29.7.10

Maledicência?


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Dizem-me: “fartas-te de dizer mal nos teus textos”. Ao dizerem-me isto não o dizem mas pressinto-o no tom: “e torna-se cansativo”. Admito que haja razão no diagnóstico. Quem não tem capacidade de se fitar no espelho e admitir as pessoais incapacidades (a não ser os patologicamente narcísicos, os que têm de si mesmos uma imagem maior que o espelho)? Admito. Talvez custe admiti-lo um dia depois de ter rompido a regra e escrito um texto laudatório de algo.
Dizem-me, sem o dizerem por palavras, que tenho uma língua viperina. Só se a língua falar através das palavras que se compõem à saída do teclado martelado com o vigor que a fúria intelectual por vezes empresta aos textos. As palavras é que são viperinas. Por elas transpira uma capacidade desconstrutiva que roça a devastação. Faz lembrar aqueles cenários fantasmagóricos retratados em filmes sombrios, a película a preto e branco passando planícies a perder de fim onde apenas a poeira que se levanta no ar dá algum sinal de vida, tudo o resto mergulhado num plangente silêncio. O deserto enlaçado com a ausência de vida, ou o cenário sobrante das ruínas da espécie causadas por um qualquer autofágico cataclismo.
Os textos são como caterpillars monstruosos que arrasam tudo por onde passam. Não deixam uma pedra em pé. Apenas a poeira tóxica, como se as palavras críticas contivessem em si a cicuta que tudo ceifa. Dir-me-iam – se traduzissem por palavras o que os silêncios deixam nas entrelinhas – que essas palavras decantam o veneno sibilino de uma serpente. Neste jogo teatral de supostos diálogos, imagino-me a perguntar: “mas, ao menos, não são palavras meias-tintas, nem palavras que escondem intenções?” E desejo que a resposta seja “sim, são palavras francas”.
Digo que são as coisas dilacerantes em redor que arquitectam as palavras rudes. Que me não consigo libertar de uma metódica exigência interior que filtra o que rodeia com a malha fina da exigência que é a minha métrica de acção. Contraponho, como se houvesse necessidade de defender o que não tem defesa, que o mundo é uma enorme campânula de coisas grotescas. Para logo a seguir dar conta da traição das palavras que assim se ensaiam. A pose sobranceira que reivindica um estatuto de superioridade em relação ao resto. Talvez o cepticismo irreprimível não seja o pior dos pecadilhos que me atraiçoam. Talvez um inesperado, indesejado narcisismo que irrompe da epiderme no estertor da sobranceria em relação ao resto das coisas.
O pior de tudo é que são mais escorreitas as palavras instrumentais da crítica enfurecida. Das poucas vezes que as palavras transitam pela veia construtiva elas saem a custo, como se fosse um parto tirado a ferros. Digo, porventura a carecer de defesa própria, que há algum espaço para as palavras lisonjeiras. Só que o exterior em afocinhante mediocridade não logra que a lisonja enfeite as palavras. Dizem-me, outra vez: “e não será isso outro sinal de um narcisismo que o é sem dares conta?” Prefiro arrostar com a língua viperina decantada nas palavras carregadas de cicuta. E perguntam-me, como se me quisessem encostar à parede: “e não te molesta que alguém ensaie as mesmas palavras de desdém, as palavras implacáveis que destilas com tanta frequência?”. A resposta vem sem hesitações, no acto: “não”.
Foi aí que me convenci (ou quis convencer) que transito pelos antípodas do narcisismo. De outro modo, seria perturbante o incómodo de cada vez que houvesse as tais palavras implacáveis, fervilhando um desdém que apouca. É que se houvesse esse temor, um freio inconsciente seria mais poderoso do que as espontâneas deambulações mordazes que, dizem-me, por aqui abundam.

1 comentário:

Anónimo disse...

Por que nao:)