16.11.11

Desastrado


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Era tanta a bonomia como a propensão para o desastre. Por onde passava tingia as coisas com o espectro do sinistro. Mais parecia elefante a varrer as loiças em loja de porcelanas. Mas não era de propósito. Era apenas desajeitado, distraído, ingenuamente desapegado – das pessoas, das coisas, das palavras ditas. E esquecido: os mais chegados iam à exasperação quando, naquele ar habitualmente cândido, confessava não se lembrar de palavras ditas que deviam ser recordadas no momento em que a memória era convocada.
Por ser tão desajeitado afivelava dissabores. Foram tantas as vezes em que entrara em despesa por danos selados pela desastrada arte, que perdera o fio à meada da contabilidade dos gastos. De cada vez que as mãos estouvadas descompunham a ordem estabelecida e alguns cacos rompiam o silêncio quando se esmagavam no chão, acertava as contas do prejuízo e prometia a si mesmo, cada vez com mais solenidade no ajuramentar, que meteria as cautelas nos interstícios da distração.
Não valia de nada. Uma e outra vez, gestos aselhas desarrumavam o que estava quieto, buliam com a paciência dos mais chegados quando as mãos inábeis tragavam no esquecimento palavras que deviam vir debruadas a ouro. Começou a anotar num caderninho palavras dispersas que vinham à tona por entre a bulimia do pensamento. Não fosse alguém puxar o lustro a essas palavras no porvir mais ou menos adiantado. Meteu o caderninho na algibeira. Ao fim do segundo dia, já nem sabia da algibeira que fora regaço do caderninho. Sossegou-se: ao menos, no porvir que entretanto passou a ser tempo passado, ninguém lhe perguntara pelas memórias anotadas no caderninho extraviado.
A certa altura, considerou-se um caso perdido. Prometeu-se arranjar tutor dos gestos rotineiros. Ninguém queria a arriscada incumbência. Nem com a promessa de comprar para si mesmo um daqueles seguros de responsabilidade civil que protegem do alvoroço deixado pelos nossos animais de estimação.

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