22.7.10

Os trabalhadores vão para o céu e os patrões para o inferno


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Uma bombástica declaração na imprensa, que apenas fitei de relance. No restolho de uma proposta de revisão constitucional do PSD que, consta, pretende eliminar a justa causa como razão de despedimento, uma luminária das esquerdas pressagiou: “agora é que os patrões vão desatar a despedir como querem”. Sempre me meteu confusão este mundo dicotómico, em que de um lado estão os bons e do outro os maus da fita. Devíamos aprender que o romance pertence aos filmes, e a realidade – mais complicada, mais crua, menos romanceada – à vida que vivemos.
Estou pouco interessado na revisão constitucional do PSD. E, menos ainda, interessado nas guerrilhas de poder perfumadas pelos “estrategas da táctica” entre os partidos Dupont & Dupont. Se estou de pé atrás em relação à proposta do PSD? Pois estou. Conhecendo o património genético deste partido, não acredito que dali saia uma revisão constitucional que desfaça os profundos anacronismos da vetusta, arqueológica Constituição. Já para não contar com o tacticismo da proposta: o PSD sabe que vai ser obrigado a negociar com o partido gémeo, o PS – logo, a convencer e a fazer cedências. Nas cedências, todas as dores de parto. As intenções podem ser louváveis. Mas esbarram na dura realidade e nos fátuos oportunismos de circunstância.
Retomo o despedimento com justa causa que o PSD quer banir da Constituição. Não vou discutir o mérito da proposta. Só quero reflectir nas indignadas reacções de gente variada das esquerdas e, acima de tudo, naquela frase sintomática – “agora é que os patrões vão desatar a despedir como querem”. Vamos admitir que a ideia vingava e os “patrões” (que, não por acaso, rimam com papões) pudessem despedir sem justa causa. Podemos concluir que os “patrões” estavam no seu sétimo céu, acetinando as relações laborais com o cutelo da pressão psicológica? Podemos adivinhar que os “patrões” – sublinho, todos – passavam a despedir quem quisessem, quando quisessem, como quisessem, com a leviandade de quem toma um café?
O que me perturba é a desonestidade intelectual das esquerdas que embarcam neste estereótipo. Os trabalhadores são os bons da fita. Os patrões, sem excepção, os terríveis vilões que oprimem e oprimem e têm, geneticamente, um fundo mau. Sinal dos tempos, esta impressão digital de desonestidade intelectual faz parte de um discurso politicamente correcto. É o direito que considera os trabalhadores a parte fraca e os “patrões” a parte forte, favorecendo os primeiros na dúvida. É a comunicação social que dramatiza a “luta dos trabalhadores”, amplificando greves e contestação social, dando palco aos sindicatos e omitindo o contraditório aos “patrões”. São os partidos que, se não incluírem a sensibilidade social na sua retórica, são logo crucificados.
Tenho uma desconfiança metódica quando me tentam impingir generalizações. Esta que faz parte da semântica das esquerdas (os trabalhadores são bonzinhos; os “patrões”, a personificação de Satanás) é o exemplo de um discurso sedutor que é, todavia, um logro. Na dicotomia, faço parte dos primeiros. Não sou empresário, nem titular de uma única acção do capital social de empresas, credenciais suficientes para não fazer parte da detestável classe dos capitalistas. E, todavia, ao longo destes anos de trabalho tenho esbarrado mais vezes em maus trabalhadores do que em maus “patrões”. Onde fica a generalização, o estereótipo do bom trabalhador e do terrível “patrão”?
Não sei se faria sentido banir os “patrões” todos, aqueles que fazem parte da odiosa “iniciativa privada”. Era garantido que o bem-estar subia a rodos. Só não percebo como a maioria do eleitorado não subscreve o oráculo muito vanguardista das extremas-esquerdas arqueológicas. Daquelas que falam em “golpe de Estado” de cada vez que alguém tenta colar a Constituição aos tempos que vivemos. 

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