31.3.11

Garraiada


In http://farm3.static.flickr.com/2006/2494635804_5d8ebc0ace.jpg?v=0
O adro está pejado de gente. Garotos, na maioria. Também alguns mais velhos, com saudades do vigor que já teve uma era. Envergam fatiota a preceito. Cores garridas, encarnado de preferência, em cima de calças e camisas brancas. Os mais bravos vão para o terreiro. E os mais bêbados também se juntam. Os primeiros ostentam a galhardia marialva, nariz apontado ao alto enquanto sobrevoam o olhar pela raiz das pálpebras inferiores. Em jeito de desafio: ai de quem desconfie da bravura. Os segundos atrapalham a função. Descompõem-se em passos cambaleantes, jogando o desequilíbrio contra o donaire dos valentões que aguardam que a fera tenha alforria e dispare em louca correria pelo adro fora.
Distingue-se a pose majestática dos que arrebanham a valentia para a anual garraiada. Ao início, falsamente focados no que os espera. Só fazem de conta que os olhos estão compenetrados aguardando a besta negra que há-de aparecer de rompante. Não percebem que os percebem, o olhar discretamente desviado à cata de donzelas que se possam excitar com as façanhas prometidas. Não sabem que as donzelas gostam de circo.
Os brigões de bichos indefesos continuam a pose de bandarilha. São forcados frustrados. Alinham-se numa roda à socapa do touro que está para chegar. Congeminam estratégias para domar o bicho em três tempos. Segredam as estratégias com a pose grave de quem se prepara para tarefa nobilitante. Alguns cultivam a tradição a preceito: uns barretes ribatejanos, as botas de camurça castanha, as patilhas que crescem como a ocasião impõe. Escarram para o chão, como gatos a marcar território. Levantam os punhos à altura dos ombros e repousam os dedos nas lapelas da camisa, em ambos os lados, puxando o tecido para fora – como se mostrassem o peito inchado, sinal da audácia singular.
O público está em polvorosa. A tensão adeja, como se contaminasse a atmosfera com uma implacável humidade que a torna mortiça. E, todavia, aquele público é reincidente. Como repetentes são os esboços de forcado que sinalizam aquele dia como o dia anual da afoiteza que deixa donzelas embeiçadas e os outros, madraços e covardes, roídos de inveja. Até parece que vem lá uma besta mastodôntica, corpanzil assustador, patas pesadas cavalgando ruidosamente as pedras da calçada.
Em vez de um adamastor, soltam-se os curros e de lá emerge uma caganita de bicho. Um tourinho infantil, desajeitado, destrambelhado pela algazarra que se montou a toque de rebate dos urros da multidão empertigada. Um doidivanas, o maior de todos, arremete contra o bicho. Leva consigo uma corda, que consegue passar à volta do pescoço do animal. A garraiada na sua estultícia. Não se ofendam as tradições – exigem, ofendidos, os defensores da coisa, a tradição preservada em formol como argumento definitivo. Nem que por ali se festeje um triste circo em que meia dúzia de (frustrados) intrépidos só o conseguem ser sabendo de antemão que a luta é desigual e os favorece. São muitos contra um irrelevante, e ainda por cima desnorteado, bicho.
No fim da função, quando alguns bêbados tiverem sucumbido ao desequilíbrio e forem pisoteados pelo desatinado animal (coleccionado as nódoas negras que o dia seguinte há-de destapar), e quando o bicho cair de quatro domado por centos de valentões que saltam para o adro quando deixam de enxergar o pelo malhado do tourinho, toda a gente vai feliz para o resto da festança. Vão beber em sagração dos deuses que nos permitiram sermos antropocêntricos e bestialmente bestas.

30.3.11

A despeito do despeito


In http://3.bp.blogspot.com/_M2hYqug4Ntc/TMDKqWPvDxI/AAAAAAAAFKQ/Vq7sDBUOlS0/s1600/blog+do+ciro+3+anos.jpg
(Disclaimer: um texto ficcional)
Que o que sobra em prosápia não acanhe a lucidez. Nem tomes a árvore pela floresta para a vista não embaciar. Não atires para palcos alheios as dores que são teus sobressaltos. Na tremenda confusão interior, ficarás nas ruínas do risível. E não olhes só para onde convém, que o tiro sai pelas nádegas da espingarda. Espingarda, se quiseres. Mas espingarda no vazio. Pode ser que o fogo raso não acabe por tombar sobre ti.
As adjacências que teimam em perdurar prolongam a agonia. Aprende que os dias são irrepetíveis. Salta do comboio enquanto é tempo. Salta. Mesmo que o comboio vá a pleno vapor, salta, que as dores são menores se deres com os ossos no chão. E não porfies na torpeza de usar inocentes como instrumentos dos caprichos que turvam a auto-estima. Na vida há curvas sinuosas que o leme não consegue derrotar. A ravina pode ser empinada, os socalcos dolorosos à medida que se atamancam as cambalhotas, mas lá em baixo sobra o lugar de onde tudo se refaz.
Os pesares não contam nada. Os pesares desfiam as preces inúteis, prolongam as teias empoladas que aparam as esporas do veneno. Não vás pelos pântanos onde se escondem os escorpiões pródigos na ferroada letal. Não mergulhes nas águas lamacentas de onde apenas retiras o insuportável odor a enxofre. Desprende-te dos sobressaltos que incendeiam a claridade, que a transformam numa baça nuvem que oculta a transparência. Às duas por três, confundes as estrofes resgatadas ao outrora. As palavras soam trocadas, umas na boca errada e as outras, as que deviam pertencer àquela boca, erradamente na boca certa. Podes reescrever o que for conveniente. Sabes? Estás só nessa empreitada.
Há um sarcófago que continua destapado. Por mais que sejam apostos os pregos, logo a seguir são boicotados por uma demência que ferve nas veias. Não sei se a cabeça explode por entre as lucubrações aturdidas, não sei se te salga o sangue de tanto despeito destilado, de tanta e fértil imaginação que desagua nas ilusões que adulteram o entendimento. Não sei. Já não há nada para saber. A despeito de tudo o resto, nas ruínas que são o que sobra, que a poeira não se torne o túmulo de alguém.
Aos jogos mentais, viro a cara. Os labirintos pertencem-te. Faz deles o que te aprouver. Fico fora desses insidiosos labirintos onde lobrigam serpentes que se enrolam na cauda e se alimentam do seu próprio desdém. Lá, onde as palavras se envolvem numa invisível cicuta que deixa atrás de si uma terra queimada, definitivamente infértil. O despeito é um túmulo às vezes irremediável. A menos que a ira que tudo consome por dentro seja temperada. O enigma disfarça-se pela desenvoltura com que te libertares dos estréns onde se ancora o labirinto. Terça as palavras em rimas que deixem de ser obtusas. Defuma as cinzas que prolongam o antanho para além do razoável. Os planos são sempre inclinados quando misturados algures num caldo fervente de delírios.
Esquecer é o remédio. Só que o esquecimento não quadra com despeitos. 

