23.2.12

O chefe da revolução é cortês (capítulo X)


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A conversa com o líder da revolução foi cordata, minuciosa, técnica como o negociador internacional tresmalhado sempre gostou. Era o seu terreno. Ficou atónito com o à vontade do interlocutor. Às vezes, dava uns passos em falso na argumentação técnica, mas era conhecedor. A certa altura, já algum do gelo tinha esbatido, perguntou de onde vinha toda aquela bagagem.
- Sabe, nós também tiramos doutoramentos em universidades inglesas e americanas.
Ainda quis perguntar como podia defender ideias tão diferentes das que cultivou no tirocínio por uma universidade (inglesa ou americana). Receou que a ousadia fosse mal interpretada. Não queria que a interrogação soasse a um recuo, ele que jurara a pés juntos a conversão à nova ideologia que pretendia banir o capitalismo e devolver a liberdade e a dignidade aos povos massacrados. Perspicaz, o líder antecipou a pergunta que estava castrada algures no meio do temor reverencial:
- Eu sei que isto faz-lhe confusão. Mas não devia. O senhor também se converteu às nossas ideias. Mas isso não vem ao caso. Satisfaço-lhe a curiosidade: aprendi a cartilha toda dos ideólogos do capitalismo. Não demorei a transitar pelos seus antípodas. O senhor demorou. Mas ainda vem a tempo.
Sentiu algum escárnio escondido entre os dentes desta hospitalidade. Mas como havia muita informação que garantia a alforria, logo indagou que utilidade podia ter.
- Queremos saber tudo o que é escondido pelos fascistas do capital. Queremos saber os segredos que guardam em concubinato com o poder corrupto. Queremos usar essa informação para tirar a máscara ao poder que é serventuário do grande capital, em continuada traição ao bom povo.
Foi uma tarde inteira. E depois do jantar (como já sentia falta de uma refeição opípara), a prestação de contas entrou pela madrugada. O chefe supremo da revolução, acolitado por uns economistas muito jovens, recolheu todos os segredos que haveriam de implodir os alicerces do aziago capitalismo. Deitou-se, já a alvorada espreitava entre a noite em deposição. Cansado. Acreditava – ou queria acreditar – que tinha cumprido um dever. Ao menos safara a pele.
No dia seguinte tinha de se aprumar para aparecer na televisão ao lado do chefe da revolução. O mundo inteiro ia travar conhecimento da sua nova função. Os banqueiros e os políticos medrosos até teriam de soltar o nó da gravata, tão borrados de medo.

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