2.2.12

Sindicato dos sonhos


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Os olhos seriam de todas as cores, como os apetites. A pele suada, suavemente adocicada, serventuária dos afagos em carência. Os olhos embotados lambiam as feridas até sararem por dentro das cicatrizes. Não haveria palavras vãs, ou desconversas apenas para omitir os silêncios que as tolas convenções atiraram para as inconveniências. Não importava se os pés faziam barulho no soalho envidraçado. Não importava se lá fora ecoavam melodias pastiches, um caldo enjoativo que se demorava teimosamente na pauta composta no murmúrio da mente.
Podiam os sonhos pintar-se das cores atraentes. Os cães latiam hinos de gáudio. Os pássaros não se cansavam da coreografia arrítmica que encantava quase ninguém, porque quase todos pespegavam os olhos no monótono chão emparedado. Lá ao longe um sino entoava a marcha fúnebre. E nós, então atentos, naquela pulsão mórbida que desata quando a finitude se aviva nos sentidos, sagrávamos outro dia que jamais nos seria furtado. Proeza digna de um sonho, por mais que estivéssemos com os olhos bem abertos, por mais que a lenta marcha dos dias (que, todavia, é de uma voracidade aterradora) denunciasse a sua rotina.
Sonhávamos. Como crianças exibindo um sorriso descomprometido, alvores de uma paciência genuína, protetores de uma bondade ímpar. Como corríamos rociando uma liberdade que a madurez do tempo acaba por exaurir. Sonhávamos que era possível retroceder na escala do tempo, como se houvesse uma escada escondida que abrisse o alçapão por onde os corpos se entregassem a um frio precipício que nos atirasse para os braços do tempo entretanto vivido. À infância, com o cálice erguido em alocuções triunfantes.
Seríamos pedantes, ali detidos nos braços dos sonhos. Seríamos, até, fautores de uma capitulação qualquer. E por mais que nos sitiassem com furiosas condenações, cerrávamos fileiras dentro das muralhas, das cada vez mais altas muralhas dos sonhos. Não nos roubassem o direito ao menos ao sonho, assinámos ali a tábua que fez nascer o sindicato dos sonhos. Selado com o sangue vertido de um dedo golpeado a preceito.
E os sonhos, doravante, seriam senhores do seu império. Não era negação. Era a demanda por um lugar onde os sentidos não se fossem intrusos em sua própria carne.

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