29.3.11

Os piropos em vias de extinção


In http://cachondeo.com.es/wp-content/uploads/2009/10/piropos-albañiles.jpg
Como será difícil o dia-a-dia dos marialvas lusitanos (e dos trolhas). Anda por aí um movimento que se auto-intitula “de defesa das mulheres” em campanha contra o piropo. Argumentam que a fronteira entre um “piropo inocente” e uma “ofensa sexual grave” é volátil. Solução? Atalha-se caminho para a proibição do piropo. Que estejam sossegados os marialvas lusitanos (e os trolhas): por enquanto (mas apenas por enquanto), a campanha só faz caminho no Reino Unido.
Enquanto os machos alfa (e os trolhas) não caem no desassossego de serem perseguidos legalmente por lhes ter fugido a boca para a verdade (ou descaído para o chinelo, consoante o calibre do piropo), vale a pena pensar nisto. Que sei eu do assunto? Tímido por natureza, sei mais por palavras delas (bem entendido: não sou fluente no disparar de piropos para desconhecidas). E o que me contaram vai do grotesco ao manifesto mau gosto, passando por alguns piropos que ensaiam uma criatividade singular. Até hoje, nenhuma me relatou piropos que fossem uma “ofensa sexual grave”. Talvez tenha tido azar na amostra. Ou a amostra tenha sido felizarda enquanto destinatária de piropos. Ou a amostra não narrou todos os piropos que os ouvidos escutaram. Ou, talvez, a amostra não fosse merecedora de piropos. Ou outra hipótese qualquer, o que não vem ao caso.
Incomoda-me que se tome a árvore pela floresta e se corte a eito nas proibições. Este lugar pejado de proibições começa a ser irrespirável. Elas (as proibições) cercam-nos por todos os lados. Sentimo-nos acossados. Passamos a desconfiar dos nossos próprios actos, das palavras bem medidas antes de se fazerem sonoras. Se esta campanha da associação “de defesa das mulheres” vingar, tudo apanha pela medida grande. Como um “inocente piropo” pode ser confundido com uma “ofensa sexual grave”, toca a proibir tudo e de uma vez só. Pobres dos marialvas (e dos trolhas), tão habituados a esta verve tão típica do cão que ladra mas não morde, a terem de suportar uma mordaça que seria a negação da sua genética. Isto não se faz a uma pessoa.
Eu aconselhava as senhoras empenhadas nesta campanha a voltarem aos bancos da escola. Ou a frequentarem um programa de reeducação da língua nativa, com aulas de semântica e de filologia aplicada, porventura com narrações na primeira pessoa de mulheres que já foram vítimas de (ou agraciadas por) piropos. Para aprenderem que as palavras têm um significado e que só por uma torpe trama se pode confundir “piropo inocente” com “ofensa sexual grave”.
Um dia destes, se a coisa pegar de estaca e vier do Reino Unido por aí fora, temo que não sejam os marialvas lusitanos (e os trolhas) a chorar baba e ranho por serem forçados à prudência linguística quando as hormonas se descompõem ao darem de caras com uma mulher curvilínea e lasciva. Aposto que elas seriam as primeiras a protestar contra a diatribe politicamente correcta de mais uma minoria (a tal associação de “defesa das mulheres”). Quando deixassem de ouvir os “piropos inocentes” que lhes inflamam o ego, começavam a estranhar. E se forem vítimas de “ofensas sexuais graves”, na forma tentada de palavras? Não é para isso que serve a polícia (para investigar) e os tribunais (para julgar)?
O planeta endoideceu de vez!

28.3.11

Mnemónica

In http://independenciasulamericana.com.br/wp-content/uploads/2009/09/dominique-strauss-kahn-dsk.jpg

Alguém lembre o Prof. Vital Moreira que este senhor manda no vituperado FMI.
(Na fotografia: Dominique Strauss-Khan, governador do FMI e, diz-se, próximo candidato do PS às presidenciais francesas...)

Nó górdio


In http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://multiply.com/mu/ricardodc/image/2/photos/
O nó anavalhado hauria o ar pela jugular. O nó de uma gravata apertado ao ponto de todas as veias ficarem à mostra, num enrubescimento aflitivo. O nó que traz a transpiração de volta, até nos dias apoderados pelo vento glacial. O nó górdio, a intumescência dos dias vindouros.
As unhas esgravatam o chão molhado. As unhas encardidas revolvem os seixos que se desentranham ainda com o musgo aderido. Começa a chover. Primeiro, uma chuva fina, dispersa, quase não empresta o aguado ao chão e às árvores. As mãos enlameadas esbarram num corpo sólido, inamovível de tão pesado. Puxou a lanterna e espreitou na cova. Uma caixa de madeira, os poros apodrecidos quebrando com a pressão dos dedos. Afastou os destroços do baú. Dentro estavam seis garrafas de vinho, o vidro escurecido deixando perceber que alojaram vinho tinto. Nos rótulos meio perecidos lia-se “vinho do Porto”. As garrafas pareciam vazias. A tímida centelha aspergida pela lanterna apontava para uns papiros metidos dentro das garrafas. Não era ao que ia. Devolveu a terra encharcada aos despojos. Queria lá saber o que rezavam aquelas cartas que um marinheiro desenganado enterrara. Se eram segredos, segredos ficassem.
O apertado nó dissolvia o entendimento. As pernas enfraquecidas cambaleavam como se pertencessem a um pândego embriagado depois de noitada na presença das bacantes. O seu segredo estaria nas imediações do parque. Mas o parque era tão grande. Como podia palmilhar cada centímetro quadrado em demanda de um vestígio que deixasse ao acaso a revelação do segredo? As noites demoradas eram viajadas nesta busca. Na companhia de uma lanterna e de um cão vadio, o mesmo cão que sabia que o podia encontrar àquelas horas.
O cão olhava-o com um ar afectuoso. Aquela proximidade perturbava-o: se nem sequer dera de comer ao cão, não podiam os entendidos justificar o reflexo pavloviano. À quarta noite, o cão condoeu-se com o desespero do homem. Seguiu-o na senda das escavações. Um mendigo abrigado do frio fitou-os, atónito. Ajuizou maior tempero ao cão.
Quando a alvorada despontava, o homem recolhia a casa. As mãos imundas e o mesmo nó górdio um milímetro mais apertado. Enquanto não encontrasse nas profundezas de um campo desabrigado o segredo que o oráculo mandar procurar, o nó ia seccionando a jugular. O ar ia ficando rarefeito como se fosse um ensandecido alpinista a trepar às alturas nepalesas sem máscara de oxigénio. Já não dormia há cinco noite seguidas. Quando a primeira luz clara destronava a noite medonha, já só tinha tempo de se lavar abreviadamente antes da confusão matinal dos que se apressam na lufa-lufa rotineira.
Uma noite, o cão começou a latir. Primeiro, a medo. Perante a indiferença do homem, o cão dobrou os latidos, agora mais sonoros, irritantes até. Ele mantinha a indiferença. O cão desprendeu-se de medos e chegou, pela primeira vez, aos seus braços. Mordiscou as mangas do casaco, sem agressividade. Queria empurrá-lo numa certa direcção. O homem não resistiu. Meteu os pés num caminho acidentado, cheio de silvas que precisava de calcar para avançar atrás do cão. Contrariado, mas ao mesmo tempo obedecendo ao instinto que o levou a ir pela mão do cão, chegou a um largo com um sobreiro imponente. Uma menina quase nua, tiritando de frio, escondia-se atrás da árvore.
Nesse momento, a jugular teve a sua alforria. Como se um súbito espasmo muscular tivesse feito explodir o nó. Que já não era górdio.

