11.3.11

Desenhos animados para animar a malta


In http://www.dontpaniconline.com.pt/media/magazine/output/mag-1297704521.jpg e http://www.c7nema.net/images/stories/2/rango.jpg
Fui ver o “Rango” com a minha filha. Depois do corrupio de mamãs voluptuosas que passavam à minha frente e ao lado, notei que o filme infantil podia conter (caso fosse simpatizante da extrema-esquerda caviar) uma lição de moral. Daquelas que o frade Louçã gosta de pregar. O filme para crianças escondia (esconderia?) uma devastadora crítica aos nefandos intérpretes do abjecto capitalismo. O mau da fita era o autarca que se transformou num bem sucedido homem de negócios. Exibia a ganância e o egoísmo que, como é sabido por toda a gente (e sublinho o imperativo categórico do “toda a gente”), é timbre dos porcos capitalistas que só pensam em engordar os lucros oprimindo os desvalidos trabalhadores.
Não é de hoje: os filmes infantis contêm uma narrativa que se embebe na dicotomia entre bons e maus. É quase como nos filmes pornográficos: podem variar os pormenores, mas sabemos como termina a função. A analogia não é despropositada. Nos filmes infantis, os corações palpitam de incerteza quase até ao fim. Os maus parecem levar de vencida os bons. Só mesmo no final do enredo, com um golpe de asa que vira a história do avesso, é que as criancinhas sossegam. Aprendem que a ética da bondade vinga sobre as sombrias nuvens da maldade. As dores de crescimento encarregam-se de desfazer as ilusões alimentadas pela cinematografia encantatória.
No filme, o autarca da terra monta um império imobiliário de luxo, onde só gente muito endinheirada (e, portanto, à partida estigmatizada) pode habitar. O autarca deixou-se incendiar pelo brasido do lucro fácil. Maltrapilho, tomou posse de terrenos por vias pouco éticas, coagindo os proprietários a vendas leoninas. Para piorar o diagnóstico (que não as dores de consciência do malfeitor, que os capitalistas não a têm, consciência), desviou toda a água de uma terriola perdida no meio do deserto – a terriola de que era presidente da câmara. À míngua, a terriola definhava na secura. O autarca traiu o povo, desviando a água para o paraíso escondido atrás de uma alta duna do deserto. Foi o xerife – o herói da fábula – que descobriu a trama. No final, triunfa o plano para restaurar a justiça. A água regressa à origem e o malvado, ganancioso capitalista sucumbe às mãos de um dos seus capangas.
Se a lente não estivesse desfocada e a malta da extrema-esquerda caviar que assistiu ao filme logo desvendasse a sua mensagem, dir-se-ia que é uma mensagem paradoxal. Como pode um filme da indústria que acoita o pior do capitalismo ser tão áspero para o sistema estabelecido? Poderão tantos olhos (a censura prévia que, mandam dizer os da extrema-esquerda caviar, existe nestas terras à vista desarmada) ter sido atraiçoados pela distracção, deixando passar um filme tão revolucionário?
O que vale é que os petizes não estão para as mensagens sublimes escondidas nas entrelinhas do enredo. (Nem, desconfio, as mães voluptuosas que desfilavam pelos corredores da sala, na véspera e no intervalo do filme, como se fossem fêmeas com o cio mostrando as formas lúbricas atamancadas em roupa justa ou em saias que beijavam os limites do escandaloso.) Para uns e outras, um filme é apenas entretenimento. Por que haveria um filme infantil de codificar uma tão sublime mensagem se os petizes querem é divertir-se com os bonecos que passam na tela?

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