7.1.11

As rugas que se ganham


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O espelho, matreiro, descobre as rugas que ontem ainda não eram. Apostarias que é o espelho em ilusão de óptica. Ou os olhos estremunhados por um sono mal dormido que ainda vêem desfocados. Debaixo dos olhos, nas partes laterais do rosto, na testa quando franze o sobrolho: rugas, uma impressão digital da idade na sua caminhada sem retrocesso.
Como se quisesse mentir à idade que tem, tornou-se especialista em cremes e loções. Apenas mascaram as irregularidades na pele que denunciam a idade, ou ganham espessura de eufemismo sob a fórmula “retardar o envelhecimento”. Não há manhã que não passe por um demorado ritual onde desfilam os cosméticos todos alinhados numa ordeira sucessão. Talvez acredite que no dia que se segue, e nos meses vindouros, os cremes e loções desfaçam rugas que avivam os sobressaltos recolhidos nos despojos do tempo.
As rugas que se ganham são o enternecedor relógio pessoal, uma caução de amadurecimento. Serventuários da respeitabilidade que não havia quando a juventude mordia com os dentes da sofreguidão. “Éramos jovens”, dizes, com uma mão pousada na nostalgia enquanto a outra acaricia, com resignação, a carestia da idade madura sem retrocesso. “Éramos jovens e não éramos respeitados”, prossegues o raciocínio, como se fosse necessário justificar as rugas que adulteraram os nossos outrora jovens rostos. “Ah, mas agora, agora, já nos tratam por senhor. E somos ouvidos”, concluíste enquanto reforçavas o afago nas rugas que eram um mapa diferente do rosto que se mostrava ao espelho.
Discutimos: se há dignidade na ocultação das marcas que a idade deposita no rosto. Discutimos sobre a torpe reparação facial à mercê de cremes e loções que se anunciam tão milagrosos. Nem interessa sabê-lo, não interessa encontrar uma bitola que meça a perícia desses cremes e loções que, qual Aladino, ora disfarçam rugas ora retardam o seu viço. Focámo-nos num detalhe que ganhou a importância das coisas que o são por serem discutidas: se cremes e loções apenas disfarçam as rugas, é porque elas continuam lá. Faz lembrar aquelas meninas e senhoras que são receituários ambulantes de mil e um cosméticos, ou as famosas actrizes de cinema que, na nudez da maquilhagem, deixam a feiura toda à mostra. Esses cremes e loções são um embuste. Escondem a fealdade. Como os cremes e loções que se gabam de retardar o envelhecimento ofendem a idade que já foi conquistada. “Pois. É como se afinal já não tivesse importância a respeitabilidade, como se afinal nos doesse ouvir “senhor” antes do nome próprio”, atiras, seguro do que dizes.
Concordámos nesta interrogação: por que nos envergonhamos com o envelhecimento que se aviva nas rugas que ganhamos? Foi quando te lembraste disto: “ainda ontem, na mesa do lado estava um quase ancião com um tão ridículo capachinho que toda a gente reparava nele”. E fomos desfiando o rosário de indignidades (porque aviltam a inevitável cura da idade): há os que pintam o cabelo, assoberbados com os grisalhos cabelos que se destapam; há os que mentem ao corpo com mil e uma drogas que apenas disfarçam a idade que têm; há as terríveis operações plásticas, a maior das aleivosias por fingirem a recomposição da idade. O pior é o bilhete de identidade. Não mente. Por que haveremos de mentir através destas artimanhas se elas revelam a negação em que caímos?
As rugas que ganhamos são o melhor troféu que nos pode ser dado. São a caução da vida que chegou até onde chegou.

5 comentários:

Spinova disse...

Eu penso que a exibição desse troféu depende da postura que se tem perante a vida.
Certas pessoas vivem tão intensamente e de forma tão plena, assumida, que acabam por se converter em relicários de experiência. São os anciãos que todos procuram consultar e a quem lhes agrada aconselhar novas gerações. Madurez magnética, atraente.
Do outro lado, vêem-se os que não querem sequer viver a experiência que lhes permita aconselhar a juventude. Preferem conservar-se numa redoma gélida. Amadurecem sozinhos, ridicularizados pela bizarrice da incongruência.

PVM disse...

Confesso-lhe o seguinte, Spinova: li as duas últimas frases (do se comentário), olhei por mim a baixo e perguntei se não devia enfiar a carapuça...

Spinova disse...

Senti o mesmo em relação a mim, enquanto escrevia o comentário.
Entretanto concluí que se pode incluir a zona cinzenta no esquema: a dos observadores, atentos agentes absorventes do mundo que os rodeia. Resistem medianamente ao tempo que por eles passa e colmatam eventuais espaços vazios pelo viver dos outros. Que lhe parece?

PVM disse...

Os espaços vazios são colmatados só pelo viver dos outros, ou também com o viver dos outros?

Spinova disse...

Refiro-me do acrescento à vivência própria com o viver dos outros, claro, caso contrário seriam estátuas inertes.