25.3.11

Pudessem os esquecimentos


In http://ewillians.files.wordpress.com/2010/04/vela.jpg
Ou por a poeira se deitar nas sombras da memória. Ou porque as sombras, em forma de cortinas de espelhos, se encenam como apagadores das lembranças. Às más lembranças encarrega-se a espessura do tempo de as remeter aos esquecimentos. Tudo voltava a ser composto a partir de uma folha em branco. Era como se tudo voltasse a renascer. Os lugares, todos novos. As pessoas, nem uma conhecida – ou os conhecimentos em arquitectura neófita.
As vertigens que teimam em calcinar as veias, as vertigens que amordaçam as lembranças incómodas, perdem voracidade. Foram uma chama intensa pelo tempo fora, forçando à abdicação da lucidez. Dias e dias com os olhos marejados pelos sobressaltos que descompunham os ritmos saudáveis. As cortinas de espelhos adejavam por toda a parte, a cima e em baixo, na agressão contínua de que os olhos não conseguiam escapar. Havia uma agenda desoladora, dias afivelados pelas tonalidades acinzentadas que semeavam a melancolia.
A virtude do tempo que se sedimenta em sucessivas camadas é fermento dos esquecimentos. Cicatriza os sobressaltos. O esquecimento é a pastagem adocicada que retoma os sabores que dão sentido. Podia dizer-se que as feridas já não abertas, cerzidas pelas cicatrizes que se compuseram, estiolaram com a densidade do tempo que adelgaçou as lembranças. Assim que as memórias se afunilaram no vórtice dos anos a fio, extinguiu-se o sal que se depunha nas feridas em carne viva. Lá atrás ficavam as dores incandescentes da carne viva tisnada pelas centelhas que se escapavam da fogueira que teimava em adornar o sono.
Um certo dia, a alvorada aventou a possibilidade de um dia soalheiro. Era como se os intermináveis dias tristonhos de tão chuvosos, os dias que pavoneavam a irritante melancolia, houvessem sido derrotados pelo seu contrário. De um momento para o outro, tudo na sua diferença. Por dentro, as veias corroídas já deixavam escorrer o sangue – o sangue que parecia renovado por uma demorada transfusão, o sangue já não viscoso e apodrecido a fluir célere pelas veias todas. As forças da natureza puseram-se de acordo numa sintonia maravilhosa. Lá atrás, nem os nevoeiros que embaciavam os olhos, os nevoeiros que emprestavam todas as dúvidas (nunca resolvidas), persistiam na sua tumultuosa ocultação.
Os esquecimentos ensinam que a melancolia é um insultuoso desgaste do tempo. Enquanto os esquecimentos não aterrarem, depondo as poeiras tóxicas que esvoaçam numa aleatória coreografia, o tempo presente está penhorado pelo velhaco que ensina os malabarismos inconsequentes dos tempos que já foram. Quanto tempo as perguntas todas eram formuladas com um necessário oxalá, como se todos os oxalás decantassem a mutilada confiança de que os esquecimentos consomem as memórias?
À custa das metódicas insistências, os tempos abraçaram-se na sua melodia encantadora. As lentes gastas que espiolhavam os tempos depostos despedaçaram-se numa fatal queda dos óculos que as envergavam. Do passado apenas sobravam os esquecimentos. Todos os oxalás tinham vingado. Os esquecimentos, esses, cosiam as pontas da irrelevância. Ora os perdões, ora o esquecimento em estado puro – como se houvesse mister de defumar a amnésia de tudo.

24.3.11

Sexo, vinho e folclore


In http://www.regiaodeleiria.pt/wp-content/uploads/2010/05/folclore.jpg
Ah, as moças donairosas que dançam ao som das cantorias populares. Estalam os dedinhos que encimam os braços alçados enquanto os saiotes esbranquiçados se pressentem na folia contagiante das pernas vigorosas.
Há alguns varões, ainda sóbrios, que se juntam à folgança. Outros, já a sobriedade foi um adeus, tropeçam nos passos falsos que o álcool consente. Não capitulam – nem assim. É no terreiro que estão as moçoilas que irradiam cio. Dir-se-ia que o folclore as dispõe. Os mais pândegos, derrotados pela embriaguez, encostam-se onde calha – no balcão da roullote-bar, enfiando mais uns copos de três de um gole só; prostrados no chão enlameado (que nem da lama dão conta); amparados por um sobreiro, julgando que amparam a provecta árvore; dois ou três, do lado oposto do terreiro, extasiam-se com a fragrância que a pocilga envia para as redondezas. Todos com um copo na mão, sempre mais cheio do que vazio, que vazio copo é moleza que não adestra a marialva condição.
As moçoilas, umas acabadas de sair da juventude, outras trintonas cheias de rasgo desatado pelos acordes da cançoneta folclórica, parecem enamoradas da dança que as empertiga. Sorriem com abundância. Umas com as outras. Ensaiam coreografias novas, os braços direitos emparelhando-se uns nos outros. Quando um rapaz mais atrevido se acerca, emudecem os sorrisos. Os elementos masculinos, anticorpos naquela dança. E mesmo as moças casadoiras, as que sonham todas as noites com a arribação de um príncipe maravilhoso, esquecem as fantasias que ocupam tanta cabeça. Só têm ouvidos para a música e olhos para a dança que a espontaneidade trauteia.
Nisto, um audaz mariola subtraído ao balcão da roullote-bar entra na roda para testar a aceitação das fêmeas. Esboça uns passos cambaleantes sem nunca largar o copo onde baloiça, mais para fora do que para dentro, o néctar vínico. Acasala o braço direito com uma conviva que lhe calhou em sorte, ali no local onde se ensarilhou na roda dançarina. Era o elemento destoante. As outras todas em sintonia, as pernas saltarinhando com o vigor não à mão de semear de qualquer varão em variável estado ébrio.
O audaz mariola, apesar da vista ofuscada pelos já nem sabia quantos copos-de-três embarcados pela goela, estava fascinado com os avantajados seios da parceira à sua esquerda. Ela estava mesmo a pedi-las: os pulos combinavam-se com uma camisa desabotoada até à embocadura onde os seios se insinuavam. Interrompeu a sua parte da coreografia. Num gesto insolente, pousou as duas mãos nos seios da afogueada rapariga. Era tanta a abundância que as mãos inteiras não chegavam para acomodar os seios. Foram uns breves segundos de apatia. A rapariga puxou a mão farta atrás e disparou bofetada audível no insolente rapazola. Caiu quadrado no chão.
A festa estava arruinada. Não se confirmaram as premonições. Tinha havido apenas vinho, e muito, e folclore (algum). A ousadia do rapaz – ou, dir-se-ia, o atrevimento que falou através do vinho bebido sem conta – deslaçou uma chinfrineira insuportável. As moças a gritarem bem alto a sua indignação. Os marialvas a protestarem contra a (na sua maneira de ver) inexplicável indignação fêmea. Tinha havido apenas vinho, e muito. E folclore (algum).

