3.3.11

O estetoscópio das almas


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Errava pelas ruas, metido nos seus andrajos que escorraçavam gente bem composta. Adivinhava pensamentos que apareciam à sua frente. Tinha o olhar vidrado no horizonte, fazendo avançar os pés rumo ao vazio. O mesmo vazio onde se perdiam os olhos que eram uma vaga expressão de demência. Os dedos encardidos dedilhavam desenhos etéreos, como se estivesse a escrevinhar frases soltas no ar por cima da cabeça. Por vezes bramia umas palavras ininteligíveis, como se ecoasse por dentro de si um idioma desconhecido.
Não tinha pouso certo. Andarilhava pelas praças repletas em hora de ponta. Pelas ruas estreitas e inclinadas, sem se incomodar com o passo envergonhado dos varonis em demanda de meretrizes escondidas nos bares onde se acendia uma denunciadora lâmpada vermelha. Pelos bancos dos jardins, onde adolescentes namorados se refugiavam na incandescência da paixão, não notando a sua presença. O homem, na incansável deambulação pelos recantos da cidade, lia os pensamentos que prodigiosas capacidades captavam nas vizinhanças. Lia as ansiedades, as mágoas, as esperanças, mesmo quando eram remotas possibilidades, as alegrias que compunham sorrisos encantadores. Lia simples esgares e decifrava olhares imperturbáveis.
A intensidade dos pensamentos que entravam pela carne era um terrível abalo telúrico, um esbulho da sanidade. Agarrava a cabeça com as duas mãos, inclinando-a para trás, como se estivesse em lancinante sofrimento. Havia almas sofridas nas imediações, lacerações diárias que preenchiam a existência de gente acomodada à tristeza. Eram as dores mais terríveis que sentia. Uma cefaleia violenta tomava conta de si. O velho enrugado e andrajoso não augurava confiança entre os demais. Um maltrapilho, rejeitado. À sua passagem as pessoas mudavam de passeio, ostentando um esgar de repugnância. Ele continuava a teimar, achegando-se às pessoas. Fazia-o à gente acabrunhada pela desdita e aos que pavoneavam imenso contentamento. Aos primeiros queria estender um consolo. Aos segundos, congratulações pela proeza.
O velho sabia que os locais densamente povoados eram um sacrifício assombroso. Uma enxurrada de pensamentos invadia-o. De todas as pessoas, e eram muitas, que estavam ao alcance do prodigioso estetoscópio interior. O dom com que tinha sido agraciado – seria a apostilha de muita gente ansiosa por meter unha em pensamentos alheios. O velho amaldiçoava o dom. E não era por causa das constantes dores de cabeça com que já se habituara a viver. Eram as vidas lamentáveis que lhe entravam pelo fio condutor do estetoscópio, as existências gabarolas em forma de simulação que ocultavam o oposto das ostentações, e também a esfusiante alegria que motivava inveja.
Um dia, o velho encontrou um rapaz senhor de uma lividez assustadora. Estava inerte no banco do jardim há uma eternidade – a mesma eternidade com que o velho adivinho o observava do lado contrário do jardim. Estranhou não conseguir desviar os pensamentos do rapaz. Estaria a perder capacidades, ou o rapaz seria um alfobre de frivolidade? Encheu-se de coragem e balbuciou umas palavras cansadas:
- Que males te atormentam, rapaz?
E o rapaz, movendo a cabeça como se fosse um autómato, o olhar gélido perdido no firmamento, tocou na mão suja do velho e sussurrou ao ouvido:
- Não insistas, não tens nada que possas levar de mim. Eu sou o teu sucessor. Estou aqui para tomar conta do estetoscópio das almas.
A mão enregelada do rapaz disparou um feixe fulminante que atordoou o velho. Ali ficou, jazendo no chão de terra, horas a fio, com tanta gente a passar em redor julgando-o consumido pela bebedeira. Só no dia seguinte, quando os homens do lixo faziam a ronda, se deu conta que o homem estava morto. Numa janela em redor, o rapaz viperino observava. Podia, enfim, tomar o gosto ao estetoscópio das almas. 

1 comentário:

O símbolo disse...

COnheci uma moça desse tipo (não mendiga) parecia estar apossada desse dom....deixei de lado...