23.12.10

Intelectualizar a bola


In http://veracidade.net.br/images/stories/arquivos_site/bola3dsk8.png
Está certo que hoje tudo é alvo de tratamento científico. Por que haveria o futebol de escapar à tendência? Há teses de mestrado e de doutoramento que atiram a sociologia ou a psicologia do futebol para os braços dos júris académicos. E há analistas que intelectualizam o futebol na imprensa, como se o desporto fosse um exercício esotérico. Eles decifram-no, pois conseguem ver num jogo de futebol coisas que só aos seus olhos são dadas a observar.
Leio com prazer estes intelectuais da bola. Estou sempre à espera da citação de um escritor que tenha discorrido sobre futebol para me alambazar com a erudição destes intelectuais. No fundo, eles educam as massas, mostram-lhes que devem possuir alguma cultura geral. Gostar do futebol por gostar do futebol não enche as medidas de uma criatura que preze o seu intelecto. São educadores das massas, os intelectuais da bola.
Eles querem mudar as lentes usadas pelo povo comezinho quando vai a um estádio em exaltação clubista. Não interessa apenas ver a bola atamancada nos pés de vinte e dois jogadores, ou depurar os erros grotescos da equipa de arbitragem, irrelevante a cegueira clubista. Para estes intelectuais, um jogo de futebol é uma paleta multidimensional. Tem um pano de fundo – as estratégias de gestão dos dirigentes; um general que comanda as tropas, alinhavando a táctica que, para estes intelectuais, ganha aos pontos a um jogo de xadrez em complexidade; e os intérpretes atirados para o relvado, que, ao contrário do que se faz constar, não são gente com reduzido quociente intelectual.
Volta e meia, lá aterram nos jornais prosas exaltadas que descobrem o lado oculto de um jogo de futebol. É o treinador visionário, sempre três passos à frente da concorrência, que comanda as tropas quando elas cercam o adversário, deixando-o rendido à superioridade táctica. Ai, a táctica, como ela é enaltecida, quem sabe merecedora de nova modalidade de prémio Nobel. E por que não? É um desporto que move as massas. Diriam, em abono da sua dama, que falta reconhecer o papel nobre da bola para a sociedade atingir os píncaros da democratização. Não lhes chega o tempo de antena, absurdamente desajustado (digo eu), ocupado na comunicação social e entre os políticos que mandam.
Fico embevecido com a lírica narrativa emprestada a um jogo de futebol que ficou na retina de um intelectual do género. Enganados os que dissessem que naquelas narrativas pouco falta para o jogo de futebol ser sublimado ao estatuto de obra de arte; são mesmo obras de arte, a quintessência das maravilhas fora do alcance do comum dos mortais. A plasticidade dos movimentos de um jogador é descrita com exaltação poética. O arrebatamento com que a táctica é anatomizada causa inveja nos gurus da gestão. Quando um dirigente é louvado, o intelectual da bola ensaiando a sua hagiografia, é-nos dito que os políticos da nação deviam aprender com as aptidões estratégicas daquele visionário.
Advertia no início: hoje tudo e mais alguma coisa é matéria da ciência. Qual o mal de meter o futebol no bornal da intelectualização? Pode acontecer que mais de noventa por cento do público do futebol não perceba patavina das mui intelectuais análises dos catedráticos que discorrem mui intelectualmente sobre futebol nas páginas dos jornais. E o que é que isso interessa, se tantas vezes acontece que os intelectuais falam para o seu umbigo? Deixemo-los com o seu particular onanismo.

1 comentário:

Spinova disse...

Por vezes pergunto-me como conseguiram chegar a este ponto de erudição e endeusamento dos intervenientes do jogo (ao ponto de noticiarem com vídeos a jubilação do roupeiro da selecção nacional, não querendo eu aqui menosprezá-lo, firme-se).
Quando todos os dias se acrescentam engrenagens à máquina do futebol, é natural que o jogo acabe desvirtuado, mesmo alegando-se as melhores intenções.