23.3.11

Da crueldade

Esta fotografia tem uma história. Há uns anos foi premiada num concurso parecido com o Pulitzer da fotografia. O autor foi incensado pelo desassombro do retrato, a violência incontida recolhida na moldura da fotografia. Outros despejaram a fúria em cima do fotógrafo: como se já não chegasse a indignidade de uma criança faminta e devorada pela sua própria fome estar no limiar da morte, éramos esbofeteados pela imagem que prenunciava as bicadas do abutre na carcaça da criança.
A criança arqueada no seu sofrimento, desvalida perante a indignidade de um destino que lhe ofereceu uma curta e tão sofrida vida, e o bicho esperando pela estocada fatal. O fotógrafo foi lapidado pelos críticos. Devia ter enxotado o abutre. Devia ter recolhido a criança daquele inóspito lugar, transportá-la até ao sítio mais próximo onde houvesse cuidados médicos. Para ao menos se atear uma derradeira centelha. E ainda que essa centelha não fosse uma fragilidade inconsequente, que o fotógrafo tivesse a elevação de escorraçar o abutre que esperava pela estocada final na vida ingrata da criança.
Todos estes anos foram consumidos pela dúvida alimentada no silêncio do autor da fotografia. Esse silêncio alimentou especulações. Teria o miúdo morrido ali, no estertor do seu arqueamento doloroso, o estômago a consumir-se nos espasmos finais? Teria o abutre ensaiado os passos determinados na direcção da cadavérica criança, começando a debicar o mirrado corpo talvez ainda dentro do prazo de validade da existência? Não se soube nada durante anos a fio, as interrogações todas esbarrando no silêncio ofendido do homem que teve a coragem de retratar o pungente cenário. O fotografo morreu há semanas. Soube-se então o que o mundo inteiro estava ansioso por saber. Um filme com final feliz: a criança não morreu aos pés do abutre; afinal, e isso é que contava para as consciências sobressaltadas, o bicho não fez da enfraquecida criança sua vitualha.
Ficou gravada na eternidade a imagem cruel berrada pela fotografia. Os que não souberam da posteridade do instante retratado, assaltados pela violência atroz ao darem de caras com a fotografia, conviveram com a perene imagem que antecipava o esbulho da dignidade quando o animal se saciasse no infantil corpo inerte. A fotografia, um ícone da crueldade em estado puro. O mote para extrapolações várias, a indagação da crueldade em que tropeçamos, ou da crueldade de que nos achamos vítimas aleatórias.
Aos rotineiros militantes dos infortúnios, os que teimam em pespegar em si mesmos os rótulos da mofina, talvez fosse útil observar demoradamente esta fotografia. Demoradamente, deviam colar os olhos no retrato, obrigados a manter a observação por mais enjoos que deles se apoderassem. Aprenderiam que a crueldade é uma medida relativa. Esses rotineiros militantes dos infortúnios podiam ainda ser mestres dos desapiedados que nunca esboçaram um esgar de contrariedade ao verem a fotografia, ou dos optimistas encartados que se sossegaram ao saberem do segredo guardado pelo autor da fotografia. Aquela infausta criança, nascida na terra errada, terá sido salva das mandíbulas vorazes do abutre. Que se desassosseguem, descompondo-se o optimismo em forma de autodefesa: quantas crianças perecidas à míngua de alimentos não terão sido devoradas por abutres pacientemente à espera?


Quantos abutres e se não andam por onde menos se espera?

22.3.11

(Isto não é) análise política à Professor Marcelo


In http://n.i.uol.com.br/ultnot/0908/20heroina_m.jpg
Um agarrado ao cavalo faz a enésima desintoxicação. Regressa a casa dos pais, apesar da quarentona idade. Os progenitores desconfiam. Já por três vezes o drogado levara pratas, ouro, atoalhados rendados, aparelhagem de alta fidelidade, uns cachimbos de colecção herdados do avó quando a família ainda tinha pergaminhos aristocráticos. Até o canídeo que era de raça da moda foi despachado por tuta e meia. O vício exigia. Depois da enésima desintoxicação, o agarrado retorna à casa familiar. Faz beicinho, joga com a fragilidade psicológica dos alquebrados progenitores. Ou lhe abrem a porta de casa, ou vai dormir ao relento. Às duas por três, está outra vez agarrado ao cavalo. Quer os pais lhe abram a porta, quer vá dormir debaixo da ponte. A diferença é que no primeiro caso agarra-se à metadona.
O doente sai do hospital mergulhado numa angústia torturante. O médico diagnosticara doença que pode ser terminal. Só o não será se o doente aceitar cirurgia arriscada. A única maneira de resgatar esperança. O tumor tem que ser erradicado. Ou a doença vai cavalgar a um trote imparável. Em estado de negação, o doente teima que tem saúde para vender. Vive numa esquizofrenia que mete comiseração. Atira-se furiosamente aos médicos (enganados no diagnóstico), à ciência (por estas alturas já devia estar mais avançada) e à consorte (por um acaso do misticismo, a culpada de todos os seus infortúnios).
Um primeiro-ministro (aparentemente) loquaz. Ele os sequazes vitimam-se pela degradação a que nos trouxeram pelas suas ineptas mãos. Os de lá de fora, que ainda aceitam emprestar soldos para manter a viciosa máquina no seu estertor, esboçam desconfiança. Só aceitam emprestar se pagarmos mais caro pelas contrapartidas. Alguns, em plena desorientação, erguem o dedo contra a agiotagem dos que ajudaram a adiar o óbito. E agora que o timoneiro, na enésima exibição de desonestidade intelectual (et, pour cause, património genético da política), se põe no papel de vítima quando o seu é o de algoz, mandou os capatazes agitarem a bandeira da conspiração.
Os habituais sacerdotes da concórdia convocaram as ideias feitas para a insubstituível união nacional. É tempo – argumentam com a gravidade das suas vozes – de todos se porem de acordo para evitar males maiores. A austeridade cozinhada à socapa devia merecer o ámen de todos (ou, pelo menos, dos que têm credenciais democráticas). O cenário é dantesco: ou a aprovação destas medidas, ou o caos. Ou este primeiro-ministro ou o deserto. Como se não houvesse alternativa. E ainda que se desconfie do que aí vem, fica esta petição de princípio para a posteridade: pior do que há não pode ser possível. Sobra a sensação de que alguns estão atarefados na salvação de uma carreira política. De uma nefelibata carreira política que fez todas estas malfeitorias.
A mim, talvez por ser néscio, incomoda-me que os verdugos medrem as lamúrias como se fossem imunes às responsabilidades do estado comatoso. Atirarem as responsabilidades para ombros alheios é uma náusea. Quando o mal está isolado deve ser erradicado. Seja o filho que é um viciado incorrigível, o tumor maligno, ou um primeiro-ministro e um governo que são o problema inteiro. Tenho cá a impressão que os credores, assim que souberem que estes incapazes largaram o poder, vão aliviar a corda que nos aperta a carótida quase ao ponto de asfixia. 

