16.5.11

O desejo ajuramentado


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Os freios, alados pela educação cheia de peias, embotavam o desejo. Era como se houvesse um patíbulo prometido se as mãos desandassem por caminhos opacos. Ela olhava a medo para os torsos bronzeados de uns bonzos surfistas que passeavam, altaneiros, à saída do mar salta-pocinhas onde fizeram de conta que eram surfistas a sério. Mas ela só os fitava em esgares envergonhados, não fosse um anjo zeloso estar de olho nela para a denunciar às autoridades metafísicas.
Não queria o opróbrio das beatas a cair sobre si. Reprimia o desejo, em luta interminável com as hormonas que segregavam tudo no seu contrário. Quando os calores se despenhavam como cachoeiras abundantes após um dilúvio, não tinha mão nos olhos que perseguiam os exemplares másculos que ostentavam um odor a libido. A dela, a libido por anos a fio coalhada, atamancava-se num espartilho que apertava a carótida dos sentidos. Mas os calores, que deixavam um rasto de suor a escorrer da fronte, denunciavam o estertor que convocava um desenlace diferente dos dogmas obedecidos.
Um dia, farta da castração dos sentidos que vinha das peias da metafísica, entregou-se nos braços de um homem. Diriam as amigas, ainda mais empoeiradas com os sedimentos das sacristias, com o dedo irado a soar a reprovação: “logo o primeiro que te apareceu pela frente”. Já não lhes dava ouvidos. E mesmo que as amigas começassem a olhar de soslaio, reservando um tom de voz distante, ela não queria saber das censuras párias. Soube do zénite da inveja quando uma delas se queixou ao prior da paróquia. Valera-lhe o prior ser um modernaço. Mal soube que andava um pé-de-vento por causa da doidivanas que saíra dos saiotes das freiras atadas às teias de aranha mentais, o prior procurou-a. Consumiu-se em vergonha. O prior sossegou-a: “não dês importância às invejosas.
O encantador homem que a trazia embeiçada não era pródigo em beleza, daquela beleza que arrebata as donzelas quando desfolham revistas onde os famosos desfilam cheios de retoques de maquilhagem ou do milagroso Photoshop. Tinha os músculos firmes, uns braços fortes, um olhar compenetrado que derretia todos os calores que se emproassem. Não era dotado para o falatório. Mas quem queria falatório numa altura destas, na aridez que a descompunha?
A intensidade era tanta que, já sozinha no quarto e imersa na escuridão do que ainda sobrava da noite, nem conseguia evocar as horas anteriores. Depois de se entregar ao lúbrico desejo, cumprindo-se mulher, um sentimento de culpa quase a asfixiava. Eram as sobras da educação religiosa que fermentara a castração do desejo. E por mais que se ajuramentasse ao desejo que dela fizera uma mulher nova (ou, por fim, mulher), não havia maneira de iludir a perplexidade que se cindia na culpa tormentosa.
A mordomia do tempo curou o resto. A espessura dos meses e dos anos derretera os vestígios de culpa. Tornou-se indomável. E se a fama correu com o vento atraindo um séquito de apreciadores, depressa deixou de ser caça e tornou-se caçadora. Nessa altura, já não frequentava os missais.

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