9.7.10

O mexilhão é que tem sempre as costas largas


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Há uns meses, o automóvel oficial que transportava a eminência parda dos serviços secretos (ou lá o que aquilo é) causou um estrepitoso acidente no centro de Lisboa, em plena luz diurna. Passaram-se estes meses todos, o Dr. Mendes curou-se do maxilar partido, e a sindicância concluiu que o motorista é que teve culpa. O inquérito faz saber que o doidivanas do motorista seguia “em marcha de urgência, violou grosseiramente regras de circulação estradal, ignorando designadamente a obrigação de parar no sinal vermelho, pondo assim em perigo terceiros”. Aquele automóvel descia a Avenida da Liberdade a cento e trinta quilómetros por hora. Um detalhe...
Que levante o dedo o primeiro cidadão que nunca se assustou com a velocidade vertiginosa e o aparato circundante de veículos oficiais transportando alguma excelência muito importante. Entre os múltiplos afazeres e responsabilidades solenes, suas excelências andam numa azáfama que obriga os motoristas a fazerem de conta que são pilotos de ralis nas ruas e avenidas da cidade. As agendas de suas excelências têm horas pequenas para as inúmeras solicitações. Não, não nos podemos indignar pela não aplicação do código da estrada às viaturas oficiais que seguem muito apressadas por irem – e a expressão merece a caução da lei, da própria lei feita por quem dela se aproveita – em “marcha de urgência”.
Então parem de nos contar as balelas do Estado de direito, da igualdade de todos perante a lei e dos inerentes valores que uns certos cultores da bafienta república querem fazer crer serem seu (da república) exclusivo. É que a bota não bate com a perdigota. O banzé dos batedores que abrem caminho nos seus potentes motociclos, para depois aparecer o cortejo de “viaturas oficiais” a relinchar os pneus a meio de uma curva arriscada, é privilégio vedado ao cidadão comum. Quero lá saber que a comitiva vá em “marcha de urgência”; não põe em risco a segurança dos outros?
O mais repelente é a notável sindicância ter demorado oito meses para apurar as responsabilidades da brincadeira. Que, como é conveniente, caíram em cima dos ombros do motorista. Dir-se-ia, portanto, que o Dr. Mendes foi raptado pelo motorista e viajava vertiginosamente contra a sua vontade. Estamos a ver como se passou o episódio: o Dr. Mendes em gritinhos histéricos, a exigir que o motorista não carregasse tanto no acelerador, e este surdo aos apelos, tomado por um instinto kamikaze a sulcar em velocidade voraz ruas e avenidas que aparecessem pela frente. Até podemos imaginar outro cenário: o Dr. Mendes terá desfalecido, o seu coração fraco para aguentar tanta adrenalina no banco de trás do negro, blindado BMW. Desmaiado, ficou nas mãos do ensandecido motorista. Ninguém, no seu bom juízo, acredita que ao saltar para o banco traseiro do BMW o Dr. Mendes ordenou ao motorista para ir de pé na tábua.
No fim, quem fica escaldado? A parte fraca, o mexilhão que terá obedecido às ordens do mandante. O mandante, coitado, já teve estadia hospitalar por ter partido os queixos. Era o que mais faltava se ainda se apurasse a sua responsabilidade. Não sei se estou a pôr os óculos errados, mas isto soa-me à mais lamentável das covardias. Um manda fazer, o outro segue as ordens e, depois da coisa ter corrido mal, o mandante passa entre as gotas da chuva sem se molhar. Isto é o fato à medida do socialismo caseiro.
Eis o cúmulo das ironias: o Dr. Mendes ia atrasado para a tomada de posse dos governadores civis – essas vetustas inutilidades da arcaica república. Se alguém já tivesse tido o bom senso de liquidar estes abencerragens, o Dr. Mendes não tinha apanhado um susto de morte. E o motorista não era acusado de algo que não foi da sua lavra.
(Em Lisboa)

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