21.3.11

O bastião


In http://shopping.intheazores.com/images/muralha_maresia.jpg
Podiam mil palavras, entoadas em uníssono por outras tantas pessoas, tentar demover da insensibilidade. Em vão. Ou porque a teimosia se emproava, muito alta, deixando no peito uma couraça impossível de atravessar. Ou porque o perverso abismo pela contradição fazia os possíveis por encher de cimento aquela couraça. Pacientemente, com a diligência dos anos a fio como caução da experiência, aprendeu a imunidade das contrariedades.
O método não era ladear as adversidades, nem antecipá-las fugindo às suas dores. Elas vinham de frente aos olhos. E os olhos viam-nas com nitidez, sabiam ao que vinham. O ardil era atravessar a tempestade pelo meio, ora de olhos fechados, ora de olhos abertos, deixando o corpo revolver-se no turbilhão dos ventos soprados pela violência do furacão. Não havia chuva, por mais desapiedada que fosse, capaz de desatar uma interior descompostura. Os alicerces tinham as raízes fundas e nenhuma tempestade, por mais terrífica que fosse, mexia nos pilares que tanto custaram a enraizar.
Provações, contrariedades, alguns passos em falso, palavras malditas, umas mossas que desalinhavam a harmonia que os diligentes dedos haviam composto. Não havia já medos, nem a sucção do ar que punha os pulmões em apneia nos acordes das aflitivas consumições, a tirar o sono nas noites que esconjuravam o cansaço do corpo. Os destemores eram o passaporte da frugal sensibilidade. De que adiantava alçar a cancela às catilinárias do destino, virar o corpo às luas de onde vinham as luzes enegrecidas que adulteravam as feições saudáveis?
Aprendera. Aos equívocos, aos irremissíveis passos em falso, sucedeu-se um escudo impermeável. Os pesares eram apenas uma lição que aprendera a não repetir. Receava que o invólucro hermético que construíra em forma de altaneiro castelo o atirasse para o isolamento. Não era o caso. Descia do refúgio e misturava-se com o ajuntamento de gente que se entrecruzava na cidade. Falava. Não fugia das pessoas. Mas aprendera, com a sucessão de enganos que embotavam a lucidez, a ser como uma ilha cercada por escarpados promontórios que desciam vertiginosamente até ao mar. Uma ilha onde fosse impossível amarar.
Passou a haver um bastião que mais ninguém conseguia habitar. Do lado de lá das ameias impossíveis de franquear, talvez um certo autismo. Talvez um propositado isolamento com as cambiantes da solidão. São os males necessários – ou a prescrição das terapêuticas que amanham os males interiores, e os males que perdem a sua espessura. Os olhos têm que passar pelo necessário tirocínio. Aprendem a filtrar as luzes que outrora seriam um punhal a estilhaçar a lucidez por dentro. No corpo nidificam as ameias tão inacessíveis onde se proclama um santuário proibido à devassa.
Todavia, os convencimentos interiores podem não passar de isso mesmo, convencimentos. Uma cortina de fumo que embacia o olhar. E se assim for, ao menos que o autismo, o não doentio autismo, seja a maceração do bastião onde as coisas incómodas perdem a sua incomodativa feição. As aleivosias vêm de frente e o corpo passa por elas sem se tisnar. O bastião é como uma câmara onde são dados todos os refrigérios. 

18.3.11

Por onde anda a estética dos publicitários?


In http://www.meiosepublicidade.pt/wp-content/uploads/2009/10/tshirts_caoazul_eusobreviviaoanuncio.jpg
Eu sei que não se toca em vacas sagradas. Os que cozinham a publicidade têm de si mesmos um elevado sentido estético. Permito-me duvidar de tanta auto-complacência. É que, volta e meia, caem em cima da mesa anúncios publicitários aterradores. Daquilo a que chamo “publicidade negativa” – ou a publicidade que é um convite a comprar na concorrência, tal é o seu poder repulsivo.
O Pingo Doce é pródigo no estilo. Quem arranjou o compositor musical que desembainha aquelas cançonetas estridentes que andam a ser trauteadas na rua pelo povinho, como se as cançonetas se incrustassem no ouvido como teimosa cera que adere ao pavilhão auricular? Se não são as melodias peçonhentas que pedem meças ao pior estilo pimba, são os slogans que entram no cérebro como parafusos impiedosos. O último, entronizando o frango campestre, é o “cocó ró cocó” que as galinhas em decesso soltam quando alguém as toma entre mãos ao retirá-las das prateleiras refrigeradas de um supermercado. À custa desta publicidade, compro os mantimentos algures.
Há exemplos em catadupa. Só dos últimos dias, resgato dois às lembranças. Primeiro, um anúncio que escutei no rádio. O BES aconselha a poupança e premeia os corajosos aforradores com mealheiros com a impressão digital de uma famosa estilista internacional (Ágata qualquer coisa). Para convencer os sortudos que ainda conseguem rapar do fundo do tacho uns trocos a não os enterrarem em serôdio consumismo, o BES alicia com uma cançoneta cantada por vozes desafinadas de petizes ainda muito imberbes.
Ou não conseguiram arranjar no casting vozes mais afinadas (o que deixa meãs esperanças para o futuro da canção pátria), ou aquele coro em estridente desafinação tem um simbolismo escondido que devia ser interrogado aos publicitários. Cá para mim, é uma vingança dos mal remunerados publicitários. Como vivem à míngua e não conseguem aforrar, meteram ali pelo meio os petizes mais desafinados que conheceram no casting. De cada vez que ouço este anúncio fervem-se-me as meninges (e não sei se será só do efeito do esforço físico, que isto passa na estação de rádio sintonizada no ginásio). Quando houver poupanças, só sei que não vão desaguar àquele banco.
Outro exemplo: a Sotinco tenta convencer a gente que quer mudar a cor das paredes lá de casa com um anúncio na televisão que lembra as cançonetas foleiras dos Abba. Dois homens e duas mulheres envergando vestimentas com cores garridas e formas avantajadas despejam, em forma de canção, umas inanidades sobre os predicados das tintas enquanto passeiam os convenientes sorrisos esmaltados. Admito que os empreiteiros – os mesmos que alardeiam Mercedes de duvidosa estética – e os trolhas mestres na arte do piropo de mau gosto fiquem embevecidos com o anúncio que dura uns trinta segundos que mais parecem uma eternidade. Se eu fosse pintar a casa, não era com tintas Sotinco.
Esta exegese à publicidade faz pensar que há alguém que nidifica nos piores pesadelos da inestética. Admito que os responsáveis pela pavorosa publicidade argumentem que são alfaiates que se limitam a alinhavar publicidade à medida dos gostos (inestéticos) da maioria. Tenho cá para mim que é uma carapaça onde se escondem estes publicitários (certos publicitários com propensão pimba). Uns lídimos azeiteiros, é o que são. 

