afamado cientista vem nas sobras do caso PT-Telefónica. Como o governo tomou a fantástica decisão de bloquear o negócio, usando o travão da golden share (uma implausível regra num Estado de direito, porque distorce o que se ensina nas escolas sobre democracia), pôs-se a jeito do julgamento do Tribunal de Justiça da União Europeia. Porque a dita golden share arruína um dos alicerces da União Europeia – a possibilidade de os capitais andarem livremente entre os países da União. O Tribunal condenou a utilização da golden share, declarando-a ilegal.
Logo saltou a tampa ao guru da extrema-esquerda chique que, no tal jeito muito peculiar, sentenciou em cima da sentença do Tribunal: era o que mais faltava, esta ingerência de um “tribunal estrangeiro” nos nossos assuntos. Enquanto dava, mais uma vez, a mão ao timoneiro da pátria (que parece ser seu amor platónico), alguém devia chamar a atenção do Louçã para não fazer figuras tristes em cima do palco de onde costuma decretar as suas prédicas. Talvez ainda não tenha dado conta que estamos na União Europeia desde 1986. E que na União Europeia há uma regra (que está acima das regras nacionais) que determina a liberdade de circulação dos capitais entre os países da União.
O Louçã descobriu pólvora seca outra vez. Estas atitudes mostram uma personalidade desviante. Como convive mal com as regras fixadas. Como ele, também me incomodam muitas regras. Discordo delas. Mas não ando a fazer tristes figuras em público, a fazer de conta que as regras que não me comprazem não existem. O Louçã catedrático, também faz estas tristes figuras quando ensina?
(Em Aveiro)

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