17.3.11

O franco-atirador da Corujeira


In http://farm4.static.flickr.com/3173/2653090582_698d9ce3eb.jpg?v=0
Dormia com uma 38 milímetros debaixo da almofada. Mas quando deitava o corpo nos lençóis era sempre um sono dos justos que arrimava. Nem um grama de chumbo a pesar sobre a consciência. Nem que muitas malfeitorias atropelassem os dias. Já matara. Já vendera drogas pesadas – e quase sempre adulteradas, que andarilhava por inconfessáveis vícios privados que exigiam abastadas carteiras. Não tinha conta bancária. Oficialmente desempregado, não pagava impostos. Ostentava a impressão digital de gangster no potente bólide que berrava os antípodas da discrição.
A escola, que aborrecimento e inutilidade, era uma remota lembrança onde começou a ruminar a faceta de fora de lei. Hoje não se arrepende. Às vezes cruza-se com colegas da escola e nota a miséria em que se debatem. Alguns aventuraram-se nos estudos universitários, fizeram-se doutores e não saem da cepa torta. Sabe que a instrução não faz vingar os melhores. Sabe: que o mundo merdoso é uma selva onde todos são chacais uns dos outros; onde só as hipocrisias mandam respeitar códigos de conduta que nem aos ingénuos pertencem. É matar ou morrer. Às vezes, literalmente. Outras vezes, com o delico-doce canto das metáforas.
O dia começa a meio da tarde. À hora em que os outros tomam o lanche, abarbata-se com um farto pequeno-almoço que se confunde com um opíparo almoço. Trata os empregados de mesa com o desdém de quem se acha superior. A sua particular lente do mundo desfoca os olhos para o preconceito social que, dir-se-ia, é mais próprio de gente de superior linhagem (assim se acham) que não convive com a demais gentalha (burguesia e arrivistas sociais incluídos). Esta é uma exclusão em que teimam os que, como ele, pisam o risco da lei todos os dias. Olha para os demais – e não importa a condição social – e escorre um sorriso sobranceiro. Por dentro, a reconfortante sensação de levar uma vida fácil e tão pródiga em proveitos materiais.
Para o exterior, para os que lhe são próximos e, néscios, porfiam numa vida honesta, dramatiza o modo de vida. Está farto de ouvir conselhos sábios, advertências impregnadas de moral que rima com legalidade instituída. A cada interpelação, retorquia com um ar compungido: “sabes lá tu o martírio que levo”. As pessoas acreditavam, decaindo perante a sua sinceridade, aquele olhar ao mesmo tempo matreiro e de quem dorme poucas, e mal amanhadas, horas de sono. As pessoas acreditavam que vivia sufocado pela possibilidade de uma pandilha de polícias à paisana, tão maltrapilhos como ele, lhe deitar a mão. Pensavam que fugia dos ajuntamentos, que era um solitário com perenes dores de cabeça só de imaginar que a alvorada que rompia a meio da tarde era o derradeiro dia. Que tanto o podia ser da vida, como da liberdade. Se lhe perguntassem, diria: “a acontecer, do mal o menos, que seja o derradeiro dia da existência”.
Enquanto puxava lustro à 38 milímetros, estava seguro que polícia algum lhe daria caça. Tinha os seus trunfos. Informadores de confiança que lhe diziam, em antecipação, que havia agentes disfarçados a rondar as ruelas do bairro. E antes que os pelintras à paisana soubessem quem era, já metia amizade com eles. A ensandecida estratégia de se meter na boca do lobo. Metia-os no mais profundo bas fond, cúmplices das piores ilegalidades. A certa altura, os predadores eram a caça grossa que ele tinha arpoado com um golpe de génio. Por isso é que dormia o sono dos justos.
À cautela, não fossem as curvas dos dias trazer uma mais traiçoeira, a sua cabeça tinha que sentir o coldre da 38 milímetros. 

16.3.11

Cinco minutos

In http://3.bp.blogspot.com/__Nl1Tsr9Bjo/SNA65up2nFI/AAAAAAAABCw/B8vJ27L7I9o/s320/cinco+minutos.jpg
Às vezes chegavam cinco minutos. Para dizer o que ficou guardado. Para sempre guardado como se o silêncio agilizasse o arrependimento. Cinco minutos para trazer à tona as sinfonias que ora descompõem os sentidos, ora os enfeitam com as pétalas acrisoladas da inocente espontaneidade. Um pequeno desencontro, ou a asfixia dos sentidos que devolve a perenidade dos silêncios, sepultam a oportunidade. O tempo passou como se alguém chegasse ao apeadeiro e só conseguisse avistar o comboio a diluir-se no horizonte.
Nos cinco reclamados minutos – a eternidade que separa a probidade das palavras embutidas no silêncio – encerram-se as tonalidades do desperdício. Quando, no mosaico da introspecção, soam as sirenes do arrependimento, contam-se as lágrimas vertidas por não terem sido entoadas as palavras no tempo que lhes era devido. Contam-se outras tantas lágrimas que avivam a carne que sangra por dentro. Oxalá aqueles cinco minutos abrigassem a inércia do tempo, como se alguém soubesse resgatar o tempo emoldurado da sua empoeirada moldura. Depois, em contravenção com a honradez do presente, desfilavam especulações inúteis. A contrafactual especulação, os cinco minutos como cicatriz por sarar, ou a ceifa que obriga a demora do passado.
Se ao menos os cinco minutos não tivessem sido gastos em silêncios covardes. Se ao menos os cinco minutos não fossem uma capitulação das ansiedades que incineravam as veias, deixando-as num fogo brando que retomava as cinzas onde se depunha o corpo. Se aqueles cinco minutos não fossem uma espada cortante trespassando as costas da lucidez. Tudo, enfim, seria diferente. Como se uma terrível conjugação de efeitos cósmicos mudasse o futuro e, do mesmo passo, compusesse outra partitura por onde desfilasse o tempo ido.
Mas os cinco minutos não são um retrato da intemporalidade. A suspensão dos relógios é uma impossibilidade quando vamos mais adiante e, na latejante retrospectiva, os arrependimentos se almofadam na teimosa lembrança. Os arrependimentos são a demissão do livre arbítrio que se sobrepõe à covarde elegia do resgate que viria se os cinco minutos, os cinco vitais minutos, pudessem ser repostos no lugar de onde se dissolveram.
Esses cinco minutos apressavam as precipitações. Se há pesar não é por terem sido arpoados silêncios em todos os cinco minutos repetidos por tempo sem conta. Os cinco minutos, pudessem eles ser resgatados à absoluta rigidez dos arcaísmos, não seriam tanta demora. O aluvião de cinco minutos entretanto depostos em clepsidras translúcidas apruma os sentidos. Pudessem os relógios todos recuar até aos reivindicados cinco minutos onde fermentam (na aparência) os pesares. Às vezes, os arrependimentos não trazem os equívocos a tiracolo. São o manto perfeito para a confirmação de um outrora qualquer. Cinco minutos que deixam de ser extemporâneos. Cinco minutos, uma eternidade que podia ser consumida no instante de um fósforo em decadência. Os olhos embotados cerceavam a clareza. Adiavam os cinco minutos. Tornavam-se lancinantes os cinco minutos prolongados, uma e outra vez. Uma coreografia desconchavada entre covardia e coragem, com o pêndulo a cair para a primeira.
Se ao menos os cinco minutos, esses cinco minutos repensados que aterram com a aura sombria dos dias que foram, fossem condensados nuns claros segundos. Para os campos mentais deixarem de fertilizar arrependimentos. Os inúteis arrependimentos.

15.3.11

A adorável fauna da burguesia socialista


In http://www.bomsucesso.com.pt/assets/x/52331
Olho para estes socialistas assoberbados pelo estertor final do mais lamentável governo de que há memória desde que a democracia regressou. E interrogo-me se não deviam abdicar da palavra “socialismo”. Devia haver uma comissão de utilização fidedigna das palavras que impedisse a apropriação abusiva de termos consagrados quando a sua prática anda nos antípodas das ideias. Assim como assim, não foi o (deles) patriarca Soares que enfiou o socialismo na gaveta?
Pela noite em véspera de fim-de-semana, um senhor ministro desce a rua dos Clérigos e entra num afamado restaurante em zona nobre da vida nocturna da cidade. Um restaurante só frequentado por gente endinheirada e por arrivistas sociais. Pela pose altiva e pelos olhos como radares à cata de todos os quadrantes, dir-se-ia que a pausa à entrada do restaurante pimpão era convite para ser visto a lá entrar. Os ministros merecem pertencer ao escol dos privilegiados. É a paga pelas muitas noites mal dormidas açambarcadas pelo terrível peso de domar os destinos da pátria.
O catedrático arquitecto que, vereador, pisa os calos ao edil instalado, reclama uma grande coligação das esquerdas nas próximas eleições. Para destronar “a direita”, a “direita dos interesses” (que, presume-se, as esquerdas não os têm, interesses; só causas, e muito nobres). Um esboço de frentismo de esquerdas – pois, noutro “assim como assim”, a proximidade genética devia destruir os muros que separam as esquerdas todas. E, todavia, quem vir o catedrático arquitecto não o ajuramenta com a malta empenhada em defender os interesses dos trabalhadores eternamente oprimidos. Que nisto dos bens materiais fala sempre mais alto o utilitarismo esmaltado pelas reluzentes notas que estacionam na conta bancária. Olha para o que eu digo, não ouses olhar para o que eu faço.
Se há palco enternecedor é aquele em que a canga socialista de diversas idades e feitios se chega ao conforto da ostentação, à frequência dos mesmos lugares dos queques enraizados. Fico embevecido ao dar de caras com socialistas que, vê-se à distância, são queques encartados. Desfilam todos os tiques do arrivismo social e os preconceitos de casta. E, todavia, quem os ouve nota uma pesporrente retórica social avantajada, pondo-se em bicos dos pés na sua suposta superioridade moral. Gostava de os ver menos atreitos à frequência de lugares que vão e vêm com os modismos. De os ver despojados dos hábitos burgueses.
Estes aburguesados socialistas deviam ter a franqueza de falarem como se comportam. Ao menos não se emprestavam à esquizofrenia de quem não diz coisa a bater certo com os pessoais hábitos de vida. Fica-lhes mal quando a sua bota não condiz com a perdigota. Logo a eles, que têm a mania de serem tutores da mais elevada superioridade moral (o que para mim, arredio de qualquer moralidade, é de arregalar os olhos).
Não sei se esta propensão para andar de braço dado com a fina flor do socialite explica que o criativo governo tenha subido o IVA dos ginásios de 6% para 23% e queira descer o IVA pago pelos praticantes de golfe (essa gente tão miserável) de 23% para 6%. Socialismo dos ricos, é o que é. 

14.3.11

Profeta do desamor


In http://4.bp.blogspot.com/_QtUHNg4WcN0/TBKWjA9TiqI/AAAAAAAAEbs/UaRJJ43_JEw/s400/flor+murcha.png
Atirava ao lago pequenas pedras recolhidas do chão de terra. O olhar perdia-se na imensidão de um firmamento imaginado. Ao lado, um par de namorados calcava com a suavidade dos pés nus a relva macia que se dispunha à sedução. Depuseram os corpos no tapete de relva e mergulharam nos braços enquanto os lábios arpoavam beijos demorados, lânguidos.
Ao início desviou os olhos para o poente, na diametral dimensão do enamoramento dos jovens. Logo a seguir deixou de lutar contra os instintos. Fitou o casal de namorados até ela ter notado e, incomodada, ter sussurrado ao rapaz. Este fez menção de se levantar e pedir satisfações ao mirone todavia sem más intenções. Ela refreou a coragem do mariola – que porventura, no rubor onde se consome a paixão madrugadora, exige prova de valentia. Mal arregaçou as mangas, o rapaz sucumbiu aos deleites da mão da namorada pousada sobre o rosto, empurrando-o para junto do seu peito. Não disfarçavam a apoquentação. Sabiam lá ao que vinha o homem com o cabelo grisalho, embebido naquele olhar mortiço de onde se projectava um grito surdo de tristeza. Retiraram-se para onde houvesse sossego que consolasse o namoro apetecido.
O homem continuava a macerar angústias junto ao lago das águas lamacentas. Não fosse o vento que despenteava o chão de água e conseguia discernir todos os poros por onde a tristeza se esvaía de si para o exterior. Há tantos anos que não era visitado pela companhia de uma mulher. Ele tentara, por muito tempo. Em vão. A certa altura abandonou as esperanças. A cada passo, o desinteresse das pretendidas esbarrava na indiferença.
Ensaiara as lições aprendidas nos filmes (como se os filmes fossem tirocínio com serventia). Ou porque escolhia mal as palavras, ou porque as olhava por um ângulo desacertado, ou porque era precipitado e queria saltar muitas janelas de um golpe só, tudo que o seguia era um desamor incondicional. Os convites para jantar que mereciam desdenhosa esquiva. As abordagens fracassadas – ora as explícitas, que chegaram a merecer indignado esbofetear; ora as implícitas, que ou eram desmascaradas pelas pretendidas, ou eram mensagens indecifráveis pela oportuna ignorância das ditas. As prendas devolvidas, os telefonemas prometidos e que nunca chegaram a ser feitos, os murmúrios que tinham ecos diferentes. Havia uma crueldade dos destinos preparados para aquele homem precocemente grisalho. Já se convencera: era desajeitado para a função. Sobrava a solidão como arguta companhia.
Mesmo assim era acossado pelos sobressaltos interiores que às vezes atravessavam semanas inteiras. Apiedava-se junto dos amigos, como se essa comiseração trouxesse os troféus pretendidos. Na cristalização da idade, aprendera que as coisas procuram a sua própria espontaneidade. A piedade era a confissão da incapacidade. Não se envergonhava dela. E não queria, através dela, que uma qualquer donzela desabitada tocasse à sua janela. A certa altura, apoderado pelo cansaço e profeta dos lençóis da solidão, arranjou uns lustres para verter em letra de forma o cardápio do desamor.
E foram tantas centenas de páginas recolhidas que não conteve três lágrimas que se verteram sobre a página de rosto. 

11.3.11

Desenhos animados para animar a malta


In http://www.dontpaniconline.com.pt/media/magazine/output/mag-1297704521.jpg e http://www.c7nema.net/images/stories/2/rango.jpg
Fui ver o “Rango” com a minha filha. Depois do corrupio de mamãs voluptuosas que passavam à minha frente e ao lado, notei que o filme infantil podia conter (caso fosse simpatizante da extrema-esquerda caviar) uma lição de moral. Daquelas que o frade Louçã gosta de pregar. O filme para crianças escondia (esconderia?) uma devastadora crítica aos nefandos intérpretes do abjecto capitalismo. O mau da fita era o autarca que se transformou num bem sucedido homem de negócios. Exibia a ganância e o egoísmo que, como é sabido por toda a gente (e sublinho o imperativo categórico do “toda a gente”), é timbre dos porcos capitalistas que só pensam em engordar os lucros oprimindo os desvalidos trabalhadores.
Não é de hoje: os filmes infantis contêm uma narrativa que se embebe na dicotomia entre bons e maus. É quase como nos filmes pornográficos: podem variar os pormenores, mas sabemos como termina a função. A analogia não é despropositada. Nos filmes infantis, os corações palpitam de incerteza quase até ao fim. Os maus parecem levar de vencida os bons. Só mesmo no final do enredo, com um golpe de asa que vira a história do avesso, é que as criancinhas sossegam. Aprendem que a ética da bondade vinga sobre as sombrias nuvens da maldade. As dores de crescimento encarregam-se de desfazer as ilusões alimentadas pela cinematografia encantatória.
No filme, o autarca da terra monta um império imobiliário de luxo, onde só gente muito endinheirada (e, portanto, à partida estigmatizada) pode habitar. O autarca deixou-se incendiar pelo brasido do lucro fácil. Maltrapilho, tomou posse de terrenos por vias pouco éticas, coagindo os proprietários a vendas leoninas. Para piorar o diagnóstico (que não as dores de consciência do malfeitor, que os capitalistas não a têm, consciência), desviou toda a água de uma terriola perdida no meio do deserto – a terriola de que era presidente da câmara. À míngua, a terriola definhava na secura. O autarca traiu o povo, desviando a água para o paraíso escondido atrás de uma alta duna do deserto. Foi o xerife – o herói da fábula – que descobriu a trama. No final, triunfa o plano para restaurar a justiça. A água regressa à origem e o malvado, ganancioso capitalista sucumbe às mãos de um dos seus capangas.
Se a lente não estivesse desfocada e a malta da extrema-esquerda caviar que assistiu ao filme logo desvendasse a sua mensagem, dir-se-ia que é uma mensagem paradoxal. Como pode um filme da indústria que acoita o pior do capitalismo ser tão áspero para o sistema estabelecido? Poderão tantos olhos (a censura prévia que, mandam dizer os da extrema-esquerda caviar, existe nestas terras à vista desarmada) ter sido atraiçoados pela distracção, deixando passar um filme tão revolucionário?
O que vale é que os petizes não estão para as mensagens sublimes escondidas nas entrelinhas do enredo. (Nem, desconfio, as mães voluptuosas que desfilavam pelos corredores da sala, na véspera e no intervalo do filme, como se fossem fêmeas com o cio mostrando as formas lúbricas atamancadas em roupa justa ou em saias que beijavam os limites do escandaloso.) Para uns e outras, um filme é apenas entretenimento. Por que haveria um filme infantil de codificar uma tão sublime mensagem se os petizes querem é divertir-se com os bonecos que passam na tela?

10.3.11

Who cares?


In http://3.bp.blogspot.com/_oyODKnJKipg/SD1omD-nohI/AAAAAAAAABo/wT_TaqVPKcg/s400/indiferença.jpg
Era de pena que o imberbe das emoções andava à procura. A pele tisnada pelos sobressaltos que amordaçavam o sorriso. Olhos entristecidos, madraços, envolvidos numa espuma que decantava as lágrimas que se vertiam para o interior das pálpebras. Chorava no amplexo das dores que o maceravam por dentro. E nem os olhares lânguidos da rapariga sentada no banco da frente do metro desatavam um esgar sequer que contrariasse o luto profundo que o trazia pelas vielas sombrias.
Esmagava nos outros a sua melancolia. A ira servida num cálice fervente. Projectada contra os que se cruzavam nas ruas molhadas pela chuva tempestuosa. Inocentes da sua raiva interior, era como se fossem os culpados pelos pesares que extinguiam do rosto o sinal da sobriedade.
Todos os dias acordava imerso no cansaço próprio dos dias já entregues nos braços do ocaso. As manhãs eram repulsivas, a candeia que anunciava um dia interminável para lamentar as angústias herdadas dos arrependimentos. Por mais que olhasse para o poço onde vagueiam, desordenadas, as recordações, não encontrava um resto que derrotasse a tristeza irremediável. Covardemente, esbofeteava com um rosto fechado os que lhe eram próximos e os estranhos nas ruas. Teimava nos modos rudes, nas palavras secas, na antipatia que cavalgava no dorso do rosto cerrado. Os olhos encovados eram inexpressivos, como se por dentro deles houvesse apenas uma paisagem árctica, preenchida por um branco medonho. Uma irascível forma de ser. A autarcia de si.
O isolamento desmanchava brechas no padecimento quando expunha as cicatrizes. Por mais que quisesse ser uma ilha, ostentava as cicatrizes dos sofrimentos. Por mais que quisesse que os outros, estranhos ou pessoas do seu conhecimento, vegetassem na indiferença, queria mostrar as suas consumições. Pedinte de comiseração. Os tormentos que eram apenas seus deviam ser colectivizados. Apesar de querer ser uma ilha coriácea, fechada a sete chaves à curiosidade estranha, ao ser mostruário da melancolia era fautor da sua própria devassa.
O mal era a indiferença dos que nem sequer davam conta da sua presença. A angústia trepava os contrafortes da dor, amordaçando o rosto. A angústia transformava-se nas algemas que deixavam o rosto mergulhado numa expressão de apatia. A apatia que motivava indiferença nos demais, mergulhando-o num adormecimento pungente. Não percebia os sintomas de si mesmo. Ora uma pulsão arrebatadora que o tornava ilha empedernida, como se as pessoas todas em seu redor fossem avatares da indiferença. Ora mendicidade da piedade alheia, imperativo mostrar os padecimentos interiores. A pena mostrada pelos outros aplacava a melancolia corrosiva – acreditava.
A ambiguidade destronava o que julgava ser um altar onde proclamava a coerência impecável. Afinal, o mal não era exterior a si. Radicava nas profundezas do rapaz imberbe. Porventura, da sua inexperiência. Porventura, da devastadora inteligência em que se debatia. Ou talvez nada disto fosse o retrato fidedigno. E fossem espelhos paralelos a obturar a lucidez. Em camadas sucessivas, umas em cima das outras, a miopia tomando conta do olhar com que filtrava as coisas em redor.
Mas ninguém, absolutamente ninguém, se importava.